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Full text of "Obras poeticas e oratorias de P.A. Corrêa Garção"

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THE  LIBRARY 

OF 

THE  UNIVERSITY 

OF  CALIFÓRNIA 

LOS  ANGELES 


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OBRAS 
POÉTICAS  E  ORATÓRIAS 


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OBRAS  ^  '^ 


^t  POÉTICAS  E  ORATÓRIAS 


i^p.  A.  Corrêa 
Garção  3 


^ 


IMA   INTKDDUCÇAO  K  NOTAS 


j.  A,  DE  AZEVEDO  CASTRO 


ROMA 

TvrOGRArniA  nos  Irmãos  Ckntknari 

Via  delle  Coppelle,  í^ 


1868 


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A  S.  M. 

O  IMPERADOR  D.  PEDRO  II 


Senhor, 


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■     <i 

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^  Protecção  concedida  ás 
?•  lettrns  no  reinado  de 
?>  V.  M.  I.  é  ííicto  que  nao 
^  depende  de  averiguação ; 
>  está  na  consciência  pu- 
^  blica.  Elle  concorre  com 
^  tantos  outros  em  abono 
da  solicitude,  com  que 
^/^^^^^lí^  vos  empcnhacs  por  tudo 
quanto  interessa  o  progresso  do  Brazil 
c  possa  contribuir  para  o  fazer  hom- 


'^.i'!^^ 


J!. 


ii  "        ^ 


Y    brear  dignamente  com  as  Nações  civi- 
t     lisadas.  t 

*  Nenhum  commettimento  tem  sido  % 


cmprendido  nesta  vereda,  que  não  en- 
contre em  V.  M.  I.  o  seu  principal 
f  fautor  e  com  encarecido  louvor  todos  t 
, .; .  reconhecem  que,  onde  quer  que  des-  «j  ^ 
ponte  a  scentelha  do  talento,  está  certo 
de  não  perecer  á  mingua  e  de  encon- 
trar tão  seguro  conselho  quão  efficaz 
auxilio.  A  popularidade  de  Augusto 
dispensa  entre  nós  a  officiosa  interfe- 
rência de  Mecenas. 

Justiça  será  ainda  accrescentar  que 
a  amplitude  dessa  protecção  se  mede 


por  igual  á  elevação  de  um    espirito    * 
aberto  a  todas  as  grandes  ideias,  ali- 
mentado por  sólidos  estudos  em  va-     i 
rios  ramos  de   conhecimentos  huma-   l', 
nos,   secundado  além  disso   por   uma    .'-. 
infatigável    e    assombrosa    actividade, 
que  recorda  a  bella  imagem  de  Shel-   j^ij^í 
ley,  reproduzindo  no  seu  Palias  um 
pensamento  de  Bacon  : 

Kings  are  like  stars,  they  rise  and  set,  they  havc 
The  worship  of  the  worid,  but  no  repose. 

Também  não  tem  faltado  a  V.  M. 
a  consideração  devida  a  predicados, 
que  lhe  reservão  como  testa  coroada 


%'4  i""-''*" 


'»? 


um  lugar  dos  mais  distinctos  na  his-  '; 

f    toria  do  nosso  tempo ;   honrao-se  os  f 

|H    institutos  scientificos  do  velho  e  novo  ^• 

l    mundo  de  o  contar  em  seu  seio  e  nao  jJ 

'1'    é  isso  mero  cortejo  alheio  a  homens  da  T 

f    sciencia  senão  pleno  reconhecimento  dos  í 

,.  méritos  de  um  confrade  illustre.  Gran-   .  \ 
'Is  ^  'f^ 

geastes  entre  elles  uma  reputação  que 

deve  fazer  o  vosso  orgulho  e  segura- 
mente exalta  o  sentimento  nacional. 

Dedicando,  pois,  a  V.  M.  I.  esta 
edição  completa  das  obras  de  um  dos 
poetas,  que  no  século  passado  maior 
brilho  imprimio  ás  lettras  da  Nação, 
de  que  descendemos  e  a  cujo  influxo 


não  forão  tão  pouco  extmnhos  os  nos- 
sos primeiros  poetas,  não  faço  mais  do 
que  prestar  sincera  e  respeitosa  homena- 
gem ao  monarcha,  que  com  esclarecido 
patriotismo  c  indefectivel  devotamento 
tem  sabido  cm  um  longo  periodo  reger 
os  destinos  da  pátria  commum,  dispen- 
sando iguaes  cuidados  ao  adiantamento 
moral  e  ao  bem  estar  material  de  seus 
concidadãos. 

De  V.  M.  I. 

suhãiío  reverente  c  dedicado 
José  António  de  Azevedo  Castro. 


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INTRODUCCAO. 


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iNTi-;iM'i(.(;\k 


y^^^      [•Tj"  jONHECEM-SEJas  Obras 
de  Pedro  António  Cor- 
rêa Garção  trez  distin- 
ctas  edições. 
A  primeira  ,  publicada  em 
Lisboa,  1778,  seis  annos  depois  da 
morte  do  poeta,  por  seu  irmão  João 
António  Corrêa  Garção,  com  o  titulo 
de  Obras  poéticas,  contendo,  porém, 
^  igualmente  escritos  em  prosa,  Dis- 
sertações  e  Orações,  recitadas  perante 
a  Arcádia  ou  alhures,  traz  a  dedica- 
tória  ao  Visconde  de  Villa  Nova   da 
Cerveira,  então  Ministro  do  Reino.  No 


V^ 


Ú. 


prologo  allude  o  editor  ;i  tentativa  feita       J 


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.*J#^^d*l.v. 


para  dá-la  ao  publico  furtivamente  e  pede 
desculpa  «  pela  desordem  e  muitos  er- 
ros que  nelhi  descobrirão  os  intelH- 
gentes,  e  que  não  foi  possível  com- 
prehender  na  taboa  das  erratas.  » 

Em  verdade  nada  menos  de  370  emen- 
das nella  se  contão.  No  magnifico  mo- 
numento erguido  ás  letras  portugue- 
zas  pelo  génio  intelligente  e  perseve- 
rante de  Innocencio  Francisco  da  Silva, 
emitte  elle  a  opinião  que  esta  edição, 
não  obstante  as  suas  deficiências  e  defei- 
tos de  todo  o  género,  é  ainda  assim  em 
tudo  preferível  ás  que  posteriormente 
se  fizerão,  porque  alòm  de  poesias  en- 
cerra varias  Dissertações  e  Orações,  que 
forão  não  sabe  como  nem  porque  omit- 
tidas  nas  edições  seguintes.  Contem 
o  volume,  afora  as  prosas  referidas, 
57  sonetos,  30  odes,  3  epistolas,  i  falia, 
2  satyras,  3  mottes,  3  endechas,  2  di- 
thyrambos,  2  cantigas,  i  romance  hen- 
decassyllabo  e  2  comedias.  ;  X 

I 


—    XVII 


* 

[il 
I 


A  segunda  edição  foi  impressa  no 
Rio  de  Janeiro  em  1812  e  consta  de 
dous  tomos.  Não  tem  dedicatória  e  o 
editor  alliviando  a  obra  da  parte  em 
prosa,  aproveitou  a  taboa  das  erratas 
da  edição  anterior,  expurgando  esta  dos 
erros  na  outra  apontados.  Conservou, 
no  entretanto,  a  mesma  desordenada 
distribuição  das  poesias;  algumas  alte- 
rações, poucas  e  de  somenos  impor- 
tância, introduzio  no  texto  por  conta 
própria. No  lugar  competente  das  notas 
direi  em  que  consistirão. 

Innoccncio  não  menciona  esta  edi- 
ção, mas  refere-se  a  uma  publicada  no 
Rio  de  Janeiro  em  1817. 

É  evidente  o  erro  de  data  que  facil- 
mente se  desfaz.  A  mesma  referenci.i 
ao  numero  de  paginas  dos  dous  volu- 
mes, idêntico  exactamente  ao  da  edi- 
ção de  1812,  claramente  o  prova.  Nem 
haveria  razão  que  explicasse  essa  pro- 
ximidade de  edições,    quando  entre  a 


'^^fe;=-i$l-^Ji/:-i^-s^ 


M 


XVIII   — 


primeira  e  a  de  1812,  apezar  de  todo 
o  mérito  do  autor,  medeiarão  nada 
menos  de  34  annos.  Sobreleva  notar, 
e  este  argumento  me  parece  conclu- 
dente, que  no  prologo  da  terceira  e  ul- 
tima publicada  em  Lisboa  no  arino  de 
1825,  pelos  livreiros  Martim  &  Irmão, 
se  diz  ser  conforme  á  de  181 2.  Também 
forão  nesta  supprimidas  as  prosas. 

Suppunha  o  distincto  bibliographo  e 
o  declarou  no  excellente  artigo,  que  a 
respeito  de  Garção  escreveo  no  seu  Dic- 
cionario,  que  muitas  outras  poesias  este 
deixara,  que  não  forão  impressas  e  se 
extraviarão.  Elle  próprio  affirma  pos- 
suir algumas  inéditas,  de  que  dera  copia 
a  um  descendente  do  poeta,  que  preten- 
dia formar  uma  nova  edição  de  suas 
obras,  mas  que  infelizmente  nunca  vie- 
rão  a  lume.  Fiz  as  maiores  diligencias 


* 


a  ver  se  conseguia  obte-las.  Forão  todas  ^1 
baldadas.  O  martello  do  leiloeiro  dis-  ^ 
persára  as  preciosidades  accumuladas,       »1 


ê 


5í  c^í. 


XIX 


sabe  Deos  á  custa  de  que  sacrifícios  pelo 
incansável  escritor,  e  como  pérolas  des- 
prendidas de  valioso  coUar  correrão 
pelo  solo  e  desapparecerão. 

Aquella  opinião  de  Innocencio  é  aliás 
partilhada  por  um  notável  homem  de 
lettras,  de  que  com  justa  ufania  se  honra 
Portugal.  O  Visconde  de  Almeida  Gar- 
ret  em  a  nota  á  Ode  O  suicídio,  publi- 
cada pela  prim.eira  vez  no  Parnaso  lu- 
sitano assim  se  exprime:  «  Esta  Ode 
foi  tirada  de  uma  collecção  de  obras 
manuscritas  de  Garção,  que  existio  em 
casa  do  Conde  de  Pombeiro  ».  (i )  Calou 
o  annotador  as  razões  porque  teria 
deixado  de  opulentar  o  Parnaso  com  ou- 
tras producções  do  eximio  vate.  Segu- 
ramente não  as  colheo  ás  mãos.  É  o  que 
se  pôde  deprehender  do  laconismo  da  no- 
ta, parecendo  haver  da  poesia  antes  ras- 
treado a  origem  do  que  lè-la  tacteado. 


(i)   Obra   cit.,   tomo   111,    p.ig.    3:0. 


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Também  no  dizer  de  José  Maria  da 
Costa  e  Silva  na  livraria  da  casa  do 
Conde  de  Vimieiro  tinhão  existido 
dous  saccos  contendo  poesias  de  Gar- 
ção, e  entre  ellas  se  achavão  duas  tra- 
gedias originaes,  Sophonisha  e  %_egu]o. 
Innocencio,  de  quem  tomamos  a  noti- 
cia acha-a  exagerada,  sem  comtudo  con- 
testar a  existência  de  versos  ainda  não 
impressos  do  poeta  e  memoria  de  ou- 
tros, que  de  certo  se  perderão.  Entre 
estes  cita  uma  satyra,  accusada  por  Luiz 
Raphael  Soyé  no  prologo  do  seu  poe- 
ma, o  Sonho,  pag.  41,  onde  transcreve 
o  verso: 


^ 


«    Ao   r.ibiJo   furor  Jo   pedantismo  » 

confessando  não  lhe  ter  sido  possível 
descobrir  mais  cousa  alguma  de  seme- 
lhante peça.  Provavelmente  seria  essa 
que  o  erudito  Snr  Theophilo  Braga 
obsequiosamente  me  communxou  ha- 
ver visto  em   um  manuscrito  vendido 


,><9  ;^5^  ^''^-, 


em  leilão  á  rua  larga  de  S.  Roque  em 
Lisboa  no  anno  de  1883. 

Autorisado  competentemente  a  dar 
cumprimento  ás  disposições  de  ultima 
vontade  de  meu  prezado  amigo  o  D"" 
Agostinho  Marques  Perdigão  Malheiro^ 
finado  em  1881,  eatre  os  copiosos  ma- 
nuscritos que  legou  ao  Instituto  histó- 
rico e  geographico  do  Rio  de  Janeiro  e 
forão  outr'ora  pertencentes  d  biblio- 
theca  paterna,  deparei  com  um  cujo 
titulo  aqui  litteralmente  transcrevo: 

Coleção  das  milhares  Poe\ias  que  não 
correm  ahinda  impressas  dos  'Puetas  que 
floresem  presentemente  em  Portugal  Juntas 
pello  cuidado  de  A  CB  USí  em  Lisboa  ijój. 

Folheando  curiosamente  o  volume 
que  ao  presente  conta  a  respeitável 
idade  de  cento  e  vinte  annos,  encon- 
trei varias  poesias  inéditas  do  autor  da 
Cantata  de  Dido  no  meio  de  outras,  que 
a  impressão  já  fizera  conhecidas  do  pu- 
blico. A  orthographia  nada  tinha  de  re- 


—   XXII   — 


commandavel  como  acaba  de  ver-se  do 
titulo ;  a  cada  passo  lia-se  ptietas,  titt- 
■vêis,  ccase,  dotice,  epucha  e  outros  quejan- 
dos vocábulos,  indicando  tanto  a  pro- 
funda ignorância  grammatical  como  a 
paixão  poética  do  collector.  Em  todo  o 
caso  é  muito  para  louvar  o  paciente  cui- 
dado com  que  trasladou  tão  avultado 
■numero  de  poesias,  inclusive  todo  o 
Theatro  novo,  com  a  declaração  de  ha- 
-ver  sido  representado  no  theatro  do 
Bairro  alto  em  1766. 

Esta  preciosa  descoberta  suggerio- 
me  a  ideia  de  publicar  uma  edição  com- 
pleta das  producções  do  mais  notável 
dos  fundadores  da  Arcádia,  reunindo  ás 
conhecidas  as  inéditas  do  manuscrito 
e  arrecadando  para  o  futuro  livro  as 
dispersas  em  varias  collecções  de  que 
tinha  noticia. 

Sem  demora  puz  mãos  á  obra.  Aqui 
•e  alli  com  indicação  segura  fui  col- 
Jigindo  as  poesias  estramalhadas  e  de 


J^^-Mãk 


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cuja  authenticidade  não  era  licito  du- 
vidar. Servio-me  de  excellente  bússola 
o  Diccionario  hihliographico ;  elle  pró- 
prio forneceo  também  o  seu  contin- 
gente com  o  Soneto  dedicado  do  Limo- 
eiro a  António  Diniz  e  que  o  labo- 
rioso collector,  contra  a  opinião  do 
Snr  Visconde  de  Correia  Botelho,  sup- 
põe  ter  sido  a  ultima  composição  do 
poeta,  asseverando-me  por  seu  turno 
ultimamente  o  Snr  Theophilo  Braga  que 
o  autor  é  o  árcade  José  António  Bri- 
to, cujas  obras  inéditas  estão  na  Torre 
do  Tombo. 

Não  me  parecia,  porém,  bastante. 
Sabendo  pela  divulgação  que  do  facta 
fizera  o  Snr  Camillo  Castello  Branco 
no  seu  Curso  de  litteratura  porttigiceia, 
achar-se  elle  de  posse  de  vários  ma- 
nuscritos contendo  poesias  inéditas  de 
Garção  procurei  havê-los.  Infelizmente 
a  rica  livraria  do  eminente  escritor  ha- 
via sido  vendida  em  i88í.  Pude  com- 


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tudo  obter  o  respectivo  catalogo  e  lá 
encontrei  a  pag.  73  na  secção  dos  ma- 
nuscritos sob  n.  1865  a  seguinte  re- 
ferencia : 

«  CoUecção  de  poesias  portuguezas 
de  vários  engenhos,  deste  e  do  presente 
século  juntas  e  recolhidas  pelo  secreta- 
rio dos  engenhos  alheios,  3  tora.  in  4,  » 
e  em  seguida  a  nota  em  itálico:  Entre 
muitas  inéditas  tem  algumas  de  Corrêa 
Garção. 

Começou  então  uma  verdadeira  cam- 
panha para  a  conquista  deste  novo  Vel- 
locino.  Quantos  se  entrcgão  a  pesqui- 
zas  semelhantes  conhecem  as  arduida- 
des  da  empreza  ;  bem  podem  pois  ima- 
ginar a  minha  lida  para  deitar  a  mão  no 
almejado  manuscrito,  ou  quando  menos 
para  obter  delle  uma  copia.  Residente 
no  Rio  de  Janeiro  todo  o  meu  esforço 
pessoal  concentrava -se  na  correspon- 
dência epistolar  que  n'aquelle  intuito 
entabolei  para  Lisboa;  meio  demorado, 


—   XXV   — 

tardio,  provocando  justas  impaciências, 
mas  infelizmente  único  a  que  podia 
recorrer.  A  minha  viagem  a  Europa 
em  1885  melhorou  consideravelmente 
as  condições  de  investigação,  em  Lon- 
dres achava -me  mais  perto  do  campo 
das  operações;  eu  próprio  em  ultimo 
caso  as  dirigiria. 

Assim  em  breve  foi  vencida  a  pri- 
meira difficuldade,  saber  quem  teria 
sido  o  licitante  do  manuscrito  da  bi- 
bliotheca  de  Castello  Branco.  Surgio, 
porém,  logo  outra  quiçá  mais  temerosa 
e  fatigante,  a  de  conseguir  abrisse  o  ac- 
quirente  mão  delle.  O  bom  do  homem 
supp07.-se  na  posse  de  um  thesouro 
magnifico  e  arrogante  entrou  a  supputa- 
lo  a  peso  de  ouro.  Graças,  entretanto, 
a  obsequiosa  intervenção  de  estimáveis 
amigos,  a  quem  aproveito  a  occasião 
para  testemunhar  o  meu  reconheci- 
mento pela  tfficacia  de  seu  concurso, 
pude  encontrar-me  com  o  primeiro  vo- 


<lJ  t. 


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lume  dos  trez  arrolados  no  catalogo  já 
referido. 

Também  era  esse  o  único,  segundo 
me  foi  asseverado,  que  continha  compo- 
sições de  Garção.  As  inéditas  todavia 
não  abundavão;  com  excepção  de  trez 
sonetos  e  outras  tantas  orações  tuJo  o 
mais  constava  das  collecções  impressas. 
O  que,  porém,  contribuia  para  dar  a 
meus  olhos  inapreciável  valor  ao  ma- 
nuscrito era  o  facto  de  haver  sido  todo 
elle  copiado  e  annotado  pelo  Cónego 
da  Sé  de  Coimbra,  Manoel  de  Figuei- 
redo, que  em  um  prologo  panegyrico 
explica  o  modo  como  obtinha  as  pro- 
ducções  do  poeta.  Não  me  parece  inop- 
portuna  a  sua  integral  transcripção  e 
a  incluo  como  se  acha  no  alludido  vo- 
lume. Alguns  trechos  desse  prologo  fo- 
*  rào  aliás  insertos  no  Curso  de  litteratura 
porhigueia  do  Snr  Camillo  Castello 
Branco. 

«  Esta  collecção  de  composições  ora- 


JH 


^"^tf 


torias  e  poéticas  tem  sido  o  trabalho 
e  cuidado  de  alguns  annos.  Corydon 
tão  digno  entre  nós  de  nome  eterno, 
como  foi  entre  os  Romanos,  não  sei 
porque  occulto  mysterio  era  sobrama- 
neira  difficil  em  communicar  os  seus 
escritos.  Conservava-os  como  moeda 
rara  em  si  com  summa  avareza,  espe- 
cialmente depois  que  a  critica  indis- 
creta se  atreveo  a  riscar-lhe  parte  de 
sua  terceira  bellissima  oração.  Não  sof- 
freo  que  uma  penna  atrevida  e  imper- 
tinente desfigurasse  suas  excellentes 
it'iias,  depois  que  vencendo  os  impor- 
tunos rogos  da  Corte,  se  resolveo  a  con- 
sentir na  impressão  da  maravilhosa  in- 
vectiva contra  os  traidores  da  pátria. 

«  E'  certo  que  só    a  prevenção  que 

ainda  dominava  certos  génios  austeros 

^.      e   atrabilarios  podia  achar  que  emen-       ^ 

i,  ;     dar  em  uma  tão  inimitável  composição.       r}' 

"i  :         «  Nas  mesmas  emendas  até  se  deixa       ^r 

Jl  \     entrever    que    a    mão   que  as  fez    era      ? 


I 


—   XXVIII 


muito  falta  da  politica  que  reina  con- 
forme a  constituição  e  o  governo  dos 
estados.  O  pastor  teve  a  honrada  con- 
stância de  frustrar  antes  a  espectação 
publica  do  que  engana-la  com  partos 
alheios. 

«  Os  lugares  notados  e  supprimidos, 
que  vão  indicados  na  nota  seguinte  (i) 
mostrão  bem  que  a  penna  emendadora 
conhecia  muito  fracamente  a  força  dos 
pensamentos  exprimidos.  Estes  são  os 
desgostos  que  enfraquecem  e  desanimão 
um  espirito  que  desejando  sacrificar  tudo 
pela  pátria,  sempre  reserva  a  honra  c 
o  entendimento.  A  Arcádia  que  ouvio 
Corydon  detendo  o  Alpheo  com  sua 
melodia,  chora  hoje  sem  remédio  a  sua 
perda. 

«  Portugal  sentirá  sempre  não  conhe- 


(i)  Ao  sopé  de   cada   uma  das  passagens  rt-      C, 
spectivas  da   Oração  VIII  a  p^g.  jéz  distribui  as      ^ 
niodific:!(ões  da  critica  para  mais  fácil  apreciação. 


..^^r^A^?..>. 


^Â 


cer  a  fundo  um  pastor  que  tanto  lustre 
deo  a  seus  amenos  campos.  As  musas 
lastimar-se-lião  que  os  dissabores  e  as 
angustias  de  animo  suííbcassem  um  gé- 
nio verdadeiramente  poético. 

«  Amava  o  grande  cothurno,  e  se 
a  Nação  quizer  contar  a  Horácio  e  So- 
phodes  entre  seus  poetas,  não  achará 
outro  mais  digno  que  Corydon.  A  li- 
ção e  o  génio  produzem  só  de  séculos 
a  séculos  estes  raros  phenomenos.  Suas 
Odes  serão  o  modelo  do  grande  e  do 
sublime,  e  suas  Orações  sustentar-lhe- 
hão  dignamente  um  distincto  lugar  en- 
tre os  bons  Gregos  e  Romanos,  ou  seja 
para  a  pureza  da  phrase,  ou  para  sua 
natural  energia  e  viril  estylo.  Milagre 
raro  unir-se  o  estro  e  transporte  dos 
poetas  com  a  fncil  e  numerosa  lingua- 
gem dos  oradores.  O  que  é  de  Cory- 
don é  na  ^'erdade  admirável. 

«  A's  diversas  copias  se  deverão  at- 
tribuir  alguns  erros,  comtudo  em  nada 


D 


-.v.?-^Ks 


—    XXX    — 


substanciaes.  Deve  advertir-se  que  sendo 
as  primeiras  duas  Orações  transcriptas 
dos  seus  próprios  originaes  se  cuidou 
muito  em  fazer  conservar  no  traslado 
a  mesma  ortographia.  O  autor  não  tinha 
nella  systema  uniforme.  O  mesmo  pro- 
jecto de  que  nunca  apparecessem  era 
publico,  os  fazia  ter  escritos  com  summa 
negligencia;  e  de  modo  que  foi  neces- 
sário ter  grande  uso  de  sua  lettra  para 
advinha-los.  Porém  com  trabalho  tudo 
se  vence. 

<  Lê  e  medita ;  goza  os  fructos  dos 
raçus  innocentes  roubos.  Para  agora 
leres,  foi  necessário  que  mão  domestica, 
a  quem  nada  se  podia  occultar,  fosse 
a  mesma  que  generosamente  infiel  me 
desse  em  summo  recato  algumas  das 
composições  que  aqui  vão  copiadas.  » 
JU  Por  aqui  veriíica-se  quão   retrahido 

hl       seria  o  poeta  em  communicar  as  suas       ' 
I        producções.  Essa  reserva  explica-se  me-       ; 
^       Ihor,  cuido,  pelo  resentimento  prove-     »' 


—   XXXI   — 

-s e>- 

niente  da  critica,  í^einis  irritalnh  vatum, 
do  que  por  natural  disposição  de  es- 
pirito. Não  consta  fosse  de  humor  con- 
centrado, antes  a  affabilidade  de  ma- 
neiras, com  que  o  descrevem  alguns, 
e  o  tom  zombeteiro  de  certas  poesias 
nos  fazem  representar  um  Garção  de 
génio  alegre  e  expansivo.  Talvez  se 
deva  attribuir  esse  retrahimento  a  outra 
causa  ;  sabe-se  que  costumava  polir  ad 
iingaem  as  suas  composições,  mas  sem 
a  revelação  do  cónego,  ignorava-se  que 
fosse  máo  calligrapho.  Como  certo  per- 
sonagem que  dizia  a  respeito  da  intel- 
ligencia  de  sua  péssima  lettra  -  em- 
quanto  escrevo  Deos  c  eu,  depois...  só  Deos 
-  elle  próprio  sem  duvida  se  esquivaria 
de  divulgar  aquillo,  que  lhe  poderia 
trazer  enfadonha  senão  impossivel  re- 
visão. 

Figueiredo  recebendo  da  esposa  de 
Garção  os  originaes  que  ella  firtivn- 
mente  lhe  ministrava  seria  fiel  na  co- 


■>K. 


siv:v  :..0..^;^P9£e^ 


—  xxxir  — 


pia  ?  Interpretaria  devidamente  as  ga- 
ratujas do  amigo,  de  que  se  desvanece 
ter  grande  pratica  ?  A  mesma  pressa 
com  que  provavelmente  formaria  os 
traslados,  não  daria  em  resultado  um 
trabalho  defeituoso  ? 

Todas  essas  conjecturas  são  admis- 
síveis. Elle  mesmo  aliás  nos  previne 
contra  erros  de  copias,  não  suas,  está 
bem  visto,  mas  de  outrem.  Declara-as 
todavia  em  nada  substanciaes.  Esque- 
ceo-se  no  emtanto  de  nos  esclarecer 
sobre  as  notas  ou  emendas,  com  que 
ataviou  varias  poesias  e  de  que  em  breve 
me  occuparei.  Taes  annotações  affec- 
tão  a  própria  substancia  de  ceríos  ver- 
sos, modificando-lhes  inteiramente  o 
sentido. 

Avaro  na  divulgação  das  composi- 
ções entre  os  amigos  e  admiradores  de 
seu  génio,  Garção  o  foi  ainda  mais 
em  dá-los  a  lume.  Em  vida  apenas  se 
imprimirão,    segundo    Innocencio,    as 


.<^'%®^^-s.- 


—   XXXIII   — 


Odes  denominadas  Sncras,  as  quacs 
com  excepção  i!a  dedicada  a  St»  Ubal- 
do,  que  não  apparece  no  manuscrito, 
occupão  nelle  o  primeiro  lugar  depois 
das  Orações.  Aquellas  mesmas  Odes 
entrarão  de  encambulhada  com  outros 
versos  de  vários  autores  editados  por 
Francisco  José  Freire  no  voluminho 
intitulado:  Santos  patronos  contra  as  tem- 
pestades de  raios. 

Poder-se-hia  com  melhor  fundamento 
attribuir  a  outros  motivos,  que  não  me- 
ramente a  avareza  do  poeta  o  seu  af- 
fastamento  da  imprensa.  Porventura 
carência  de  meios.  A  prolongada  e 
ruinosa  demanda,  de  que  fallão  os 
biographos,  lh'os  teria  escasseado  para 
uma  empreza,  que  n'aquelles  tempos 
deveria  exigir  elevada  somma.  Havia 
além  disso  a  Real  Dv(e:^a  Censória,  sem 
Ij,  cuja  permissão  nenhuma  obra  podia 
ser  publicada.  EUe  sahira  já  uma  vez 
tão  escalavrado    da    critica,   que    com 


—   XXXIV  — 

justo  orgulho  se  revoltaria  á  ideia  de 
submetter  o  fructo  de  suas  vigílias, 
composições  trabalhadas  com  tamanho 
esmero  e  carinho,  á  rasoura  manejada 
por  mãos  ineptas  e  odientas. 

Privada  a  posteridade  da  fortuna  de 
possuir  uma  edição  revista  pelo  pró- 
prio autor,  adornada  das  louçanias  de 
que  só  elle  seria  capaz  de  revesti-la, 
e  reduzida  a  que  poderião  offerecer  os 
enthusiastas  de  um  dos  mais  notáveis 
mestres  da  poesia  e  da  lingua  portu- 
gueza,  servirá,  espero,  a  singeleza  do 
intuito  de  attenuante  á  temeridade  com 
que  me  abalancei  á  presente.  Os  com- 
petentes, confesso,  melhor  farião ;  o 
monumento  que  erigissem  á  memoria 
do  poeta,  precedido  de  soberbo  pórtico, 
seria  esculpido  por  fino  e  delicado  bu- 
ril que  não  pode  manejar  o  rude  ai-  ^ 
vanel.  ij 

No  estudo  que  o  Snr  Rebello  da  Silva       r 
dublicou  no  Panorama  sobre  Toetas  da      !;. 


c;'. 


Arcádia,  depois  de  haver  analysado  com 
grande  largueza  de  vistas  e  superior  sen- 
timento poético  n'aquelle  seu  próprio 
estylo  em  que  a  sobriedade  corre  pa- 
relhas com  a  elegância,  os  escritos  de 
Corydon  Erymantheo,  cuja  lyra,  «  vi- 
vird  nos  tempos,  porque  ninguém,  igual 
a  elle  soube  nunca  unir  a  pureza  da 
arte  á  elevação  do  sentimento,  nem  tra- 
duzir em  carmes  mais  viris  o  destino 
sublime  do  homem,  que  a  fortuna  não 
espanta,  e  só  á  mão  de  Deos  se  do- 
bra »  termina  desta  forma  : 

<c  Uma  edição  expurgada  dos  crros" 
que  desfeião  as  que  existem  e  augmen- 
tada  com  o  precioso  pecúlio  das  obras 
ainda  não  publicadas,  seria  um  serviço 
relevante  ás  lettras  e  um  valioso  do- 
cumento para  a  historia  delias.  »  (i) 

Assim  compulsando  os  inéditos  a  que 


k  (i)  Panorama,  vol.  IX,  i"  da  3»  serie,  p.ig.  3  5  5. 


■.^; 


''^èl^^i;^^,^^/,^  :.^Wtt^ 


¥ .     ■ 


—  XXXVl   — 
-9 «- 

me  tenho  referido,  pensei  em  prestar 
algum  serviço  ás  lettras,  sem  desconhe- 
cer, não  preciso  repeti-lo,  resultaria  a 
sua  relevância  de  outra  penna  que  não 
a  mediocre,  que  a  boa  vontade  servida 
pelo  acaso  me  collocou  nas  mãos.  Esta 
edição  é  completa  porque  comprehende 
mais  que  tqdas  as  outras,  embora  nella 
se  não  encontre  tado  quanto  compoz  o 
poeta.  Não  poupei  esforços,  diligencias, 
sacrifícios,  importunações  a  amigos  e 
extranhos,  elles  que  o  digão,  para  conse- 
guir mais,  para  conseguir  tudo,  mas  foi 
quanto  pude  alcançar.  Contêm  em  defi- 
nitiva, mais  que  as  anteriores  as  seguin- 
tes peças,  inéditas  ou  recolhidas  de  pu- 
blicações extranhas:  7  sonetos;  6  odes  ; 
1  epistola ;  5  orações. 

Aqui  caberia  tocar  em  um  fraco  do 
nosso  Árcade.  Elle  pagou  o  tributo  ao 
seu  tempo  exercitando  a  veia  no  género 
picaresco  e  nella  escreveo  alguns  so- 
netos. Faço-o  tão  somente  para  decla- 


^o  <^ 


rar  que  os  exclui  rigorosamente  aíãn  de 
não  macular  o  livro.  Se  o  latim  dans  les 
niots  brave  Yhonnêteté,  com  o  portuguez 
não  succede  ontro  tanto;  as  mesmas 
pinturas  licenciosas  exigem  de  pre- 
ferencia o  pincel  de  Lafontaine  ou  de 
Montesquieu  para  que  possão  ser  to- 
leradas; a  imagem  envolta  em  ténue 
gaze  offende  menos  os  sentidos  do 
que  a  expressão  baixa  e  obscena;  esta 
repugna  sempre  ao  bom  gosto  e  d  de- 
licadeza. 

Precedente  ao  prologo  do  manuscrito 
em  breve  nota  advertia  o  autor  das 
Noites  de  Insomnia  aos  futuros  editores 
dos  versos  de  Garção,  que  tivessem  em 
conta  as  alterações  nelles  feitas  pelo 
poeta  constantes  d'  aquelle  volume,  e 
que  não  se  achavão  nas  edições  publi- 
cadas posthumamente. 

Esta  advertência  veio  lançar-me  em 
grande  perplexidade.  Em  verdade  mui- 
tas das  poesias  copiadas  continhão  no- 


-<j, 


/-^jf^yy 


XXXVIII   — 


tas  em  baixo  da  pagina  d  guisa  de  emen- 
das ao  texto.  Examinando-as,  porém, 
acuradamente  verifiquei,  ora  que  taes 
notas  se  identificavão  com  as  collec- 
ções  impressas,  ora  que  a  identidade 
estava  no  mesmo  texto.  Procurei  sahir 
do  embaraço,  appelíando  para  o  pa- 
recer do  muito  competente  e  abalisado 
escritor  a  quem  pertencera  outr'ora  o 
manuscrito.  Na  resposta  com  quê  me 
obsequiou  e  se  encontrará  no  prefacio 
das  Notas,  formulou  clle  varias  con- 
jecturas, que  todavia  não  conduzião 
a  uma  solução  definitiva,  e  assim  pa- 
receo-me  prudente  alvitre  respeitar  o 
texto  das  antigas  edições  e  oflferecer 
como  Variantes  as  discrepâncias  do  ma- 
nuscrito. 

De  posse  do  material  accumulado 
pelo  modo  como  acabei  de  expor,  pro- 
curei confia-lo  ao  prelo  e  !isonjeio-me 
em  acreditar,  que  os  amigos  das  boas 
lettras  não  me  levarão  a  mal,  por  ha- 


ver  para  assim  dizer  vestido  o  nosso 
poeta  de  roupagem  moderna.  Sahio  um 
livro  garrido  e  duplamente  attrahente. 
Os  bibliophilos  tem  este  ponto  de 
commum  com  os  devotos  de  Baccho ;  em 
finos  e  scintillantes  crystaes  mais  deli- 
ciosos parecem  a  estes  os  vinhos  fa- 
voritos. Também  aquelles  maiores  en- 
cantos achão  nos  autores  predilectos 
impressos  em  edições  nitidas  e  elegan- 
tes. Apresso-me,  porém,  em  o  declarar, 
para  que  se  fôr  achado  em  culpa  por 
isso,  recaia  toda  ella  sobre  o  verdadeiro 
delinquente,  que  a  escolha  dos  ornatos 
alguns  dos  quaes  originaes  e  expres- 
samente desenhados  para  esta  obra,  bem 
como  a  das  tintas  é  exclusivamente  mi- 
nha. A'  illustre  Nação  do  poeta  pensei 
prestar  homenagem  desfraldando  no 
vestíbulo  das  Obras  as  cores  de  sua  glo- 
riosa bandeira. 

Passar    da    historia  do  livro  para  a 
do  autor  pareceo-me  complemento  in- 


c^ 


..^$-ãm^^^.^ 


—   XL    — 
-4 ^ 

dispensável  da  presente  Introducção.  E' 
certo  que  as  edições  anteriores   forão 
publicadas  com  esta  lacuna,  sobre  sen- 
sível  notável   principalmente  na   pri- 
meira, devida    aos    esforços  de  quem 
pelos    próximos    laços    de   parentesco 
possuiria  sem  duvida  indisputável  com- 
petência para  preenchê-la.  Por  outro 
lado  não  gozou  Garção  da  fortuna  de 
encontrar  como  Johnson  um  dedicado 
Boswell,  cognominado  um  tanto  ironi- 
;    camente  por  Macaulay  o  primeiro  dos 
biographos,  apto  para  descrever  as  mais 
insignificantes  particularidades    de  sua 
vida,  ou  ainda  a  de  Goethe  a  deparar- 
:    lhe  algum  fiel  Eckermann  que  solicito 
:    lhe  registrasse  as  palestras,  onde  pro- 
vavelmente se  ouvirião  as  primicias  d'a- 
quellas  composições,  em  que  erão  cele- 
^     brados  a  calva  do  Padre  António  Del-       ^ 
Jj  i    phim,  os  trages  de  Francisco  Raymundo        h 
'.  ;    ou   os   gestos  e  compostura   do   bom     :  V 
.*» :    Mardel. 


•^^^íí-^- 


—    XLI    — 


* 


Accentúe  muito  embora  o  Cónego 
Manoel  de  Figueiredo  o  retrahimento 
de  Corydon,  elle  teve  uma  data  ;  an- 
terior aquella  em  que  a  critica  muti- 
lou varias  passagens  de  sua  Oitava 
Oração  é  bem  de  crer,  que  nas  galho- 
feiras reuniões  da  Fonte  Santa  outra 
cousa  se  fizesse  alem  de  cochichar  e 
tomar  chá.  Se  d'  ahi  não  sahirão  to- 
dos os  Sonetos,  com  certeza  muitos,  es- 
pecialmente aquellcs  em  que  se  punha 
ião  repetidas  vezes  á  mostra  a  calva 
do  Padre  António,  procederião  dessa 
origem.  O  tom  o  está  claramente  reve- 
lando. 

O  que  se  sabe  em  summa  da  vida  de 
Garção  é  muito  pouco.  O  próprio  facto 
capital  de  sua  vida,  a  causa  da  prisão, 
digão  o  que  dicerèm,  ainda  parece  con- 
servar-se  envolto  nas  sombras  do  mys- 
terio.  Neste  ponto  temos  muito  que 
invejar  aos  Francezes,  que  do  seu  Mo- 
liòre,  por  exemplo,  conhecem  até  o  nu- 


/^ 


?m>'f^ 


—   XLII   — 


mero  e  o  nome  dos  criados,  sem  es- 
quecer o  da  cosinheira,  a  quem  lia  as 
suas  inimitáveis  comedias,  a  titulo  de 
ensaio,  nem  ainda  ignorão  a  relação  e 
natureza  das  divi  das  com  que  se  finou. 
Consultei  as  fontes  apontadas  por  In- 
nocencio  da  Silva  no  artigo  do  Diccio- 
nario  e  quasi  nada  mais  achei  que  res- 
pigar, (i)  Fica  pois  sendo  o  excellente 
estudo  do  bibliographo  a  principal  base 
para  o  rápido  bosquejo  da  vida  do  des- 
venturado poeta.  Se  porventura  elle 
vivesse  no  nosso  tempo  não  passaría- 
mos sem    a    sua  autobiographia;   per- 


(l)   Essas   fontes   for.ío  : 

i"  O  estado  histórico  que  sobre  os  Poetas 
da  Arcádia  publicou  Rebello  da  Silva  no  vol.  9 
do   Panorama    a    pag.    330,    333,    5^6    e    355. 

2°  Os  folhetins  contendo  o  bosquejo  bio- 
graphico  de  GarçSo  por  seu  bisneto  Pedro  Sto- 
ckler  Salema  GarçJo  impressos  em  os  ns.  $37 
c    $38   do  jornal   luipreusa   e  Lei. 


%  «TiV 


mittindo-lhe  os  lazeres  talvez  apresen- 
tasse ao  publico  curiosas  Memorias.  Em 
falta  do  que  se  deseja,  é  preceito  con- 
tentarmo-nos  com  o  que  possuimos. 
Contentem-se,  pois,  também  os  leitores 
com  o  que  lhes  pode  offerecer  esta 
minha  compilação,  sem  outro  fito  mais 
do  que  o  de  completar  a  obra  e  me 
dispensem  toda  a  sua  indulgência. 

Nasceo  Pedro  António  Corrêa  Gar- 
ção na  cidade  de  Lisboa,  famoso  berço 
de  assignalados  talentos,  aos  29  de  abril 
de  1724.  Tão  débil,  porém,  era  de  com- 
pleição que,  receiando-se  por  sua  vida. 


3°  Um  artigo  de  José  Maria  da  Costa  e 
Silva  publicado  a  pag.  3  5  j  e  seguintes,  tomo  3° 
do   Ravialheíe, 

Não  omittirei  tâo  pouco  o  subsidio  minis- 
trado pelo  Ciitso  de  lilteratura  portuguesa  do  Snr 
Camillo  Castello  Branco  sobre  o  ponto  contro- 
vertido da  causa  da  prisão  do  poeta.  (Obra  cit., 
t.    2°,   pag.    54   a    38.) 


I 

i 


—   XLIV   — 
-4 C- 

foi  mister  baptisa-lo  em  casa.  Assim  o 
reza  o  respectivo  assentamento  nos  li- 
vros da  freguezia  de  N.Sra  doSoccorro, 
onde  residião  seus  pães,  o  cavalleiro 
fidalgo  da  casa  real,  Felippe  Corrêa  da 
Silva,  official  maior  da  Secretaria  dos 
Negócios  Estrangeiros  e  D.  Luiza  Ma- 
ria da  Visitação  d'Orgier  Garção,  se- 
nhora como  indicão  esses  nomes  de 
origem  franceza,  de  quem  o  filho  com 
o  appellido  que  devia  tornar  illustre, 
parece  haver  herdado  o  scintillante  es- 
pirito peculiar  áquella  nação. 

Não  supponho  comtudo  que  a  debi- 
lidade com  que  veio  ao  mundo,  afTcc- 
tasse   prejudicialmente  a  snude   do  fu- 
turo fundador  da  Arcádia.  Não  consta 
lhe  impo:£esse  os  mesmos  sacrifícios  que 
converterão,  por  exemplo,  o  historiador 
Prescott  em  um  heroe  de  soffriraentos       ji; 
physicos,  ou  que  o  constrangesse  a  en-       ;jj 
1'      cerrar,  como  o  sábio  Darwin,   a  vida       ^ 
«      dentro   de   férreas  e  inflexíveis  linhas,       V 


^n' 


1.1% 


—   XLV   — 


de  que  dependeria  a  sua  duração,  ver- 
gados ambos  ao  peso  de  males  lutando, 
porém,  energicamente  para  conservar 
a  existência  que  os  achaques  e  enfer- 
midades disputavão  á  sciencia. 

Judiciosamente  Goethe,  e  todavia  era 
elle  próprio  brilhante  excepção  tal,  que 
no  dizer  de  um  de  seus  biographos 
a  mesma  morte  respeitara  a  belleza 
physica,  fazia  notar  em  suas  Conver- 
saç  es  a  singularidade  da  natureza  hu- 
mana, a  divertir-se  em  alojar  os  espíri- 
tos elevados,  os  possantes  génios  dentro 
de  humildes  envolucros;  as  grandes  ca- 
beças sustentadas  por  franzinos  corpos 
impressionavão  aquella  prodigiosa  ima- 
ginação acostumada  a  todas  as  opulên- 
cias. Não  é  pois  sem  razão  que  o  vulgo, 
como  formula  para  quejandas  aprecia- 
ções, costuma  dizer  que  os  grandes  ho- 
mens medem-se  da  arcada  superciliar 
para  cima. 

No  emtanto  se  Garção  não  gozava 


^nn..^.-}.^^m^' 


èí 


—   XLVI   — 

. e- 

de  saúde  precária  e  apenas  ha  noticia 
de  uma  grave  enfermidade  sua,  aquella 
que  valera  os  calorosos  agradecimen- 
tos ao  Dr.  Henriques  de  Sequeira  no 
Soneto  XLVIII,  a  descripção  que  faz 
do  seu  physico  parece  denunciar  a  do- 
minante fraqueza  da  origem.  A  criança 
rachitica  tornou  se  um  homemzinho 
trigueiro  senão  pallido,  verdadeiramente 
uma  má  figura  na  sua  mesma  phrase, 
apezar  de  com  o  vezo  próprio  dos  ho- 
mens baixos  empertigar-se  todo  ao  ca- 
minhar. 

Elle  é  o  próprio  que  o  manifesta  na 
Sátira  I : 

Com  teus  grandes  canhões  empertigado, 
Inda  que  baixo  e  fasco,  vais  cuidando, 
Que  repario  em  ti,   que  toJos  dizem. 
Com  o  dedo  mostrando  a  mi  figura... 

E'  este  com  efieito  o  único  retrato 
que  possuímos  do  poeta,  incompleto 
como    bem    se   vê,    não    satisfazendo 


—   XLVII   — 

-<j e 

toda  a  nossa  legitima  curiosidade.  Cui- 
dei muito  em  adornar  este  livro  com 
a  physionomia  do  mallogrado  vate, 
mas  todas  as  diligencias  empregadas 
neste  sentido  forão  baldadas  Em  seu 
tempo  Daguerre  ainda  não  havia  ap- 
parecido  pedindo  a  collaboração  da  luz, 
para  fixa-la  no  vidro  ou  no  papel.  Ar- 
tistas que  podessem  fazê-lo  em  pin- 
tura a  óleo  não  haverião  de  certo 
muitos,  e  elle  recuaria  ante  a  despeza 
que  deveria  ser  grande,  quando  por 
acaso  lhe  viesse  á  mente  a  ideia  de 
retratar-se.  Talvez  não  fosse  difficil 
em  época  mais  remota  a  algum  hábil 
pintor,  ajudado  pela  reminiscência  de 
contemporâneos,  imprimir  na  tela  as 
feições  do  poeta.  Muitos  retratos  de 
grandes  escritores  da  França,  M™*"  de 
Sevigné  e  Molière  entre  outros,  são 
como  é  sabido,  pura  fantasia  :  a  au- 
thenticidade  incontestada  de  dous  ou  "^ 
trez  salva  todavia  a  verdade  histórica.       ,1 


■* 


CÍ 


''^miQm^w 


'^/^^m/g^" 


* 


6: 


—  XLVIII  — 

Destinado  á  magistradura  cursou  Gar- 
ção os  estudos  chamados  de  humani- 
dades nas  aulas  dos  Jesuitas  em  Lis- 
boa, aperfeiçoando-se  no  conhecimento 
das  linguas  franceza,  ingleza  e  italiana, 
passando  depois  a  matricular-se  na  fa- 
culdade juridica  da  Universidade  de 
Coimbra.  As  margens  do  Mondego  fo- 
rão,  como  o  confessa  na  Ode  XXIV, 
as  primeiras  inspiradoras  de  sua  musa 
e  também  o  theatro  dos  primeiros  amo- 
res ;  mas  a  frequência  na  Universidade 
interrompeo  por  versatilidade  de  génio, 
ou  motivos  outros  que  não  são  conhe- 
cidos. 

A  supposição  externada  por  um  dos 
biographos  (i)  attribuindo  a  retirada 
ao  fallecimento  do  pae  que  considera 
prematuro,  me  parece  destituída  de  fun- 


(l)  o  Siir  Pedro  Stockler  Saltfina  Garçio  no 
folhetim  da  Imprensa  e  Lei  n"  537  de  4  de  ju- 
nho  de    lil  $5. 


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damento  razoável.  Elle  perecera  por 
occasião  do  terremoto  de  Lisboa  em 
i»  de  novembro  de  1755,  como  se 
canta  no  Soneto  LIV,  mas  já  a  esse 
tempo  o  casamento  emancipara  Gar- 
ção do  pátrio  poder;  cinco  annos  an- 
tes desposara  D.  Maria  Anna  Xavier 
Froes  Mascarenhas  de  Sande  Salema, 
de  illustre  estirpe,  e  que  lhe  trouxera 
em  dote  muitos  bens  da  fortuna,  en- 
tre elles  a  propriedade  do  officio  de 
escrivão  da  receita  da  Meza  do  Con- 
sulado geral  da  entrada  e  sahida  da 
Casa  da  índia. 

Aquelle  triste  successo  não  se  pode 
pois  dizer  prematuro  para  Garção,  que 
contava  então  51  annos  de  idade.  Ava- 
lia-se  bem  quão  doloroso  fora  o  golpe 
vibrado  pelo  pavoroso  desastre,  mas  a 
experiência  da  vida  já  o  devera  ter 
fj,  bastante  doutrinado  para  dispensar  um 
,.        guia,  que  lhe   servisse    igualmente   de 


protector  e  amparo. 


'^^m 


—   L   — 


Na  Ode  IX,  dedicada  ao  Capitão  de 
mar  e  guerra  Camará  Manoel,  onde  o 
poeta  em  primorosos  versos  faz  a  re- 
senha de  diversas  profissões  sociaes 
para  concluir : 

Eu,   porém,   nada  quero,    nada  estimo 
Mais  que   a  dourada  lyra, 

parece  desanimado,  attentando  no  di- 
latado numero  de  annos  a  vencer,  para 
galgar  os  altos  cargos  da  magistratura  : 

Honra   quc   chega 
J.i   quando   as   câs  alvejJo 
Na  myrrada   cabeça. 


E'  muito  provável  que  essa  longa 
perspectiva,  aguilhoado  então  de  juve- 
nil ambição,  fosse  causa  senão  pretexto 
para  o  desviar  da  carreira,  que  indubi- 
tavelmente saberia  honrar,  contribuindo 
para  formar  o  typo  do  antigo  magis- 
trado portuguez  para  quem  Deos,  a  lei 


^~^rt^\'^-;x^.^ 


K-1 


à 


e  o  rei  constituião  outros  tantos  sym- 
bolos  sacratissimos. 

Desses  incompletos  estudos  jurídicos 
lhe  viria  naturalmente  a  confiança  na 
defesa  de  seus  direitos  contestados  em 
acção  judicial,  que  lhe  arrebatou  a  maior 
parte  dos  bens.  Ou  o  leguleio  se  toma- 
ria de  amores  pela  chicana  e  como  tan- 
tos consumiria  grossas  sommas  em  ali- 
menta-la ?  Nada  se  sabe  a  respeito,  como 
também  ignora-se  a  causa  do  litigio. 
O  Snr.  Rebello  da  Silva  refere  que  o 
poeta  chegara  a  grande  estado  de  pe- 
núria, em  virtude  da  perda  de  uma  de- 
manda e  da  consequente  penhora,  po- 
dendo apenas  escapar  da  execução  a 
propriedade  rural  no  sitio  denominado 
Fonte  Santa,  (i) 

Q.ue  as  necessidades  erão  extremas 
e  a  miséria  penetrara  com  a  sua  gélida 


(l)   Poetis   da   Arcádia,  Panorama.  Tomo  IX, 
,         pa^,   332. 


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^.^i^Ú^^:^^.^ 


catadura  na  mansão  do  poeta,  parece 
não  restar  duvida.  De  trechos  das  mes- 
mas poesias  poder-se-hia  compor  um 
poema  de  angustias  e  lamentos.  Ora 
são  os  credores  que  o  perseguem,  não 
por  sommas  avultadas,  mas  por  essas 
pequenas  importâncias,  que  os  France- 
zes  denominão  deites  criardes,  e  das 
quaes  Rousseau  tinha  horror;  contas 
do  logista,  do  alfaiate,  do  barbeiro,  que 
o  fazem  exclamar  na  Ode  XVIII  dedi- 
cada ao  Coronel  Macbean  : 

Pode   mais   um   credor   que   um    elephante, 
NJo   ha   tromba   mais    dura   que  uma   feria, 
E  se  queres  vencer  os  Alexandres 
Eugenios   e   Turennas 
Nio   busques  grevas,  murriões,   pavezes, 
Pôe-lhe  diante  o   mercador  c*o  resto, 
O   alfaiate,   o  barbeiro   ou  um   alcaide 
Verá»  como  desmaiio. 

Ora  são  os  meirinhos  que  ferozes  o 
procurão  no  intento  provável  de  alguma 


.^^'^ 


'ã^'^'^- 


—   LIII 


execução  judicial  e  de  quem  elle,  re- 
lembrando-se  das  rabulices  aprendidas 
na  aula  de  Direito,  feliclta-se  de  eludir 
contando  ao  amigo  Dr  Manoel  Mon- 
teiro: 

Feliz,  se  consigo  com  dous  rasgos 
Da  penna,  que  maneio  tào  ligeiro, 
Escapar  aos   malsins   que   me   pesquizJo. 

Outro  amigo,  o  Dr  João  Evangelista,, 
que  segundo  a  epigraphe  do  Ms.de  1767 
á  Epistola  I,  o  convida'ra  a  ir  ao  Mi- 
nho, onde  tinha  um  tio  que  lhe  que- 
ria deixar  um  prazos,  recebe  a  confiden- 
cia dos  apuros  em  que  vivia  Garção  des- 
criptos  com  resignada  melancolia  nes- 
tes versos: 


Mas   de   poeta,   amigo,   só   me    resta 
Desastres   e   misérias  ;   fiUios   rotos, 
De   valadio  o   tecto,   a   vinha   calva. 
Caseiros,  architectos  e  criados 
Mais  duros   que   os   catastas   e   Perillo. 


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—   LIV 


O  Nádegas  que  %'iste  esfrangalhado, 
A  passapello  vir  da   pobre  aldeia  ; 
Porque  lhe   devo  já  uns  tantos  mezes, 
Me   ralha  e  me   governa  focinhudo. 

Dize-lhe  que  sou  doudo,  que  desprezo 

Opulentas   heranças  ;   que   inflexível 

Com  semblante  sereno  e  socegado, 

Mio   me   cansa   soffrer   a   mão    pesada 

Da  fome  e  da  penúria  ;  náo  me  espanta 

A   carregada   nuvem   da   desgraça, 

Que   aos   olhos   me   fuzila   ha   já   dez   annos. 


Mas   esta   scena   súbito   se   muda 
O   Chico  mostra  rotos  os  sapatos  ; 
Uma  quer  lenços,  outra  quer  roupinhas  ; 
O  Nádegas  dinheiro  para  a  ceia  ; 
A   porta   está   batendo   o   alfaiate. 


Este  quadro  de  misérias  e  necessi- 
dades  não   se  pode  suppor  carregado 
fí         pela  exageração  poética;  a  verdade  res- 
^         sumbra  da  singeleza  de  suas   mesmas 
Ir        cores.  Não  é  de  crer,  porém,  que  sem- 
6. 


(sê  ^     t 


>.?,5íS^.Ç^ 


pre  assim  fosse;  o  poeta  teria  visto  dias 
felizes  e  serenos  em  que  a  sua  musa 
ora  grave  e  magestosa,  ora  sarcástica  e 
picante,  ora  petulante  e  galhofeira,  lhe 
inspirava  aquellas  bellas  odes,  frisantes 
satyras  e  elegantes  sonetos,  que  não  nos 
fartamos  de  admirar,  e  como  tudo  o  que 
sahe  da  mão  do  génio  conservão  ainda 
hoje  o  cunho  da  actualidade. 

Não  é  possível  no  emtanto  precisar 

esse  decennio  calamitoso  a  que  seallude 

na  Epistola  II.  Ella  não  traz  data,  como 

não  a  tem  nenhuma  das  composições 

poéticas,  bem  diíTerente  das  em  prosa, 

determinadas    pelo  dia  e  anno  do  seu 

apparecimento.  Sabemos  somente  que 

aos  proventos  do  emprego  de  Escrivão 

daMeza  doConsulado,  reunio  o  encargo 

de    redactor    da    Gaveta   cie   Lisboa    de 

22  de  julho  de  1760  a  8  de  julho  de  1762,       „, 

[■       seguramente  de  fraca  retribuição,  ofíe- 

'i'      recendo  um  e  outro  insufficientes  reditos        r 

i»      para  manter-se.  '-^ 

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Seja,  porém,  como  fôr  a  mão  da  des- 
graça pesando  sobre  a  sua  existência 
não  lhe  comprimira  a  imaginação,  nem 
suffocára  os  raptos  do  estro ;  a  musa 
adejava  livre,  graciosa,  ligeira,  entor- 
nando ondas  de  poesia  em  diversos  gé- 
neros, em  variados  metros,  zombando 
do  mesmo  infortúnio  que  tentava  ani- 
quila-la. 

Assim  em  1754  ouvimo-lo  recitar  na 
Academia  dos  Occultos,  o  sisudo  poema, 
como  o  classifica  o  Snr  Camillo  Cas- 
tello  Branco,  da  Falia  em  que  o  Du- 
que de  Coimbra  Infante  D.  Pedro  rejei- 
tara uma  estatua;  em  1757  vemo-lo 
reunir-se  a  António  Diniz  da  Cruz, 
Theotonio  Gomes  de  Carvalho  e  Ma- 
noel Nicoláo  Esteves  Negrão  para  fun- 
■darem  a  Arcádia  Ulysiponense,  onde  to- 
mou o  nome  de  Corydon  Erymantheo; 
o  periodo  de  1757  a  1770  é  preenchido 
com  as  "Dissertações  e  Orações  perante 
a  Arcádia  ou  outras  assembléas;  em  ja- 


(2fo    (S        t        Cv    ^ 


m 


^^^Mê^'^ 


neiro  de  1766  faz  representar  a  sua  pri- 
meira comedia  o  Theatro  Novo.  Tudo 
em  summa  indicava  a  actividade  de  um 
espirito  infatigável,  e  com  taes  disposi- 
ções é  fácil  prever  quão  largamente 
ainda  teria  de  dotar  cora  os  recursos 
de  seu  génio  as  lettras  pátrias,  se  re- 
pentinamente não  o  detivessem  na  glo- 
riosa carreira.  Em  a  noite  de  9  de 
abril  de  1771  foi  preso  na  própria  re- 
sidência por  virtude  de  um  Aviso  da 
Secretaria  do  Reino  expedido  ao  rege- 
dor das  justiças  e  conduzido  á  cadeia 
da  Corte,  onde  permaneceo  no  segredo 
durante  oito  mezes  inteiros. 

Entrar  em  uma  prisão  é  penetrar  nai 
trevas.  Victor  Hugo  descrevendo  nas 
Choses  vties  a  visita  que  fez  á  uma  delias, 
diz  que  ahi  o  ar  não  é  mais  ar,  o  dia 
não  é  mais  dia.  Barrotes  de  ferro,  ex- 
clama o  celebre  escritor,  tem  portanto 
algum  poder  sobre  essas  duas  cousas 
livres  e  divinas,  o  ar  e  a  luz!  «v 


—  LVIII   — 
-9 fr- 

Aqui  a  escuridão  do  cárcere  conden- 
sada sobre  a  figura  do  desventurado 
Garção  se  projecta  sobre  o  mesmo 
facto,  que  a  elle  o  arrastara.  Qual  o  seu 
crime?  Que  desvario  teria  offuscado 
aquella  mente,  que  vemos  tão  judiciosa 
em  seus  versos  ?  Que  força  teria  im- 
pellido  fora  do  caminho  do  dever  quem 
tão  formosos  cânticos  entoara  á  vir- 
tude? Ninguém  o  soube  até  hoje  di- 
zer com  certeza.  Bracejão  os  biogra- 
phos  em  um  mar  de  conjecturas  e  hy- 
potheses;  cada  qual  conta  a  historia  por 
diverso  modo,  reportando-se  á  tradição 
oral,  ordinariamente  defeituosa. 

Comtudo  o  Snr  Camillo  Castello 
Branco  em  duas  estimáveis  obras  suas  (i) 
pretende  assignalar  a  verdadeira  causa 
da  prisão  de  Garção,  tendo  bebido  a  in- 


(i)  Curso  de  lill.  porl.,  tomo  a",  pag.  i8l 
a  184,  O  perfil  do  Marque^  de  "Pombal,  pag.  147 
a    153. 


fl^^^^^^-T^,^ 


—   LIX   — 
-9 -fr- 

formação,  segundo  refere,  em  uma  nota 
do  Cónego  Manoel  de  Figueiredo  no 
seu  commentario  ao  soneto,  que  elle 
diz  inédito,  mas  não  é,  e  assim  co- 
meça : 

Estavio   as   irez   Graças   penteando. 

Essa  nota  deverá  achar-se  em  outro 
manuscrito,  que  não  aquelle  a  que  me 
tenho  referido,  copiado  pelo  Cónego  e 
outr'ora  existente  na  livraria  do  emé- 
rito escritor.  Neste  nada  encontrei  so- 
bre o  assumpto.  Quanto  ao  soneto  é 
o  mesmo  que  recita  Gaspar  Picote  na 
scena  XVI  da  AssembJéa  e  pode  ser  lido 
a  pag.  395  deste  livro. 

Sem  faltar  á  consideração  que  me 
merece  tão  respeitável  autoridade,  farei 
patentes  dentro  em  pouco  as  hesitações 
em  que  ainda  labora  o  meu  espirito,  e 
conduzem  não  a  contestar  a  fonte  da 
informação,  mas  a  duvidar  de  sua  au- 
thenticidade.  Por  agora  cabe-me  expor 


* 


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■^W5?M#^g3-^^ 


—   LX   — 


as  differentes  versões  colligidas  por  In- 
nocencio  cotejadas  com  a  sua  judiciosa 
critica. 

Assim  temos  em  primeiro  lugar  Sane, 
ou  o  autor  das  notas  appensas  á  sua 
traducção  das  Odes  de  Francisco  Ma- 
noel, o  qual  pretende  que  o  Marquez 
de  Pombal  irritado  por  causa  de  uns 
artigos  pubblicados  na  GaT^eta  de  Lisboa, 
cujo  redactor  era  então  Garção,  o  man- 
dara em  castigo  encerrar  em  um  cala- 
bouço. A  suspensão  desse  periódico, 
data,  porém,  de  1762  e  não  é  crivei 
que  a  cólera  do  grande  ministro  ficasse 
sopitada  durante  nove  annos  para  tão 
serôdia  explosir,  quando  era  fácil  ao  seu 
poderio  a  punição  do  temerário,  logo 
após  a  offensa  ou  o  atrevimento. 

Segue-se  o  Visconde  de  Almeida  Gar- 
ret  com  uma  refutação  substitutiva  da 
historia,  que  chegou  ao  seu  conheci- 
mento. «  Contão,  diz  elle,  que  certo 
Lovelace  alfacinha  da  amizade  de  Gar- 


&J<1^- 


—   LXI 


ção,  querenJo  escrever  a  uma  menina 
ingleza  a  quem  galanteava,  pedira  ao 
poeta  que  lhe  trasladasse  para  a  lin- 
gua  da  bella  os  seus  lusos  namorados 
requebros.  »  A  destinatária  da  carta 
foi  mostra-la  ao  pae  e  este  ao  Mar- 
quez de  Pombal,  que  por  conhecimento 
próprio  ou  denunciado  da  lettra,  man- 
dou prender  o  poeta.  Esse,  porém,  foi 
o  pretexto,  o  verdadeiro  motivo  no  pen- 
sar do  autor  dís  Viagens  d  minha  terra, 
está  na  famosa  Falia  do  Duque  de 
Coimbra,  que  o  Garção  compozéra  para 
fustigar  a  vaidade  com  que  o  Marquez 
se  esculpira  em  bronze  no  pedestal  do 
Terreiro  do  Paço. 

Semelhante  opinião  nada  tem  de  ac- 
ceitavel,  e  o  provou  Innocencio  fazendo 
ver,  que  a  estatua  só  foi  inaugurada  e 
descoberta  em  6  de  junho  de  1775,  de- 
pois da  morte  de  Garção.  Elle  suppunha 
que  a  Falia  seria  de  data  muito  mais 
antiga.  Hoje    sabe-se    com  segurança, 


u 


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—   LXII   — 


ê 


como  já  expendi,  haver  sido  composta 
para  a  Academia  dos  Occultos  em  1754, 
nada  menos  de  vinte  e  um  annos  antes. 

De  outro  género  é  a  versão  apre- 
sentada pelo  Commendador  António 
Joaquim  de  Mello.  Em  sua  opinião  o 
Marquez  de  Pombal  não  olhava  bem 
o  poeta,  por  ser  parcial  dos  padres  Con- 
gregados e  outros  murmuradores  do 
seu  ministério.  Pretextou-se  a  prisão 
com  a  traducção,  que  o  poeta  fez  de 
escritos  de  amores  de  uma  filha  do 
brigadeiro  inglez  Elsden  com  um  amigo 
do  poeta.  Elsden  era  um  ensemblador 
ou  marcineiro  em  Londres;  com  algu- 
mas poucas  luzes  elementares  de  ma- 
thematicas  fizera  de  engenheiro  em  Por- 
tugal, onde  em  1775  andou  dirigindo 
a  construcção  do  laboratório  chimico, 
museo  e  sala  de  physica  experimental 
pegados  ao  Collegio  dos  Jesuítas  em 
Coimbra. 

Esta    versão  na   apparencia  diversa 


—  Lxm 


approxima-se  todavia  da  de  Garret. 
No  fundo  ha  a  mesma  questão  de 
amor  consubstanciada  em  uma  cor- 
respondência epistolar,  cujo  traductor 
seria  o  poeta.  Mão  proveito  lhe  resulta- 
ria do  conhecimento  de  uma  lingua,  na 
época  em  que  Junius  nella  escrevia  as 
suas  admiráveis  Cartas  e  Goldsmith 
publicava  o  seo  bello  poema  The  de- 
sertei village. 

A  ultima  versão  ouvio-a  o  próprio 
Innoccncio  da  boca  de  um  neto  do 
poeta,  José  Maria  Stokler  Salema  Gar- 
ção, e  é  referida  nos  seguintes  termos  : 

Garção  habitava  na  sua  casa  da 
Fonte  Santa  (a  que  está  situada  á  di- 
reita da  mesma  fonte)  e  possuia  conti- 
gua a  ella  outra,  que  alugara  a  um 
coronel  inglez,  Macbean,  ao  serviço  de 
Portugal  (o  mesmo  aquém  são  dirigidas 
as  Odes  XVIII  e  XXI).  Davão-se  por 
amigos  e  visitavão-se  reciprocamente 
com  demostrações  de  muita  estima;  o 


-^%l'#^í^^^ 


—   LXIV   — 

-4 •- 

coronel  era  viuvo  e  tinha  em  sua  com- 
panhia uma  filha,  moça  formosa,  porém, 
de  caracter  inconsiderado  e  leviano  e 
que  passava  por  extremada  namora- 
deira. 

Entre  muitas  pessoas  de  boa  socie- 
dade que  frequentavão  a  casa  do  poeta, 
onde  concorrião  a  miúdo  os  sócios  da 
Arcádia  e  outros  eruditos  e  litteratos 
d'aquelle  tempo,  havia  um  mancebo 
peralta,  que  parece  tinha  por  appeliido 
Ávila,  o  qual  não  obstante  ser  casado 
e  ter  filhos,  entendeo  que  podia  re- 
questar a  filha  do  inglez  e  o  mais  é 
que  encontrou  nella  as  melhores  dis- 
posições para  attendô-lo. 

Quiz  dirigir- lhe  uma  carta,  porém, 
como  ignorasse  a  lingua  da  sua  bella, 
rogou  a  Garção  com  grandes  instan- 
cias que  lh'a  escrevesse  ou  traduzisse. 
Teve  o  poeta  a  fragilidade  de  condes- 
cender com  os  seus  rogos,  fazendo 
a  carta    pedida ;    porém    o    estouvado 


OX- 


—    LXV    — 


amante  em  vez  de  copia-la  por  sua 
lettra,  pegou  no  próprio  rascunho  e 
deo-o  a  um  criado  do  coronel  para 
que  o  entregasse  á  ama. 

E'  mister  accrescentar  agora,  inter- 
rompe Innocencio,  não  porque  o  di- 
cesse  o  neto,  mas  porque  Domingos 
Maximiano  Torres  (amigo  de  Garção) 
o  contara  em  antigos  tempos  a  pessoa 
que  m'  o  transmittio,  que  a  tal  carta 
havia  por  fim  nada  menos  do  que  con- 
vidar para  a  fuga  a  menina,  cujo  estado 
de  gravidez  ia  já  sufficientemente  adean- 
tado!  .. 

O  criado  em  vez  de  dar  a  carta  á  filha, 
segundo  ajustara,  foi  entrega-la  ao  co- 
ronel. E'  fácil  de  julgar  como  este  fica- 
ria ao  reconhecer  pela  lettra  da  carta, 
cuja  era  e  o  fim  a  que  se  destinava!... 
Enfurecido  correo  immediatamente  á 
casa  do  primeiro  ministro,  a  quem  apre- 
sentou a  carta,  e  nella  o  corpo  de  de- 
licto  do  desgraçado  poeta.  Nem  tanto 


^>/-%í^--^ 


—   LXVI   — 


seria  preciso  para  exacerbar  o  animo 
do  marquez,  muito  mais  se  existiào 
já  da  parte  deste  razões  de  animadver- 
são,  que  se  tem  querido  suppor.  A  ordem 
de  prisão  foi  pois  expedida  paralogo(i). 
Esta  parece  ser  a  tradição  de  fami- 
lia.  Delia  não  se  affasta  notavelmente 
outro  parente  do  poeta,  o  bisneto  Pe- 
dro Stockler  Salema  Garção  no  Bos- 
quejo hiographico  publicado  em  folhetins 
da  Imprensa  e  Lei.  Encarecendo  as  qua- 
lidades que  compunhào  o  caracter  do 
avoengo,  entre  as  quaes  primava  a 
franqueza,  fa-lo  manifestar-se  incom  • 
pativel  «  para  servir  junto  de  altas 
personagens  pela  impossibilidade  de 
encobrir  o  seu  juizo  diante  de  um 
acto  injusto.  »  Tal  resposta  altiva  de 
Garção  a  suggestões  para  solicitar  do 
Marquez  de  Pombal  um  emprego  na  sua 


("i)   Dicc.  bill.  port.,   arf  Pedro  António  Cor- 
rêa   Garção,    toino   VI,    pag.    J90. 


'à 


d 


— .  LXVII    — 

-^ e- 

Secrctaria  levada  ao  conhecimento  deste, 
seria  a  causa  primaria  do  ódio,  cuja 
explosão  viria  ulteriormente  provocar 
a  historia  da  carta  escrita  para  satisfa- 
zer alheio  pedido. 

Sem  propósito  de  escurecer  as  pre- 
conisadas  qualidades,  mas  unicamente 
por  amor  á  verdade  h'storica,  recor- 
darei para  prova  do  sentimento  do 
poeta  em  relação  á  administração  de 
Pombal  os  altos  encómios,  que  lhe 
tece  directamente  na  Epistola  IV  ou 
por  via  allusiva  na  Oração  VII.  Uma 
conversação  na  intimidade  de  ami- 
gos não  contrabalançaria  seguramente 
as  blandicias  proferidas  em  publico, 
nas  quaes  se  exaltava  as  qualidades 
politicas  do  estadista. 

A  versão  do  Snr  Camillo  Castello 
Branco  consiste  simplesmente  em  apre- 

íj       sentar  o  próprio  Garção  como   o  se- 
ductor  da    filha  do  Coronel   Macbean. 

,►=      Não  se  lhe  instaurou  processo,  diz  elle, 


■'    --vb^/  ^-^'  \^y 


*• 


—  Lxviir  — 
-4 e- 

para  evitar  dous  opprobrios  o  de  Gar- 
ção, chefe  de  familia,  na  idade  de  49 
annos  e  o  da  filha  do  queixoso,  mu- 
lher cuja  deshonra  ficaria  occulta,  se 
o  preso  expirasse  com  o  segredo  do 
motivo  de  sua  prisão.  Não  temos  a 
certeza,  accrescenta,  de  que  a  esposa 
do  poeta  suspeitasse  a  causa  da  pri- 
são;  é,  porém,  certo  que  a  desampa-» 
rada  senhora  andou  supplicante  pelo 
paço  e  pelas  secretarias  a  pedir  que 
a  deixassem  ver  seu  marido,  e  conse- 
guio  do  rei  a  promessa  da  liberdade. 
Não  deixa  de  ser  sobremaneira  singu- 
lar que  nenhum  escritor  contemporâneo 
houvesse  assignalado  semelhante  causa. 
Maximiano  Torres,  citado  como  vi- 
mos, na  referencia  de  Innocencio  á  nar- 
rativa do  neto  de  Garção  e  apezar  de 
dissidente  da  Arcádia,  não  arrefecera  a 
estim.-!  em  que  o  tinha,  na  canção  á  Ami- 
:(ade,  que  lhe  dedicou  apenas  fez  vaga 
referencia  ao  facto  nestes  versos  : 


'^ 


'O 


^%mã%-^ 


—   LXIX   — 


Mas   o  destino   avaro,   que   de  tantos 
Males   opprime  o    triste   peito   humano 
Sem   se   fartar  de  lagrimas   e   prantos  ; 

Urdindo  lhe   fatal   e  extremo   dano 

Nào   consentio  que   o   génio   alto   e   facundo 

Mais   se  elevasse   a   Apollo   soberano   (i). 

Outro  escritor  de  mérito  que  tambeni 
floresceo  n'aquella  época  (1745 -1795), 
Francisco  Dias  Gomes,  caracter  aus- 
tero e  independente,  extreme  portantO' 
da  suspeita  de  parcialidade  em  favor 
de  um  criminoso,  fossem  quaes  fossem 
os  seus  dotes  litterarios,  apreciando  o 
modo  como  havião  sido  tratados  vários 
engenhos  portuguezes,  assim  se  ex- 
prime sobre  o  assumpto  :  «  O  Garção- 
insigne  restaurador  da  poesia  portu- 
gueza  em  nossos  tempos  acabou  a 
vida  no  fundo    de    uma  prisão,  moti- 


(l)   Versos  de  Alfeno    Cynthio,   Bacharel   Do- 
mingos Maximiano   Torres,   pag.    173    a    180. 


\^ 


LXX   — 


vada   por   causa  de  si  tão  fútil,  que  é 
vergonha  expressa-la.  »  (i). 

Aquelle  soneto  das  Tre:(^  Graças  trans- 
ferido no  Ctirso  de  litteratura,  não  é  iné- 
dito como  já  expuz.  Dirão  talvez  que 
isso  pouco  vale.  Importa  no  entretanto 
muito,  a  meu  ver,  para  uma  descoberta 
que  teria  vindo  lançar  forte  jacto  de 
luz  sobre  a  questão.  Não  constitue 
poesia  singular  a  revelar  os  senti- 
mentos Íntimos  do  autor.  Na  boca  de 
um  dos  galans  da  comedia  Assembleia. 
figura  de  bola  apanhada  no  ar,  em  de- 
safio ao  talento  do  repentista.  Nesses 
versos  pretende-se,  é  certo,  desculpar  a 


(l)  Obras  poéticas  mandadas  publicar  por  or- 
dem da  Academia  Real  das  Sciencias  a  beneficio 
da  viuva  e  orphâos  do  autor,  Lisboa,  1799.  Con- 
virá talvez  rectificar  um  equivoco  do  Diccionatio 
bibltographico ;  a  Elegia  consagradi  .í  morte  de 
Garção  e  a  V  e  n.lo  a  VI  e  encontra-se  de 
pag.   72   a   7S. 


'^ 


velhice  namorada,  mas  sem  nenhuma 
allusão  a  algum  dos  personagens,  ape- 
nas aguda  replica  á  exclamação  de  um 
delles. 

Não  creio  que  Garção  já  entrante 
nos  seus  47  annos  pretendesse  descul- 
par as  escapadas  da  edade  madurn.  á  se- 
melhança de  certo  poeta  inglez: 

My   liead   is   gray,   niy   blood  is   young 

Red  leaping  in   my  veiíis  ; 
The   spring   doth    stir   my   spirit   yet 
To   seek   the   doistered    violet, 

The   prlmrose   in   the   lanes. 

EUe  antes  supplicaria  á  deosa  dos 
amores  como  o  Venusino,  cujo  enca- 
necimento  começara  aos  42  annos,  que 
o  deixasse  em  paz  : 

Parce,   precor,   precor  ! 
Noa   sum   qualis   eram   bonce 
Sub   regno   Cinaroe.    Desine,  dulcium 

Mater  soeva   Cupidinum 
Circa   lustra  decem    flcctere   mollibus 

Jam   durum   imperiis 


"^^^m^^-^^ 


—   LXXII   — 


e  inspirando-se  no  grande  mestre  pro- 
curaria traduzir  os  mesmos  sentimentos 
nos  seguintes  versos  da  Ode  XXXV 
(inédita)  que  em  nada  destoão  do  ori- 
ginal : 

Que  me  deixes  te   peço,  que  me  deixes. 

Que  para  o  duro  peito, 
Com  trabalhos  cruéis  endurecido 

Na  sanguinosa   pedra 
As  aligeras  farpas  n2o  amoles. 

Já    n2o  sou,   já   qual   er.i. 
Quando  reinava  a  cândida  Leucipe. 

Passarão  tão  bons  dias  ! 
Kão   queiras   atear   inútil   flamma 

Em   pouca  árida  cinza. 
Que   os  gelos  de  oito  lustros   esfriarão. 

Dizia  La  Bruyère :  «  II  n'y  a  pas  de 
plus  grande  difformité  dans  la  nature 
qu'un  vieillard  amoureux.  »  Sentença 
severa,  se  o  quizerem,  mas  justa.  Gar- 
ção não  a  teria  certamente  affrontado 
entregando-se  aos  arrastamentos  de  uma 
paixão,  que  a  sua  posição  de  pae  defami- 


lias  transformaria  em  crime.  A' exemplo 
dos  anciões  de  Homero,  que  do  alto  das 
portas  Scéas,  comparáveis  a  melodiosas 
cigarras,  èoiy.ózz;  tz-tívzogív^  se  ex- 
tasiavão  diante  da  belleza  de  Helena, 
em  de  vez  de  succumbir  á  tentação, 
como  elles  faria  igualmente  votos  pelo 
affastamento  immediato  de  quem  po- 
deria ser  causa  da  ruina  própria  e  da 
dos  filhos. 

O  alludido  commento  de  Figueiredo 
parece-me,  pois,  carecer  de  authentici- 
dade.  Em  pontos  de  tamanha  ponde- 
ração a  critica  não  se  satisfaz  com  sim- 
ples referencias,  precisa  remontar  ás 
fontes,  proceder  d  analyse  da  limpha, 
e  decidir  de  sua  pureza. 

Se  a  historia  se  constituísse  de  me- 
ras affirmações,  se  não  fosse  mister  pre- 
scrutar  a  raiz  dos  acontecimentos,  exa- 
minar os  filamentos,  seguir-lhe  a  direc- 
ção, exigindo  de  cada  autor  a  justifica- 
ção   de  seu   testemunho,   instruir    em 


■^^/  ^^  V: 


—   LXXIV   — 


summa  o  processo  que  Taine  denomina 
provar  as  provas,  não  haveria  certeza 
possivel,  ella  seria  despojada  do  seu  ca- 
racter essencial,  faltaria  á  sua  missão; 
de  sciencia  converter-se-hia  em  seita, 
formaria  adeptos  mas  não  teria  crentes. 
Não  se  diz  que  a  versão  explique  de 
qualquer  modo  o  encarceramento  simul- 
tâneo de  Lobo  d' Ávila.  No  entretanto 
é  facto  averiguado  haver  elle  parti- 
lhado o  máo  fado  do  poeta,  e  visto 
igualmente  fecharem-se  e  abrirem-se 
as  portas  da  mesma  prisão.  Outra  ver- 
são o  faz  figurar,  como  ficou  dito,  de 
autor  principal,  e  esse  papel  não  é  em 
verdade  repugnante  ás  qualidades  peral- 
tas, que  lhe  empresta.  Em  todo  o  caso, 
entre  ambos  existio  um  vinculo,  cuja  na- 
tureza e  extensão  conviria  ficassem  bem 
determinadas.  Talvez  mesmo  partindo 
do  mais  obscuro  se  chegasse  ao  mais 
illustre.  Quantas  vezes  uma  escusa  e 
sombria  vereda  nos  não  conduz  á  estrada 


principal !  A  claridade  desferida  ao  des- 
embocar nella,  illuminaria  aqui  uma 
vida   inteira. 

O  que  todavia  parecerá  difficil  ad- 
mittir,  é  a  supposta  ignorância  da  mu- 
lher de  Garção  acerca  do  motivo  da 
prisão.  Não  faltarião  de  certo  amigos 
officiosos  que  lh'o  revelassem.  Quando 
mesmo,  porém,  fosse  aquelle  feio  de- 
licto  de  que  falia  o  Snr  Camillo  Cas- 
tello  Branco,  as  virtudes  da  matrona 
portugueza  mais  se  acendrarião  pelo  es- 
quecimento da  grave  injuria  commet- 
tida  contra  o  thoro  conjugal.  A  ver- 
dade é  que  a  desditosa  senhora  andou 
pelos  paços  reaes  a  solicitar  a  graça  do 
marido;  a  muito  custo,  depois  de  oito 
mezes,  conseguio  fosse  transferido  do 
segredo  para  a  sala  livre  e,  ainda  per- 
severando nos  seus  generosos  esforços, 
alcançou  onze  mezes  mais  tarde,  a  or- 
dem de  soltura.  Era  ella  concebida  nes- 
tes termos  : 


s:j 


v_^ 


líl^fe^" 


Aviso  para  o  Cardeal  da  Cunha 

((  Ex"o  E  Rev»*o  Senhor, 

«  Sua  Magestade  é  servido  que  V. 
Eminência  mande  soltar  a  Pedro  An- 
tónio Corrêa  Garção  e  a  Francisco 
António  Lobo  d'Avila,  que  se  achão 
presos  na  cadêa  da  Corte  por  ordem 
do  mesmo  Senhor  ;  assignando  os  so- 
breditos presos  um  termo  perante  o 
Corregedor  do  crime  do  bairro  da  rua 
Nova,  de  sahirem  da  referida  cadêa 
para  fora  desta  Corte,  á  qual  não  p  >- 
derão  voltar  emquanto  Sua  Magestade 
não  mandar  o  contrario. 
«   Taco,  em  lo  de  novembro  de  1772. 

«  José  de  Seabra  da  Silva.  » 

A  libertação  trazia,  pois,  como  clau- 
sula adjecta  a  sabida  para  fora  da  Cor- 
te, sem  comtudo  determinar-se  o  lugar 
do  exilio.  A  graça  não  era  completa; 


.i 


..,^^^,^ 


a  clcnicncia  real  julgara  dever  restrin- 
gir-se  ou  fora  quiçá  desvirtuada  na  exe- 
cução. Clausula  deshumana  e  falsa,  ex- 
clama um  biographo,  em  relação  a  um 
moribundo  que  se  achava  nos  últimos 
momentos  da  agonia,  contra  a  qual 
protestou  a  viuva  nos  poucos  annos 
que  lhe  sobreviveo,  tomando  os  céos 
por  testemunha  de  que  o  monarcha, 
pelo  que  sempre  tinha  ouvido  de  sua 
bocca,  tal  não  havia  ordenado. 

Seja  como  fôr,  não  deixa  comtudo  de 
causar  extranhe/.a,attendendo-se  ás  mes- 
mas condições  da  época,  que  tão  grave 
crime  como  o  inculcado,  tal  que  a  O., 
L.  j,  tit.  23,  punia  com  o  degredo 
para  Africa,  sendo  entre  pessoas  de 
qualidade,  e  com  açoutes,  baraço  e 
pregão  nas  em  que  taes  penas  cabião, 
fosse  purgado  simplesmente  com  i  anno 
e  7  mezes  de  cadêa.  A  pena  não  estaria 
de  certo  em  proporção  do  delicto.  Mais 
uma  falha  na  versão. 


■o       ^^'^,    ^f:    '^y         "'' 


Á 


—  Lxxviir  — 

-» (r 

Tarde,  porém,  chegou  o  alvará  de 
soltura.  Os  desgostos  tanto  como  as 
agruras  do  cárcere  e  enfermidades  ha- 
vião  acabrunhado  o  infeliz  poeta,  nii- 
nando-lhe  a  existência.  Dir-se-hia  que 
só  aguardava  livrar  o  corpo,  para  que 
o  espirito  por  seu  turno  se  libertasse 
da  misérrima  prisão.  Essa  aura  de  li- 
berdade pela  qual  anhelava,  veio  so- 
mente como  suave  brisa  acariciar-lhe 
es  últimos  momentos  e  levar  comsigo 
a  immortal  essência.  Sob  as  frias  abo- 
badas do  Limoeiro,  mudas  testemu- 
nhas do  seu  cruel  soffrimento,  e.xhalou 
na  tarde  desse  mesmo  dia  lo  novem- 
bro de  1772  o  derradeiro  alento,  tendo 
de  idade  48  annos  incompletos. 

Não  serião  escassas  á  lutuosa  scena 
as  cores  próprias  dos  tristes  succes- 
sos ;  a  natureza  do  lugar  revesti-las-hia 
de  um  toque  mais  carregado.  As  ne- 
gras muralhas  sem  echo  para  os  quei- 
xumes do  prisioneiro,  abafarião  igual- 


''mm^^mM^w 


i  •'i^'  VrV" 


—    LXXIX   — 
-4 «> 

mente  os  lamentos,  que  a  sua  morte 
despertaria.  Aguda  e  profunda,  porém, 
devera  ser  a  dôr  da  desventurada  viuva. 
Essa  mulher  de  poeta,  que  vemos  cora- 
josa e  devotada  figurar  na  ultima  phase 
de  sua  vida,  importunando  com  justas 
solicitações  os  ministros,  tragando  sabe 
Deos  que  dissabores  e  contrariedades, 
subindo  alé  o  próprio  Rei,  bem  se  pode 
imaginar  atravez  de  quantas  dificulda- 
des e  embaraços,  é  digna  do  mais  en- 
carecido louvor.  EUa  representa  o  que 
ha  de  mais  puro  e  elevado  na  socie- 
dade conjugal,  a  dedicação  na  desgraça. 
Queixas  que  por  ventura  podesse  ter 
do  marido,  tudo  esqueceo,tudo  perdo  ou 
para  só  lembrar-se  que  era  desditoso  e 
corria-lhe  o  dever  de  o  amparar. 

Senhora  de  illustre  nascimento  nãa 
teria  seguramente  poupado  relações  de 
parentes  e  amigos  para  arranca-lo  do- 
cárcere;  ella,  porém,  surge  só  e  quando 
todos  parecem  have-lo  abandonado.  É. 
J)  


^|-»^.,v. 

—   LXXX    — 
-9 fr- 

uma  verdadeira  heroina  do  amor  con- 
jugal, emula  d'aquella  Arria,  cujas  vir- 
tudes Plinio  celebra  accentuando  que 
entre  as  acções  humanas  unas  tem  mais 
brilho,  outras  porém  mais  real  grandeza 
-  alia  clariora  esse,  alia  majora.  D.  Maria 
Anna  de  Salema  Garção  não  é  somenos 
em  qualidades  á  mulher  de  Peto,  e  a 
historia  do  XVIII  século  registrará 
aquelle  modelo  de  esposa  era  suas  mais 
brilhantes  paginas. 

Que  o  poeta  não  era  insensivel  a  ta- 
manhas provas  de  affecto  e  interesse, 
que  mesmo  do  fundo  da  prisão  a  ima- 
gem da  devotada  esposa  occupava-lhe 
o  attribulado  espirito,  verifica-se  do  So- 
neto LI  que  lhe  dedicara.  Nelle  como 
que  parece  haver  acceitado  a  perda  da 
liberdade  como  expiação  de  culpa  : 

Menos  chora  terrenos  bens  perdidos  ; 
De  pouco  um   peito  grande  se  contenta ; 
Antes  quer  ser  honrado  que  ditoso. 


(•]•■- 


L 


Se,  porém,  lata  ou  leve  não  julgou 
opportuno  informar-nos ;  o  véo  do 
mysterio  que  poderia  haver  so-erguido 
ficou  pesando  sobre  o  facto. 

Consta  que  D.  Maria  Anna,  depois 
da  morte  de  Garção,  desgostosa  e  ac- 
cabrunhada,  apenas  como  boa  mãe  con- 
seguio  dar  destino  aos  filhos,  se  reco- 
Iheo  ao  Convento  de  S'*  Mónica,  que  era 
o  mais  próximo  da  igreja  de  S.  Mar- 
tinho, onde  fora  sepultado  o  marido  e 
alH  acabou  os  seus  dias  com  exemplar 
virtude,  sendo  no  mesmo  claustro  o 
seu  jazigo. 

Nenhuma  distincção  assignalou  a  se 
pultura  do  vate  geralmente  conside- 
rado por  seus  conterrâneos  o  segundo 
Horácio  portuguez  e  que,  como  observa 
Innocencio,  aos  titulos  de  fidalgo  da 
Casa  Real  e  Cavalleiro  professo  na 
ordem  de  Christo,  reunio  outros  de 
mór  valia  sem  duvida  para  a  posteri- 
dade, quaes    forão  os  de  fundador   da 


.10"; 


—   LXXXM   — 
-S : €- 

Arcádia  e  insigne  restaurador  da  poe- 
sia portugueza.  Seus  ossos  tiverão  a 
mesma  sorte  que  os  do  principe  dos 
poetas  lusitanos :  não  se  sabe  onde 
parão;  dispersou-os  ou  confundio-os 
com  o  de  milhares  de  cadáveres  a 
demolição  da  igreja  de  S.  Martinho 
em  1835.  A  mão  piedosa  da  esposa 
ahi  não  estava  mais  para  recolhê-los 
á  funerária  urna,  em  a  qual  fosse  es- 
culpido o  epitaphio  composto  pelo 
D""  Vicente  Pedro  Nolasco,  resumindo 
o  sentimento  nacional : 

Da   AiCJilia   lusa   e   membros   que   a   illustráráo 

Garção  foi   honra,   foi   cantor  divino  ; 

H  djs   Musas   que   o   berfo   lhe   enibalirAo 

T<:ve   do   pátrio  idioma   o   tom    mais   fino, 

Sj   delle   as   cinzas   iCm   valor  íicáráo, 

No  pó  envoltas  de   vulgar  destino, 
nt.  Sempre   serio   no   templo   d.>  Memoria  )i^ 

m  \       Seus   escritos   brazio   de   eterna    gloria.  |y 


i 


i  :         Mas  Portugal  se  ainda   não   possue 
como  a  França  um  Pantheon  onde  sejão 


V 


recolhidas  as  cinzas  de  seus  grandes  ho 
rnens,  ou,  como  a  Inglaterra,  uir,a  ab- 
badia  de  Westminster  digna  sepultura 
de  reis  e  de  famosas  notabilidades  do 
Império  britannico  não  esquece  toda- 
via os  filhos  que  o  tem  illustrado;  posto 
que  tarde  será  remida  a  divida  de  gra- 
tidão. Ainda  não  ha  muito  o  mundo 
admirou  as  festivas  homenagens  pres- 
tadas por  occasião  do  3"  centenário  do 
seu  excellente  épico,  do  grandíloquo 
cantor  de  suas  glorias.  A  essas  demons- 
tra;;ões  solemnes  nos  associamos  tam- 
bém nós  Brazileiros,  enthusiastas  por 
tudo  quanto  é  grande,  nobre  e  gene- 
roso. Tempo  virá,  podemos  conta-lo, 
em  que  duas  nacionalidades  irmãs  se 
unão  de  novo  no  mesmo  pensamento 
de  honrar  a  memoria  do  génio,  que  exer- 
citando-se  em  vários  campos  da  poe- 
sia, deixou  em  todos  elles  um  padrão  ^ 
imperecível.  N 

O  lamentável  final  de  Pedro  Anto-      «i 


* 


Ç^) 


nio  Corrêa  Garção,  quaesquer  que  se- 
jão  as  suas  faltas,  qualquer  que  fosse 
mesmo  o  seu  crime,  provoca  a  indi- 
gnação contra  a  prepotência  de  que  foi 
victima.  Nenhuma  consideração  a  jus- 
tifica, nenhum  principio  a  absolve.  A 
serena  luz  do  direito  poderia  illuminar 
o  juiz  e  o  réo,  o  rubro  clarão  do  des- 
potismo destaca  vivas  em  escuro  funda 
as  figuras  do  algoz  e  da  victima. 

Felizes  os  que  vivemos  em  uma 
época  em  que  o  arrasamento  das  bas- 
tilhas tornou  impossível  a  reproducção 
de  igual  facto.  A  conquista  da  liber- 
dade garante  hoje  plenamente  os  direi- 
tos do  cidadão ;  a  espada  da  justiça 
não  está  a  soldo  de  nenhuma  tyran- 
nia  e  a  divisa  que  brilha  em  sua  ful- 
gente lamina  —  lex  omnibus  una  — 
efficaz  e  indefectivelmente  protege  o 
fraco  contra  o  forte,  o  desvalido  con- 
tra o  poderoso. 

LoAdres,  (Ui^cmhio  iSSj. 


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vJ_yEM   d;   meus   versos   a   Ição   prociir. 
Os   farpões   nunca   vio   de  Amor   insano, 
Nem   sabe   quanto   custa   um   vil    engano 
Traçado   pela   raJo   da   formosura. 

Se   o   peito   não   tiver   de  rocha   dura, 
Fuja   de   ouvir  contar  tamanho   damno, 
Que   a   desabrida   voz   do  desengano 
O   mais  firme  semblante  desfigura. 

Olhe,   que   ha   de   chorar,   vendo    patente 
Em   tSo   funesta   e  lagrimosa   sctna, 
^>iV\.->^_^     O   cadafalso   infame   e  sanguinoso. 

■•      - ''     Verá  levado   á   morte   um   innocentc: 
'■4r  '  '       E   condemnado   a   vergonhosa   pen.i, 
I    O   mais   fiel    amor,   mais   generoso. 


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A^f=!J=(.<V. 


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I 


Éatã>^ 


A'  Snr*D.  Maria  Joaquina 
de  Gusmão  e  Vasconcellos. 

Lutando  com   mll  sustos,  milpezares, 
Com  desprezos,  enganos  e  rigores, 
A  teo  rosto   gentil,  olhos  traidores, 
Templos  lhe  consagrei,   ergui-lhe   altares. 

Rociadas  de  lagrimas   a  mares. 
DegollavSo   as  victimas  Amores. 
Ara  cruel !   Suspiros,  magoas,  dores 
Lançava  em  denso   fumo   aos   mansos   ares. 

Chegou  Marilia  de  mudar-te  o  dia ; 
Tèas,  secure,  pj'ra,  vasos,  fogo 
Tudo  rompeste,  tudo  aos  pés  pizaste. 

Triumphou,  triumphou  a  tj-rannia; 
Mas  apezar  do  altivo  desafogo 
Illesa  a  fé,  illeso  o  amor  deixaste. 


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III. 

Hm   magnifica  scena  a   fantasia, 
Entre   festões  de  estrellas   radiantes, 
Teus   angélicos   olhos   triumphautes, 
Gentil   Marilia,   me   mostrou   um   dia. 

O   sol   de  teus   cabellos  se   esparzia 
Por  columnas   e   frisos  rutilantes;' 
Aos   pedestaes  atados  mil   amantes, 
Honesto   riso  suspirar  fazia. 

Movendo   longas   azas   brandamente, 

Voavão   esperanças   e  desejos, 

Co'   as   Graças  abraçada?,  c'os  Amores; 

Mas  retinindo  um   silvo,   de  repente 
A   cortina   cahio  ;   males   sobejos  ! 
Só   magoas   vi   depois,   sò   vi   temores. 


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IV. 

\_)s  antigos   poetas   fabulando 
Inspirados  por  deoses,  se  fingirão, 
Com  o   Olympo  sonharão  e  mentirão, 
A  falsos  Numes  torpes   aras  dando. 

Enéas  pio   ao  barathro  levando 
Ver  Eliza  outra  vez   lhe   permittirâo; 
E  umas  sombras,  que   ávidas  o   virão, 
Memorarão  o   caso   miserando. 

Para  honrar  de  seu  canto  a  melodia. 
Procurarão  desta  arte  engrandecê-la 
'>     E  quasi  forâo  tidos  por  divinos 

ràr&\     Eu   mais  fama  d.irei  á   poesia, 

„_,    Se  um  instante  sonhar,  Marilia  bella. 


Q.iie  sio  dos  olhos  teus  meus  versos  dinos. 


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V. 


A'  mesma  Senhora. 

V>ANTAR   Marília   ouvi  tâo   docemente, 
Que   o   coração,   prostrados   os  sentidos, 
Imaginou,   qne   até   pelos  ouvidos, 
Seus   olhos  o   assaltavão   de   repente. 

Entrava  a  doce   voz   tâo  brandamente, 
Quaes   entrSo   n'alma   os   olhos   seus  movidos. 
Com    formoso   desdém,   quando   rendidos, 
Piza  desejos   mil   tyrannamente. 

O   poder  milagroso  da  harmonia. 

Que  no   peito  em  triumpho   campeava,  ' 

Na   mão   por   palma   os   olhos   seus    trazia.         , 

Eu,   que   ao  carro   fatal   atado   andava, 
Se  era   vê-la,   ou   ouvi-la   não   sabia. 


I    -  Sei   que   os   novos   grilhões   não   estranhava. 


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VI. 


A'  mesmo  Senhora. 

Se   eu   soubera,   Marília,   que   vivia, 
O  doce  Amor  nos  olhos  teus  formosof. 
Em  meus  sublimes  versos  numerosos, 
O   dia  de  teus   annos   cantaria. 

Qual  brando  Orpheo  co'a  força  da  harmonia, 
Dos  Íngremes  outeiros    pedregosos. 
As   altas  faias,  álamos   frondosos, 
Para  ouvir-me   cantar  desprenderia. 

Nâo  cuides  que  vâs  fabulas  invento, 

Se  vendo  os  olhos  teus,  teu  rosto  amado. 

Do   peito   sinto   o   coração   fugir-me. 

Antes,  se  nio   me  engana  o  pensamento,.--'**^/ 

Farei   que   o   mundo   todo   namorado. 

Qual  fiquei  de  te  ver,   fique  de   ouvir-mv    '  |^  , 


Q  O  Q  O  e  '51  3  ©  s  '^  s  3  s  O  O  0  e  0  0  0  s 


VII. 

V_>HEIOS  de  espessa  névoa  os   horizontes, 
Espantosas   voragens   vem   sahindo  I 
Foi-se   o   sol   entre   nuvens   encobrindo. 
Voltando   para   o   mar   os   quatro  Ethontes. 

Caliio   a    grossa   chuva   pelos   montes, 
Os   incautos   pastores    aturdindo  ; 
E   engrossados   os   rios   vão   cobrindo 
Com   embate   feroz   as   curvas    pontes. 

Com  medonho  estampido  pavorosos, 
Os  longos  ecos  dos  trovões  soando, 
A  rezar  nos   pozemos  temerosos. 

Parou   a   chuva  ;   correm   sussurrando 

Os  torcidos   regatos  vagarosos  ; 

Kão   me   atrevo  a   sahir,   fico   jogando. 


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VllI. 

OE,  Beliza  gentil,  pudera   crer-te 
Exposto  a  todo  o  mal,   todo  o  tormento. 
Esperara,  voando  o  pensamento, 
Cora  suspiros  e  lagrimas   mover-te. 

Ousado  commetièra,  emfira,   render-te 
Sem  a  pena  temer  do  atrevimento. 
Pois  para  ter  desculpa  o   meu  intento, 
Bastava  ser  a  causa  sò  querer-te. 

Mas  vivo  táo  cortado  de  desgosto, 
De  desprezos,  traições  e  tyrannias. 
Que  sonho  cuido  ser  quanto  desejo. 

E   nem   i  luz  de  teu  sereno   rosto. 
Com  que  meus  tristes  olhos   alumias, 
Posso  crer  que  te  vejo,  se  te  vejo. 


éie^lóilooiO  ooo  ©  a  ©  o  g  a  a  a0Og)õ^3»- 


O' 


Si: 


IX.  i 

i 

/\0   som   da   Fonte-Saata,  que   corria 

X'alva  borda  do   tanque   debruçado, 

De  cansados   desejos,   já   cansado,  | 

O   triste   Corydon   adormecia  :  i 

Em   doce   sonho  imaginando   via  j 

De  Beliza   gentil   o   rosto   amado,  ' 

Que   na  tremula   vèa  retratado 
Dos   olhos   cobiçosos  lhe    fugia. 

Os   torpes  braços   sem   cessar   movendo,  '  ' 

Em   vão   aperta   a  limpida  corrente, 

Em   vãj   lhe  está  com   lagrimas   dizeido  ; 

( 
Se   folgas   de  que   morra  um   innocentc  ; 
Porque   foges  de   mim,   nyrapha,   sabendo,     ;-^. 
Que  Amor  me   mata,   quando  estás  presente?'-  n 


\» 


m 


X. 


vJUAL  a  mans:\  novilha,  qne  innocente 
Pelas   pontas   de  louros   enramada 
A  duro  sacríficio  vai  puxada. 
Sem  temer  a  secure  reluzente  : 

Sò   conhece   que   morre,   quando  sente 
O   frio   gume   na   cerviz   cravada, 
Então  ;   mas   tarde   já,  desenganada. 
Ao   cèo  se  queixa   da   malvada   gente ! 

Taes,   Beliza  cruel,   a   teus  ouvidos 
Voão  meus  rudes  innocentes  versos. 
Sem   merecer  desprezos,  nem  rigores. 

Quando  os  virem,   porém,  ensurdecidos. 
Quando  forem   pisados  e  dispersos, 
Debalde   espalharão   tristes  clamores. 


J". 


„<<^ÍK2ZiahMuã 


/^  Qes  eQeeesoeooGOGgoo®  gQ*- 


—XI. 


^■•M 


A'  Snr»  D.  Maria  Caetana 
de  Souza  Seyão. 

/\.MOR,   que   mil   ciladas   me  traçava 
Lá  dítráz   de  uma   verde   gelozia, 
Com  uns  pequenos  olhos   me   feria, 
Com   que   os   sentidos  todos   me   assaltava. 

Mal   retinio   a  frecha,   que   voava, 
Já  roto  o   pobre   coração   sentia ; 
E   o  sangue,    que   das   vèas   me    corria. 
Com   lagrimas   ardentes   misturava. 

Em   vâo   fugir  procuro,   em   vão   desejo 
Arrancar  da  ferida  os  passadores  ; 
Cravados      dentro   n'alma   me   ficarão. 

E   desde  então,   que   sempre  os   olhos  vejo. 
Esses   olhos  pequenos  e  traidores. 
Que   para  me   matar,   me   não  matarão. 


I.  J_Íjl:Lli 


A'   Snr»  D.  Helena  Felippa 
Xavier  Navarro. 


^OMTIGO,  LyJia,  morão  os  Amores, 
Morio   as   Graças,   Lydia,   na   verdade, 
Que  no  reino  de  Amor  a  liberdade 
Sempre  viveo  sujeita  a   mil  temores. 

De  teus  formosos  olhos  vencedores, 
Amor  as   armas   tem   na   cUiridade; 
Como  hade  voar  livre  uma  vontade, 
Por  entre   aljavas,   arcos,  passadores? 

Ninguém  solto  se  vè,  se  chega  a   ver-te  ; 
Por  mais  livre  que  traga  o  pensamento, 
Hade   amar-te,  servirte  e  obedecer-te. 

Kegar  o  captiveiro  nio  intento. 
Pois  inda  que  quizera   n3o  quererte, 
Nunca  livre  me  vira,  nunca  isento. 


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XIII. 

tíSPARGINDO   dourados  resplendores 
De   teus   annos,   angélica   Maria, 
Nasce   o   ditoso,   o  suspirado  dia, 
Dia   das   Graças,   dia  dos  Amores. 

Juncada   a   terra  de   orvalhadas   flores 
Em   signal   de  prazer  e  de   alegria, 
Das   frautas   alternando   a   melodia 
Travão   choréas   nymphas   e  pistores. 

Pelas   cop.cavas   fragas  retinindo 

O   brando  som   de   versos   sonorosos 

Teu  nome  estão  os  montes   repetindo. 

E    os  satyros   campestres   cobiçosos 
De  ver  os  olhos  teus,   teu    gesto   lindo. 
Se   pendurâo  dos   álamos    frondosos. 


XIV. 

Amigo   Frei  Joaquim,   assim  te  eu  veja 
Vigário   de   Pondá   ou   Taprobana, 
Assim      voltes  a  barra   Tagitana, 
Qjie  para  seu   cachopo  te  deseja. 

Assim   permitia  o  céo,   assim   proveja. 
Que  farto  de  charão  e  porcelana. 
Tragas  veste,  calção  de  linha  ousana, 
Por  solidéo   na  tola  uma  bandeja. 

Assim   Naire   montado   n'um  camelo 
Arrastando   as   qualdrapas   pela   ru.i, 
Passeies   por  Lisboa  a  passapello. 

Assim   digas,   assim   por  vida  tua, 

A  quem  sabes  que  adoro  com  desvelo, 

Que   est'alma  dantes   minha,  .igora  é  sua. 


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XV. 


Aos  annos  do  Coronel  de  Artilheria 
Frederico  Weinholtz. 

C^OM  soquete,   lanada   e    botafogo, 
Armado  vi  Amor;  tinha  assestados 
Em   plataforma   cera   canhões   dourados, 
Com   que   ao   mundo  fazia   um   vivo   fogo. 

Ko  serviço  cruel,  sem  desafogo, 
Fervião  seos  alígeros  soldados, 
As  balas  erào   olhos   magoados, 
O  estridor  das  peças  vivo  rogo. 

Eu,   que   o   golpe   temi  de   tantos  damnos, 
Que  é  isto,   ihes   bradei,   moços   traidores  r 
Sorrindo   me   respondem   os  tyrannos  : 

Weinholtz,   que   ao   gesto   lindo,  qu'aos  ardores 
De   Filis   se   rendeo,   hoje   faz    annos. 
Tão   bom   dia   festejão   os   Amores. 


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XVI. 


LOURO  chá  no  bule  fumegando 
De   Mandarins   e   Brahmenes   cercado  ; 
Brilhante  assucar  em  torrões   cortadj  ; 
O  leite  na  caneca  branquejando. 

Vermelhas   brazas  alvo  pio  tostando; 
Ruiva  manteiga  em   prato   mui   lavado  ; 
O   gado   feminino  rebanhado, 
E  o  pisco   Ganimedes  apalpando. 

A  ponto  a  meza  está  de  enx.tropar-nos, 
Só  falta  que  tu  queiras,  meu  Sarmenio, 
Com  teus  discretos  ditos  alegrar-nos. 

Se  vens,  ou  caia  chuva,  ou  brame  o  vento, 
tiio  pôde  a  longa  noite  enfastiar-n^s, 
Antes  tudo  será  contentamento. 


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XVII. 

UePOIS  de   at.ir  o   pobre  barco  Algido, 
AlgiJo   pescador  do   Tejo   undoso, 
Emquanto   o   bravo   Noto   procelloso 
Revolve   as   negras  ondas   insoffrido  : 

Entre  limosas  lagcns  recolhido, 

De   Dinamene   o   nome  saudoso 

Xa   liza   bóia   de   um   chinchorro   algoso 

Suspirando   entalhou   co'anzol   torcido. 

Depois  três  vezes  o  beijou  dizendo  : 

Q.uaes   serenSo  teus  olhos   meus  pezires, 

Teu   nome  o   mar  serene  ;   e   ao   mar  o  lança. 

Súbito   o   céo   azul   se   ficou  vendo  : 
Desfaz-se   a   branca  escuma  pelos    mares  ; 
Adormecem   os   ventos   em   bonança. 


i8 


XVIII, 


na   vasta   scena  do   futuro 
De  trágico  distitio   a  face   accesa, 
E   de   espectros   cobrir   a    redondezi 
O   nebuloso  céo,  o   polo  escuro. 

Rasgar-me  o   peito  e  coração   figuro 
Da  torpe  inveja  a  barbara  fereza: 
Da  fome  crua,  esquálida  pobreza 
Em  vâo  fugir  desejo,  em   vâo   procuro. 

Nada  vale  constância  e  sofFrimento  ; 
Monstros  feros,   Cerastes   assanhando, 
Paciência  e  valor  põe   a  tormento. 

O   que  mais  é,  que  a    vida  prolongando, 
Se  ceva   e  nutre  o  meu  entendimento 
Do  espectáculo   feio  e  miserando. 


XIX. 

íN 'UMA   sonora  roda,    que    girando, 
Desmancha   de  sens   raios   a   figura, 
Com   delicada   mão   de   neve   pura 
A   linda  Natarea  vi  fi.indo. 

O   linho   humed-.-cer  de   quando  em  quando 
Co'a   doce  boca  de   rubim    procura  ; 
Mas   Amor,   que   ciladas   aventura 
Em   torno   ao   louro   fio   anda   voando. 

Pezados   sobre   as   azas   meus   desejos, 

O   capitão   ousado   vão   seguindo 

Té   que   a   molhar   o   fio   se   inclinasse. 

Bradou  .Amor;  roub.írão-lhe   mil   beijos. 
Vè   o   triste   os   ladrões   ir  já  fugindo, 
E   p;de-nie   que   o   furto   lhe  entregasse. 


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Ao  brilhante  poder  do  santo  fogo 
De  teus  formosos  olhos  vencedores, 
Que  do  suave  Tyrse  sâo  senhores, 
Se  acolhe  humilde,  meu   humilde  rogo. 

Que   ampares,   gentil   Clori,  peço  e  rogo. 
Se  podem   commover-te   meus   clamores, 
A  quem  chora  da  sorte   os  desfavores, 
Sem   que  em  lagrimas  ache  desafogo. 

O   generoso  coração  inclina 

Do  teu  e  nosso  Tyrse,   a  que  se  dôa 

Da  mofina  e   misérrima  pobreza ; 

E  qual   Tyrse  na  cithara  divina, 
xi^        Teu  lindo  rosto  angélico   apregoa. 
Cantarei  de  tua  alma  a   gentileza. 


XXI. 


Ao  Snr  Theotonio  Gomes  de  Carvalho, 
sócio  da  Arcádia. 

/\KTE   meus   olhos   anda   Amor  voando, 
■Não  cruentos  virotes  espargindo; 
Mas   triste   e   magoado   o  rosto   lindo, 
Lagrimas   crystallinas   derramando. 

Nâo  ousado  e  soberbo,  humilde  e  brando, 
Esmola   pede   a   tenra   mão    abrindo: 
Se   lhe   digo   que   espere;   alegre   e   rindo, 
Me   vai   mil    esperanças   amostrando. 

Metto  a  mão  na  algibeira,  acho  só  versos. 
De  versos,  me  diz  elle,  quem  se  veste  ? 
Quem   mata   a   crua   fome   com   talentos  '{ 

Bem  sei  que  os  fados  tens  achado  adversos; 
iMas   pede   a   Theotonio   que  te   empreste 
'   TJm   dobrão   de   seis   mil   e   quatrocentos. 


/í^^^Siro  -fOQ  g  e  0  0  0  o  .i  0  Q  Q  O  O 

*  .'V  • 


XXII. 


Aos  annos  do  Snr  Tbeotonio  Gomes 
de  Carvalho. 

Oalve   formoso   dia,   alegre   dia  ! 

Que  os   olhos  viste  abrir  a   Tyrse   amado; 

Sempre   sejas   feliz,    abençoado. 

Cheio  de  gloria,   cheio  de   alegria. 

A   luz,   que   tuas   horas  alumia, 
Mil  vezes  torne  ao  Tejo  prateado; 
E   o  roxo  sol   no  carro  seu  dourado, 
Atropelle  os   frisões  da  noite    fria. 

Formoso  alegre  dia;  pois  nos  deste 
Um  limpo  corafão,  amparo,  abrigo 
Da  espantosa,  misérrima   pobreza  ! 

Que  dadiva  do  céo  nâj  nos  trouxeste  ! 
Ah  !   qne  um   amigo,   e  na  desgraça  amigo, 
.^ão  o  pôde  fazer  a   natureza. 


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XXIII. 


Aos  annos  do  mesmo  Senhor. 


INlão   te  direi  que    as   Graças,   qu' os   Amore 
Com   suave   prazer,   doce   alegria, 
Salvando,   caro   Tyrse,   o   teu   bom   dia, 
Grinaldas  tecem   de   raimoias   flores. 

Não  te  direi,   qu'as   nymphas  qu'os   pastores, 
Atroando   a   fragosa  serrania. 
Com   singel.i,   campestre   melodia, 
Cantio  os   annos   teus,   os   teus   louvores. 

Com  vozes  mais  sonoras  e  pungentes. 
Na  choça  estão  de  Cor)don  cantando, 
A  triste   Mãi,   os   filhos   inuocentes  : 

Kào   ao  som  de   áureas   lyras  modulando; 
Mas   com  devotas   lagrimas    ardentes 
Pela  vida  de  Tjrse   ao  céo   clamando. 


-»C^e  aeeeseee  o  0;  o  ;ã 


»4 


XXIV. 


Ao  mesmo  Senhor. 

IN  Ao  louves,  caro  Tyrse,   a  rouca  lyra, 
Do  rude  Corydon,  triste  forçado, 
Que  á  toste  da  galé   aferrolhado. 
Se  deseja  cantar,  chora  e  suspira. 

O  lasso  pensamento   nunca  tira 
Do  duro  remo,  do  grilhão    pezado  : 
Se  se  lembra  do  seu  antigo    estado, 
Attonito  e  frenético  delira. 

O   mar  a  cada  instante  lhe   apresenta 
Trágicas  scenas  de  futuras  mago.is. 
Mergulhando  entre  as  ondas  a  esperança. 

E   só   tu,   qual    santelmo   na   tormenta, 
Sereno  torna  o  furor  das  aguas. 
Lhe  dás  alegres  mostras  de   bonança. 


"^ 


li 


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25 


XXV. 

Cor.   X^AZE   versos,     meu   Tvrse,    u   liiiJu    Clar.i 
Teus  versos   quer  ouvir,   teu   doce   canto. 

Tyr,   Mas   que  versos   farei,   que   poss.io   tanto, 
Q.ue  branda   torne   minha   sorte   avara  ? 

Cor.   A  luz   dos  ollios    seus   formosa   e   clara. 
Foi  quem   u'  alma  te   deo  fatal  quebra:ito. 

Tyr.   Sâo   o   doce  veneno,   sSo   o   encanto. 

Com    que   Amor   as   c.ideias    me    prepara. 

Cor.   Teus  ais   magoados,    teus  fieis    ardores, 

Poderão  abrandar  tanta   dureza: 

Suspira,   que   bem   ouve   os   teus   clamores.  ■> 

Tyr.   Se  suspiros  abrand.ío   a  beileza,  ~- 

Brandos   espero  ver,   cheios   de   amores,  V 

Os   olhos,   em   que   vive   esta    alma   preza.  í 


^Op  3  e  9  S  0  3  0  5  0  ;:  O  o  |ra| 


XXVI. 

o  Padre  Francisco  José  Freire,  da  Con 
N  gregação  do  Oratório  e  sócio  da 
Arcádia,  mandando-lhe  pedir 
tabaco  hespanhol. 

VJ^UAES   as   portas  de  Jano   aferrolhadas, 
Onde  preza  mugia  a  guerra  dura, 
O   entupido  nariz   o  embate   atura, 
Do  teimoso   vaivém   das   más  pitadas. 

As   pretas  sobrancelhas   carregadas. 
Com   torvo   gesto,  feia  catadura, 
Sorvo  e  torno   a  sorver  ;   e   a  mão  já   fura. 
Em   vez   de   abrir  as   ventas  desfloradas. 


Debalde  o  marrafáo   empurro  e  metto, 
Alojado   na  brecha  o   mormo   grosso, 
V       Com  um   rodeiro   malho  atocha   o  taco. 

O  remédio  será  corno  ou  espeto, 


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,  'Se   me   não   mandas  já   por  esse   moço 
•  r^jBo, macio  hespanhol   louro  tabaco. 

h     .    ■ 


'^'  k)  XXVII. 


i\|     UMA   galé  Mourisca  aferroUiaJo, 
Ao  som   do   rouco    vento,   que   zunia. 
Sobre   o   remo   cruzando   as   mios    dormia 
O   lasso   Corydon   pobre   forçado. 

Em  agradáveis  sonhos  engolfado, 
Cuidava  o  triste,   que   o   grilhão  rompia, 
E   que  entre   as   ondas   Lilia   branda  via 
Talhar  c'  o  branco   peito  o   mar  salgado. 

De  vê-la  e  de  abraça-la  cobiçoso, 
Estremeceo,  tentando  levantar-se, 
E   os  fuzis   da   cadca   retinirão. 


Acordou   ao   motim,   e  pezarOso, 
Querendo   á  rude  chusma  lamentar-se, 
Só   mil   suspiros,  só   mil   ais   lhe   ouvirãí. 


28 


XXVIH. 

calva  do  Padre  António  Delfim, 
amigo  do  autor. 

llRA  alta  a  noite,   a  lua  prateada 
Já  no  sereno  céo  resplandecia  ; 
E  a  corrente  do  Tejo  parecia, 
De  ferventes  estreitas  marchetada. 

Então   Canidia  bella,  destoucada, 
Descalço   o   lindo   pé,  filtros   urdia. 
Em  torno  de  uma  loisa,  que  se  abria 
De  medonhos  espectros  rodeada. 

Regougavão   no  cume  dos   outeiros 
Esfaimadas    raposas;   na   floresta 
Lhe   respondiij   mochos  agoureiros. 


Brama   Canidia;   e  òs  Lémures  ligeiros 
Unhar  mandou  do  bom   Delfim   na  testa, 

f^P^fiuado  cabello  alguns  milheiros. 


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29 


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XXIX. 

Ao  Padre  Delfim. 

r  OI-SE   embora   o   Delfim!  Como  ficamos? 
Ah!   tyranno   Delfim   que   nos   deixaste! 
Comtigo   o   pr.izer  nosso   nos  levaste, 
Por  ti   afflictos   sem   cessar   chamamos. 

Em   vão   cansadas   lagrimas   choramos : 
Desta  pobre   choupana   te   enfadaste? 
Depois  que   a   nossos   olhos   te   negaste. 
Nem   comemos,    nem   rimos,   nem  dançamos. 

Escura   nos   parece   a   luz   do  dia! 
Da  tribte   noite  os   fúnebres   horrores 
.      Inda  fazem   maior   nossa   agonia! 

Tudo  se   nos   mudou   em    dissabores  ! 
Agua   fervendo   para  nós   é   fria, 
'  f-    O   chá  de   três   mil   reis,   c   chá   de   dores.       / 


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A'  calva  do  mesmo. 

/\,0   pellado   Eliseo   a    rapazia 
(Enxame  de  formigas  inquietas) 
Com  apupos  batenio-lhe  palmeias, 
Ergue-te,   ó  calvo,  em  chusma  lhe  dizia. 

O   pobre   com   a   capa  se   cobria ; 
E  deitando  a  correr,  as  sapateias 
No   calcanhar  tangiâo   castanhetas. 
Cujo  som  pelas   ruas  retinia. 

Assim   créca   Eliseo,   Delfim  António, 
Fugiste  de  entre   nós  a  passapello? 
Parece  que  foi  cousa  do  demónio 


(6 


De  cada  vez   te   falta  mais   cabello: 
Clérigo  calvo,   è  clérigo  bolonio; 


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XXXI. 


Ao  Padre  Delfim. 


INÃO   se   paga  de   versos   a  saudade, 
Nem  de  relva  se   farta   o   manso   gado; 
O   campo   que  do  gelo   foi   crestado, 
Não   torna   a   rebentar  co'a   tempestade. 


9 


Se   queres   que  te   creião,   se   é  verdade, 
Q.ue   este   cirio   te   deve   algum   cuidatio, 
Nâo   estejas   em   casa   encoquinhado ; 
Foge,   foge  da   misera  cidade. 

Estes   campos  te   esperâo   com   mil   flores, 
A   Fonte-Santa  seus   crystaes  desata  ; 
Sem  ti   o   nosso  pranto  se   não   sècca. 

Desprezas   o   agazalho   de  pastores? 
Pois  se   de   apparecer  aqui   não   trata, 
Fazemos-lhe   sequestro   na   rabeca. 


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32 


XXXII. 


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Ao  fogo  que  houve  em  Alcântara 

n'  um  grande   monte   de  tojo,  alludindo 

á  calva  do  Padre    Delfim. 

1   OR   entre  crespas  serras    enrolado 
Negro  fumo,   o  clarSo  se  despargia 
De  um  incêndio  voraz,   que  á  vista   ardia 
Do  dono  da  fogueira  descorado. 

Soavão  crebros   golpes  do    machado, 
Cora   que   a  mestrança  intrépida   batia  : 
A  pezada  calceta  retinia  : 
Estava  irrmenso   povo   embasbacado. 

Achicavào   as   bombas    sequiosas  : 
Marcha  em   fileira   a   guerreira   gente  : 
Nunca  no   céo  se   vio   lua   tâo   alva  ! 


Co  reflexo  das  chammas  luminosas, 
?rilha  do  Tejo  a  túmida  corrente  ; 
Qual  brilha  do   Delfim   ao  sol  a  calva. 


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Ao  Padre  Delfim. 


vJUEM  vio  o  Padre  António?  Um  clérigo  .ilvo. 
Olhos   azues,   as   faces   mui    rosadas, 
Castanhas   as   melenas   estiradas, 
E   na   brunida  testa  um   pcnco   calvo  ? 

Quem   m'o   trouxer   aqui   a   são   e   salvo. 
Certo   não   perderá   suas   passadas. 
Na  verdade,   que   ha   horas   minguadas  ! 
E   deixei-o   fugir  ?   Sou   um    papalvo  ! 

Vai   tu,   Manoel,   pergunta   a   toda   a   gente. 
Se   conhecem   um   Padre   rabugento, 
Qiie   gosta   de   viver   alegremente  ? 

Anda,   rapaz,   ligeiro   como   um    vento  ; 

Vai  pregar  um   escrito   a   São   Vicente, 

/i*",''^    '  E   põe   outro   na   rua   de   S.io    Bento. 


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XXXIV. 

A'  calva  do  nlesino. 

V^_>OM  a  mão  na  rabiça,  e  co'  aguilhada 
O   colono   villão  os  bois   picando, 
Abre   o   comprido  rego,   a  terra  arando, 
Que  quer  de  louro  trigo  semeada. 

Depois   de   grossas   chuvas   orvalhada. 
Rebenta  a  verde   canna  levantando, 
E  no   quente  verão,  do  vento  brando 
Sussurra   levemente   meneada. 

Entáo  os  encalmados  segadores 
Lançâo   por  terra  os  esquadrões   viçosos 
Da  carnagem  cruel  nenhum  se  salva. 

Assim  andio  demónios  malfeitores. 
Ceifando  nas  cabeças  de  tinhosos  ; 
Assim   Delfim   a  tua  se   fez   calva. 


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Ao  Padre  Delfim. 

A/''  ApPARECEO   o   Padre   António;    estava 
Escondido   n'ura   covo   de   gallinhis  ; 
Para  caber  metteo-se   de   gatinhas, 
E    nem   que   pinto   fora   assim   piava. 

£u.    Quem  ?   O  Padre   António,   que   tocava 
Diversos   minuetes   e   modinhas, 
Cuja   calva  era   funções   de   ladainhas 
Entre   cinzentas   c'roas   alvejava  ' 

M'   Esse  mesmo.  Eu.  Quem  fez  tão  bom  achado  "í 
\{ '    Certo   ntravessador,   que   mui   contente, 
Entre   capões   o   tinha   pendurado. 

Mis   vio,   que  lha   dizia   toda    a    gentt:  : 
Como  está   manso   pelos   pés   atado  ! 
Se   o   soltarem,   vai   dar   a   São   Vicente. 


-,     -;li  !ii! '  '  .V  ^^-^  -:^^\.c^.- híf^^^iiliV  ú- 

.    >'    '  4    i-^    ^i    X    ^i    H:_H    H    H    H    f<    M    H    .M 

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XXXVI. 


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Ao  Padre  Delfim. 

1  AMBEM   me  lembra  a  mim,  que  já  tiveste 
Mais   cabello   na   calva   luzidia; 
E   me   lembro   também,   de  qu'algum   dia 
De  vir  comnosco  estar  gosto  fizeste: 

Nem   me  esqueço  de  quando  nos  tangeste 
(Por  signal   que   cigarra   parecia) 
A   rabeca,  que  a  todos    aturdia. 
Até   qui   coitadinho   endoudeceste. 

Desgraçado   Delfim  !   Eras  bom   homem. 
O    mofico  do  moço  deo-te  olhado. 
Foi   o   mesmo  que   verte   lobishomera. 

Agora  andas  cumprindo  com  teu  fado  ; 
Só  gostas  de  comer  o  que  elles   comem. 
Depois  de   digerido  e  transmutado. 


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X\XVII. 
A'  calva    do  Padre  Delfim. 

i    OR   Cerastes  e   Gorgonas  lançada, 
Do   mirrado   Cassini   á   sombra   fria, 
Passa   do  lago   Averno   a   gritaria. 
Sobre   as   azas   da   noite    reclinada. 

Das   veneráveis  deosas   avexada 
Teme   não   rompa   cedo   o   claro   dia: 
E   acossada  dos   cães  freme,    assovia. 
Tremendo   a   terra  toda   de   assustada. 

Silvando  vaga  assim   de   rua   em   rua, 

E   ao   som    medonho  da   infernal   calceta, 

Súbito  quebra   o   somno   mais   profundo: 

Vem    buscar   do    Delfim    a    calva  nuJ, 

Para   traçar  o   giro   de    um   cometa 

Q.ue  lia  de  crestar  a  grenha  a  todo  mundo. 


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XXXVIII. 
Ao  Padre  Delfim. 

1kD.\  a  vermelha  Aurora  somnolenta, 
Os  olhos  esfregando,   mal  abria 
A  dourada   manhã,    e   a   luz   do   dia 
Ko  Tejo  se  encostava  macilenta. 

Das  nuvens  o  theatro  representa 
íris  formosa,  qne  fugir  se  via 
Do  socegado   mar   da   Trafaria, 
Triste   final   da  próxima   tormenta. 

Quando  três,   quatro,  seis  e  oito   vezes 
O  inquieto  Delfim   por  mim   chamava, 
Os  lombos  despegando-me  do  leito. 

Fallou,  tossio,  tocou  e  em    taes    revezes, 
Q.uando   cuidei    qne   socegado   estava, 
Fez-me  os  versos  fazer,  qne  tenho  feito. 


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XXXIX. 

Ao  Padre  Delfim. 

t/UAL  saudosa  mã;,  que  da  ribeira 
Bradando  afflicta,  em  lagrimas  banhada 
Co  amado  filho,  de  quem  era  amada, 
Vò    da    praia    fugir   a    iiáo    ligeira. 

Tal   nossa  saudade   verdadeira 
De   te   não   ver   aqui   desesperada, 
Sente   que  da  afHicção  a   alma   cansad.i 
EstA   chegando  á  hora  derradeira  ! 

Tristes,   mudos,    affiictos   e   chorosos, 
Uns  para  os  outros,  nem  se  quer  olhamos 
Q.ue   longos   são   os   dias   invernosos  ! 

E   se   ás   vezes   as   trombas   levantamos, 
Pelo   Padre    Delfim,   delle   saudosos, 
Uns   aos   outros   a    medo   perguntamos. 


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XL. 

Ao  Padre  Delfim. 

lyJU'  é  delle  o  cabeção  do  Padre  António  ? 
Onde  tem   o  cbapéo,   mais  a  bengala  ? 
Francisca,  vè  se  podes    apanha-la: 
Fngir-nos  se  intentava,  era  bolouio. 

Ora  anda,   rapariga  do  demónio  ; 
Espera,   escuta  se  resona,  ou  falia. 
Acordaste-lo  ?  Valha-te  uma  bala  ; 
Pois  perdeo  duas   missas   Santo  António. 

Deos  te  salve.   Delfim,   muito  bons  dias  : 
Queres   chi  ou   café  ?  A   Miss  Rosa 
Tem   ordem   de   fazer-nos    as   fatias. 

Q.uanto  esta  manhã  fresca  é  deliciosa, 
Quanto  de  inverno  sâo  as  noites  frias. 
Para   nós   tua   vista  é  saborosa. 


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/\MIG0   Padre   António,   a  Fonte-Santa 
Sem   ti   nâo   vale   nada;   descontentes 
Convidados,   amigos   e   parentes, 
A.  todos   má  tristeza   nos   quebranta. 

A   mim,   pobre   de   mira  !    Já   me    ataranta 
Ouvir  supplicas   tão   impertinentes. 
Uns   dizem,  que   virás  ;   outros,  que   mentes. 
Que   deixaste   o   bordão,   que   tezo    canta. 

Ora   vem,   bom   Delfim,   verás   louraças, 
Magotes  e   magotes   de   mulheres. 
Umas   assim   assim,   outras   caraças. 

Sege  te   mandarei,   se   sege   queres  ; 
Nâo   te   peço  senão,   que   agora  fasas, 
O   que   fizeste   já   n'  outros    prazeres. 


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XLII. 

Ao  Padre  Delfim. 

/\MIG0,  fallo  serio,  saudosos 
Pelo   nosso   Delfim   todos   chamamos. 
A's   portas   e   janellas   perguntamos. 
Que  feito  foi  de  ti,  de   ti  queixosos 

Sempre  os  olhos  trazemos  lagrimosos 
E  crestaJos  do  pranto  que  choramos. 
A's  mangas  sem  cessar  nos  assoamos. 
De   cada   vez   nos   vemos   lEais   ranhosos. 

Nào   desprezes.    Delfim,   o   amor   ardente 

De  teus   velhos  amigos,  coitadinhos. 

Que  seta  ti  sol  n^o   achJo,  que  os  aquente 

Quaes   pião   pela   máe   os   pintainhos. 
Assim   chama   por  ti   toda  esta   gente. 
Parentes,  convidados  e  vizinhos. 


45 


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XLIII, 

IN  A.  solitária   praia   a   ruiva    arê.i 
Com   a   luz   da   manhã    resplandecia; 
De  inquietas   estrellas   se   cobria 
O   fundo   pego,   que   sonoro   ondca. 

De   branca  espuma   na   cerúlea   vè  i 
O   gado  de   Protheo   sulcos   abria  ; 
Glauco  da   barca   as   redes  desprendia 
O  lanço   consagrado   a   Galatéa. 

Mas   suspendeo   as   chinxas   assustado, 
Vendo   boiar   do   Tejo   n'agua   pura 
O   coral  roxo,   o   murice   dourado. 

Ouve  uma   voz   bradando  :    ,,  Quem    procura 

Profanar   este   dia   consagrado 

Da  engraçada   Corina   á   formosura  ?  ,í 


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XLV. 


llONTEM   se   foi  d'aqui   Nize   formosa. 

Nize  nosso   prazer,  nossa   alegria  : 

Tornou   se   em   feia  noite   o   claro    dia  ; 

Cobrio-se   o   sol   de  sombra   pavorosa. 

Ate    a    clara   fonte  saudosa 

Inconsoláveis   lagrimas   vertia  : 

E   a   tarde,   que   mil   ditas   promettia, 

Oh!   quão   triste  nos   foi,   quão   amargosa! 

Keste   espanto   fatal   um   desgraçado, 

Que   por   Nize   em   amor  todo   se   inflamma, 

De   Kize   tão   cruel   assim   se   queixa  : 

Se   o   mundo   todo   fica   tão    mudado, 
Quando   foges   de   quem   em   vão   te  chama, 
0\x   não    v.is,    ou   teus   olhos   c.i   nos    deix«- 


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XLVl. 

Aos  annos  da  Snr*  D.  Camilla. 

UOZE   vezes  o  sol  com  seus   fulgores 
De  teus  annos   dourou,    CamilU,    o   dia  ; 
E  doze  vezes  cheios  de  alegria 
Empennarão   as   settas   os   Amores. 

Croada  a   primavera   de   mil   flores, 
Pelos   campos   aromas   espargia, 
O   mesmo   céo   de   estrellas   se   cobria  : 
Brilhavão   da  virtude   os   resplendores. 

Jazem  na  fresca  relva  os   armentios  ; 
E  os  pastores  tocando   nas   avenas, 
Modulão  o  teu   claro   nascimento. 

Murmúrio   brandamente   os   alvos   rios. 
Correm   sonoras   fontes   mais   serenas, 
Tudo  respira  emfim  contentamento. 


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XLVII. 

A'  uma  senhora,  a  quem  o  autor 
chamava  sua  mãe. 

V_>OMIGO   minha   mãe   brincando  um  dia. 
A   namorar   c'os   olhos   me   ensinava; 
Mas  Amor,  que  em  seus  olhos  me  esperava, 
Com    mil    brilhantes    farpas   me    feria. 

De   quando  em   quando   mais   formosa   ria, 
Porque   incapaz   do   ensino   me   julgava; 
Porém    tanto   a   liçâo    me     .aproveitava, 
Que   suspirar   por   ella   já   sabia. 

lím    poucas   horas    aprendi   a   ama-la  : 

Ditoso   se    tal    arte    não   soubera. 

Mão   me   cus;ára   a   vida   não   logra-la. 

Certo,   que    aprender   menos    melhor  era  ; 
Pois   não  soubera  agora  deseja  l.>, 
'Nem   de   tão   louco   amor  enlouquecera. 


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XLviir. 

A  Jeronymo  Henriques  de  Sequeira. 

UOUTOR  Henriqaes,  o   Garção  doente, 
Vai-se  achando  peor,  a  febre   atura ; 
A  face  cada  vez  está  mais  dura. 
Tratando   mal   de  mim  toda  esta   gente. 

Cuido  que  vejo   a  fouce  reluzente, 
Na  descarnada  mào  da  morte  escura 
Ante  03  olhos   girar,  e   a  má   figura 
Bem  certa  de  vencer,   mostrar-me  o  dente. 

Um   bando  de   atrocíssimos  peccados, 
Rezenha  estão  fazendo  em   outra  parte, 
Terço  de   Tabareos  mal   encarados. 

Q.ue  poderei  fazer  senão  chamar-te  'í 
Teu  nome,  se  me  livras  de  cuidado, 
Cantando  espalharei    por  toda  a  parte. 


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XLIX. 


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1  RES   vezes   vi,   M.irilia,   de    alva   liia 
Cheio   de   luz   o   rosto    prateado, 
Sem    que    dourasse    o    campo    matizado 
A   linda   aurora    da    preseiiya    tua. 

Então  subindo   X   serra   calva   e   nui. 
De   um   Íngreme  rochedo   pendurado, 
Os    alhos    alongando    pelo    prado, 
Chamava,    mas    em    vão,    a    morte   crua. 

.Mli   commigo   vinhão   ter   pastores. 
Que   meus   suspiros   fervidos    ouvião, 
Cortados    do    alarido    dos    clamores. 

Tanto   que   a   causa   de   meu   mal   sabi.ào. 
Julgando    sem    remédio    minhas   dores, 
Por  não  poder-me   consolar,    fiigiào. 


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Lacaios,   mulher,   filhos    e   criadas. 
Todos   clamando   estão   pelas  fogueiras, 
Quaes   gritâo   marafoaas  regateiras, 
Pela  taxa,   ou  tributo   alvoroçadas. 

O   cotão  sacudindo,   despejadas 
Lhes   mostro   sem   pataca,   as   algibeiras  ; 
Elias,   que   são  ladinas    e   matreiras, 
Trazem   papel   e   pennas   aparadas. 

Que  te  escreva   me  pedem,   que  te  peça 
Para   cabeças,   ou   barris   dinheiro, 
Q.ue   o  Luiz   irá  lá  a  toda  a  pressa. 

Que  remédio  !   Despacho  um   caminheiro. 
Pois  temo,   que   me   queimem   a   cabeça, 
Ou   me  ponhão   por  masto   no  terreiro. 


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I 


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LI. 


JA   detrás   cio   cas.il   vem   resurgiiido 
O    Pedro   e    Frei   Joaquim  ;    eis   que    da    Fonte 
Rebenta   o   bom    Mardól   no   preto   Kitlionte, 
E   c'o   chapéo   na  mão   se   vem   já  rindo. 

Na   janella   apparecc    o   rosto    lindo, 
Q.ue   nâo  é   justo,   amigo,   que   te   conte  ; 
S.iltão   os   dois   A   terra   alli   defronte  ; 
.\s   raparigas   vão   de   cá   sahindo. 

laz   Francisco    Raymundo   de   barrete 
Em   trages   de    Confúcio   ou   de   Mafoma, 
Os    gentis   oUios   baixa   Aonia   s:\nta. 

O   Pedro   corre   a    mâo   pelo   topete, 
Depois   de   cocliichar  o   chá   se   toma  : 
Eis-aqui    o    Long-Room    da   Fonte-Santa. 


^^m^^nw^Ftwfmy^'--'^ 


INDA   que   abrindo   a   boca   o   mar    irado 
Os  dentes  mostre  em  borbotões  de  espuma  ; 
Ou   nos   abysmos  rápido  se   suma  ; 
Ou   caia  das  cstrellas   despenhado  : 

Inda  que  o  oceano   denodado, 
Co   grão   tridente   dardejar  presuma  , 
E   que   o  misero  corpo  me  consuma, 
De   cerúleos   delfins  atassalhado  : 

Inda  que  Europa,   com   fragor  estranho, 
Suraergindo-se  seja  a  campa  minha, 
Servindo-me   os   antípodas  de  lastro: 


Qual  impávido  Séneca  no  banho, 
Com   os  dedos   fazendo  tesourinha, 
Repetirei  a   historia   de   Alemcastro. 


Ur 


LIII. 


OK    como   tu.   Amor,    mandas    e    queres 
Que   admire   de   Tvrcea   a    formosura. 
Igual    á    que    me    abraza    chamma    pura 
Em    seu   peito   iuvencivel   accenderes  : 

Se  em   seus   divinos   olhos   tu    pudores 
Claros    signaes    mostrar-me    de    ternura  ; 
Se   em    ve/    de    ingrata    ser,    e    ínr   tão    dura, 
Q.ue   benigna   me   attenda,   emfi  n    vencjres  ; 

Então    direi,    Amor,    que    és    poderoso. 
Que    te  é    d.-vida    nossa    idolatria, 
E    que    podes    ta^er-me    venturoso  : 


Mas    receio    que    Tyrcea    ingrata, 
Cedendo    a    meu   destino  rigoroso. 
Destes    si;spiros    faça    zombaria. 


54 


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LIV. 


Ao  terremoto  do  i»  de  Novembro  de  1755 


Afortunado  Enèa?,  que  sahiste 

Da  destruída  Tróia,   carregado 

Com   o   pezo   feliz  do   pae   amado  ; 

E   assim   as   leis   do   sangue   bem   cumpriste 

Também    ne;sa   piedade   resististe 
Ao   direito    fatal   do   injusto   fado  : 
Se  viste   o   pátrio   ninho   destroçado, 
Salvo,   quem   te  deo   ser,   ditoso   viste. 

Os  penates,  os  sócios  transportaste 
Ao   Lacio   porto,    aonde   achaste   abrigo. 
Onde  um  novo   palladio  coUocaste. 

Eu  provei  mais  cruel  fado  inimigo, 
A   pátria  vi  arder  ;  ta   a  salvaste  ; 
Mas   eu   perdi  o   pae,    perdi   o   amigo. 


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LV. 


A  sua  mulher  a  Snr'  D.  Maria  Anna  Xavier  {(| 
de  Sande  e  Salema. 

/\0    som    dos   duros    feires,    que    ;irrastava, 
A    lyra    de    ouro    Corydon    tangia, 
De   Mareia    o    doce    nome   rej-etia  ; 
Mas   no   meio   do   canto   soluçava. 


No    rosto    macerado,    que   enfiava, 

O   lagrimoso   pranto   reluzia  ; 

E   nos   olhos,   que   aos   altos   céos   ergi'.i.i, 

O    pens.imcnto    intrépido    voava. 

K.io   se   assombra   de   ventos   insoffridos, 
Nem   com    ousado   lenho   arar  intenta 
O   polo   do    futuro   nebuloso  : 

Menos    chora   terrenos    bens    perdidos  : 
De    pouco    um   peito    grande    se    contenta  : 
Antes    quer   ser    honrado,    que    ditoso. 


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LVI. 


^UJOS   Broutes  eslão   arregaçados 
Batendo   o   rubro   ferro,   e   retinindo 
Os   rijos   malhos,   vã  D   ao   ar   subindo 
Estellantes   coriscos   enrolados. 

Ao   fuzilar  dos   golpes,   pendurados 
Apparecem   mil  elmos   reluzindo ; 
Na   forja   a   labareda  está  zunindo, 
Impellida  dos  folies   engelhados. 

Crystallino  suor   alaga   a   testa 

Do   coxo   mestre  ;   a   calma   da   officina 

A'   fre':ca   viray.ão   as   azas   cresta. 


p»Kí),-  r^^      Forjavão   uma  setta   colubrina  ; 

A'   vista  dos   bons   olhos   de    Corina. 


Sj/T'/     ^    |'<  Eis  entra  Amor,  e  diz-lhes  que  n.ío  prestí 


57 


A'  morte  de  Félix  Coutinho 

CSPIRITO    gentil    do    esposo    .im.ido, 
Q.ue  sobre   as   azas   de   virtudes  santas, 
Muito    acima   dos    astros    te  levantas, 
Do    misérrimo   corpo    desatado  : 

Ante   o   sólio   de   e.strellas  recamado, 
Já   do    grande   Adonai    o    nome   cantas  ; 
E   do   perpétuo   dia   não   te   espantas, 
Que    a    nossos   mortaes   olhos   é   vedado  ; 

Se   o   p.irpureo  semblante   a   nós   volvendo 
(Nova  constellaç.^o   resplandecente) 
A   terra,   lá   do   cio,   inJa  est.is   vendo; 


r.i       Não   te    canses   de    nosso    an.or   ardente, 
f/fi^f-     }]'i         Q.ue  este    pranto,  que    ves   estar   correndo, 
Q.ue   viva   cá   sem   ti,   me   não   consente. 


LVIII. 


Contra  José  Basílio  da  Gama. 

V,,/JJEM  vem  lá?  quem  nos  honra?  Este  estudante, 
Q.ue   das   Musas   quer  ter  o   magistério, 
Aprendeo   com   varões  do  sacro  império, 
Porém  se   tolo   foi,   veio   ignorante. 

Examinado   elle,   é   um    pedante 
Das  Musas   portuguezas   vitupério. 
Foi   creado   no   cálido   hemispherio, 
Fidalgo  pobre,   cavalleiro   andante. 

Do  alto  monte  que  é  aos  céos  visinho 
Só  elle  o  alado  bruto  enfreia  e  doma. 

Faz  castellos  no  ar  de  cedro  e  pinho. 

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^S^f^.^     o  louro,   quando   quer,  despreza  e  toma  : 
vv]v/'  Arredem-se,   senhores,   dêem    caminho, 

Passe  o  senhor  quaqui,   que  vem  de   Roma. 


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I  LIX. 

Contra  um  rancho  satyrico 


1   INTO   fiJílgOj   embiix.iJjr   di   Mancha, 
Tu    Monteiro    roaz,   que    na   baralha 
Vales   por  espadilha   da   canalha 
Q.ue   a   fama   allieia   com   ferretes   mancha  ; 

Padre  Niceno,   tu,   patrão   da-lancha, 
Carregada  de   drogas   da   antigualha, 
Que    o    Bandeirinha    alvar   á    tôa    espalha, 
Potro   que   n'outro    potro   se    escarrancha  ; 

Capitão   Archimedes,   tu   zarolho, 
Manoel   de    Souza   que    pareces    Mendes 
Que  da   recua   aproveitas   o   re=.tolho  ; 


-,.         Ulpiano   venal  ...    tu    bem    me  entendes  .  . 
^S^f^^^     .■<^  Se   para   estas   cousas   tenho   dedo  e   olho, 
1VV>'     '   '  Em    peralvilhos    jubilado    tendes. 


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LX. 


1  U   és   Dircea  filha  do   Tirreno, 
Eu   um   dos   filhos  sou   do   pobre  Alceste, 
Mas   nem   por  fado   teu  tal   pai  tiveste, 
Nem   eu  por  culpa   minha  sou    pequeno  : 

Bem   sei   que  te   pretende   o  rico  Alceno, 
Mas   se   pelles   e   lãs   mais   finas  veste, 
TSo   bem   no   amor  o   venço,   q*ial   cypreste 
Excede   no   robusto   ao   brando   feno. 


Deixa   vaidades  da   justiça   alheias, 
Nâo  desprezes   affectos  e   ternura, 
F^     Por  teres   mais   cabritos  e   colmeias. 


Ttfòr  \ ) JY '  Vè  que  a  virtude  própria  em  mim  premeias, 
E   nelle   só   premeias  a   ventura. 


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LXI. 

ÍNAO    cobre    v.istos    campos   o    meu    gaJo, 
O    maioral    não    sou   d.i    nossa    ald.-ia, 
Do    meu   traballio    conio,    mas  Dircea 
Ainda    que    sou    pobre,    vivo    honrado. 


Ko    jogo    da    carreira    c    do   cajado 
Até   o    dextro    Algano    me    receia, 
Qual    loura    espiga    de    grãosinhos    cl 
Me    alegra    ver    teu    rosto   delicado. 


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p^  >jpr  -^  >^  NÇ?  v^  w  .<^,  V'  -'^'Yrf  'V  i"^  ^  :V  "^1 

(»'  o  .  ■  o  /  o     ■"    '  o   :•  Cl '/ o  •'/  o   /  Q    ■■  c:  1    o  {/■  n  w  o  yo  i,'  o  ;/  o  y  o| 

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62 


LXII. 


Ao  Padre  António  de  S.  Jeronymo 

Justiniano,   Capellão  do   coro   de  N.  Snr» 

do  Loreto  da  Nação  italiana. 

IVllSERO   gandaeiro   do  Parnaso, 

Que   para   alimentar  teu   pobre   estylo 

Das  escorias   tiraste  do   chirilo 

Com  que  da  ideia  encheste  o  tosco  vaso: 

Apoilo   faz   de   ti   tâo   pouco   caso, 
Que  vendo   que    tu   foste   persegui-lo. 
Podendo  te   mandar   beber  d'  aquillo. 
Mandou  te  desse   fúria  o  seu  Pégaso. 

'  Essa    fúria   que   o   Pindo  te  dispensa. 

Bem   se   vê   que  é   de  besta;   no   proluxo 
O   dás   a   conhecer  de   uma   obra   extensa. 

Deo-te  Pégaso  as  aguas   de  repuxo, 
Que  Apoilo  só  se  andasse  de  corrença, 
E'  que   podia  dar- te   o  seu   influxo. 


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/\MOR  no;  olhos  da  formosa    Clara 
Armado    não   d.'    settas,    de   ternura 
Cruéis    vinganças,    implacável    jura 
Guerra    fatal    aos    corações    declara. 

Dos    brandos    tiros    que    d'  alli   dispara 
Ninguém    pod^,    ninguém    fugir   procura 
Q.ue   do    mesmo    poder   da    formosura 
Kenhum    peito    Je    bronze    se    depara. 

Seus   lindos    olhos   c^m    desJem    movidos 
Pis.ào    desejos    mil,    rendem    mil    peitos, 
Lanç.io    por   terra    corações  feridos. 


Se   esquivos    causão    \Xo    cruéis    cffeitos 
Inda    causão    mais    anciãs,    mais    gemidos 
Quando    se    deixão    ve-   a    amor   sujeitos. 


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64 


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LXIV. 
A  António  Diniz  da  Cruz. 

V^/UIXZE  vezes   a  .iiirora   tem  rompido 
li   accendi   outras   tantas   a  candêa. 
Desde  que  prezo   estou  nesta   cadea, 
Sofirendo  o   qu;   nenhum   cá   tem    soffrido 

De   todo  tr.igo   o  estômago  perdido  ; 
Como   frio   o  jantar,    mal   quente   a  cèa, 
E   este   raisero  ornato   cuie   me  arrca, 
De  noute  ó   cama,   de   manhã    vestido: 

A   um   canto  da  bocj   arrumo   um   dedo: 
Subo   os   olhos   ao   tecto,    ao   chão    os   mando 
Sem   saber   o   que    faço    me    arremedo: 


Comigo   mesmo  estou   philosophando  : 
Nego  os   mesmos   princípios  que   concedo  ; 
Vc   tu,   meu   bom   Diniz,   quil   louco  eu   ando  1 


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ODES 


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Aos  fidalgos,  que  protegião  o  theatro 
do  Bairro  Alto. 


Siropht 


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Ao   arábico   incenso,   ouro   luzenti-, 

Xeni    pérolas    do    Ganges, 
\iío   tenlio   que   off'recer-vos   reverente' 
Malhas,    arnezes,    púnicos   alfanges  ; 

Mns  soberbas   phalanges 
Di:  almos  liymnos  Dirceos,  qu'immort;\cs  tecem 
Mil   c'rôas   á   virtude,   me   obedecem. 


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Antislrophe. 

Fuja  o  profano  vulgo,  qual  nos   montes 

O  rebanho  medroso, 
Quando   vè   fuzilar   nos   horizontes 
O    farpado   corisco   p.ivoroso. 

Ouve   o   trovão   ruidoso, 
Correndo   pelo   valle  se   derrama, 
E   em   seu   balido   o   pegureiro   chama. 

Epodo. 

Nos   mansos   ares   vejo 
Ji  sobre  as  azas  lúcidas   pezados 
Meus  fogosos  Ethontes,   que  banhados 

No   doce,   flavo  Tejo, 
Os   freios   de   diamantes   mastigavão 
Quando   as   nymphas   de   rozas    os  c'roavâo. 


69 


Slrophc. 

Esta,    que    afino    cithara    famoía, 
Deo-m'a    o   cysiie    do    Ismcno; 
Cujo   canto   em    Elia    victoriosa 
Foi  sempre  ás  -Musas  mais  qu'ao  Pinjo  ameno; 

Com   semblante   sereno, 
A    mão    nas    áureas    cordas   me    firmava. 
E   ás   argivas   canções    me    acostumava. 

^4nlistrophe. 

Assim    digno    n.e    fez    do   levantado 

Assumpto    magfstoso, 
A    quem    lioje    me    inspira    a    luz    do     fado, 
Que   em    meus    versos    lhe   erija  altar    glorioso 

Brame   o   tempo    invejoso, 
A    fouce    morda,    e    ameace    damnos; 
Mas    meus   versos    domin.io    sobro    os    annos. 

Epoilo. 


r 


Canto    a   illustre   e    clara 

Descendência   de    heroes,    que    a    lusa    tcrr: 

Ou    na   dourada   paz,    ou    dura    guerra 

FizerSo   mais   preclara  : 
Cuja   fama    em   relâmpagos   diffuza. 
Ainda   fulmina  os   campos  de   Ampcluza. 


Strophe. 

O   heróico   e   real   sangue   vos    infiamma. 

Que   regou   derramado, 
Louros   e   palmas,   que   cultiva   a   fama, 
Nos   espantosos   montes   do   Salado. 

O   bárbaro   espantado 
Deixa,   fugindo   á   ultima    ruina, 
Arrazadas   de  luas   a   campina. 

tAntistrophe. 

Que   eterna   gloria!   Immensa   luz  scintilla 

Nas   aras   da   memoria! 
Alli   Farrobo   vejo,   e   vejo   Arzila, 
Destroçados   despojos   da   victoria  ! 

Da  lusitana   gloria 
Escravas   gemem,   mostrâo    de   horror    cheias, 
Ceuta,   Larache   e   Tanger,   as  cadeias. 

Epodo. 


Para   fugir   no   Oriente 
Do   pátrio   ninho   impávida    fugindo 
Está  sonoras  velas  desferindo 

A  brava  lusa  gente. 
Arando   o   Gama   vai   sem   temer   Juno 
Os   inhospitos  campos  de  Neptuno. 


■'f >  »^  J»  ey-^-C?-»^J^  :y 


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71 


Sirophe. 

De   Alhuquerques,   Almeidas,   Castros   fortes. 

Que  feitos   não   pregoa 
A   honrosa   tradição,    que   espanta   a    morte, 
Q.u'além   dos   tempos   derradeiros    vôa ! 

Ásia   respeita    em    Gôa 
O    nome   portuguez,    luzes    divinas, 
Que    humilde   adora    nas    sagradas    quinas. 


Aulislrophe. 

De    tão   honrados   inclytos    maiores 

Vós,    netos    generosos. 
Do    fado   das    latalhas    sois   senhores; 
Illustres    cavalleiros   victoriosos, 

Espiritos    briosos 
Vos    inspira   o    ardor   que    vos    inflamma. 
Té   o    grão   templo   conquistar   da  fama. 

EpoJc. 

Mas   j.í   do   batel    pobre 
Sinto   a   quilha    gemer;    o   débil   lado 
Dos   ventos   e   das   ondas    açoutado 

De   alva   espuma  se   cobre  : 
Remos    não   tem,  não   tem    pharoes,  que  o  rejaõ, 
Debalde   as    velas    contra   o    mar   forcejão. 


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íl^v. 


Strophe. 

Tempo,  tempo  virá,   que   as   desp-ezadas 

Musas  do   pátrio  Tejo, 
Por  vossas   mãos   benignas  levantadas 
No   porto   vâo   fugir,   qu'inda  nâo   vejo: 

Então,  então   sem  pejo 
Em   grave  scena   adereçando   a  Historia, 
MostrarSo  quanto   pôde  o   amor  da   gloria 

Anlislrophe. 

Calçando   o  humilde  socco,   ao  feio  vicio 

A   mascara  rasgada, 
Hâo  de  ensinar  no  cómico  exercício. 
Como  verdade  do   alto   céo   mandada. 
De  rosas  coroada 
•SSs  máximas   dictando   ao   povo   rude 
Espalhe  05   claros  raios  da  virtude. 

Epodo. 


O   jugo   vergonhoso, 
Os  cepos,   em   que  jazem   prisioneiras, 
Como  escravas  das  Musas  estrangeiras. 
Com  animo  brioso 
DesejJo  sacudir  ;  serão  louvadas, 
Dignas  entio  de   vòs,   por  vòs   honradas. 


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Ao  Ex"'"  Conde  de  Oeiras 


Sírophe. 


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U   difficil    virtude,    dom    celeste, 
Q.ue   meus   hymnos   governas, 
Tu   que,   sereno    o    rosto, 
De  Scoevola    pozeste   a   mão  no  fogo. 
Que,    invicta,    não    rece.i.is 
De   purpúreos   tyrannos    a    presença, 
Que   Regulo   mandaste. 
Pelos  cepos   trocar   a   liberdade. 


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Antistrophe. 

Tu   me    chamas   aqui   para   em    meus   versos 

Da  venturosa   Oeiras 

Cantar  a  nova  gloria 

Do   magnânimo   Conde,   o   amor  da   pátria  ! 

Se   o  raio  luminoso 

Por   sobre  elle  brilhou  com   que   tu   mostras 

A    constante  justiça, 

O  valor  e   a   prudência,    ouça   meus   versos. 

Epodo. 


NSo   me   instiga   a  lisonja;   r.Jo  invoco 

As    musas  fabulosas, 

O   céo,  o   céo   niMnspira:   da   verdade 

Os  trovões  e   relâmpagos   me   cercão. 

O   intrépido  zelo 

O   florente  commercio,   a   paz   dourada, 

Kâo   silo   cinzas   de    Tróia   ou  de   Carthago. 


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7S 


Slrophe. 

Vinde,   sonoros   liymnos,   sobre   minha 

Cithara   ditosa, 

Batei   as   brancas   azas  ! 

Fremão,   caião   de   Alcides   as   columnas! 

Pelos   ethereos   campos 

Das   que   vos  traz;m,   rápidas   carroças 

Ouço   gemer  as   rodas. 

Dois   luminosos   circules   abrindo! 


Aníisirophe. 

Q.ue   mais  fiel  sibylla,   que   a  experiência  ? 

Não  falia,   não   responde. 

Sem   de   profundo   abysmo, 

Evocarmos   a  sombra   de   Tirezias? 

Testemunhas    maiores 

São   de   tuas   acções,   sábio    ministro, 

O   throno   defendido, 

A   pátria  restaurada   e   nós    felizes  ! 

Epodo. 

As    nove   ricas  pérolas   que   brilhão 

No   coronal  dourado, 

Q.ue  teu   semblante   plácido   guarnecem, 

Por  premio  te  são   dadas,   não   exemplo 

Virtudes  coroào, 

E  virtudes   impávidas   domara ) 

A  cruenta  discórdia,   a   vil   cobiça. 


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76 


Sirophe. 

Mas   negro   fado   que  arbitro  se   julga 

D'iniperios  e   cidades, 

Temia  erguer  Lisboa, 

Coroada  de  mil  torres,  a  cabeça; 

As  artes  e  sciencias, 

A'   sombra  de  teu  nome,   receava 

Da   barbara  ignorância 

Os  pesados   grilhões  despedaçarem. 

Antislrophe. 

Bramir  jA   via     justamente    atada 

Em   ferros  vergonhosos 

Co   rosto  descorado 

A   perversa   doutrina   abominável. 

Nas   cerúleas   espadoas 

Erguer  o  Tejo   mil   rompentes   quilhas, 

E   respeitar  Arcturo 

As   sagradas   bandeiras   lusitanas. 

Epotlo. 

Abrir  o   Grâo-Pará   os   fulos    braços, 

E  em    seus  verdes   cabellos 

Roxos   coraes,   e   aljôfares   atando, 

Nas   douradas  manilhas   ler   teu   nome, 

Co   farpado  tridente 

Que  ergue   a   ji    livre   mâo,   lançsr  por   terra 

Os   nefandos   altares   da   avareza. 


Strophe. 

As  santas   leis,   magníficos   projecto?, 

O   publico   socego, 

O    reino   venturoso, 

Com   cruéis   olhos   via   o   triste   fado  ! 

Occulta   providencia 

Cevar-lhe   permittio   em   nosso   sangui; 

As   áridas    entranhas  : 

Não   valerão   incensos   nem    altares. 

Antistrophe. 

Já  o  fatal   decreto   a   mão   potente, 
Justiceira,    rubrica  ; 
Procellosos   vapores 
As   convulsas    cabeças    levantarão  ; 
Dos   cárceres   terrenos 
Abalarão   indómitos    os   muros, 
fi   aos  hórridos   bramidos 
Estremecco   a   miscra   cidade! 


Epoilo. 

Estremeceo   a  serpe   triumphadora. 

Que,   no   real   escudo, 

Tantas   vezes    voou   sobre   as  profanas 

Despedaçadas   luas   agarenas  ! 

Silvou   espavorida 

Nas    escamosas    azas    mal   segura 

Tão   mudada   ficou   a    natureza  ! 


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78 


Strophe. 

A  pávida  Lisboa  desgrenhada 

Era   negra   cinza  envolta, 

Vendo   os   reaes   castellos 

Cahirem-llie   na  fronte  destroçados, 

Em  ti   fixou  os  olhos. 

Os  olhos  em   ti   poz,   illustre   conde! 

Em   ti   que  sacrificas 

A'   publica  saúde  teu  cuidado. 

Antistrophe.. 

Qual   a  casta   Penélope,   chegando 

A'  pátria  saudosa, 

O  desejado  Ulysses  , 

Os   traidores   amigos   não    temia. 

Da  simulada  tèa 

Larga   a  tarefa,   as  lagrimas   enxuga, 

Assim,  assim   Lisboa 

Em   teus  braços  descansa,   em   ti  confia. 

Epodo. 

Nos   grandes   p'rigos   brilhâo   almas   grandes  ! 

Tendaridas  estreitas 

Qjje,   na  força  da  negra  tempestade 

ApplacárJo   o  furor  das   bravas   ondas  : 

O  piedoso  Enòas, 

A   poucas   cinzas   Tróia   reduzida, 

O   pae  salvou,   amigos  e    penates. 


79 


Slrophe 

Clamar  ouvimos   a   infeliz    cidade 

Aos  altos   céos   erguendo. 

As   mãos   enfraquecidas; 

Ainda   os   cchos   ouvimos   destas   vozes: 

«   Se   em    tuas   santas    aras 

«   Puro   incenso    queimei,   senhor,    guardai 

II    O   constante    ministro 

II   O    defensor   do   lusitano    Augusto  !    n 


Anlislrophe 

Assim    aftlicta,    assim    a    pátria    illustre 

Por   ti   ao    céo    clamava  ! 

Os   poios    abalarão 

Cum    tremendo    sussurro    respondendo  ! 

Desceo    celeste    cliamma, 

Sobre   os   destroços   dos    cabidos  templos  ; 

E,    recobrada    esperança, 

Agoirou   mil    venturas    de    presagio. 

Epodo. 

Ainda   guardadas   tenho,   excelso   conde, 

Em   minha  rica    aljava 

Mil   refulgentes   settas   que    podiao 

Os   olhos   assombrar  do   torpe   vulgo  ; 

Porem   da    mâo    me    arranca, 

Mâo   sei   que    forçi,    a    citliara    soberba! 

Mas   qu.-m    ha    de    calar    a    tua    fama  ? 

PfW      -  •»  '  ~Íi  "^^ ♦«^.  Ã^*.    7j *  o1 


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8o 

Strophe. 

No   Menalo,   se   ArcaJia   nâo   levaata 

Em   honra  de  teu   nome 

Uma  soberba  estatua 

De  rico  jaspe,  como  tu    mereces, 

Seus   hymnos   te  consagra, 

E   nelles  viverá  tui   memoria, 

Teu  nome  escreveremos 

Em   nossos   corações,   em   nossos   versos. 

Antisírophe . 

Uirceos  hymnos  que  sobre   as    áureas    lyras 

Lançaes  eternas   luzes 

E   ao  som   de  illustres  nomes, 

Espalhaes  da  virtude   os   resplendores, 

Vós  a   lúbrica  fouce, 

Tiraes   da  mâo  do   tempo,   e   derramando 

O   volúvel   relógio, 

hores  vos  fareis  da   eternidade  I 


Epodo. 

Nâo  ergue  a  mâo  cruenta  a  fria   morte 

Contra  sonoros  versos  I 

Em  vâo  levanta  templos   e  columnas, 

Quem  da  pátria  os  louvores   nio   merece; 

Teu  zelo  incontrastavel 

Tuas  acções  illustres  cantaremos  ! 

A  macillenta  inveja 

As  viboras  cerúleas  despedace  ! 


III. 

A'  Snr»  D.  Maria  Joaquina 
de    Gusmão    e    Vasconcellos 


1    ELEIJEI,    peleijei   (e   não  sem   gloria) 
Nas  barbaras,   indómitas   phalanges 
Do   forte   domador   de    Immanos  peitos 
Insano   amor  potente. 

A   triuraphal   carroça   acompanhando, 
Angélicos   cabellos   ennastrados 
Com   mirto   e  rosas  ;   de   corado    pejo 
Os   alvos   rostos  tintos  : 

.Mil   garridas,   mil   cândidas   Licores 

Vencedor   me   jurar.io,   me   renderão 

Do   rizo   e   do   prazer,   no    Capitólio 

Humilde   vassallagem. 

Mas   o   tempo   voou,   agora   manda 
A  nevada  prudência,   que   amainando 
As  velas   enfunadas,   surja   o   lenho 
Em   socegado   porto. 


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82 


Larguemos   pois   altivos   ardimentos 
Os  soberbos   trophéos.   Eia,   larguemos 
Arrastadas   bandeiras,   rotas   armas, 
Ilíacas  escravas. 

Aqui  neste  despido   freixo   annoso 
Fique   a  sonora  lyra  pendurada. 
Qual   no   templo   suspende   o   naufraginte 
Os   húmidos    vestidos. 


Para  ser   mais  solemne   o    sacrifício 
Em   vergonhoso  cadafalso  queime 
Arrependida   mão   odes,  sonetos  ; 
Espalhe  o   vento   as   cinzas. 

Ondada  crepitante  labareda, 
Entre  serras  de  fumo  lance  aos  ares 
O  solto  sprito  de  meus  versos  tristes, 
Q.u'em   raio  se  converta. 

Com   medonho  estridor  desça   inflammado, 
Os  fragosos   outeiros   abalando, 
Assombre  o   peito  de   Marília  ingrata, 
Da  pérfida  Marilia. 


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IV. 


o  ponche. 


1    OIS   torna   o   frio   inverno  sacudindo 
Das   estridentes   azas   gelo   agudo, 
As   retalhadas   mios,   amável    Lydia 
Aqueçamos    ao    fogo. 

Emquanto    pelos    montes,    que   branquejão 
As   crystallinas   cís   d'annosos   troncos 
Com   os   raios  do   sol   estaõ   brilliando, 
Quaes    brilhão   de    Marilia, 

Da   travessa  Marilia,   os   ledos   olhos, 
A'    chaminé   um    pouco   nos   sentemos  : 
J.i   silvando   entre   ondad.is   labaredas, 
A   secca   lenha    estala. 

Conversemos,   bebamos,   murmuremos  : 
Comtigo   as   Graças  vem,  comigo   Amores, 
Que   no   varrido   lar   ao   lume   secção 
As   orvalhadas   pennas  ; 


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Os   froxos  arcos   bocejando   largâo 
E  nas  cruéis  aljavas   reclinados, 
Porque  vélaô   de   noite,   somnolentos, 
(Coitados!)   adormecem. 

Ferve  o   cheiroso   ponche,    que  desterra 
A  pezada  tristeza,  os  vãos  temores. 
Que  deixa  voar  solto   o  pensamento 
Kas  azas   da   alegria. 

Reluzindo  ni   meza   os   crystaes   limpos, 
Nos  pedem  que  bebamos,. que  brindemos; 
Ora  bebamos,   Lydia  ;  deixa  aos   astros 
O    governo   dos  orbes. 

Náo   queiras   triste    penetrar   a   densa 
Caliginosa  névoa  do   futuro  : 
Nio  percas  um  instante  de   teus  dias  : 
Olha,   que   o   tempo    voa  ! 

Volo   com   elle   nossas   esperanças, 
Castellos  sobre   nuvens   levantados  '. 
A   mais   pomposa  scena  da   fortuna, 
D'improviso   se   troca  ! 


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85 


Apenas   vi   raiar   um   doce   rizo, 
Ko   angélico  semblante   de   Marilia, 
Dos   olhos   me   fugio   o   lindo   gesto 
Q.ue   os   olhos   me   levava. 

Qual   sonhado   thesoiiro   em   negra   cinza 
Se    tornou   todo    o    meu    contentamento  : 
Ah  !   Marilia   cruel  !    que   te   custava 
Trazer-me   neste   enajano  ? 


\'oai,    feri,   Amores,    essa    ingrata  ; 
Fazei-a   suspirar    por   quem    lhe    fuja  ; 
Prove    tormento   igual    a   meu    tormento  : 
Em    vão,    em    vão    se   queixe. 

Perdoa,   Lydia,   se   blasphemo   e  grito. 
Que   ponche  também   faz   di/er   verdades 
K    Marilia   formosa  ;    mas    ingrata  .  .  . 
Creio    que    o    tempo    muda. 


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86 


A'  Virtude. 


1_1GAD0   com   aspérrimas    algtmas 

Ao   rígido   penedo  ; 
Com  um   agudo  cravo   de   diamante 

O  peito  traspassado  ; 
Convulso   o   rosto,  e  tinto  em   negro  sangue. 

Que  brota  da   ferida, 
As  sonoras   pancadas   do   martello, 

Com   que   bate  Vulcano 
Nas  cavernas   do   Cáucaso   retnrabâo  : 

Porém   constante  e   forte 
N3o   geme   Prometheo ;    antes   accusa 

A   Júpiter  de  ingrato  : 
Innocente  se   julga;    X   força  ímpia 

NSo   cede  do   tyranno. 
Assim,   assim,   a  misera   pobreza, 

A   contraria   fortuna 


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87 


Deve   immovel   soffrer  uma   alma    grande, 

O'   Sousa  esclarecido  ! 
Varra   o   credor   soberbo   a    pobre    casa 

Co   desabrido    alcaide; 
Dorme   no   duro   chão   tão   descansado, 

Como   no   leito  brando, 
O   intrépido   varão,   que   do   destino 

Prova  os   fataes    revezes. 
Co'    a   dourada   carroça   o   molle   eunucho 

O    pize   ou    atropelle. 
Não   lhe    inveja    a    riqueza.    Que    outrem     lavre 

Nas   ribeiras   do     Tejo 
Cos    malh.idoi    bezerros   longa   terra. 

Não    lhe   acorda    a    cobiça. 
Vente  embora   do   Sul;   caliindo,    açoite 

Ao   negro    mar   que   brada, 
O   pluvial  Arcturo  ;    a  vara   creste 

Do   podado   bacelo 
Espessa  chuva   de   árida   saraiva  , 

Nada   lhe   abala   o   peito. 
Enroscada  no   braço   macilento 

A   venerosa   serpe 
Chegue   ao   seio   cruel    a   triste   inveja  ; 
E   a    pérfida    mentira 


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Cos  titubantes  beiços   o  crimine, 

Rirá  no  cadafalso. 
Só   dos   delictos   póJe   o   vil  remorso 

Mudar-lhe   a   cõr  serena 
Do  tranquillo  semblante  :   a   mio   potente 

De  quem   o  fez,  sò  teme. 
Os  homens  nào  receia,  que  a   virtude 

O   coração   lhe   aaima  ; 
E   a   consciência   sà,    a   fé   intacta. 

Os   austeros  costumes, 
KAo  fantásticas  honras  isto  ensinão. 

Assim   dourão   a   morte 
Os   Uticenses,    Régulos,    os    Marios. 

Apezar   do   supulchro. 
Sobre   as   azis   dl   tempo   assim    passáráo 

As   lethargicas   ondas 
Do   rio   somnolento.   Assim   c'roado 

De   gangeticas    palmas, 
O   destemido   Castro   n'alta   serra, 

Q.ue   templo  foi   de   Cynthia, 
Retirado   vivia ;   a   mão   invicta, 

Terror   e   gloria  d'Asia, 
Os   silvestres   arbustos   cultivava. 

Subjugando   a   vaidade. 


SW.»* 


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«  Passe   á   gineta   o  timido   guerreiro, 

Q,ue   com   as   armas   limpas 
Da   batalha  fiigio  espavorido  ; 

Porque   do   sangue    antigo 
A   arvore    apresenta.   Ainda  que   honrado 

O   desvalido   mostre 
As   roxas   cicatrizes  das   feridas 

Que   soffreo   pela   pátria,» 
Dizia   o   grande    Castro.    O    lisongeiro 

Estudando   o   segredo 
De   agradecer  desprezos,    não   se   affaste 

Da  sala   do   ministro. 
AUi  dourando   o  sol   os   altos   montes 

Na    madrugada    veja  ; 
AUi   o  deixe   a  lua,   que   vermelha 

No   horizonte   mettida, 
Estende   os  froxos   raios   pelas   ondas  ; 

Se   com   publica   fraude 
Ao   miserável   orphão   a   capcUa 

Subnegar-lhc    pretende. 
Aspiro   á   boca    o    julgador   iniquo, 

Que   aos   ollios    da   justiça 
Roubou   a  santa   venda,   que   equilibra 

Nas   vendidas   balanças 


Tl^c'»-'V*_«Cv1í".'»'4* 


90 


Os   dourados   delictos.   Soffra,   e  busque 

A  vergonhosa  scena 
Da  súbita  catastrophe   o   privado, 

Que  o   rosto   nâo  conhece 
Da   clara   fama,  da   iminortal    memoria, 

Da  honra,   e  da   virtude. 
Mas   qual   Marpezia   rocha,    um   peito   forte 

Káo  roga,   nâo  se   abate. 


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91 


VI. 
A'  Virtude. 


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CO\'STAKTE   vario,    que   justo   e   firme 
Da   difRcil   virtude   segue   os   passos, 
O   pezado  semblante   do   tyranno 
Não   teme,    não   estranha. 

Veja   ferver   o    chumbo,    erguer   as   cruzes  ; 
Ouça   afiar   na    pedra   o   curvo    alfange  ; 
SofTra   no   potro   aspérrima   tortura  ; 
Não    perde    a   còr   do    rosto. 

Em  severos   costumes   ensaiado 
Preza   mais   a   innocencia,   do   que   a   vid.''., 
Fiel    á    pátria,    ao    principe,    aos    amigos, 
Acaba    como    vive. 

Com  pavoroso   estrondo   se   desatem 
Em   vermelhos   coriscos   as   estrellas; 
Brote  volcões   a   terra  ;   da   ruiiia 
Impávido   não   foge. 


9» 


Assim  Mário  subio  ao   Capitólio, 
Entre  águias  e  lictores  conduzido. 
Com   aspecto  sereno;   inda  que  atadas 
As   roxas  mãos   era   ferros. 

Na  presença  de   César   e   Conscriptos  : 
«  Fui,  disse,   fui  fiel  a   Galba  e  a  Roma 
Confesso  o  meo  delic.o,   se   delicto 
A'    virtude  se   chama. 


«  As  legiões   romanas  testemunhas 
Poderão  ser :   vòs,   Cônsules,   Tribunos 
A  verdade  dizei  ;   dizei   se  Mário 
Foi   amigo  de   Galba  ? 

«   Patrícios  e  soldados  do   divino 
Júlio,   ás  aras  jurem  se   me  virão 
Sempre  ao  seu   lado.  Alli,   alli   Camurio 
Alçou   a   mio   traidora. 

«   Eu  vi   o   triste  velho  d;scorado 
A  garganta  offrecer  ao  duro   golpe  ; 
E   indo  da  pátria  o   nome  repetindo 
A   grande  alma   fugir-lhe. 


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ic  O'   César  !   aqui  tens    de  Mário   Celso 
O   crime   e   a  confissão  :    Romanos,   Mário 
Foi  a   Galba   fiel  !   Vamos   aonde 
Está  o   cadafalso.  » 

Acabou  de    fallar.   Cônsules,   Padres 
Attonitos   ficarão  ;    porém   César 
De  tão   rara   constância   namorado 
Nos  braços   o   recebe. 


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94 


VII. 

Ao  Snr  Manoel  Pereira  de  Faria, 
sócio  da  Arcádia. 

Vê,   Silvio,   como  sacudindo  o  inverno 
As   negras   azas,   solta   a    grossa  chuva  ; 
Cobre   os   outeiros   das   erguidas   serras 
Húmida   névoa  ! 


Na  longa  costa  brada  o   mar  irado 
Sobre  os  cachopos  ;   borbotões  de  espuma 
Erguera   as   ondas  ;    as   cruéis   cabeças 
N'agua    negrejio. 

O   frio   Noto,   rigido   soprando 
Dobra  os  ulmeiros,   os  curraes  derruba  ; 
E  o  gado  junto,  pávido   balando 
Une  os  focinhos. 

Cora   duro   frio   Corydon   tremendo, 
A  roxa  face  no  çurrío  esconde  ; 
Cos  altos  sòccos  quebra  a   preza  neve. 
Corre    á   cabana. 


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95 


Alli   ajunta   de   podadas   vides 
Os   seccos   molhos:   a';soprando   accende 
Pobre   fogueira,   aonde   as   mãos   aquenta 
Cos   rotos    fillios. 

Pulão   nos   olhos   lagrimas,   que   enxuga 
Na   grossa   manga,   reprimindo   forte 
Acerbas  dores,    reflexões    pezadas, 
Tristes    memorias! 

Eis   que   zunindo    furacões    horríveis, 
A    porta    arrancão   dos    moídos    gonzos: 
Corre  assustado,   d'um   fuzil   que   o   cega, 
A'   luz   vermelha! 


Vio  espalhadas   viboras  de   fogo: 
Ouvio   bramando,    retumbar   no   valle 
Os   longos    ecos   do   trovão,    que    abala 
Os   altos   montes  ! 

Vò-se   partida    do    voraz    corisco 
A   rica    proa   de   um   baixel    britanno  ; 
Não  lhe   valendo    cem   canhões   soberbos, 
Que   Nantes   teme. 


96 


Rotas  tremulão  as  reaes  bandeiras; 
Rompem   as   ondas   o   infeliz   costado  : 
Inútil   pranto,   tristes   ais   levanta 
A  lassa  gente. 

Agora,  dize,  quem  seguro  vive, 
Amado  Silvio,  da    cruel   Fortuna, 
Se   as  altas  torres,  se   as  humildes  choças 
A   morte   piza  ? 

Os  áureos  tectos,  dóricas  coluronas, 
Quadros  antigos,   marchetados  leitos. 
Servem  de  espectros,   Gorgonas,   Cerastes, 
Na  fatal  hora  ! 


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97 


VIII. 


Ao  beato  Bernardo,  Marquez  de  Baden. 


V^   VARÃO   justo,   que,   Senhor,   invoca 
Teu   Nome    Santo,    no   deserto   monte 
Faz    que    rebente   cryslallina    fonte 
Da   árida    penha. 

No  fundo    valle   sua    voz   despenha 
Qn:il   moUe   cera,   liquides   outeiros  ; 
Sonoros    ventos,   hórridos    chuveiros 
Plácido   enfreia. 

Baden   o   diga,   quando  a  nuvem   feia 
Vermelho   raio   com   furor  rasgando, 
Nos   negros    ares   vio    girar   silvando 
Tremula   chamma. 

Por   ti,    Bernardo,    triste    povo    chama, 
E    o    fulminado  frio    corpo    exangue, 
Da  dnra   terra,    tinto   em    roxo    sangue. 
Eis   se   levanta. 


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98 


Assim    armado   de   virtude  santa 
Serenos   tornas  os  infestos  ares  ; 
Assim   dominas  insoflfridos  mares, 
Ávida   morte. 

Salve  teu  nome  do   vibrado  corte 
Desamparados   míseros   humanos, 
Que   do   castigo   merecidos  damnos 
Pallidos   temem. 


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99 


IX, 


A  S.  Norberto,  Bispo  e  Confessor. 


Espíritos    rebeUes,    que    as    infensas 

Aljavas  fulminantes 
Das   feias   legiões   de   nuvens   densas 
Armaes  de   accezas   farpas   crepitantes. 

Fugi    para   as  distantes 
Incultas  brenhas   de   ariJo   deserto, 
Fugi    do  nome   santo  de   Norberto. 

Dos  estellantes   átrios   desce  armado 

De   medonhos  rugidos 
O    leão   de   Jiid.i  :    no   escudo    alçado 
Relâmpagos   fuzil.io   despedidos 

Dos   arcos   desferidos, 
Q.ue  sobre   Saulo   attonito   lançár.io 
Settas,   que   dentro   n'alma   lhe   atroarão. 


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Rota  a  névoa   mortal,   que   lhe   encobria 

O  throno   niagestoso 
Do  Senhor  das   batalhas,   que   o  seguia 
(Astros  trilhando   o   carro   luminoso) 

Conhece  venturoso 
A   mão   potente,   a   qual  se  toca  os   montes, 
Abafa  o   crespo   fumo   os   horizontes. 

Tu,   Norberto,   outro   Saulo   foste,  quando 

Intrépido  e   valente, 
O   rápido  ginete   arremessando, 
De  improviso  brandio  a  nuve  ardente 

Relâmpago   estridente. 
Que  ao  bruto,   do  trovão  espavorido, 
Deixou  a  poucas   cinzas   reduzido. 

Cercada   de   pavor  d'  alma  constante 

Se   humilha  a  fortaleza  ; 
Vò  scintillar  o   lúcido  semblante, 
Q.ue   adora   consternada  a   natureza, 

Quando   a  vingança   acceza 
Leva  os   cedros   do   Libano   frondosos 
Nas  azas  de  coriscos  espantosos. 


^W^ 


Caliginosas   trevas   já   rompia, 

E  ao  claro  tírmameiito, 
De  luz  surcando  pélagos,  subia 
No    regaço    da   fé   o    pensamento, 

Ouvindo   o    ciar.)    accento. 
Com   que  lhe   falia   o   céo:    c   o   mar  irado 
Tremeo   do  som   terrível   assustado. 


Movido   pois   de   nosso   ardente   rogo, 

Desce,    ò   Norberto    Santo, 
Dissipa   com    teu    nome   tanto    fogo. 
Ouve   nossos   clamores,    nosso   pranto  ; 

H    já   que    podes    tanto, 
Pede    ao   tremendo    Deos,  que  enfreia  os  mares, 
Que   lance   os    máos    espíritos   destes    ares. 


f 


A  S.  Thomaz  de  Aqnino, 
Dontor  e  Confessor. 


I 


OE   na  eterna  Sião,   onde  ditoso, 

Era   premio  da  victoria, 
Te   coroa   o  semblante   luminoso, 
O   sol   de  immensa  gloria, 
Thomaz,   inclyto   Santo, 
Voar   a  teus  ouvidos   nosso  pranto, 

Ao   mundo  os   olhos   imraortaes  volvendo, 

Attende   a  nossos  damnos  : 
Olha  os  ventos  irados,  revolvendo, 

Os  negros  Oceanos, 
De  indómitas  procellas, 
Que  soltão  em   coriscos   as   estrellas. 


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Qual  sem   pastor   o   pávido   cordeiro, 

Ouvindo    ranger   perto 
Do    cerval    lobo   o   dente    carniceiro  ; 

Assim    do   inferno    aberto 

As    fauces   horrorosas 
Vemos   arder   em    nuvens    tenebrosas. 


Acode-nos,    Thomaz  ;    lembrete   quando 

A    mão    Omnipotente 
No   throno   de   mil   raios   fulminando 

O    gume    reiulgente 

Da   abrazadora   e^ipada 
Sobre   ti   viste  com    pavor   alçada. 

A   cândida  innocencia,   a   fé    constante 

Nos  braços   te   sustenta, 
Emquanto   a   roxa   flamma    sibilante, 

Que  súbito   rebenta, 

Km   torno   te    girava, 
E   de   1'raterno  sauíiue   rociava. 


Do   fumo   arando   um   mar   caliginoso 

Os   olhos   mal   abriste  ; 
Espectáculo   feio   e  lastimoso 
Da  mísera   irmã   viste 

Jazer  despedaçados. 
Os   palpitantes   membros  fulminados. 

As   azas   do   Senhor,    que   te   cobrirão, 

Q.ue   illeso  te   guardárSo, 
Nâo   de   luzente   malha  te   vestirio, 

Mas   de   poder  te  armarão 

Para  invicto  valer-nos  : 
Pois  chamamos   por  ti,   vem  defender-nos. 


XI 

A  S.  Ubaldo, 

protector  da  cidade  de  Eugubio, 

Bispo  e  Confessor. 


V^ÇAisDO   o   terrível    Deos  dos  ex;rcitos, 
Nas    leves    azas  de   aquilões    túrbidos, 

Sobre  as   altas   cidades 

Manda    a    procella    horiisoua  : 

Se    vingadora    solta   a    mão    rúbida 
As   estridentes   accezas   viboras, 

E    se   o   fragor   dos    montes 

Freme  no   fundo    pélago  : 

Ubaldo   Santo,   com   rogos   férvidos 
Os    Eugubinos    te    invocão   pávidos  ; 
Cercando    teus    altares 
Gemem,   quaes   pombas   timidas  : 

A   soccorrc-los   voas   intrépido, 
E   da   virtude    no    pavez    rigido 

Fôt.i    a    farpada   lança, 

Foge    c'o   vento   rápido. 


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Assim   te  chama   protector  inclyto 
A  lusa   gente  ;  correm   as  lagrimas. 
Qual   matatino  orvalho 
Banha  os  frondosos  plátanos. 

Vem    soccorrer-nos  :  no  árido  cárcere 
Os  trovões   prezos  bramão  indómitos  ; 
Tornem  dourados  dias, 
Movão-te  nossas  supplicas. 


IC7 


XII. 


Ao  Snr  Manuel  Pereira  de  Faria, 
sócio  da  Arcádia. 


OE   j.i  ouviste,   Silvio   magnânimo, 
A   minha   pobre,   rústica   cithara, 

Poucos,    mas   novos   versos. 

Ouve   com    rosto   plácido. 

Ouve   que   aos   versos,    f.imosos   titulos 
Devem    Encas,    Deipliobo    e    Priamo  ; 

Deve   Ulysses   prudente 

Deve   Acliilles   indómito. 

O  luso   Gama   nunca   tão   celebre 
Fora   no   mundo,   só   porque   impávido 
Os    mares   não   sulcados 
Cortou   c'os   lenhos   côncavos  : 

Camões,   eterno   com   os   Lusíadas 
Pôde   fazè-lo,   senão   incógnitos 

Os   varões    Portuguezes 

Jazeriâo  no   tumulo. 


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Antes  que   as   nossas,   nos   mares   indicos 
O   férreo   dente,   molharão   ancoras, 
De   quilhas  europeas, 
Cobertas   de   outras   flâmulas  : 

Antes  do   Grego,  d"outros  exércitos 
Burnidos  elmos  vio  brilhar  Pergamo  : 

Houve   na   phrygia   Tróia 

Outro  Ajax,  outro  Stenelo. 

Nem  só  Eliza,    d'Enéas  prófugo 
Tingindo  a  espada  no  sangue  tépido, 
Trocou  a  doce  vida 
Por  uma  infâmia   posthumi. 

Nem  só   guizados   os   membros   lividos 
Do   caro   filho,   com   rancor  bárbaro 

Ao   lascivo   marido, 

Progne   ministrou    pallida. 

Em   ac;ões   grandes  d'almas   intrépidas 
Forâo,   é   certo,   férteis   os   séculos  ; 

Mas   o   negro   silencio 

Sepulta   os   nomes   iuclytos  : 


109 


Negro   silencio,   que   os   olhos   hinguidos 
Na   vil   preguiça    fitando   tímido 

A  lethargica  lingua 

Corta   c'os  dentes   ávidos. 

Cobre   a    virtude   co'as   azas    lúbricas 
O   veloz   tempo,    logo   que   ao   féretro 

Cede   o    passo   a   lisonja 

Rasgando    a   torpe    mascara. 

Com   tardos   passos   calcando   os   túmulos 
O   esquecimento,   da   mão   esquálida 
Solta   as   confusas   cinzas. 
Que  espallia  o    vento   rápido. 

Mas  eu  ingrato,   Silvio   magnânimo, 
SofFrer   podia,   que   o   canto   melico 

Esquecido    deixasse 

O   teu   nome    magnifico  ? 

De   uma   alma   grande   costumes   cândidos. 
Raras   virtudes,    génio    pacifico, 

Para  serem   eternos. 

Não  precisão  de   mármores: 


r 


Pôde  um   poeta  ma!s  do  que  o  artífice, 
Ou  corte  jaspe,   ou  cores   liquidas. 
Largue   o   pincel   no   panno 
Dos   monumentos   públicos  ; 

Sempre   com   versos  o  furor   delpliico 
A  nobre  vida  dos  varões  inclytos 
Livra  do  vil  contacto 
Das  mãos  cruentas  d'Atropos. 

Dos   torpes  vícios  és   censor  rigido; 
Tu  os  fulminas   com   olhos   plácidos, 

E  entre  nuvens  de  fumo 

Foge   a  tropa  fanática. 

Da  triste  inveja  na  testa   pallida 
Co'   a  forte  planta  pizas   as    viboras. 
Bramindo,   o   negro   cirio 
Quebra   a  discórdia  attonita. 

Das  mãos  cobardes  o  metal   fulgido. 
Larga  a  cobiça  :   com   grilhões   ásperos 

Algemada  a   soberba 

Dobra  o  pescoço  ríspido. 


De  ti   fugindo  caheni   no   pélago, 
Onde  a   tristeza   com    pranto   lúgubre 
Cercada   de   remorsos, 
Jamais   enxuga   as   lagrimas 


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XIII. 


Aos  annos  do  Coronel  dartilhería 
Frederico  Weinholtz. 


V>OM  suaves  caricias,   brando,   humilde, 

Qual   é   por   natureza, 
Af   tenras   mãos  erguendo,   o   rosto   lindo 

Era  lagrimas  banhado, 
Ao  rigoroso  Tempo  Amor  pedia, 

Q.ue  dos  duros   revezes 
Do  braço   inexorável   preservasse  ; 

Q.ue  de   doces   prazeres. 
De   glorias   coroasse  e  de  venturas 

Este  ditoso  dia  : 
Ora  em   laços  de   goivos   e   amaranto, 

A   rispida   melena 
Ao   desabrido  velho  entrança  e   prende, 

Ora  as   aras  lhe  cinge 
Com   cheirosos  coUares  de  mil   flores  : 

Té  que  o  rápido  monstro 


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Avaro   de   ruínas   e   de   estragos. 

Sobcibo   e   receoso 
D'alhcas    tyrannias,    c'um   sorriso 

Q.ue   seu   rancor   disfarça, 
Outorga   cm    fim    a   Amor  quanto  lhe  pede. 

Pela  sanguinca   fouce, 
Que   na    mão    lhe    reluz,    jura  e  promette, 

Q.ue   de   Weinholtz   aos   annos. 
As   Parcas   fi.irâo   dourados   dias, 

Che'OS   de    immensa    gloria. 
De    prósperos   succcssos,    de    venturas. 

Q.ue    o    gelado    Danúbio, 
Q.ue   de   berço   Uie   dar  se   desvanece. 

Com    a    cerúlea    fronte 
!)■■    ajud-is    espadanas    guarnecida, 

De   sangue    rociado 
O   indómito   tridente,    ao   fulvo    Tejo 

Inda    virá    um   diâ 
Ávido   de    mais    fama   demanda-lo. 

Apenas   Amor  ouve 
Tão    nlTavel    resposta,    as    brancas  azas 

Três    vezes   despregando, 
.\os    ares   se    abalança  ;    mas    o    Tempo 
Alçando   a   mão   pezada. 


«  i_J^W'-'TO.^e.  i>  •»  •ro.^'*; 


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Pelo   cordão   da   aljava   o   suspendia; 

E  emquanto   lhe   tirava 
Os  dourados   farpões,  o   cruel   arco  : 

«  Estas   cruentas   armas 
«  Impróprias   são,   lhe   diz,   da   tua  idade  ; 

«  Para   mim   as   reservo, 
»   Em   premio   das  venturas,  que   prometto. 

«  Ao   teu   Weiíiholtz    mimoso. 
«  Veremos   se   este   braço   também   sabe 

«  Vibrando   agudas   settas, 
«  Domar   os   corações.   Agora   vòa, 

«   Em   doce   paz   nos   deixa  ; 
«  Deixa  gozar  o  mundo  de  descanso, 

«  Q.ue  tu,  cruel,   nos  roubas.  » 
Amor  as  leves   plumas  sacudindo, 

Já  livre   do   tyranno. 
Batendo   alegre   as   palmas,   lhe  dizia; 

n  Nâo   cuides,   cruel   Tempo, 
i>   Que  meu  invicto   braço  desarmaste  ; 

II  Mais   poderosas   armas,  ^ 

«  Mais   forte   passador  tenho   nos   olhos, 

■  No  angélico  semblante 
«  Da   formosa  Bivar  :   com    elle   posso 

II  A    meu   suave   império 


^^^, 


.'<■ 


'I  Apezar   do   destino,    ver   curvado 

"  O   teu   rispido   collo  : 
II  Então    verei    mil    vezes    sem    receio 

ic  Tornar  tào   feliz   dia  ; 
'(  Verei    contar    Weinlioltz    ditosos    ânuos 
<i  Em   prospero   soceyo, 
«  Nos  ternos  braços  da  gentil  consorte  ■ 
Ao    Tempo    assim    responde 
Já   sem   teme-lo    Amor  ;    e    o    veliio    irado 

K'um   rigido   penedo, 
Que   borda   a   ruiva   praia  de   Caxias 
Kompeo   a   curva  fouce. 


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Ti     <t 


ii6 


XIV. 
A'  Restanraç&o  da  Arcádia. 

OOBERBO    galeio,   que   o  porto   largas, 
Aonde   o  férreo   dente   preza   tinha 
A   cortadora   proa,   que   rasgava 
De  um   novo   mar   as   ondas. 


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Ao   alto   pego   tornas   nunca   arado 
Dos   fracos   lenhos,   que   no  Tejo   surgem  : 
Já  ferve  a   brava  chusma  e  se  levanta 
A    nautic.i   celeuma. 

Das   douradas   antennas   penduradas 
As   velas  ji   de   purpura  desfraldlo, 
Q.D'aos  frescos  sopros  de  um  feliz  galerno. 
Já   concavas   su3Surr.lo. 

A   tremula  bandeira,   que  seguras. 
Qual  súbito  relâmpago   fuzila, 
E   nas  azas  dos  ventos  estendida 
Mostra  a  fatal  empreza. 


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■^ 


De    brano    espuma    borbotões   rebentão 
De    um    lado    e    outro    l.ulo  ;    j.í    boiando 
Sobre    as    verdes   espadoas   de   Neptuno 
Demandas   outros    climas. 

O   santo    Numen,    que   entalhado   leva 
Tua   dourada    magestosa    popa, 
Trazer-te   nos   promette   a  salvamento  : 
Nautrauios    não    receies. 


Kão   temas    as    inbospitas    arca; 
De  infames  costas,  de  Hypi;rboreos  campos. 
Pelas   CydaJes,   Bosphoros  e   Syrie; 
Has  de   romper  constante. 

Se   as   Halcyoneas   aves   levantirem 
Km   seu   queixoso   pranto   triste   agouro ; 
Não  te   assustes  da   nuvem   carregada, 
Q.ue  os   mares  escurece. 


f 


Grasnando   negras    gralhas   enfiadas 
Sobre   os   topes   ver.is   buscar   a  terra, 
K  logo   o   eco   negar-te   a   escura   noite 
Da    feia    tempestade 


^í 


ii8 


Mas  iiâo   receies   os   fuzis   vermelhos, 
O   ruidoso   trovão,  que   pelas   aguas 
Em   successivos   brados  estalando, 
No   fundo   do   mar  sôa. 

A   destra   mão  que  o  leme   te  meneia 
Fará,   que   avante   passes,   sem   que   amaines 
O   largo   panno;   em   vão   Noto   sibila 
Pela   miúda  enxárcia. 

Os   cabos   passarás   mais  tormentosos. 
Sem   que  as   crespas   correntes   te  atropellem 
Ao   pólo  chegarás,   aonde   brilha 
A   luz   da  eterna    Fama. 


Em   vão   ronceiras,   barbaras   galeras, 
Forçando   os  débeis   remos,   com   que  açoutão 
O   mar  que  lhe  resiste   e   que   as   affronta, 
Trabalhão   por   seguir-te. 

Desarvoradas  voltão,   não  se   atrevem 
A   commetter  o  pélago   que  surcas  : 
Com   damnados   prognósticos  agourão 
Desastrado  successo. 


1^-» 


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Ora   contão,   que   os   mares   infamaste 
Com    vergonhoso    misero    naufrágio; 
Q.iie   as    fulminadas    vergas   rotas    jazem 
Nas    Cerauiieas   arcas. 

Mas   tu   constante   imp.ivido   triuniphas; 
E    com    louros    no    Múnalo    cortados 
Enramaste   os    riquisfinios    pavezes, 
A    forte    Isente   c'rôas. 


Se    os   meus    votos    escuta    o   eco    benigno. 
Os    votos,    que    por   ti    no    porto    faço 
Os   olhos   alongando    pela   esteira, 
Que   tu    nas  aguas    abres, 

Mão    tornes    a   surgir    em    manso    porto 
Q.ue    Lethes    seja    o    seu    famoso    nome. 
Q.ue   os    peitos    amollece    mais    briosos, 
Que   ao  sommo   te    convida. 


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NAo  se  nutre   a   virtude   do  descanso  . 
Árduas   emprezas,   rispidos   trabalhos, 
Em    nobre    coração    de    immortal    gloria 
Accendem    claro   lume  ; 


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o   claro   lume,   que   ap.-igar  não    podem, 
Nem   descarnada   mão  da  triste  inveja, 
Nem   a   fouce   cruel   do   voraz    tempo  ; 
Não   chega   a   tanto  a   morte. 


\v. 

Aos  annos  da  Illm"  e  Ex"»"  Snr'  D.  Leonor 
de  Almeida. 

V^ERCADO   estava  Amor  de   mil  Amores 
As  estridentes  settas   empennando, 
De   verde   mirto   e   de   cheirosas    lloros, 
Os   arcos    enramando. 

Q.ual   o   brilhante   gelo   sacudia, 
Das   crespas  azas   sem   cessar    batendo, 
E   qual   concerta   a   aljava,   e   n'agiia   fria 
Curvado   se   está   vendo. 

Pelos  nodosos   troncos  dos  loureiros 
Os  dourados   farpões   muitos   provaváo ; 
Outros,    mais   insoffridos   e    ligeiros. 
Em   bandos   se   espalhavâo. 

HntAo  Amor    a   doce   voz   alçando, 
y')f       Que   só   de   ouvi  la   os   montes  estremecem, 
*^  ,       Que   velozes   frecheiros   convocando, 
,  -     Que   promptos   llie   obedecem. 


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'7 


Com   doce   rizo,   com   celeste   agrado, 
Q.ue  os   ventos  serenava,   lhe  dizia  : 
Hoje  do   céo   nos   traz   o  sol   dourado 
De   Alcipe,   o  claro  dia. 

Foi   hoje,   foi   que   em   seu   gentil  semblante 
Amanheceo   a  luz   da  formosura; 
Nunca   tào   bella   a  aurora  e  tâo   brilante, 
Rompeo   a   noite   escura. 

As   lindas    Graças,   os   fieis  Amores, 

As   virtudes   gentis   do    céo  baixarão  ; 

1:   cantando  as   acções  dos  seus  maiore?, 
O   berço  lhe   embalAráo. 

Nos  olhos  vencedores  lhe  infundirlo 
O   tyranno  poder  da   gentileza; 
Humanos   corações  logo   sentirJo 
A   liberdade   preza. 

As   castas   Musas  cheias  d'alta  gloria. 
As   áureas   vozes  derio  tal   doçura. 
Que   os   louros   nSo   perderão   da   victori.i, 
Faltando   a   formosura. 


Crescem   co'   a   idaJe   os   raios   seus   brilhantes 
(Jlue   a   férvidos   suspiros   njo   attendem, 
Apezar   de   desejos   anhelantes, 
Q.u'eni   seu   altar   se   accendem. 

Mas   tempo   inda   virá,   que   os   innoceutes 
Olhos  formosos   seus   a   nós   volvendo. 
Os    cruentos    virotes    reluzentes 
Queira   espalhar   vencendo. 

lintào   a   nosso   império   subjugados 
Os    míseros    mortaes,    arrastaremos 
Os    corações    das    pontas    traspassados 
Nas   mãos   lh'ofrr'eceremos. 

Kmquanto   a   densa   névoa  do   futuro 
Nos   rouba   a   luz    de   tão   feliz   instanti;, 
Por   mais   que   as   azas   mova   o   Tempo   duro. 
Intrépido   e   arrogante, 

i)a   illustre   Alcipe   bella,   o   claro   dia, 
M         Pretendo    assignalar   com    faustas    glorias, 
Í12-        l-e   nossos   arcos   o   destino   fia 
r  O   louro   das    victorias. 


•»-«>-•• 


C*3 


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^'j*'^ 


Alague   o   mundo   fino   pranto   ardente, 
Voem  suspiros,  voem   mil  clamores  ; 
Chovâo   por  toda   a   parte  de   repente 
Agudos   passadores. 

Rotos   peitos  a  míseros   humanos 
Ao  doce   golpe  entreguem   manietados  ; 
Suspirem   por  seus  olhos  e  seus  annos, 
Era   lagrimas   banhado. 

D'Alcipe   sò   remédio   seja 
A   chaga   tSo   mortal   e  tào   gostosa, 
E   no  seio  cruel   afogue  a   inveja 
A   serpe   venenosa. 

O   cruel   Tempo  quebre   a   fouce  dura; 
E   o  sol   girando  os  seus  frizões  ufanos, 
Nos  traga  sempre  cheios  de  ventura 
O   dia   de   seus   annos. 


is 


XVI. 
Á  riqueza  de  mn  Poeta. 

íN|AS   despidas  paredes,   que   me   abrigSo 

No   tormentoso   inverno, 
A    passagem   do   Grânico   não    vejo 

Em    fina    lâ    tecida: 
Nem   mármores,   nem   porfidos  luzentes 

Nos   alizares   brilhão. 
N3o  tine  do  Japilo   na   parca   meza 

A   rara  porcelana  : 
O   dourado   saleiro   não   me   cega 

Cos  trémulos   reflexos: 
De   prata  nâo  se   accendem   mil   bugias 

Em  tortas  serpentinas. 
Porém   Virgílio,   Sophoclcs,   Homero, 

O   venuzino   Horácio, 
Sáo   as  ricas   alfaias,   que   me   adornâo 

A  sala   magestosa, 


C\ 


126 

Os  soberbos  escudos,   em   que   pinto 

A   geração   illustre. 
Elles   fazem   que   Ansbcrto   generoso 

Seu  amigo  me  chame; 
Que  o   Souza   marcial  com   puro   estilo 

Gracejando  me  escreva. 
Guarde   a   terra  avarenta   nas  entranhas 

O   ouro   refulgente, 
f)  mineiro   na    roça   afflicto   cave 

Cos   sórdidos  escravos  : 
Por  ignotos  sertões   exponha   a   vida 

Do   bárbaro   Tapuia 
A   setta  venenosa,   á  veloz   garra 

Do  tigre   mosqneado. 
Soffra   na  linha   podre   calmaria, 

Relâmpagos   e  raios. 
Para   n'aldeia   entrar   acompanhado 

De  descalços  trombetas. 
De   purpúreas   araras,   inquietos 

Petulantes   bugios, 
Gaste  pródiga   a  mSo,  em   poucas  luas 

O   ganho  de  dois   lustros  ;  70 

|.  P.ira   a   vermelha   cruz  a   brilhar  no   peito,  "^ 

/    1  Que   os   fardos  encurvárSo.  •*■  WO 


No  tegurio   paterno   não   cabeuJo, 

Palácios   edifica 
Al.istrado   com    pedras   o   caminho. 

Do   guindaste   as   roldanas 
Co   peso   do   venal   escudo   gcmcni, 

Q.ue   o   pórtico    remata. 
listupiJo   não   sabe   que    apressada 

A   pallida   doença 
Atrás    delle    caminha  :    que    já    chega 

Envolta    em    parda    névoa, 
A    morte    inexor.ivel,    derramando 

Co'  a    fria    mão    angustias  ; 
Que    o   leito   de    cruéis    fantasmas    cerca. 

E   que   lhe   arranca   as   chaves 
Do    guardado   thcsouro  ;    que    o    reparte 

Pelos   rotos   herdeiros. 
E   qual   sangrado   rio   enfraquecido 

Torna   a   gastar-se   em   sogas  ! 
Com    Ouro    não   se    compra    um    nome    dij 

Da   posthuma    memoria. 


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XVII. 

Ao  Padre  António  Delfim. 

UELFIM,   caro   Delfim  !   Com   que  lige  ro 
Lúbrico  pè,   a  curta  idade  nossa 
Kos  vai   atropellando  !   Aa  horas  voào, 
Os  dias  nâo  socegâo  ! 

Quaes  horrisonos  Euros  insofiridos 
Varrem  da  longa  praia  a  ruiva  arèa, 
Que  nas   húmidas   aias   crespas   ondas 
Indómitas   revolvem. 

Assim   o  Tempo  cegador  co'  a  fouce 
D'aqui,  d'alli   talhando  a  débil   gente, 
Lança  no  vasto   golfSo  do  sepulchro 
As   pallidas  espigas. 

Em   vao  fuggindo  da   estrondosa   guerra, 
Se  acaso  tu,   Delfim,  calvo  nâo  fosses, 
Co'   a  sonora  navalha  decotaras 
Ondados  fios   de  ouro. 


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129 

Em    vâo   a   loba   e   sobrepelliz   vest!:ido, 
Mostrando   do   Lorèto   no   aho   coro 
Inchadas  do   pescoço   as   cordoveas, 
Bradando   salmeáras. 

A   morte,   a   fria   morte,   nunca   falta; 
Ou   cedo,   ou   tarde   chega:   todos   devem 
Humilhar   a   cerviz:    poltrões    covardes, 
Coléricos   Achilles. 

Com    mão   pezaJa   abola,   talha   e   rompe 
Grevas,    arnezes,   malhas,   bacinetes ; 
Por  baixo   do   fraldâo   crava  o   buído 
Estoque   refulgente. 

Soberba   arraza   com   fragor   horrínJo 
As   fundas   cavas,   os   merlões   erguidos, 
Assolando   cidades  e    províncias, 
A   toda   a   parte  vòa. 

Curvados   anciões,   moços   esbeltos 
Corta   c'o   mesmo   gume:   honras,   thesouros, 
Nao   lho   pegão   no   braço  ;   os   altos   tectos, 
Pobres   cabanas   piza. 


18 


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150 


Debalde   Gabilhon   c'o 
te  em   batalha 
aldc   enrola   o 
Os   martyres   topet 


destro   pente 
ibellos  ; 


Mette  em   batalha  juvenis  ca 
Debalde   enrola   o   escaldado   ferro 


O    frio   branco   gelo,   que   nSo   tarda, 
Súbito    põi   a   marca  da   idade  ; 
li   poncas  alvas  câs,   o  gesto  mudão 
Dos  enfeitados  cepos. 

As   brandas   Lylias,   as    gentis   Filenas, 
Todas  fogem  de  vê-lo  ;   todas  fogem 
Dos  olhos  sem   pestana,   regalados, 
Das  crespas  sobrancelhas. 

Os   teimosos   achaques,   tristes   dores, 
Catastas  sâo  dos  tntrevados   membros 
Froxos  desejos  morrem  de   garrote 
Ás   mãos   da   hypocondri.i. 

Nio  c  preciso  que  venal   propheta 
Aponte   com   o  dedo   para  a  cinza  : 
Para  velhos  nâo  ha  melhor  caveira, 
Que  o  vidro  de  um  espelho. 


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131 


Só   tu,    Delfim,    cansados   aniios   contas, 
Sem   signaes  <ie   velhice  :   inda   nâo   ouves 
O   tremendo   pregão   da   eternidade, 
A   trombeta   da    morte. 

Sobre  o   telhado   teu   não   pousão   estes 
Pássaros   agoureiros,   cjue   bradando 
Com    espantosos   guinchos,    annuncião 
A    derradeira    aurora. 

Nunca   vellio   serás  :    livre   de   brancis 
A    deserta   cabeça   callejida, 
\ão   SC   deixa  trilhar  das   leves   rodas 
Da   carreta   dos   annos. 

Sem   olhar   para  a    niéta   d.i   carreira, 
D'Archimi.des   no   ponto   se   está   rindo 
Britanno   capitão,   que   submergido 
Em   laudnnos  do   Douro, 

Amarrando   o   timão,   entrega  a   quilha 
Aos   rijos   ventos,   aos   cavados   mares  ; 
Não   ouve   as   roucas   vagas,   que   mugindo 
Os   pólos   estremecem. 


^"^  -*i   X^  W^f  i^if  %■>   *^*>  ^S  , 


Venha  se  quer  a   pallidi  doença 
A   fria   morte   pela   mão   trazendo  : 
Nâo  te  espantes  de  fouces  e  relógios. 
Nem   de   azas  de   morcego. 

Apresenta-lhe  a  calva,  que  te   mostre 
Onde  as  brancas  estão  ?   Carão   lustroso. 
Olhos  azues,   rosadas   faces,   alvos 
Os   crystallinos    dentes, 

São  constantes  signaes  da  fresca  idade, 
São   de  forças   viris,   taboleta  ; 
E   provido  colono,   a,  sábia  morte 
Não  colhe  fruto  verde. 

Triste  de   mim,  que   peco   e  já   maduro, 
Nos   grizalhos    monêtes  do  topete, 
Nas  carcomidas  pérolas  da  boca, 
Nas  obstinadas  rugas  ; 

Já   vejo  revoar  os  tristes  mochos, 
Que  sâo  da  fatal   hora  miquelctes. 
Cruel  tristeza  !   Mais  cruéis   memorias  ! 
Perdidas  efpjranças  ! 


^ # 4^ 


135 

Os   filhos,   ,1   mulher,   tudo    cá  deixo, 
Só   levo   na   garganta   atravessado 
O   venuzino   Horácio,   a   calva   tii.i, 
A  rainha  das  calvas. 


^  ...  i 


XVIII. 

Á  morte  de  José  Gonsalves  de  Moraes, 
sócio  da  Arcádia. 

OE  em   ricas  urnas  de  ouro  refulgente, 

Árcades  saudosos, 
As   frias    cinzas  de  Leucacio  FiJo 

Com  as  lagrimas  nossas 
Nâo  podemos   guardar :  em  nossos  versos, 

Do  Menalo  nos  troncos 
Seu  nome  escreveremos,  seu  bom  nome 

Das    Graças   suspirado; 
E  das  quebradas  aguas  deste  monte. 

Chorado  e  repetido, 
Estremecem   os  pinhos,  sacudidos 

Dos   ventos,   que  sibillâo. 
O    gado   espantadiço   se   derrama 

Pelos  crestados  campos 
Ao  longe  estSo  latindo  roucamcnte 

Q.uebr.nntados   rafeiros; 


^  :  ti- 


E   em   tão  triste   alarido   nos   parece, 

Que   das  cortadas   rochas 
O   6co   nos  responde  :    Fido  !    Fido  ! 

Nas   solitárias   prai.is 
Bradando   o   negro   mar,   Fido   responde  ; 

Por  Fido   nós   chamamos. 
Aonde   estão,  Arcádia,   os   teus   serenos 

Afortunados  dias  ? 
Q.uando  vermelho   o   sol   atrás    da   serra 

O   rosto   de   mil    raios 
Formoso  levantando,   por   teus   valles 

Dourava   alegremente. 
As   sonorosas   folhas   inquietas 

D.1S   faias   levantadas  ? 
AUi,   tocando   a    fistula   divina, 

Que   os   ventos   escutavio, 
De   gado  e   de   pastores    rode-.do, 

Senhor  nos   parecia 
De    nossos   coraçõ.s,   de   nossos   olhos, 

Do   Menalo,   da   Arcádia  ? 
Mas   que   fado   cruel,   tanta   ventura 

Das  nossas   mãos   arranca  ? 
Que   noite   pavorosa   está   cobrindo 

Os   ares   deste   campo  ? 


! 


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Que  frio   gelo   prende   as  claras   fontes 

E  corta  a  fresca  relva  ? 
Foges,   foges  de  nós,   pastor  amado  ? 

Nossas  pobres  cabanas. 
Nossas  frautas  e  nossos  doces  verso  s, 

A  caso  te   aborrecem  ? 
Trocas  do  manso   Tejo,   que  te  escuta 

As   margens   deleitosas, 
Por   ásperos   sertões,   por   longos   mares, 

Por   férvidas  arèas, 
Com   que  malignos  climas  te  convidâo 

E  invejosos  te  chamâo  ? 
Ali  !  triste  Arcádia,   triste  e  desgraçada  ! 

Que  detestáveis  erros. 
Contra  o  céo  commetterâo  os  teus  pastores  ? 

Que  lugtibre  destino 
A   tSo  duro   castigo  te  condemna  ? 

Sacrílegos  erguemos 
Com  ímpia  mâo  as  campas  respeitadas 

Dos  defuntos  maiores 
Para   ás  feras  lançar  os  brancos  ossos, 

Qu'em  santa  paz  descansâo  ? 
As   victimas  divinas  arrancamos 

Dos  sagrados   altares  ? 


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137 

Ou   que   raio   caliio   sobre   estes   campos, 

Que   mais   a   ver   não   tornâo 
O   suave   pastor,   o   claro   Fido, 

Que  virão   tantas   vezes  ? 
Maldito   seja   aquelle,   que   primeiro 

Fiou   de   curvos   lenhos 
Ávidas  esperanças,   sede   infausta 

De    enganosas    riquezas  ! 
De   mármore   Marpezio,   rijo   bronze 

Tinha   o   peito   forjado, 
Quem    ruidosas   velas   desfraldando, 

Fugio   do   manso   porto. 
Sem   de  Africo   temer  a   rouca  fúria, 

Quando   açoutando   as   ondas 
Cos  negros   Aquilões   forte   contende  ! 

As   cruéis  tempestades, 
Hyades   tristes,   cahos  tormentosos, 

E   o   pego   embravecido. 
Ou  intrépido,   ou   louco   não   temia  ! 

Os   mortaes   atrevidos 
Nada  julgâo   difiicil  !    Entregamos 

Nós   mesmos   os   pescoços 
A   sanguinosa   fouce,   á   mão   pesada 

Da   morte   inexorável! 


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138 

Km  soberbas   columnas  levantamos 

MagniScos   palácios: 
Nem   que   a   riqueza,   a  honra,  ou   a   vanglori.i. 

Com  refulgente  escudo 
De   rigido   diamante,   nos   pudessem 

Cobrir  a  fatal    hora  ! 
Escondem   frias  louzas  igualmente 

Os  sceptros  e  os   cajados  ! 
Tudo   deve  acabar.   O'   claro   Fido  1 

Era  eterno  socego 
Tua  cinza  descanse  ;   a   terra   estranha 

Pesada   te   não  seja  : 
Se   lá  no   monte  eterno   a  que   voaste 

Se   escutão  nossos  versos, 
Em   nossos  versos  ouvirás  teu  nome, 

Teu  nome  cantaremos. 
Para  honrarmos  os   versos,  que  cantamos. 

Para  honrarmos  a  Arcádia. 


XIX. 

V>ERCADO   de   pedreiros,   de   vorazes 
Carpinteiros   ladrões,   ou   cervaes   lobos, 
Que   a  bolsa   me   atassalhâo,   que   esfaimados 
A   feria   nic   apresentão  ; 

Q.uaes    buídos   punhaes,    negros    trabucos, 
D'aqui,   d'alli   recrescem    garatujas  ! 
Assestados   canhões,   que   poderiâo 
Bater  os   Dardanellos  ! 

Severo   Rhadamanto,   o   sujo   mestre 
A   postiça   gadelha   affasta   e   puxa  ; 
E   os   encovados   olhos   revirando 
Alça   o   rol   d.i   madeira. 

Debalde   o   rosto   viro  ;   e   do   medonho 
Espectro  sanguinoso   fugir   tento  ; 
Que   Scylla   mais   cruel,   o   rol   d'arèa., 
O   beque   me   descoze. 


Sibilante   petardo   d'outra   parte, 
Co   tijolo   me  quebrão   os   ouvidos  ! 
Jornaes,   carretos,   cal,  sâo   mil   pelouros. 
Que   silvão  pelos  ares. 

Com   a   perna   ferida,   co'as   fileiras 
Da   vanguarda   já   rotas   e   medrosas. 
Nas   andas  inda   mostra  o   grande   Carlos, 
Indómita   constância  1 

A  vista  de  soberbos   Castelhanos, 
Com  poucas  tropas,   cora  bisonha   gente. 
Sustenta   Lippe   a  ruiva  e  fresca  margem 
Do  Tejo  caudaloso  ! 

Mas  estes   mesmos,   o'   Macbean  amigo. 
Se  ante   seus  olhos  vissem  as  carrancas 
Dos  leões   carniceiros,   que   me  cercío. 
Voando   fagiriào. 

Tu  mesmo   co'   a   britanna   artilheria. 
Deixando  botafo^os  e  espoletas, 
E  os   dourados  rabões  esporeando, 
O   posto   lhe  largaras. 


A ^à 


P6de  mais  um   credor   que   ura   elepliante, 
Nâo  ha   tromba   mais   dura,   que   uma   foria  ; 
E  se  queres   vencer  os   Alexaiidrcs, 
Eugenios  e  Turennas, 

Nâo   busques    grevas,    murriões,    pavezes, 
Põe-Uie   diante    o    mercador   c'o    resto, 
O   alfaiate,   o   barbeiro,   ou   um   alcaide, 
Verás   como   desmaião. 

E   se   ainda   vãos   projectos   conimetterem, 
De   cruentas   victorias  nunca   fartos, 
Dá-lhe    o    desenho   de    uma    nova   escada, 
E   dize-lhe,   que   a   facão. 

Eis-aqui    como    fico   sem    lograr-nie 
Da    boa   companhia,    que    te    cerca  : 
Tu,    que   escadas    nâo    fazes,    passa    alegre 
A    noite   desabrida. 

Em   brilhantes   crystaes   a   roxa   espuma 
Do  suave   licor  do   Rheno   ou   Douro, 
Te  apresente  sorrindo   o   fuUo   Same, 
E   tu   vermelho   bsbe  : 

^.-i-h ^'^i- — -h^^é^^ 


* 


5  6 


:«r'-t»'-. 


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142 

Bebe  a  saúde  da  formosa   Filis, 
Do  magnânimo  Conde,   a   quem   Neptuno 
Namorado  do  seu   valor,   lhe   entrega 
O   sceptro   crystallino. 

Os  dois  Weinholtz,   que   Marte   tanto  preza. 
Da  cova   porçolana   que   retine, 
Co'a  boiante  colher  tirem   o  doce 
Alrao  fervido   ponche. 

E  se  do  pobre   Corydon   vos   p6de 
Merecer  compaixSo   a   triste   historia, 
Fazei-lhe  uma  saúde,   que   lhe  sirva 
Ao  menos  de  epitaphio. 


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XX. 

Ao  Snr  Gaspar  Pinheiro  da  Camera  Manoel. 

VjUANTOS,   caro   Pinheiro,   noite   e   dia 

Curvados   sobre   os   livros 
A   triste  vida   gastâo   na   esperança 

De  uma  vermelha   borla, 
D.i   vara  e   da   golilha  ?   Honra   que   chega. 

Já   quando   as   ci5s   alvejío 
N.i   mirrada   cabeça.   Quantos   morrem 

Por  frenéticas   palmas 
De   cruentas   victorias  ?   Descorado 

No   raso   campo   treme 
Com   frio  susto   á   vista   do  inimigo 

O    misero   soldado  : 
Co'   a   musica   mistura   dos   batidos 

Horrisonos   tambores 
Os   últimos   suspiros.   Pelos   ares 

Pelouros   assovi.ío  : 


#>■ 


.i  144  *) 

Co   tropel  dos   cavallos  freme   a  terra 

Do  pó  e  crespo   fumo 
As   enroladas   nuvens  escurece 

O    resplendor  do   dia  : 
Isto  aos   Carlos   agrada,   aos   Fredericos, 

Eugenios  e   Turennas  ! 
Em   frágil  lenho   entregue   a   longos   mares, 

O   mercador  avaro 
Luta  co'   a  morte  :   rasgão  negros  Austros 

As   prenhes   nuvens  :  brilha 
Entre   a  rouca   saraiva,   o   retorcido 

Crepitante  corisco  : 
Estala  a  fraca  verga,   a   rota  vela 

Ondeando   sussurra  : 
E   a  fome  de  ouro,  tudo  fa»   mais  doce, 

Que  a  livida  pobreza! 
Outro,   cora   o  martello,   os  cadeados 

Despedaça   do   cofre, 
Q.ue  do  incansável   pai  o  curvo  arado 

Tirou   da  dura   terra  : 
Vai  perdi-lo  n'um   dia,   porque  gosta 

De  brincar  com   três  dados  ! 
Aquelle  sò  se  alegra,  c  se  diverte 

Co'   as  belgicas  pinturas  : 

<3gí^-*. _í^ A^ 


MS 

Sonha   com   Rapliael   e   Tici.uio. 

Emquanto   o   astuto   adelo 
Na    frágil    taboa,   com    o    dído    mostra 

A   testa   de   Medusa. 
Kste,   n'alcantilada   serra   corre 

O    javali    cerdoso  ; 
Os    sabujos    britannicos   latindo 

No   fundo   valle   assustâo 
A   quieta   pastora,   que   aturdida 

Larga   da   mSo   o   fuso. 
Outro,   na   rica   nieza   rodeado 

De   vorazes   amigos, 
lím    brilliantes   crystaes,   e   Douro   e   Rlieno 

O   roxo   çumo    bebe  ; 
Té   que   dos   altos   cumes   dos   outeiros 

Caia    a   nocturna   srmbra. 
Eu,    porém,   nada   quero,   nada   estimo 

Mais   que   a   dourada  lyra  : 
Se   os   pastores   do   Menalo   sagrado, 

Se   os  loureiros   d'Arcadia 
Os   meus   versos   escutâo,   os   meus   versos 

Me   separílo   do   vulgo  : 
Na   testa  cingirei   livre   de   inveja 

D'  iiera   frondente   c'ròa  ; 


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'9 


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146 

E   cora  lésbico   plectro  ou  venuzino. 

Ferindo  as  áureas   cordas, 
Arcádia  cantarei  :   o   pátrio   Tejo 

Attenda   ao   novo   canto 
Cora   a  verde  cabeça   goleando 

Na  urna  recostado, 
Se  aqui  chegar,   que   Rhadamanto   pôde 

Negar-me  o   nome  eterno  ? 


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"47 


XXI. 

Ao  Snr  Gaspar  Pinheiro  da  Camera  Manoel. 

vJCE   fácil   é   com    lap^s   e   compasso, 
Desenhar  no   pipel   uma  cidade, 
De   cavas   e   raerlões   circumvallada, 
Soberba,    inaccessivel  ; 

Hxecutar,   porém,    a   grande   planta 
li   traballio   de    um    rei,    caro    Pinheiro, 
D'  Ulysses,   de   Lveo,   do   pio   Enéas, 
Dido,    Komilo   e   Remo. 

Quando    tu   no   alto    pego   ouves   zunindo 
Pela   miuiia   enxárcia,   Africo   ou  Noto, 
Que   ferras  todo   o   panno,   que   manobras 
Impávido   e    prudente  : 

Se  de   longa  experiência   aconselhado 
Não    mnndafses    constante,    que    valera 
Ter  no   tanque   de   Cintra   exposto   ao   vonto 
Fragatas   de   cortiça  ? 


148 


Todos,  todos  clamamos,  que  se   observe, 
O   que   dieta   a   razão   e   a   natureza, 
E   as  santas  decisões,   que  nos  promulg» 
A  catholica  Roma. 

Ninguém  se  julga   bárbaro;   mas  vemos 
Lançar   fumo  o   punhal,   em   sangue   tincto 
Na   mão   do   matador  ;   vemos   roubados 
Os  sagrados   altares  ! 

Com  damnada  malicia,  uns  aos  outros 
Enganbar  pretendemos  :  falso   gesto 
É  o  trunfo  do  jogo,  da  amizade 
Hypocrita  verdugo  ! 

Na   magnifica   meza   era   crystaes   ricos 

Trasborda   a   loura   espuma  do  suave 

Vinho  de  Chypre :   alegres   convidados 

Ao   grande  amigo  brlndlo  : 

Levantâo   as  reciprocas  saúdes, 
Ternissimos  coUoquios  ;   mas  depressa 
Esta  scena  se   muda,  e  da  discórdia 
Rola  o   dourado   pomo. 


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149 

Pelo  arbítrio   de   Paris   não   se   espera; 
Kua   a  espada   brilha   e   fere  :   corre 
O  sangue   quente,   e   os   copos  em   pedaços 
Espalhados   retinem. 

Que   mais   faria  o   pérfido   Argelino, 
Se    c'o  estreito   chaveco   abalroara  ! 
Talvez   que   ncUe   adiasse   mais   clemência 
A   pobre   humanidade. 

Se   na   Hyrcania,   ou   no   Cáucaso   nascidos 
Os  homens  fossem,   n.ío   seria  estranha 
A  traição,   o   rancor,   a   triste    inveja, 
A   rispida   soberba. 

E   fora,   pois  já   vio   a   antiga   Roma 
No   tyranno   espectáculo   do   circo, 
Esfaimado   le.^o   lamber  as   plantas 
Do   amigo   descorado. 

O'    amizade,    o'    dadiva    celeste  ! 
Enfadada   de   nós,   de   nós   te   ausentas 
Abriste   as   brancas  azas,   que   sonorar. 
Nos   ares  te  sustentâo  : 


•.íl' 


150 

Já  sobes,  já  te  elevas,  já  te  es>:ondes. 
Ora  sereno   o   vôo,   ora   apressado. 
Nos  immensos  espaços,   onde  girJo 
Outros   soes,   outros   mundos. 

A   luz   do   dia   foge  :    fica    a   terra 
A  sen  antigo  cahos  reduzida  : 
Mas,  dentre   as    grossas   trevas   apalpando, 
Eis  se  ergue  o  fingimento. 

Os   cândidos   vestidos   da   amizade 
Co'  as  negras  mãos  levanta  aos  torpes  membros; 
Nas   fantásticas   roupas   disfarçado 
Engana   a   cega    gente. 

Com   estreitos  abraços  se  recebem 
Os  fingidos   amigos  :   filho   chama 
O   tyranno   tutor   ao   desfalcado 
E   misero  pupillo. 

E   nesta   tenra  idade,   fracas   almns, 
Almas   era   feios   vicios   atoladas. 
Como   podem    guardar   as   leis   austeras 
Da   pávida   amizade? 

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É   fácil  ter  de   amigo   o  santo   nome, 
E   sustenta-lo   cora   civil   aspecto  ; 
Mas   que   ao   chapéo   o   coração    governe, 
É   Ethiope   branco  ! 

A  lingua,   que   te   salva,   quando   raia 
No  vermelho   horizonte   o   sol  dourado, 
Antes  que   a  sombri   caia  dos  outeiros. 
Te   insultJ,   ou   te   crimina. 

Desgraçados   rafeiros,   que   só   mordem 
Os   pobres   remendados  j   porém,   vendo 
Os  olhos   fuzilar  do   roaz   lobo, 
A   cauda   desenrolâo. 

Kâo   se   encontrão   Euryalos   e  Nizos, 
Castor  e   Pollux,   Pylades   e   Orestes  ; 
Nem   para  renascer  a  extincta  raça 
Esperes   nova   Pyrrha. 

Mais   fácil   c   que   Cadmo  resemeie 
Os  dentes   do   dragão,   e   que  rebentem 
Da   terra  depravada,   enfurecidos 
Armigeros   guerreiros. 

„ „_ 5;^   í^  í^r*5*3% 


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152 


XXII. 

^»>OM   que   férvidos   rogos   imaginas. 
Caro  illustre  Macbean,  qu'o  céo  clemente 
Cansa  um   poeta?   Crê-me ;   nâo  lhe  pede 
Magníficos   palácios. 

De   pouco   se   contenta  ;   nâo   cobiça 
Do   fulvo  Tejo  arar  as   férteis   margens. 
Onde  sonora  freme  a  loura  espiga 
Dos  Euros  açoutada. 

Os  rufos  touros,  as   malhadas  vaccas 
Dos  campos  transtaganos  nâo  deseja, 
Nem   indico  marfim,  ouro   brilhante. 
Nem   pérolas  do   Ganges. 

Afouto  beba  o  mercador  em  taças 
De  esmeralda   e  saphyra   o   licor  almo 
De   Chypre  e  de   Falerno  ;  já  qne  os  mares 
Parece  que   governa. 


l;l.l.l  1:1 1 11  ■iiiiiliiiilillliiliiiiii  I  i;i.i> 


Impune   trcz   e   quatro   vezes   rompa 
Cad'anno   o   golfflo  :   desfraldando   as   velas 
Impávido   commetta  infames   costas, 
Inhospitas   arcas. 

Não   lhe   invejo   a   fortuna  ;   pois   me   basta 
Passar  a  curta  vida   retirado 
Na  Fonte-santa   ao  som   da    clara   vèa, 
Urdindo   novos   versos. 

Divina   Providencia,   tu   bem   sabes 
Q.uâo   pouco  te   molestâo   meus   desejos: 
Não  quero   mais   que   ver   na  frugal   meza, 
De   filhos   rodeada  ; 

Um  limpo  copo,   com   que  nesta  grande 
Noite,   só   para  mim   prospero   dia, 
Possa  alegre   brindar   aos   faustos   annos 
Do   heróico   S.   Vicente. 

Com   mais  pouco  se  mata   a  crua  fome  : 
Para   fazer  seu   grande  nome  eterno, 
Ou   pobre,   ou   rico   viva,   tenho   a   lyra 
Do   cantor  Je   Venusa. 


■  I  I  I  I  I  I  I  I  I  I  II 


[  I  I  I  i  ■  I  I  I  I  I  I  I  ■  I  I  I  I  11  I  I  I  I  I  I  ii|i 


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Em  quanto,  ô   Conde,   as  bellicas  virtude 
Que  herdaste  de  teus  inclytos  maiores. 
No  regaço  da  paz  jazem  tranquillas, 
Preparo  os  epinicios. 

Tempo  depois  virá,   que  desferindo 
Km   áurea  popa  as  lusitanas  quinas, 
Arrazadas  as  aguas  de  turbantes, 
Te  c'rôem  mil  yictorias. 

De  negro  sangue  as  arm  s  rociadas, 
Arrastados  trarão  ao  luso  throno 
Os   Mouros   capitães  ;   nas  duras   costas 
As  roxas  mios   atadas. 

Se  as  estreitas  então  me  consentirem 
Tuas  acções  cantar  ;  da  fria  morte 
Verei  luzir  a  fouce,  satisfeito 
Da  gloria  e  da   fortuna. 


Illlillllil  l:!!'!!!'!!!!!'!  ■  l'l>l  ■i|lll|lil|!|  ■'iillll|!|ll>|l|ll  lilllllllll 


~Q'^£u^ 


XXII. 

Aos  annos 
do  Snr  José  Carlos  Mardel. 


Al 


i-PENAS   hoje   a  somnolenta   aurora. 
Entre   as   rosadas   nuvens,   que   abafavâo 
Da  alcantilada  serra   os   altos   cutnes, 
Mostrava   a   manliâ   fresca: 

Uma  inquieta   tropa    de   vendados. 
Lindíssimos  Amores,   se   alojava 
Do   fulvo  Tejo  na  arenosa   praia, 
Que   adorna   a   gril   cidade. 

Arnezes,    malhas,   grevas   e   loricas 
Veste   a   saberba   juvenil   phalange. 
Dos  áureos  elmos,   com   as  torcidas   plumas 
Zephyro   cmpcnna   as   azas. 


156 

Ao  rouco  som  de  horrisonos   tambores. 
Que  n'ama  e   n'oiitra  margem  retinia, 
A  brava  gente  ferve,  qual   puxava 
A   rápida   columna; 

Qual  marcando  reductos  e  trincheiras, 
Na   ruiva   arêa   crava   as   áureas   settas: 
E   qual   levanta   c'o   alvião    pesado 
Merlões   e   plataformas. 

Os   tirantes  de   purpura   atezando, 

Outros   arrastão   sagres,   falconetes. 

Que  em   altas  baterias   assestados 

AfTrontão  todo  o   mundo. 

Então   Amor   alçando   a   mâo   tyranna. 
Onde  a  farpada  ponta  fuzilava. 
Manda  jogar  os  férvidos  morteiros. 
E   rompe   nestas   vozes: 

«   Esta  alegre   rezenha,   companheiros, 
A   tio   prospero  dia  é  consagradi  : 
Hoje  a  Mardel   gentil,   as  duras  Parcas 
Fi2o  dourados   annos. 


'57 


«  As   roxas   balas,   que   nos   ares   silvío, 
Das  bombas   as   sonoras   espoletas, 
As  ruidosas   granadas   fulminantes, 
Tudo,   seus   annos   louvâo. 

«   O   bellico   ruido   aos   mesmos   astros 
Ensina   a   repetir  seu   claro  nome : 
Os   mesmos   astros,   quaes   seus   olhos   brilhão, 
ScintilhírJo   com   elle.  » 

Disse:   e   da   terra   súbito   levanta 
Dos   hórridos   canhões  o   negro   fumo. 
Qual   EncclaJo   montes   sobre   montes, 
Ou  nuvens   sobre   nuvens. 

Mas   eis  que   o   cego   nume   a   scena   corre; 
Nâo   vi   na   liza   arêa   mais  que   o   fumo 
De   míseras  entranhas   palpitantes, 
De   corações  feridos. 

Que   abrazados   queixumes,   que   soluços, 
Oh!   que  doces  suspiros,   que  soav.ío ! 
De   maneataJas   nj-mphas,  que   rendidas 
Jazem   no   duro  campo. 


■hlll  ■:■  lllll  I  i^l  III  I  I  ■;!  I  I  I 


|;iiiii'il  I 


158 

As  linhas,   os  ramaes,   as  colabrinas 
Outra  cousa  n3o  são  mais  que  seus    olhos. 
Que  seus  olhos  azues,   alvo  semblante, 
Que  seus   louros  cabellos. 

Fugi,   nymphas,  fugi  d'aquelle3  olhos, 
Kelles  afia  Amor  seus  passadores: 
Fugi,  nymphas,   fugi,  que  seus  cabellos 
São  as  vulcaneas  redes. 


M9 


1   OIS   sabes,   que   nas    margens  do  Mondego, 

Amor,   que   é   grão   poeta, 
A  cantar  brandos   versos   me  ensinava. 

Quando   prezo    me   tinha, 
E   victim.i   chorosa,   as   aras   cruas 

Banhei    c'o   sangue  quente 
Do   roto   coração,   das   rotas   veias, 

Que   abriâo   seus   virotc:s  : 
Nio  estranhes,  Senhora,   que  os  furores 

Do   génio   sibyllino 
Me   forci.'m    a   louvar  o   claro   dia 

De   tens  ditosos   annos  : 
Ao   santo   templo  da  immortal   memoria, 

Sobre   as   azas   da   Fama 
O   desejo   levar;   quero   que   cliegue 

Aos   séculos   futuros, 


I  I  I  I  I  I  I  I  I  I  c  :  I  I  I  I  1  I 


i6o 

Cercado  de  relâmpagos  e   raios, 

Com  que   os  vates  fulminâo 
Da  inveja  triste  as  assanhadas  serpes. 

Que  em  torno  lhe  sibilão 
Do   lívido   semblante  descorado, 

Dos   olhos  furibundos. 
As  estofadas  ondas  somnolentas 

Do  Lethes  vagaroso 
Verão,   passar  mil  vezes  tâo  bom  dia 

De  estrellas  coroado. 
Virão,   como  hoje  vem,   a  teus  altares 

Render  devoto  culto 
Os  miseros  amantes  desmaiados; 

Em   suas  mãos  trazendo 
Inda  quentes  entranhas  palpitantes, 

E  corações  fumando. 
Outros  T)'rses  e  Elpinos  namorados. 

Outros  Licidas   Cintios, 
Prostrados  erguerão  queixosos  hymnos. 

Rasgando  os  mansos  ares 
Com   férvidos  snspiros,  com  seu  pranto. 

Que  tu,   cruel,   desprezas! 
Sò  não  sei   se  haverá  outra  Silvandra, 

E  que  vestal  do  templo. 


i6i 

No   sonoro   rebolo,   o  fatal   gume 

Afie  da  bipenne, 
Com  que  desfecha  os  golpes  nos  solemnes. 

Cruentos  sacrifícios, 
Quando  a.  gelada   victima  estremece, 

E   cerra   os   tristes   olhos. 
Hoje,   porém,   que  t3o   alegre  dia 

Com   farta   mâo  derrama 
As   delicias,   prazeres,   e   fortunas 

Em   toda   a   Fonte-Santa; 
E   nas  espáduas   do   ligeiro   Noto 

As  Graças  e   os  Amores 
Com   sonoro  sussurro  andSo   voando 

A   roda  desta  casa; 
Deixa,   gentil  Senhora,  que  se  raud; 

A  cithara  soberba 
Em   avena   campestre,   e   que   te   oflfreça 

Humilde   rendimento 
De  singela  vontade  e  sios  desejos  ; 

Uma   pobre   gallinha. 
Um   alvo   ganso,   que   muito  ha  que   adeja 

Para  voar  tSo  alto; 
E   co'as   pennas  das   azas   rutilantes, 

No   azul   etliereo  assento 


iiiiiíi  ■■  I  1 1  II  ii:i  ■  i  11  1 1 1  I  I  III  III  11 11  11  li  I  liiiii' 


l62 

Escreverá  de  Arminda  o  doce  nome  : 
Para  ser  entre   os   astros 

De  desejos,   amores  e  suspiros, 
O   norte  luminoso. 


-i  (VÍ  I  ■  lililllililllilll  ill  I  ■  I  I  I  I  I  I  1.1  lli  i  ■;■  III  Klllllll 


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.63 


XXV. 

^MQ.UANT0   o   pobre   Tvrse   descansado 
Da   preguiça   nos  braços  somnolentos, 
Co'a   boca   meia   aberta   a   sommo  solto, 
Ou   ronca,   ou  se   espreguiça  : 

Emquanto   a  torpe   e   vaga  fantazia, 
Lutando   com   cansados   pesadelcs 
Km   verdes   bancas   pinta   as   louras   marcas. 
Lhe   mostra  o  az    de  copas  • 

Emquanto   atado   ao  duro   e   longo   remo 
Da   galé,   com   que  surca   fundos   pegos. 
Os   calejados   hombros   dobra   ao  duro 
Arrebém   de    comitre  : 

Emquanto   crê  que   a   Fonte-Santa   alegre, 
Com   sonoro   ruido  solta   as   aguas. 
Só    quando  vc   em   seus   quebrados   olhos 
Amor   tremer  com   frio  : 


I  III  I  I  I  i.i  I  ■  I  I  I  I  I 


164 

Emtanto  o  bravo  Elpino,   qual  o  fulvo 
Famélico  leão  da  gr2  Nonacria, 
Atassalhando  os  pávidos  rebanhos, 
Traga  famintos   membros. 

Assim   vem,   assim   vè,   assim   subjuga 
Rebeldes  corações,  que  redazidos 
A   poucas  cinzas,   qual   o   débil   fumo 
Era   crespas   nuvens  voào. 

Debaixo  já  da  planta  vencedora, 
Em   frio   sangue   sajos   palpitando 
Abjurão  de  Mafonia,   ou  moUe  Tyrse, 
A   immunda   torpe  seita. 

Mas   o   pio   Alexandre   condoido 
Da  orphandade  dis   miseras  captivas, 
Kas  ricas  almofadas,  barba  a  barba, 
AfFavel   as  recebe. 

Oh  !   que   doces,   que  lagrimas   conteutss 
Inundio  negros  olhos  !   Que  suaves. 
Que   férvidos  suspiros  retinindo, 
Nâo  voJo   pelo  tecto  ! 

I  i?i  I  ii  i  •  1 1  li  1 1 1  i  1 1  li  I  li  II  lii  1 1:1  i!riii:iiiiriiiii 


4-  ♦^^g^pj^^^^ 


165 

Ah  !   pobre  Tyrse  !   acode,   que   te   pizSo  ; 
Que   teus   campos   já   roubão,    talão,   queimão 
Armados  esquadrões   doutros   Amores, 
Amores  invencíveis. 


illli:!  1:1  I  I  I  I  I  I  I 


•  I  I  l-l  I  I  I 


i66 


XXVI. 

Traducção  de  uns  versos  inglezes  feitos- 
a  um  seu  grande  pintor. 

\J   DOURAR    a  manhã,   do  sol   que  nasce, 

Derramar  os   reflexos  ; 
Pintar  a  sombra  do  cerrado  bosque, 

A  rápida  corrente  ; 
As   cerúleas   montanhas   afTastadas 

Mandar,   que  se   levantem, 
Co  vermelho  horizonte   confundidas  ; 

Pela  verde  campina 
O  rebanho  espalhar  que  anda  pascendo  ; 

Dos  rachados  penedos 
Fazer   que  desçSo  caudalosos  rios  ; 

Que   a   creaçào   formosa 
Brote  debaixo   desta  mâo   potente 

E   a   grande  tarefa, 
Que  s6  se  atreve  a  descrever  Sertório. 

Mas  quando  sazonados 


167 

Apparecem   os   frutos   de    Pomona 

A   producçâo   amavL'l 
Do   fértil   anno ;   então   a   natureza 

Porque   se   vè   venciJ.i, 
Se   mostra  envergonhada:   ó   pincel   raro, 

Do   que   o   sol    mais    fecundo 
Co   doce   toque   os   pomos   faz   maduros  : 

Do   paraiso   pôde 
A   memoria   acordar;   dar-nos  seus  frutos 

Sem  segundo    delicto. 


■II  I  I  iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii 


i68 


XXVII. 

i\|ÃO  fabulosa  têa  de  mentido 
Gentílico  hymeneo,  illustres  noivos. 
Mas  sagrada  união  d'um  sacramento^ 
Vos  prende  e  vos  ajunta. 

Com   catholico  rito   abençoada 
A   ditosa  alliança,   nos  promette 
Dos  Mellos,  dos  Koronhas  e  Menezes 
Heróica  descendência. 

As  illustres   acções,  que  a  Fama  espalh» 
Repetidas  veremos.   Torna,  torna 
A  boa  idade  de  ourol  A  boa  idade 
Do  nome  lusitano. 

Nas  respeitadas  campas  dos  honrados 
Vossos  claros  maiores  subir  vemos 
As  palmas  e  loureiros,  que  regados 
Co  sangue  illustre  forSo. 


II  i  llllllllllilllllllllllllllll  11  i:!:!.-!:!;! 


169 

Dentre   a   copada  rama   se  levanta 
Estranho   sim'.;lacro  !   Reverbera 
No  lizo   peito  de   aço   o  roxo   Phebo, 
Q.ne   immensa  luz   espalha. 

Levanta  o   forte   braço   a    grande   esp.id.i, 
E  da   folha   os   relâmpagos   assustão 
As   soberbas   muralhas  de   Byzancio, 
De   Tangere   e   de   ArziUa. 

Mas   que   gentis   gncrreiros  vejo   agora 
Concorrer   para   ouvi-lo  I   Alli  lhe   ensina 
O   táctico   systema ;   alli   lhe   mostra 
As   avitas   façanhas. 

Cerrados   esquadrões   desbaratando 
Entre  nuvens   de   fumo   as   torpes   luas. 
Eclipsadas   vacill.lo!  No   ar   ondcão 
As  sacrosantas  quinas. 

Esta  prole  será,   que   a   pátria  espera 
De   t.ío  ditoso   thalamo,   que  as   Musas 
Já  desejJo   cantar;   já  lhe   prepario 

Alegres   epinicios. 


ilil  I  I  I  I  I  I 


l2li!ISIItll:tlllllllllllllllIII 


XXVIII. 
À  vida  rústica. 

V-/     MIL  vezes  feliz,   o  que  encerr^fc 

Entre   baixas   paredes 
O  tormentoso  inverno  alegre  passa! 

Que  de  um  pequeno  campo, 
Que  elle  mesmo  cnhiva,  se  alimenta 

Apascentando  as  vaccas. 
Que  da  raâo  paternal  somente  herdou 

Cos  dourados  novilhos. 
Emqaanto  sobre  a  terra  se  reclina 

Dormindo  descansado 
Ao  som  das  frescas  aguas  de  um   regsto, 

Horrorosos   cuidados 
O   nJo   vem   perturbar   no   brando   somno. 

A  sórdida  cobiça 
Lhe  nio  faz  conceber  vastos   prejectos. 

Nio  pensa,  nio  intenta 


:i  I  I  I  I  I  I  I  J  I  I  I  I  I  I  I  II  i  I  1.1. 11  ■  i.iiiíiii!iiiil:lililllisilllllil 


.:;13.P^^ 


Atravessar  o    c.ibo   tormentoso, 

Soffrer   chuvas   e   ventos, 
Ouvir   roncar   as   denegridas    ondas, 

E   ver   na   feia   noite 
lintre   nuvens   a   lua   ir  escondendo 

O   macilento   rosto  ; 
Por   ir    commerciar   cos    pardos   Indos, 

E   Chinas   engenhosos. 
A   sede  insaciável   de   riquezas 

Xâo   faz   que   exponha   a   vida 
Nos   desertos  sertões   ás   verdes   cobras, 

E   aos   remendados   tigres. 
Ah  !    illustre    Soeiro,    doce    amigo, 

O    ouro   de    que   serve. 
Se   os   annos   vão   correndo   tão   velozes? 

Se   a    morte    não    consente, 
Q.ne    a   enrugada   e    pallida   velhice, 

Com   passos   vagarosos 
Nos   venha   coroar  de   niveas   cãs? 

O    senhor   opulento 
Ao  seu    pobre   vizinho   encurte   o   campo, 

Q.ue    alegre    cultivava; 
Levantando   soberbos   edifícios, 

Arranque   as  oliveiras. 


■5-=^^ 


o  cbopo  que  sustenta  as   roxas  uvas, 

Para  ornar  seus  jardins 
De  estéril  murta,  de  cheirosas  plantas, 

O   campo,   qne   ondeava 
Com   as  úteis   e   pallidas   espigas. 

Cubra  de  fresca  sombra 
Do  espesso  cedro,  do  frondoso  louro; 

Alegre   vá   passando 
Ko  seio  das  delicias  e  regalos. 

Mas  ah!  que  não  adverte 
Que  as  três  filhas  da  noite,  as  impiís   Parcas, 

Gyrando   os  leves   fusos. 
Lhe  acabão  de  fiar  os  curtos  dias! 

Que  a  morte  inexorável 
Se   chega   ao   rico   leito   em   que  descansa, 

Mostrando-lhe   entre   sombras 
A  macilenta  mão  com  que  lhe   pega. 

Já   entre   mil   angustias, 
Entre  os  frios  suspiros,  que  derrama, 

Acaba   a   tri&te   vida. 
Que   intentava   gozar  por  longos   annos. 

Sò   tu,   filha  do   céo. 
Impávida   virtude,    não   estranhas 

O   aspecto  da  morte. 


•^Tíâ^^ir 


XXIX. 

/ilXDA   que   o   eco   sereno,    o   dia   claro 

Doce   prazer   inspire 
Aos   niiseros   mort.ies,   aos   namorados  ; 

Pesada   escura   sombra 
O   coraçSo   me   cobre  ;   feias   trevas 

Onde   a   memoria   pasma, 
Mais  longa   a  saudade   representâo. 

Nem   sequer   falsos   sonhos 
Com   doce  engano   aquella   luz    me   fingem, 

Por  quem  sempre   suspiro. 
Vc;n,  bella   Mareia,   vem,   porque  em  teus   olhos 

Me   trazes  sol   e  dia, 
Em   teus  formosos   ollios    me   amanhece 

A   mais   gentil   aurora  ; 
Km   teus   formosos   olhos   vem   os   raios 

Q.ue  dourâo  estes   monttí  ; 


ilt  ■  I  I  I  11  ■  I  I  I  ■  I  ■  I  I  I  ■  I  I  I  I  I  I  I  1.1  III  I  I  •  III  •'•i|i|i|< 


'74 

Que   a.  secca  terra  cobrem  de  mil   flores,. 

Que  no   meu  peito   acceniem 
Doces  desejos,  doces   esperanças, 

Finissimos  amores. 
Mas  já  Favonio   fresco   brandamente. 

Dos   alamos   as   folhas 
Cora   seus  sonoros   sopros   levantando, 

A   vinda   me   annuncia 
Dos   vencedores   olos,   por  que   espero. 

Dos   olhos   por  quem   morro. 
Ah  !   que  ji  chega  Mareia,   socegai-vos. 

Meus  cansados  desejos  ; 
Socegai,   esperanças,   que   já   vejo 

Nascer   o   meu   bom   dia. 


175 


XXX. 


A  Horácio. 


L/E   grande   nome  bárbaro  desejo, 
Se   o   rico   templo   da  triforme   deosa 
A  poucas  cinzas  reduzindo   espera 
ímpia   memoria  ! 

E   menos   torpe,    mencs   detestável 
Tâo  feio   crime,   que   imit.-!r  Horácio 
Q.uem   triste   fama   nSo   quer  dar  d  saguas 
Co   precipício. 

Ora  sereno,   como   o   sol    dourado, 
De   alegres   cores   todo   o   mundo   cobre. 
Quando   a   cabeia   de   mil   raios   ergue 
Detráz   da  serra. 


Mas   outras  vezes   rápido   parece 
Aquilão   thracio,   que   nos   céos   batendo 
As   negras    azas,   terra   e   mar  envolve 
Espessa  chuva. 


Sempre  sublime  no  Parnaso  colhe 
O    digno   louro,   que   lhe   adorna   a   testa 
Iismenso  génio  com  ditosos  voos 
Pindaro  alcança. 

Ou   cante   a   fresca    nova   primavera 
Dos   grossos   freixos   sacudindo   o   gelo, 
Serena  a  lua,   as  Graças  vem   dansando 
Com   Cytherea; 

Emquanto   ardendo   na   árida   officina 
Ao   sibilante    fuzilar  da   forja, 
Mostrâo   os  sujos   amarellos   rostos 
Os  rijos  Bromes. 

Ou  j.i  crimine  da  civil  discórdia 
As   mãos  vermelhas  cora  latino  sangue, 
Cala-se   o   povo,   pallida   tristeza 
Muda  os  aspectos. 


Ou   branco   cysne   livre   já   da   esthygia. 
Sinta  nascer-lhe  rude  pello,  sinta 
Ji,   ji  nos  dedos,  sinta   já  nos  horobros 
Cândidas   pennas. 


»JJ±*lÂllLVlllftlVt  I  I  J_jjJI  1,1  I  1  I  I  I  li' I  t'i"i 


Sobre    as   cidades   vòa,   j.i   descobre 
Do   tormentoso   Bosphoro  bramindo 
Parthos   e   Scytlias,   hvperboreos   campos, 
Libycas   Syrtes. 

Ou   já   de   Augusto   mostra   o   valor   nobre 
Lavar  de   Crasso   a  vergonbosa   infâmia, 
Q.ue   o  vestal   fogo,   Roma,    Capitólio, 
Tinha   esquecido. 

i<    Eu   vi   inteiros   nossos   estandartes, 
As   armas  limpas,   centuriões  romanos 
Co'as    mãos   atadas   (Regulo    dizia) 
Vi   em    Carth.xgo  !   » 

O'    grande   Horácio,   sempre    grande   e   forte 
Sempre   sublime,   rápido   te   eleva  ! 
A   nossos  ollios   súbito   se   esconde 
Kntre   as   cstrellas. 


■"^3^^5^ 


XXXI. 

UORMES,   Jerusalém  ?   Acorda,   acorda, 
Que  chega  a  tua  luz  :  o  sol  divino 
As  trevas  dissipando,  já  scintill'-i. 
Já   em   ti   nasce. 

Opaca   e   negra   sombra   te   cubria  ; 
A   gloria   do   Senhor  brilhantes   luzes 
Derrama  sobre  ti,   sobre  teu   povo  : 
Acorda,   acorda. 

Estende  a  vista  por  teus   largos  campos, 
Vè,   vè   a   immensa   gente,   que   te   cerca  : 
Todos   o   grande   instante   suspiravâo. 
Todos   o  esperâo. 


Olha  as  fortes   nações,  que  vem  buscando 
O  resplendor,  que  espalhas  :  denso  fumo 
O   incenso   de   Sabi   ardendo   exhala 
Em   teus  altares. 


■  ti  ■('•IH  .i<|i.|jl!>  tjlitllill  sei  ?i|rti|l|i| 


II 1 1,1 1  III 


Ouro   e   myrrha,   monarchas   humilhados 
Já   cora   pródiga   mâo   alli   te   offerecem  ; 
Os   olhos  baixos,   curvos  os  joelhos, 
Teu  templo   adorâo. 

Abertas   tuas   portas   já   recebera 
Dos   mais  remotos   climas  os   tributos; 
Já   os  rebanhos  de   cedar  alvejâo 
Nas   altas  serras. 

Tudo   porém   se  cala.   Q.ue   profundo, 
Respeitoso   silencio  !   Vem,    já   chega 
O   Príncipe   da   Paz,    Deos   admirável. 
Filho   do   Eterno. 

Ur;ia   Virgem   pario  :   Fez-se   Deos    Homem 
Do   tronco   de    Jessé   rebenta   a   vara. 
Lá   desce  sobre   a   rama    abrindo   as   azas 
Mystica   Pomba. 


]X   vem   o   Salvador   annunciado 
Por   divinos   oráculos  ;   abaixáo 
Já   no   Líbano  os  ramos   incorruptos 
Os   altos   cedros. 


Densa  nuvem  de  incenso  em   Saron  sobe 
O  cume  do   Carmelo   âmbar   respira  : 
Já   ferve  a  branca  escuma,  que   rebenta 
De  áridas  penhas. 


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XXXII. 


o  Suicidío. 


f\OMPA-SE   embora  do   estellante   assento 

A   rnachina  lustrosa  ; 
Conspire-se   em    meu   darano   a    terra   toJ.i, 

E   a   fortuna   perversa  ; 
Mil   duras   portas   de   pesado   ferro 

Sobre    mim    se    aferrolhem  ; 
E   agrilhoado   ao   carro   do   triunipho 

Me  leve  algun   tyranno  : 
A  negra   fome,   a   sórdida   penúria 

VSo-me  escoltando   os   passos  : 
Sobre  deserta   inhabitada   praia 

Me   ponha   a  tyrannia  ; 
Agudos  dentes   de   raivosas   feras 

Contra    mim    se   apparelhem  : 
Risonho,   alegre,   intrépido,   constante 

Me  ha  de   ver  o   Universo. 


m-^m  —»■«■»»>»  w^»»»»»   >Tf  iTT 


Emquanto   em   mil  pedaços  se  despenhe, 

E   me  afogue   em   ruínas. 
Lá   sae,   lá  corre   de   ignorado    mundo 

Un  espectro  medonho 
Mas  agradável   á  romana   gente 

E   ao   Bretanno   inâexibil  ; 
Dos   heroes    divindade  ;    eis  o   Suicidio 

O   refugio   dos   sábios. 
Sanguinoso   punhal    na    raâo   sustenta, 

O   escudo    da   desgraça 
Com   que   se   oppõe   á  tyrannia   infame, 

A   inveja   e   á   soberba. 
Sobre   montões   de   desmembrados  corpos. 

Sobre   abatidas   águias. 
Em   tristes  restos  de  estandartes   rotos 

Entre  exiinctos  soldados. 
Que   em   vâo   a   pátria   libertar   procurào 

Das   mãos   da   tyrannia, 
Lá   vejo  estar  cora   intrépido   semblante 

O   magnânimo   Bruto, 
Q.ue   nos  sanguíneos   campos  de   Felipps 

Fica  vencido  e   roto  ; 
Mas   que  um  tríumpho   mais  altivo  e   nobre 

Já   de   si   mesmo   alcança, 


i  11  •«• » «t  i'«.t«  t  m^tii!!.»  ti  1 1 1  » I  1 1  1 1  1 1  III  1 1 1 1 1 1 1 


Com   que   as   corrc-iitus  rispiJas   suppl, nr.a 

Do   dictador   soberbo. 
Porque   Roma    nJo   sirva,    a    Ccsar   mat.i  ; 

Com   o   mesmo   duro   ferro, 
Porque   a    César   não   sirva,   expira  Bruto. 

Eis  como   a   liberdade 
Do   tyranuo   e  da   morte,   Bruto   alcança 

Nos   campos   de   Felipps. 
H   o   génio   tutelar  de   infeliz    pátria, 

Hm    Utica   expirante. 
Porque   ao   duro    Pompeo   nílo   sirva,    morre. 

As   fachas   despedaça, 
Q,ue    as   feridas   tap3o   do   sagrado    peito  ; 

Nunca  é   Catão   mais   forte  ! 
No  quente   banho   Séneca   expirando 

Vence  o   pérfido   Nero. 
Doce   refugio   de   fatal   desgraça, 

liu   te  abraço   contente  ; 
Tu   és  o   meu   escudo   impenetrável 

Contra   enipennaJas    settas. 
Que   a   indigência  c   a   penúria  em  vão  dispar.ão. 

Todos    podem    a    vida 
Tirar   ao   homem   na   mesquinha   terra ; 

Ninijuem   lhe   tira   a   morte. 


XXXIII. 


A  uns  annos  de  lima  Senhora  ingleza. 


xAMADA  lyra   minha,   se   algum   dia 

Cobiçosa   de   fama 
As   estridentes  velas  desfraldaste, 

E   no  ceruleo   gol  fio 
Por  sibilantes  Notos   açoitada 

Impávida   sordiste  : 
Se  desejas  que   aos  séculos   vindouros 

Livr2  da   negra   inveja. 
Tua   gloria  immortal   chegue   triuraphante 

D'astros   mil   c'  roada  : 
Cantemos   de  Marilia   o   nascimento, 

Da   formosa   Marilia 
Que   as   cândidas  virtudes   abrigando 

No   peito   generoso, 
Do   angélico  semblante   os   resplendores 

Inda   faz   mais   brilhantes. 


IH5 


Em    Scus   olhos   gentis   a  formosura 

Os   corações   pisando 
Despedaça  de  Amor   as   cruas  sjttas, 

Subjuga   o   fatal   Nume. 
Diz-se  que   um   dia   o   Tamaze  soberbo 

Ao   fulvo   pátrio   Tejo 
Accusou   de   roubar-lhe   a   illustre  gloria 

De   ver   em   suas   margens 
Raiar   os   lindos   olhos   de   Marilia 

K   dar-Ihe   o   claro   berço 
Em   Britannica   term.   Exasperado 

Vociferando   vinha 
O   rio,   e   t.ío   queixoso   que   trez   vezes 

Traçando   furibundo 
O   farpado   tridente   crystallino 

Com   o  dourado   conto 
Bateo    na   lusa   areia  ;    desmaiadas 

As   Tágides   mergulhão 
As    limosas   cabeças    n'alta   veia  ; 

Porém   alegres   surdem, 
Vindo    surcar    ns    agujs    a    áurea   concha 

Q.ue    férvidos    tirav.io 
Prate.idos   delfins,    onde    Marilia 

Com    engr.içado    rosto 


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Que  os  mares  acendia,  serenava 

Dos   rios   a   contenda. 
Ambos   por  sua   Thetis   o   juravâo. 

Ambos  em  s^us   altares 
Depozerio  humildes   os  tridentes, 

E   em  fausta  branca  pedra 
Contentes  e  ditosos,  assignalão 

O  dia  de  seus   annos. 


XXXIV. 


Ao  SS.  Natal. 


Espirito   celeste,   que   pesndo 

Em   seis  brilhantes   azas 

A   prophetica   iingua   de   Isaías 

Cuma   braza  do   altar  purificaste, 

Acende  em    minhas  vozes 

Aquelle  som   terrível   que  de  ouvi-lo 

Estremecem   os   montes   e   as  cidades. 

Em    profundo   silencio    somergida 

Ouça  a   terra   mens  hymnos, 

Ouçâo-me   os   céos,   e   cantarei   o   grande 

O   Santo   nome   do   Senhor,   do   Forte, 

Do   Justo   c   desejado 

Do   Principe   da   paz,   Fillio   do   Eterno 

Pae   do  suspirado   século   futuro. 

Alçai   os  tristes   olhos 

Vós  filhas   de   Sião,   das   alvas   testas 


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A   cinza  sacudi  ;   com    tnão   devota 

Lançai  no  casto  fogo 

O  incenso  de  Sabá  ;   puras  chammas 

Ardâo   no   livre   cume   do   Carmello. 

Uma  Virgem   pari  o,  fezse  Deos  Homem, 

O   Salvador  já   chega  ; 

Do  tronco  de  José  rebenta  a  vara 

Kas  incorruptas  folhas  ;  já  se  sente 

O  espirito  divino 

E   na  sagrada   rama   já   descansa 

Entre  nuvens  de  luz,   mystica  pomba. 

Os  montes  debruçados  já  distillão 

De  leite  e  mel  correntes. 

Os  valles  já  se  encurváo,  já  levantâo 

Suas  longas  planícies  ;  já  verdejio 

Os  Íngremes  penedos, 

Âmbar  Saron  respira,  já  se  encobre 

Entre  nuvens  de  aromas   abrazados. 

Chega  o  dia  do  Eterno 

Chove  dos  cèos  o  Justo,   abre-se  a  terra 

E   brota  o   Salvador:    a   paz   estende 

O  ramo   de  oliveira 

Sobre  a  face  do  mundo,  e  o  mundo  desce 

Pela  máo  da  innocencia,  a  sá  justiça. 


««'••'Ofillllfiilll   I  »     «   I  >  1  III  111  Ijl  I  •  !    l   l_ 


Os  montes  de  Israel  e  os  altos  ramos 

Alegres  estenderão 

De   flores   e   de   pomos   carregados. 

Os   cedros  já   no  Líbano   se   humilhão, 

Os  ventos  se  calarão, 

As   insoífridas  ondas  sussurrando 

Não   brada   o   negro   mar   na  ruiva   praia. 

Vem   divino   Infante,   vem  que   a   terra 

Ja  se  abrio,   já  te   offVece 

Suspirando  por  ti,   já  sem   trabalho 

Do  cansado  cultor  seus  doces   frutos, 

Tenras   mimosas   flores 

Já  nascem   para   ti   nas   toscas   grutas 

Q.ue   as   cerúleas   serpentes  habitavâo. 

Entre  as   áridas   penhas 

Já   ferve   a   branca  escuma,   e  já  rebentão 

Com   doce   murmúrio   as  limpas    fontes. 

Aos  ares  se  levantão 

As  verdes  cannas,   os   delgados   juncos 

Que  ao  fresco  som   do    zephiro  sibilâo. 

Com   o   cordeiro   que   a   doce   relva   corta 

O   cerval   lobo   pasce, 

Os   indomáveis   ursos    misturados 

Cos   domados   bezerros   juntamente 


190 


Na   clara  areia  bebem 

Do  quieto   leão  simples  pastora 

A  corada  melena  entrança  e  ata. 

O  innocente   menino  namorado 

Das  inconstantes  cores, 

Que  as  mosqueadas   conchas  reluzentes 

Da  víbora  matisío,  sem   receio, 

Co  a  fraca  raio  apalpa 

E  nos  delicados  membros  enroscada 

Lhe  quer  lamber  a  planta  a  serpe  amiga. 

Vem  ò  divino  Infante 

O  throno  de  David   por  ti  espera. 

Vem   as   gentes  julgar,  já  sõa  a   terra 

Com  o  tropel   fogoso 

De  teus   rijos  cavallos,  das  carroças 

Que   tem   nas  rodas  de  Aquilão  as  azas. 

A   dura   guerra  de   armas   carregada 

Ji  foge  espavorida, 

Com   medonho  tropel  pisa  a  campanha 

Tocando   a  férrea  malha,   o  liso  escuJo 

No  fundo  valle  sôa. 

Os  tambores,  os  pifanos  não  chamão 

Cerrados   esquadrões   para   a   campanha. 

No  deserto  uma  voz  esti  bradando 


Com   ella   o   Jordão   cKim.i. 

Que   vem    Deos,   que   vem    Deos,    as  fragoas  dizem, 

Deos,    Deos   no   monte   as   arvores   repetem 

Que   Deos   ao   mundo   dt-sce  ; 

Co   a   força  da  alegria   estremecendo 

Os   pinheiros   do   Menalo   respondem 


sTHmrmt 


XXXV. 


J_/EPOIS  de  largo   tempo,   Amor,  me  veres 

O   pé  dos  cepos  livre, 
No   regaço   da   paz  dormir  quieto 

Me  moves   nova   guerra  ? 
Q,ae   me  deixes  te   peço,  que   me  deixes, 

Que  para   o  duro  peito. 
Com  trabalhos  cruéis  endurecido 

Ka  sanguinosa  pedra, 
As  alígeras  farpas  nâo  amoles. 

Já  não  sou,   já  qual  era, 
Quando  reinava  a  cândida  Leucipe. 

Passarão  tão   bons  di«s  I 
Não   queiras   atear  inútil  flaroma 

£m   pouca   árida   cinza. 
Que  os    gelos   de   oito   lustres   esfriarão. 

Desprega   as   leves   pennas. 


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Vai-te   cruel.   Acode   onde    te   chamão 

Os   fervidos   suspiros, 
Os   brandos    rogos  de   gentis   mancebos. 

De   Tirse   na  cabana 
Molle   altar   acharás.   Ali  devoto 

Arábicos   incensos 
Queima   com   farta   mão;   da   roxa  pyra 

Vagando  o   crespo   fumo, 
Entre   festões   de   mil   cheirosas   flores 

Lambe    o  travado   colmo. 


XXXVI. 

vVUE  bem  fizeste  tu,   caro  Macedo, 
Q.aando  com   valoroso  animo  forte 
Fugiste  ao  mundo  que  eu  julguei  ser  cedo. 
Se  te  seguisse   a  ti  da  mesma  sorte 
Agora  me  acharia  socegado, 
Sem   medo   ter  do  inferno   nem  da  morte. 
O   povo  portuguez   vira  assolado 
Arrazada   Lisboa   populosa 
Sem   ter  fazendas  em   que  ter  cuidado. 
Sabiste  na   manhã   clara  e  formosa 
H   por  isso  chegaste   antes  da  noite  ; 
G.istei   na  cama   a   tarde  preguiçosa  ; 
'iiio  tenho  quem   me   guie,   nem  m'acoitc. 
Apanhou-me  no  meio  da  jornada 
O   furibundo    golpe    deste   açoite. 


EPISTOLAS 


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OE   á  sombra   dos  loureiros   sempre   verdes, 
Que   nascem   junto   ás   aguas   de   Aganipe, 
Inda,   amigo,   te  encostas   socegado ; 
Se   das  soltas   correntes   que   do   cume 
Do   frondoso   Parnaso   estão  cahindo 
Por  entre  frias   e   musgosas   pedras, 

Sem   nunca   te   fartares,   ainda   bebes: 
Se   as   graciosas   Musas    te   rodeSo  ; 
Encosta    a    curva   lyra   sobre    o    peito. 
As   áureas   cordas   fere,  escreve   a   Olino: 

Se   a   rima,  como   escravo,   te   traz   prezo, 
Perdida   a   liberdade,   ao  duro   cepo; 
Quebra   as  fortes   cadèas;   náo   é   justo 
Que   o   continuo   zum-zum   do  consoante. 
Que  o   ouvido   agita    só,   a   alma   nâo, 
Esfrie   o   fogo,   que   na   idéa   nasce. 

'N.\o   busques   pensamentos  exquisitos 
Em   denegridas  nuvens   embrulhados; 
ísMo   tragas,   não,   metaphoras   violentas, 


Imitando  esse  corvo  do   Mondego, 

Que   entre   os   cysnes  do  Tejo    anda  gr.isnanJo; 

Usa   da   pura  língua   portugueza, 

Que   aprendido   já   tens   no   bom   Ferreira, 
No   Camões  immortal,   em   Souza   e   Barros: 

Em   grego  nâo   me  escrevas,   nem   latim. 
Dá-me   conta  da   tua   larga   vida: 

Desejo  que  me  digas  se   inda  preza 
No  pensamento  trnzes   a  cachopa; 
Se   com   trez   companheiros   n'uma   banca 
De   panno   verde   ornada   o   whist   jogas  ; 
Se  ouves  fallar  francez,  e  se  inda  lavra 
O   mal,  de  que  hoje  tantos  adoecem. 
Fallo   d'quella   praga  desastrada 
Dos   enfermos    poetas,   que   não   querem 
Os   remédios   tomar   para   sararem. 

Conta-me  em  que  exercícios  vás  gastando 
O  tempo,  que  li  tens ;   se  ao  som  do  rio 
Compões  os   brandos   versos,   com   qn' arrancas 
Do   cume  das   montanhas   levantadas 
Os   arreigados   cedros   para   ouvir-te. 

Eu,   amigo,   depois   que   te   deixei, 
Triste   vejo   na<:cer   e   pôr-se   o   sol; 
Os   mais   dos   dias   passo   em   minha   casa 


Sentado   n'um   banquinho   e   recostado 
N'uma   despida  banca  ;   poucos  livros, 
Algum   papel,   com   pennas   e   tinteiro, 
É   quanto   só   me   adorna   o   estreito   quarto 
Alguns   amigos   tenho,   mas  distantes  ; 
Kem   cavallos,   nem   seges   á   boléa 
Tenho   para   tão   longe   ir   visita-los  : 
Temo  de   sahir  fora...   Ah  !    não  te   engano. 
Temo   de   sahir  fora.   Desta   banda 
Me   empurra   o   aguadeiro,   e   dcst'outra 
Me   atropella  a   Saloia   c'o  seu   macho  ; 
Um   vem   .í   redca   solta   no    rabio. 
Outro   corre   no   coche   á   desfilada  ; 
Para  esta   parte   fujo  ;   eis   que   de   cima 
Sobre   mim    vem    a   suja   caldeirada  ; 
Os   confusos,   os   vagos   pregoeiros, 
Os   ouvidos   me   atroâo   com    seus   gritos  ; 
Um  «  Quem  as  llores  merca»  Outro  os  polvilhos, 
lintão  eu   cl   comigo   vou   dizendo  : 

«   De   que  servem   polvilhos   a  um    poeta, 
a   Se   a   um   filho   de   Apollo  o  verde   louro 
i(   H   o   melhor   adorno,   é  todo  o   fruto  ?   » 
Desta  sorte  n.io   posso,   caro   amigo, 
Kovidades   contar-te    c.i   da   Corte. 


Pois   que   te   contarei?   Eu   sei   somente 

Q.ue   entrão  náos   pela   barra   e   sahem    nsos 
Com   as  velas  inchadas;  sei  que  corre 
Para  o   cerúleo  mar  o  louro  Tejo; 
De   Lisboa  e  das  cortes  estrangeiras 
Nâo   saberei   dizer-te   cousa   alguma, 
Que   o  tempo  todo  gasto  em  ler  Virgílio 
No   raea  pobre,  mas  certo  domicilio. 


Ao   Snr  Dr  João  Evangelista. 


Q. 


[JJAL   sórdido   pedreiro,   que   doente 
De   um   hospital   jazeo   no   leito    pobre, 
Q.uando   torna   d'alli   convalescido, 
Mais   esbelto,    pellado   e   macilento, 
Em   casa   não   acerta   com   a   trolha, 
Picareta    e    colher   tudo    lhe    falta. 
Assim    depois    de    tantos    negros    dias, 
F    noites    longas,    mais    que    as   de    Lamego, 
Em   fúnebres   ideias   mal    g.istadas. 
Com   pennas   e    papel    não  sei   !iaver-nie. 
Q.uero   grasnarem    verso,    mas   n.lo    posso; 
Dos    olhos    me    fugio    o    santo    lume, 
Q.ue   me   guiava   ao   cume   do    Parnaso. 
Por   fátuo   me   tivera,   se   a   fortuna, 
Em   cambio   da   alegria   que   me   rouba, 
Me   desse   dois   rabões   com   três   lacaios. 
Brilhantes,   rendas   finas   e   veiludos, 
Que   becas   são   de   tolos   e   casquilhos. 


Mas  de   poeta,   amigo, .só   me   resta 
Desastres   e   misérias;    filhos  rotos. 
De  valadio   o  tecto,   a   viaha   calva, 
Caseiros,   architectos  e  criados 
Mais  duros  que   as   catástas   de   Perillo. 
K   neste  bom   estado   me   provocas 
A   cantar,   e   tanger  na  doce   lyra. 
Que   ha   de   lazer   um  cysne  desazado, 
Um   cansado  rocim,   que  já  nào  chega 
A   meta  desejada,  sem   mil  vezes 
Cahir,  dando  aos   ilhaes   na   liza   arôa? 
Mas  se   pragas   me   rogas,   que   mais   queres 
Q.ue   ver  Heitor  dos   férvidos   cavallos. 
Do  colérico  Achilles  arrastado, 
Tingindo  a  dura  terra   o   negro   sangue? 
Supponho  que  a   metaphora   percebes. 
O  Nádegas,   que   viste  esfrangalhado 
A   passapello   vir  da   pobre   aldeia  ; 
Porque   lhe  devo  já   uns   tantos   mezes, 
Mc   ralha,  e   me   governa   focinhudo; 
Co  rabo   agazalliado,   já   capeia 
As  aias,   as   rascòas  da   cozinha. 
Eu  delle   me   recato,   só   me   falta 
Lucroclâ   vir   a  ser  deste   Tarquinio. 


Acror.i   te   ris   tvi ;   e   Manoel    Gomes 

O   nariz   encrespando,   te   pergunta 

Q.ue   fabubs   s,ío   estas?   Nio   lhe  expliques 

O    sentido    nioml;    deixa-o    confuso: 

Não   convém  que   criados   tudo   saibão. 

Dize  lhe    q  ie    sou    doudo,    que   desprezo 

Opulentas   heranças;   que   intl.-xivcl 

Com   semblante  sereno   e  socegado, 

Não    me    cansa    soffrer   a   mão   pezadi 

Da    fome    e   da    penúria;    não    me    espanta 

A    carregada    nuvem    da    desgraça, 

Que   aos   olhos   me   fuzila   ha   já   dez   annoí. 

Nem  sonln   com    perdizes,    nem    lampreias; 

Com    mui    pouco   se    calão    mens   desejos. 

A    males    sempre    affcitn,    nio  se    accende 

Na   torpe    fantasia    a    luz    brilhante 

De   fartas   mentirosas   esperanças. 

Nem   com   legados,   quintas,   bcneticios, 

Promessas   e   presentes,   pôde   um    velho 

O    curvo    an7ol    cevar,    para    pescar-me. 

O    peixe    j.i    sangrado   desconfia. 

Se   vè  surdir  a   isca   á   tona   d'agua. 

Ku    que   o    trapo    mordi,  e   que  ind.i    tenho 

.\s   cicatrizes   da   farpada   pont.i. 


Nunca   mais   cahirei   em   esparrellas. 
Antes  quero   jizer   na   estreita  lapa,  ■ 
Que  embrulhado  ficar  era   negras   redes. 
Mas   para  que   poeta   nâo   me   chames. 
Quero  o   ponto   explicar-te  ;   atiento  escuta. 
Naquelles  priscos  tempos  que  fallavào 
Os  animaes,   as  arvores,   as   pedras, 
O  cerval   lobo,   a   cálida   rapoza. 
Em   juizo   accusava  e   lhe   pedia 
Restituição   do   furto   que   fizera: 
Um   mono   petulante,   mas   sizudo, 
Hra   o  juiz,   que   as   partes   escut.iva; 
K   lançando   a  sentença,   disse   ao   lobo : 
«   Não   julgo   que  te   falta  o   que   tu   pedis; 
n  Porém   creio,   ó  raposa,   que   roubaste 
(c  O   que  negas   com   tanta  subtileza,   s 
Esta   f.ibula,   amigo,   nos   ensina, 
Que  quem   mente   por   génio  e   por    costume. 
Quando   diz   a   verdade,   nJo  é   crido. 
Agora   applica   o   conto;   e   lá  coratigo 
Pesa   bem   as   razões,  as  vâs   promessas 
Com   que   um   astuto   velho   marralheiro 
(A   ti  que   leste   Tácito  e   Commines) 
Tc   fc/c   estar   quieto   e   allucinido. 


(^^<CÍfe  <?^as« 


Tir.indo-te    por    arte   de    berliques 

Do   nariz   cascavéis,   fitas   da   bocc-i. 

O   Prazo    de    Valdeste   são    os    filtros 

Co:n    que   esta    Circe   torna   em    leões    fulvos 

y.w.   sedeudos    porcos    grunliidores 

Do   sábio   Grego   os   fortes   companlieiros. 

Q_>;e    em    falsas    apparencias   embebidos, 

K;Urão   nos    pa;os   da    famosa    bruxa. 

Kio    julgues    tâo    boçal    este    moleque. 

Que   saia   da   senzala   por   missanga. 

Ao   Miniio   passarei,   se   tu   quizeres, 

Xos    altos   tectos,    onde    já    brilharão 

Preciosos   rubius    a   agazalhar-rae  ; 

H    sem    mais    esperança,    que    o   desejo 

De    ver-te,   de  tratar-te   e    de    passarmos 

Bocejando   a   miúdo   as   frias   noites 

Do   enregelado    inverno,    que    já    chega; 

Á    roda   da    fogueira    aqueceremos 

As   engelliadas    mãos:   d'e:'.tre    o   brazido. 

Saltando    as    rebordas,    que    na    deveza 

O   Domingos   colheo   inda   orvalhadas. 

Alli   te   contarei  como  em   Lisboa 

Se   dourão   os   carrinhos   sem    dinheiro; 

Como   tufa    o   José,    como   o    Lourenço, 


Que    Duque   foi   no   pateo   e   Conde   em    Cintra, 

Agora  se  vai  pôr  a  chapeleiro; 

E   a   pallida  infeliz   Sebastiana 

Condemnada  a  torcer  negras   prezilhas: 

E  se  disto  me  ouvires,  te  enfadasses, 

Tangendo  a  doce  lyra  em   brando   verso, 

Mil  hymnos   cantaria   á   tna   Laura, 

Á  tua   Catharina,   Dnlcinéa, 

Por  quem  vences  Chiraeras  e  Gigantes; 

E  tomando   no   lar   um   carvão   liso, 

Te  pintara  o  retrato  na  parede 

Daquelles   olhos   onde   tu   suspiras, 

Por  quem   vives   e    morres  de   saudade. 

Q.ue  fácil  é  sonhar  felicidades! 

Tu  jA  rico  me  crês:  eu  já  supponho, 

Agora   que   te   escrevo,   e   que   te   fjllo. 

Mas  esta  scena   súbito   se   muda; 

O   Chico   mostra   rotos   os   sapatos: 

Uma  quer  lenços,  outra  quer  roupinhas; 

O  Nádegas  dinheiro  para  a  ceia  ; 

Á  porta  está  batendo   o   alfaiate. 

Se  alguém   aos  cães  lançou  os  pátrios  ossos. 

Se  foi   traidor  A   pátria,   se   é   falsario, 

Seja  lançado   a   filhos   e  credores. 


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III. 


JjE   iiSo   te   enjò.is   de   comer  sem   pompn 

Em   toalhas  do   Minho,   em    pobre   meza, 

Onde  nâo   tine   a   rica   poryolana, 

Kem   cansa   os  olhos  tremulo   reflexo 

De   burnida   colher,   de   refulgente 

ISritannico   saleiro,   caro   amigo, 

S.ibio,   illustre   Sarmento  ;   ou   nSo   te   assusta 

O   suspeito   convite   de    um    poeta 

Afteito   a   Jura   fome,   a   duro   frio, 

Cujo   humilde    tugúrio   Noto    açouta, 

V.    Africo    ihe    arrepia    as    leves    telhas, 

Hoje    póJcs    cear    na    Fontc-S.mta  : 

Melhor   quj    o    Falerno,    o   roxo    sumo 

Por   sórdidos   Galegos    trasfegado, 

Ka   fértil   margem   do   cerúleo    Douro 

Alegres   beberemos.    Na  cozinha 


'^^""^M 


Estala   a   secca   lenha,   brilha   o   fogo, 
O   negro   bicho,    cu   negro   cozinheiro, 
Enroscado   no   esp.to   fica   assando 
Um   lombo   corpnlento.   Agora  deixa 
As   serias   reflexões,   as  esperanças 
Da   branca   vara,   da   soberba   toga, 
Das   rascõas   vizinhas,  lumes  fátuos, 
Que  observas  com  teu  longo  telescópio. 
A   desabrida   noite    nos   convida 
A   que   juntos   passemos   poucas   horas 
Em   doce  trato,  em   doce  companhia  : 
Teremos   bons   parceiros,   cartas   nov:."!, 
E  em   ruivos  castiçaes  de  pexisbeque 
Arderão  duas   cândidas   bugias. 
Já  na  meza  fumega  o  precioso 
Katural   elixir  do   rico   Oriente, 
O   bom    chá   quotidiano,   mais   pedido, 
Que   o   páo  de   cada   dia,    nesta   casa. 
Fora   uma   cJ   lancemos  ;   que   nio   falta 
Quem   farte   o   moUe   ventre  cora   g.irofos 
Para   da   burra   ver   entre   os   ferrolhis 
Pendentes   barambazes   das   aranhas. 
Nio   me   namorão   fartos   testamentos. 
Opulentas  heranças  ;  a   meus  filhos 


Basta   só   que   lhes   deixe   para   exemplo 
A   nobre  tradição,    de   que  descendem 
De   um   pae,   que   detestou   a   vil   lisonja 
Sem   humilhar-se   ao   cheiro   do   despacho 
Q.ue   abiio   novo   caminho   para   o   Pindo; 
Que   leo,    e   que   estudou;   e  que   aprendia 
Ao   menos    a    zombar   da    má    fortuna; 
Q.ue  illustres   bons   amigos   o   buscavão, 
Como   allivio   da   barbara   tortura 
De   cOAiversar   com    Getas   e   Tapuyas. 


IV. 


Ao  Ex"'  Snr  Conde  de  Oeiras,  Secretario 
do  Estado. 

OE  em  teus   constantes  liombros   firmemente 
O  sólio   portuguez    feliz   descansa; 
Se   a  forte  mào   nos   olhos   da  justiça 
Ata   a   sagrada   venda  ;   se   repartes 
Co  as  ilustres  acções   o  justo   premio, 
Cos  vicios  detestáveis  o  castigo  ; 
Se  ditas   as   leis  santas  que  segurio 
O   publico  socego,   se   c'o  exemplo 
Promoves   a  virtude,   peccaria, 
Carvalho   excelso,   a   distrahir  com   versos. 
De  t.lo   nobre   tarefa   o   teu   cuidado. 
Porém,   senhor,  é  jnno  que   a    verdade, 
Que   abertos   acha  sempre   os   teus   ouvidos 
Uma   vez   te  entreienha   c'os    louvores 
Que   todos   te   votamos  ;  Mazarino 
Richelieu   ou   Colbert,   em   quanto   vivos 


^ 


A   pátria   levantarão,   nem   por  isso 

Oeixou   o   cego   vulgo   do   iiicrepa-los  ; 

Foi   preciso   que   ;i   morte   lhe   escrevesse 

\.i   fria    campa    os    claros    elogios. 

Porém    tu,   entre  nòs   vivo  e   presente 

Mereces   e   consegues   que   te  louvem. 

Louvamos-te,   senhor,   porque   repulsas 

A   lisonja   infiel,   o   dolo   infame, 

A   tyranna  soberha,   a   vil    preguiça, 

Louvamos-te,   senhor,   porque   levantas 

A  destroçada   pátria  das  minas, 

Porque    a    fazes    melhor,    porque    a    despert.is 

Do   bárbaro  lethargo   d.i   indolência. 

O   commercio   florente   que   diriges 

E   que   as   forças   augmentas,    nos   promette 

Uma   nova   ventura  não  sonhada 

Dos   antigos   errados   interesses 

Com    malicia   somente   combinados  : 

Rompendo   as   feias  sombras   da   mentira, 

Vem   raiando   a   verdade,   o   negro   rosto 

Tapa   com   as   mãos   o  engano,   e   despojado 

Do   cre.iito   sophistico   bramindo 

Vae   fugindo   de   nós,   e   de   teu   nrme  : 

Assim   depois   da   feia  tempestade 


4 
4 


Q.ue   os   mares   agitara,   que   encobrira 
A  clara  luz  do  sol  com   pardas  nuvens. 
Torna   a  brilhar   o   dia   mais   sereno 
Mais  alegre  e   formoso,   e   no   afastado 
Inda  escuro   horisonte   ir-se   escondendo 
As  voragens  observa  o  navegante. 
Nem   sempre   o   pátrio   Tejo   como  escravo 
Ha   de   sofrer   as   quilhas   estrangeiras 
Que   as   auríferas   veias  lhe   sangravâo 
Que   as   forças   lhe   abatião,   que   soberbos 
Não  exigiSo   cambio,   mas   tributo. 
N^m   sempre   os   nossos   campos  escalvados 
Hão   de   incultos   jazer  ;   o   curvo   arado 
Já   rasga   a   fértil    terra,   em   novos  sulcos 
A   mâo  do  lavrador  lança  a  semente. 
Ji  ondeio  nos  montes  mais  agrestes 
As  compridas  varas,   pelos  valles 
Pascem   ao   som   da   frauta   dos   pastores 
Os   brancos   e   castanhos    armentios  : 
Emquanto   guarda   as   cabras   petulante 
A   simples   pastorinha,   do   forcado 
A  nilo  tingida  U  tira  cantando. 
A  sombra  do  teu  nome   as   boas  artes 
O   luso   reino  a  povoar  acodem. 


''r.r 


lilUs,   senhor,   farão   menos   preciso 
O   inútil   luxo,   dantes   animado 
Pela   f.ilsa  tenção   de   exiranha    gente. 
A   gloria,   o   bem   commnni,   os  interesses 
Da   já   feliz   naçío   com   teu    amparo 
A   infallivel   systema   reduzidos 
Isova   gloria   recebem  :    Minho   e   Douro 
'Q.ue   os   roxos   frutos   de   Lyeo   produzem 
'Guardío   nos   altos   choupos   enredados 
As   vides   retorcidas,   sem   que   vejão 
Colher  a   alheia   mão   os   doces   frutos. 
I.OHgo   tempo    opprimido   e    manietado 
Pela   inércia  infvliz   no   rico   leito 
Jazeo   o   Grão   Pará  ;   o   céo   guardado 
Tinlia    só    para    ti    que    lhe   rompesses 
As    pesadas   algemas,    logo   ouvimos 
Abrir   os    fortes    braços,    revolvendo 
O   corpo   entorpecido   e   fora   d'agua 
Alegre  sacudir  as   câs   de   prata  : 
Logo   as   limosas   mios   aos   céos   erguendn 
Com   lagrimas   banhando   o   rosto   aftlicto 
Ao   sempre  eterno   Autor  da   natureza 
Que   te   guarde,   lhe   roga,    que   te   guarde 
Porque   o   jugo   cruel  da   hypocrisia 


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Com   heróico  valor  despedaçaste. 
►"Y  1  Para  os  fragmentos   olha,    e  curva   mostra 

Âtrellada  cerviz  ;   vê-se  a  cobiça 
Que   precárias   doutrinas  lhe  ensinava 
Attonita   bramir;  tapa   os   ouvidos 
E   os  sempre  abertos   olhos  (nío   cansada) 
Mas   já  vencida,   fecha.   Mal   resiste 
Aos  fulminantes  raios  da  verdade 
Com   qne  tu   lhe  appareces,   com   que  mostras 
Do   sacro   Vaticano   a   lei   divina, 
Do  luso  throno   o   resplendor  sagrado. 
Envergonhada  já,    da   negra  bocca 
Entre  espumas  de   sangue,   mil   blasphemias 
Fanática   vomita,   e   descorada 
Ao   fraco   peito   as   viboras  da   inveja 
Enroscadas   no   braço   convulsivo 
Applica,  e  aos  remorsos  comdemnada 
Do   falso   rito   quebra   as   torpes   aras. 
Já   reconhece   justo  o   zelo   santo 
Dos  sagrados   pastores   que  b.-nignos 
Tantas  vezes  em   vão   pios   clamárlo. 
Appareceste,    já  o  negro  espectro 
Da   infame   rebeldia,   que   impaciente 
Lhe   atormenta   a   memoria   c'os  delictos. 


Cos   iiifar.ies   delictos   revoltosos 

Q.ue   lio    clemente    rei    os    bons    desígnios 

Contentar   intentarão,   que    insolentes 

lUudindo   as  leis   santas   pretendião 

Ingratos   sacudir   o   doce   jugo. 

Emfim.   senhor,    tu   llie   acudiste 

Com    paternal   amor,   do   cipiiveiro 

As   opprimijas    almas   libertaste  , 

Ao   pedestal   da   estatua   de   teu   nome 

Pendentes    fiquem    os   grilhões   quebrados. 

Mas,    que    súbito    medo,    discorrendo 

IVlas   veias   o   sangue   me   congela  ! 

Palj-ita   o    coração,    a    voz    nào    chega 

As   scccas   fauces  !    Vejo,    não   me   engano, 

Pelas    praias   vagar   do    pátrio    Tejo 

Um    espectro    cruel    de    monstro   horrendo  ! 

No   medonho    semblante   lhe   sibilão 

Kntre    chammis    azues    negras   serpentes; 

Os   cibos   coruscantes,    convulsivos 

A   toda   a   parte   vira  ;   a   curva   fouce 

Da   morte   traz   na   mão   com   sangue   tinta 

Trez    vezes    a   cabeça    sacudindo. 

Sobre   a   areia   soitou   negro   chuveiro 

De   víboras    raivosas,    que   silvando 


^' 


Ora  estendem   a  cauda,   ora  se  enroscáo 

Lá   das  lingnas   farpadas   sacudindo 

Colérico  veneno,  inficionavio 

Os  ares  de  Lisboa.  Es  tu  Discórdia 

Pela   horrível   traição   estás   chamando, 

Mordendo   os   negros   beiços,   louca   brada 

Pela  fúria  cruel,   té  que   do   inferno 

Com   medonho  ruido  se  quebrarão 

As  férreas  portas  ;  negro,  espesso  fumo 

Té  a  lua  subio,   em  que  revolvem 

Raivosos  furacões,   negros  coriscos  ; 

Sahio  o  negro  monstro  com  dous   rostos 

Mas,  cobarde  outra  vez  quer  retirar-se. 

Nío   pôde   porque   os    passos   Uie   impediào 

A   má   hypocrisia,   a   triste   inveja, 

A   vil   cobiça,   a  rispida  soberba. 

Alli   bramindo,   alli   funesta   liga 

Allucinada  jurio  ;  já  preparão 

Instrumentos   mortaes,   o   ferro   e   o    fogo 

Nas  fracas  mios  lhe  brilha   tristemente 

Com  que  a  pátria  assolar  pretende  o  inferno  ; 

Correm   traidores  pérfidos,  que  infames 

O   régio   sangue   com    furor  derraraáo, 

A   pátria   clama,   clamio   as   virtudes 


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217 


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Do   grande   e   justo   rei,   cLiniâo   favores 

Pelos   mesmos   ingratos   recebidos; 

Mas  e:n    vão   clamào,   os   cruéis   nio   ouvem. 

O   céo,   o   céo   ouvia  do   afflicto   Remo 

O   justo   pranto,   manda  que  o  soccorras 

Tu,   que   nasceste  para  ser  dos   vicios 

Aspérrimo   censor,  tu   lhe   acodlste 

Carvalho  excelso,   pae   dos   Portuguezes, 

Com   a   prompta   justiça,   acauteKida. 

Os   duros   ferros   mordem   furiosos 

Já   os   monstros   cruéis,   a  consciência 

De   sou   próprio   remorso   atravessada 

Em    vSo   lhe   dita   os    meios   fraudulentos 

De   negar   o   delicto   commettido. 

Jurâo,   blasphenião,   té  que   convencidos 

Cheios  de  confusão   e  de   vergonha 

Com    as   vidas   no   infame   cadafalso 

Vão   purgar   a   sacrílega   maldade. 

Assim    a    pátria   salvas,   assim    quebras 

Da   vil    ingrati.'âo   as   duras   armas  : 

Assim   conservas   fcxrte  e   justiceiro 

Da  santa   paz   as   aras   venturosas 

Em   que   jurar  teu   nome   já   pod.-mos. 

Se   coroas  tem   o   céo   para   as   virtudes. 


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28 


iR^^^^iis^-g^x^t^^^iigdsyiiM^^ 


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Mas,   que   faustos,  senhor,   que    monumentos 
,,^  A  teu  nome  erguerá  o  reino  luso 

TJ  Se   quizer  transmittir  toda   a   ventura 

Dos  nossos  dias   aos   vindouros  dias  ! 
Que   versos,   ou  que  mármores,   que  esiatuas 
Contar-lhe   poderão  as   leis  sagradas 
Com  que  os  vícios  domaste  !   Os  feios  vicios 
Que  fúrias  são  do  Averno  atropellados 
Das  leis   com   que  os   fulminas,   de  raivosos 
A   dura   terra   mordem  ;   a   aleivosia 
Rasgando  a  torpe   mascara  se  esconde 
E  o  teimoso  litigio  da  discórdia 
Apaga   a   feia   chamma  ;   emfim   de   Themis 
A   teu   lado  se   adora   a  santa  imagem, 
A  balança  fiel   tu   lhe  equilibras. 
Na  mJo  lhe  pões  o   refulgente  estoque  ; 
Tu  fazes  que  se  tema  e   se  respeite 
Sem   que  seja  de  nós   aborrecida. 
A  virtude  promoves,   a   virtude 
Com  que  a  cerviz   a  todos  nos  ensinas 
Com  que   nos  mandas  desejar  a  gloria, 
Aquella   gloria,   que   na  boa   idade 
Das   antigas   façanhas   portuguezas. 
Os   Castros   ensinou   e   os   Albuqnerques 


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A   expor   a   doce   vida   pela   fjiua, 

Q.ue   adornou   teus   illustres   ascendentes 

Das    heróicas   virtudes   que   hoje  vumos 

Traiismigradas  em   ti,   ou   excedidas  ; 

Das   que   forças   te   dão  para   susteres 

O   formidável  peso   dos   negócios 

Q.ue  o   grande   rei   te   entrega,  que  resolve 

Pelas   mesmas   virtudes   regulado; 

Que   eterno   te   farão   nos   nossos   peitos. 

Sem   que   a   torpe   lisonja   se  misture 

Cos   públicos   louvores   que   to   damos 

Cos   grandes   elogios   que   mereces. 


V. 

Fallã    do    infante    D.    Pedro,  Duque    de 

Coimbra,    aos    Portuguezes,    que- 

rendo-lbe    levantar   uma  estatua 

pelo  seu  bom  governo,  o  que  elle 

não  consentio. 

i\ÃO,   lusit.ino   povo,   eu   nâo  consinto 
Que  estatua   ao   meu   nome  se  dedique : 
O  amor  da  pátria,  o  zelo  da  justiça. 
Não  sede  de  mandar,  ou  de  vangloria, 
Me   fez   tomar   as  rédeas  do   governo  : 
Se  fui  clemente,   justiceiro  ou   pio, 
Obrei   o   que  devia.   Ê   mui   pesada 
A  sujeiçio  do  sceptro  ;  e  quem  domina 
Não  tem   a   seu   arbitrio  as  leis  sagradas  : 
Fiel  executor  deve   cumpri-las  ; 
Mas   náo  póJe  altera-las.   E  o  throno 
Cadeira   da  justiça  :   quem   se  assenta 
Em  tão  alto  lagar,   fica  sujeito 
A  mais  severa   lei  :   perde   a   vontade  ; 
Qualquer  descuido  chega  a  ser  eoorme, 
Detestável,   sacrílego  delicio  ! 


Quando   no   liorizonte   o  sol   espalha 
Sobre   a   face   da   terra   a   luz   do   dia, 
Kinguem   a   admira,   todos   a   conhecem  ; 
Mas   se   eclipsado   acaso   se   perturba, 
Nesse   instante   infeliz   todos   se   assustão  ; 
Todos   o   observão,   todos   o   receiJo. 
Logo   se   premiei   sempre   a   virtude. 
Se   os   vícios   castiguei,   nada   mereço. 
H    n3o  queirais,   vassallos    generosos, 
L'sonjeiros   tentar   minha  constância. 
Honrosa    estatua    pretendendo    erguer  me, 
Porque   bem   vos   regi  ;   pois   eu   não   devo 
Condescender   comvosco  ;    infamaria 
Da   alta   virtude   as   máximas   constantes, 
Com   que   austero   emprendi   do    régio   throno 
O   accesso   defender   aos   vícios   torpes. 
Se   delle   afugentei   sempre   a   mentira, 
A  lisonja   infiel,   o   astuto   engano  ; 
Mio   queirais   offuscar   minha   memoria, 
Provocando-me   a   coUocar   no   sólio 
Um   injurioso   exemplo   da   vaidade. 
Um    padrão   da    lisonja.    A    fama    íllustre 
Deve    durar    na   tradição   intacta, 
Sem    a   nota   de   frágil.   Fora   imprópria 


t!(li^-r~:tP^9^^W^'W^-l*^' ' 


A    gloria   que   me   dais,   se   nessa   estatua 

Descobrissem   os  séculos  futuros 

As   maculas  horrendas   da   vangloria. 

Vós  mesmos,  vossos  filhos,   vossos   netos, 

De   tâo   clara   doutrina   convencidos. 

Ou   do   tempo   melhor   aconselhados, 

A   mesma   estatua,   que   quereis   attentos, 

Agradecidos   hoje   levantar-me, 

Amanhã  se   veria   derribada 

Em    pedaços   jazer  :    com   páos   e   pedras 

Os   olhos   lhe   tirarem  ;   que   a  fortuna 

Ligada   co'   a   inveja   e   co'   a   soberba 

Nâo   deixa   durar   muito   os   elogios. 

Porém   se   vós,   illustres   Portuguezes, 

Desejais   conservar   meu   nome   eterno  ; 

Não   é   preciso   o    mármore   soberbo, 

Bastame   a  tradição   de    pais   a   filhos. 

Com  fiel  saudade  transmittida. 

Este   o   jaspe,   este   o   bronze,   em   que   pretendo 

O   meu   nome   esculpir  :    chegue   aos   vindouros 

Sem    perder   o   caracter,   que   o   fez   grande  : 

Lembre-se   o   benemérito   do   premio  ; 

Recorde  se   o   culpado   do   castigo  ; 

Todo   o   Reino   do   publico   descanso, 


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223 

l'-.m   tlarcnte   commercio   em   paz  segura  : 

Mas   Iiaja   quem   se   lembre   deste   caso, 

E    quem    diga,    que    rejeitei    modest.) 

As  honras    de   uma    e. tatua;    e   que    est.is    lioiirns 

Quem   chega   com   justiça   a   merec^--!as, 

Também   sabe   atrever-se   a    despreza-las. 

Acabou   de   fallar  ;   e   os   circumstantes, 
Immoveis   e   calados,   pareciào 
Outras  tantas   estatuas  dedicadas 
A   regência   feliz   do   sábio   Infante. 


Á  feliz  acciamação  do  Snr  Rei  D.  José   I 
de  gloriosa  memoria. 


Romance     he n de c as y l l a b o  . 

^UBI,  senhor,   ao  throno  lusitano 
A   restaurar  a  perda  de  un  monarcha, 
Que  chora   Portugal,   para  que  seji 
AUivio  da  saudade   a  semelhança. 

Acceitai  os  obséquios  da  leald.id<;, 
Qiie   o   Reino   vos   tributa   e   vos   consagra, 
E  em  recíprocos  votos  a  ventura 
lllumine  de  amor  a  nobre  chamma. 

Arda  nos  corações,   que  a   augusta  ideia 
Das   heróicas   virtudes   nos   abrazi, 
Debuxando  o  prototypo  dos  cultos 
A  imagem  da  justiça,  que  se  exalta. 


^. 


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225 

AccI.ima,   Lysia,   o   numc;i  respeitaJo, 
(J.ue   a   regia   successâo   o   sceptro   chama 
Oução   medrosas   nos   remotos   climas 
O   augusto   nome,   as   nações  estranhas. 

As'a   rica,   theatro   Jas   victorias. 
Que   o   luso   esforço   consjgrou   á   Fama, 
N.is  ribeiras  do    Ganges   fertili.  a 
Para   novas   conquistas,   novas   palm/s. 

X.is    entranhas   da   America    opulenta. 
Ao   brilhante    metal,   delphica    chanima, 
Para   diademas    vos    formar    eternos 
Vivifique    em    preciosas   abur.dancias. 

Na   barbara    região   da    Africa    adusta 
Temerosa   a  ousadia   mauritana 
Veja   eciipsar    as   luas   dos   turbantes, 
A   ruina   que   o   Tejo   l!ie   prepara. 

Os   echos   bastar.ão   do   vosso    nome. 
Para    que    Europa   toda   attenta   e   sabia. 
Na   construcçã  )   do   estático   socego 
De   Portug.-.l   respeite   as   allianças. 


226 

Moderem  os  impulsos  da  piedade 
D  IS  justas  leis   a   execução  sagrad^i, 
Sem   que  a   justiça   ao   mérito  se   negue. 
Sem    que   o  delicto  indómito   se   faça. 

Ka   disciplina    militar  se   ensaia 

O   luso   braço   que   empunhando   a   espiJj, 

Será  nobre  terror  dos  inimigos, 

Será  da   pátria   invicta  segurança. 

Na   protecção   das   letras   felizmente 
De   vosso   influxo   a   erudição   renasça. 
Os  Virgil  ios,   os   TuUios   se  descubrâo. 
Que  atégora   Lisboa  occulta  avara. 

Doutas   máximas,   ethicas  doutrinas, 
Ministros  sejão   das   acções   preclaras. 
Que  entre   os  mysterios  da   razào   de   estado. 
Hão   de   mover   ns   bellicas  campanhas. 


Emfim,  senhor,   a   gloria   portugueza, 
Que   Europa   admira,   que  respeita  a   Ásia, 
Torna   a   brilhar  nos   ambtos  do   mundo. 
Donde   o   sol   morr.',  aonde   a   ai:rora  raia. 


i^i^íá^^^-^^íoH^^èi^^^ããt^ 


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227 

Vivei    feliz,   e   governai   glorioso, 

Do   mundo   espanto,   admiração   da   pátria, 

Ostentem    para   assombro   do   futuro 

li    ouro   Icmis,    os   pérfidos   estatuas. 

Vivei,    reinae,    o    tempo    vos  respiite 
Ou    absorto    ou    rendido,    enujuanto    a    fama 
No   templo   da    memoria    vos    desenlia 
Eternos   bustos,    inclvtis    medaliias. 


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o  poeta. 


—    '    CoRYI 


■«ORYDON,   CoryJon,  que  negro   fado, 
Q.ue   frenezi   te   obriga   a   ser   poeta  ? 
Q.U'j   esperas   J^'   teus  versos  ?   Ainda   esperas 
Pelos  antigos  séculos   dourados, 
Quando   achavJo   Mecenas   bons   engenhos  ? 
Não   5abes   que   das   Musas   portuguezas 
Foi   sempre   urn    Iiospital    o    Capitólio  ? 
Viste    já,   qu-'   seis   urcos   arrastassem 
]ím   douradas   berlindas  um    poeta  ? 
Não   escreve   Lusíadas  quem   janta 
Km    toalhas   de    Flandres  ;    quem    estuda 
V.rA   camarins   fjrrados   de   damasco. 
Qua::to    mais   que    estes    versos    qu'assoalhas 
São   trovas,   de   que   os   doudos   escarnecem  ; 
Sem    que   lhes   valha   o   titulo   estrondoso 
Com    que    talvez    pretendes   baptiz.-.-los  : 


Odes  lhes  chamas  lu  ?  EUes   muriEUrâo 

yiio  sei  de  que  palavras.  Outro  dia 

Me  disse  Fábio  o  douto,  o  longo   Fábio, 

Que   diStes  bolos  o   chavão   iiâo   tinhas  ; 

Que  no  alaaide  fatiaste,  e  nos  bugios. 

Nos   descalços  trombetas,   termos   chulos, 

H   vedados  a  melicos   cantores. 

Pois  um   Matuzio,   o   fallador  Matuzio, 

Que  inda  mais  livros  leo  de  quantos  teve 

Ptolomeo,  e  conserva  o  Vaticano, 

Nesta  mesma  bigorna  IA  de  longe 

Co'  a   pezada  cabeça   te   martella: 

Que  fúria  te  tentou  com   tal  alcaide  ? 

Antes  tribuno,  ou  já  lictor  dice.sses, 

E  se  sabes  francez  sergetit,  seria 

Enfeitar  o  teu  cepo  mais  i  moda  : 

Mas  tu  não   faltas?  calas-te  ?   que  dizes?*. 

—  «Que  hei  de  dizer,   Calfurnio !   Que  já  cedo 

Como  Horácio  aos  prestígios  de   Canidia, 

Que  as  màos  te  dou  a  ti,  e  aos  bons  letrados 

Lycurgos  e  Ulpianos  de   palavras, 

Com   que  me  altegas,  com   que  me   intimidas. 

Que  alegre  borrarei  o  nome  de  ode 

Dos  versos   meus,  que  por  desastre  virão  : 


233 

Feliz   eu,   se   consigo   com  Joiís   rasgos 
Da   penna,   que   maneio   tio   ligeiro, 
Escapar  aos  malsins   que   me   pesquizão.   » 
—    (í   K   não   fora   melhor  oue   te   deixasses. 
De   uma   arte   desgraçada,   que   os    prudentes 
Já   calvos   Salomões,   Padres   conscriptos 
Aborrecem,   desp.-ezâo   e   condemnão  ? 
Almotacel    que   queiras   ser   de   um   bairro, 
Hxcluido   serás  sendo   poeta. 
Antes   de   ti   se   diga,  que   perdeste 
O  dote  da   mulher,   o   pão   dos   filhos, 
Porque   Gelonio   teve   quatro   d'  honras. 
Antes   de   ti   se  diga,   que   roubaste 
Ao   pobre   caminhante   dez   cruzados  ; 
Q.ue   violaste   as   vestaes  ;   que   em   vão   juraste  ; 
Que   CS   bruxo,    delator,    que   és    um    falsario  : 
Tudo   o   tempo   consome,  tudo  esquece, 
Tudo   dourão   riquezas;   mas   poeta! 
K   fúria   sem   remédio,    c   cio   dannado, 
Todos   o   apupão,   todos   o   apedrejão  ! 
Tu   andas   pelas  ruas   mui   contente 
Com    teus    grandes    canhões   empertigado, 
InJa   que   baixo   e    fusco,    vais   cuidando 
Que   reparão   em   ti,   que   todos   dizem, 


IS  .^Ts.    ^i\*    ^^^    ^N, '  ^*s.    ^1^    •'T^    "T-    •-^*^    «^í    -^«   vf-^    .-^  ?i 


Com  o   dedo   mostrando   a   má   figura  : 

«  Eis  o   grande   poeta,   que  nos  tronxe 

A   galante   invenção  de   versos  sólios, 

O   contagio   das  odes,   que   atrevido 

Quer  extirpar  a  seita  dos   sonetos.    » 

Mas  quanto,   Corydon,  quanto   te   enganas  ! 

E  certo  que  te  apoiítlo  ;  mas  bradando  : 

c  Lá   vai   o   novo   Horácio   autor  da  ode 

Varra   o   credor  soberbo   a  pobre   casa 

Co  desabrido  alcaide.  »    Circumspectos 

Embicando  no  varra,   e   mais  no  alcaide 

Põe   as   máos  na   cabeça.   Clamão   que  odes 

Nunca   viráo   com   termos  t.ío   rasteiros  ; 

Pensamentos  que  forão  condemnados 

Nos  rústicos  escólios  de  Lucilio  !    » 

—    <:   Basta,   Calfurnio   meu,  ante  os  juizes, 

Que  tâo  boa  sentença   profer'râo, 

Quizera   retractar  me  ;   e   te   prometto, 

De   abjarar  o  estylo   que   seguia. 

Buscarei  novas   pbrases,  novos  termos, 

A   língua  fatiarei  de   Palaiuhos  ; 

As   minhas  trovas,   meus  humildes  versos. 

Eu   te   juro,   que   nunca   mais   lhes   falte 

O   sonoro  ^âo  ^ão  dos  consoantes. 


2)5 


Magestosas   ideias  sybilliiias, 

H   outros   taes   atavios,    com   que   arreiâo 

Suas   composições   esses   bons    mestres. 

Mas  tu   que  tens   a   dita   de   pizares 

O   pórtico   sagrado   de   outra  Athenas  ; 

Que   és   estudante,   e   foste   preservado 

Da   culpa   original   da   pobre   Arcádia, 

Descendente  do   AdJo   do   grande   monte, 

Que   larga   as   cãs   de   prata   no   Mondego  ; 

Por   ancião   famoso   e   conhecido. 

Vai,   e   por   mim    o   oráculo    consulta, 

Pergunta    se    também    o    Venuzino 

Clara   estrella   polar,   o   velho   Horácio, 

Errou   na   opin.ío   desses   Cuj.icios, 

Quando   chamou   sem    pejo  dentro   em   Roma 

Ante   a   face   de   Augusto,   em   suas   odes 

Garridos   espadões,    a    mil    eunuchos  ; 

Ao    bom    Afio    chamou    vil   usurário. 

Ao    Mevio  fedorento  '■    mastim    a   outro, 

Tíruxa    a    Canidia  ;    se    varou   em    terra 

Seu   baixel    alteroso,   quando   dice 

De   un   máo   liberto,   pródigo   e   soberbo, 

Q:ie  fora   do   verdugo   c'o   a^urrague 

'Kjas   cosias  fusliç^ado   ale   incharem 


J^~^f^  "N  "^^^  "T-    't'    n-~  "T-    «T-    -T^  -T"    -T"    "^  "^T*"*\ 


t/ío   gritador  porteiro   as   cordoveijs 
"Do   vermelho  pescoço  que   suíiv.t. 
Nâo   te   fallo   na   velha   deihcnesta. 
Que   os  falsos   arrebiques  l':e   cahião 
Velo   verde  semblante  âeicorado. 
Como   o   vermelho  barro   >io   alto   monte 
Bm   laivos  se  derrama,   quando  a   chuva 
Principia  a   correr  em  enxurrada...   » 

—  «    Repara,   Corydon,   que   nessas  odes 
As   palavras  que   allegis   são   latinas.   » 

—  «   Logo   pôde  em   latim   dizer-se  preço, 
Porteiro  em   portugiiez   é  conJenniado  ! 

Ora,   Calfurnio,   vai-te  ;   em   paz   me  deixa. 
Que  nem   me   lembro  já   de  taes  doutores 
Qual  o   grande  rafeiro,   que   seguindo 
O   dono  vai,   sem   reparar   nos  fracos, 
Insolentes  cachorros  da   cidade. 
Que  ora  lhe  ladrão,   ora   lh'os   açulâo. 
Mal   lhe   volta  o  focinho   arreganhado, 
E   o  lizo   agudo  dente  que   branqueja. 
Qual   a   foDce  da  morte,  os  intimida. 
Justo,  poiém,   será  que  tu  lhes  digas. 
Que   varra   cada   qual   sua   testada  ; 
Que   assas   borbulhas   tem   para  coçar  se  ; 


_^ ^ ^^__„ , il[; 


257 

Q.ue   seus   venos   não  leio,   que   nâo   leiío 

Klles   os   versos   meus,   oJcs,   ou   trovas; 

Não   lhes   quebro   os   ouvidos,    não   os   canso 

Co'    a    importuna   li^ão   dos    meus    poemas  : 

X'  Arcádia    os    leio  ;    alguns    de    seus    pastoras, 

A    quera    verde    hera   cinge   e    adorna    a    fronte, 

Tejo    não   tem    de    L-Ios,    c    approva  los. 

!j.ue   se    guirdem    de    mim,    porque   se    pCyO 

Ao   campeão   de   Apúlia   a   longi   espada. 

Com    que    fendia    as    costas   dos    Romanos, 

Nem   a   maldita   fama   bolorenta 

De   seus   celebres   nomes   esquecidos, 

lilesa   deixarei  ;    serio    cantados, 

K   fibula   do   povo   em    toda   a   idade.    » 


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258 


Sobre  a  imitação  dos  antigos. 


IN  Ao   posso,   amável   Conde,   sujeitar-me 
A   que   ás   cegas  se   imitem   os   antigos  ; 
Quero  dizer,   aquelles   Portuguezes, 
A   que  hoje   chamamos  quinhentistas: 
O   bom   Sá,   bom    Ferreira,   o   bom   Bernardes, 
Forâo   grandes   poetas  ;   qualquer  delles 
Foi  discreto,  e  foi   sábio  ;  emfim    as   Musas 
Lhe  embalarão  o  berço,  e  lhe   cobrirão 
Com   morta,   e   cora   loureiro   a  sepultura. 
Mas  nem   por  isso  os  pobres  escaparão 
A   culpa  original  ;   tem   suas   faltas. 
Tem   seus   altos  e  baixos,   tem   sedeiros, 
Onde  dá  c'os  focinhos  um   pedante, 
Que  vá   por  onde   fôr,   ha  da  segui-los, 
Que  ha  de   furtar-lhe   tudo   quanto  dizem  ; 
F.   seji   bom,   ou   máo,   isso  que   imporia  ? 


M ______ .___  nf.- 


r  1    é'  r  r-i 


íf?rTC;-'í:p.^  .jp^  ..TíÃ^i-sírpTji^çr^Ciírp' 


O   ponto   cs'.á   que   o   digi   algum   d'aquelles 

Que   Craesbceck   imprimio  :   a   maior  teima  ! 

As   Graças   são   mucliachas,   sSo  rizonhas. 

São   fáceis,   são   suaves  :   elles   querem 

A   força   pôr-lhe   brancas   e   bigodes, 

K   nãj   lh'os   sabem   pôr  :    que   é   o   que   eu  digo  ? 

Imit.io   o    peior  ;    mas    não    imitão 

Os   versos   mais   canoros   e   correntes, 

A   sizuda  dicção,   a   phrase   pura  ; 

Aquelle    attico    sal,    que    não   conhece 

Q.ueni   nunca   vio   o    pórtico   de   Athenas 

Sequer   em   caixas    ópticas    pintado  ; 

Isto   é,   Anacreonte   traduzido, 

Aristophanes,   Sophocles   e   Sapho  : 

Sem    que   fique   de    fora   o    bom    Homero, 

1'.    outros,    em    quem    poder   não   teve    a    morte. 

Para   imitares   tu,    senlior,    os    feitos 

De    teus   claros    maiores,    necessitas 

De    calças   c   gibão  V    Se   hoje  sahissís 

Com   jaqucte  e   golilha,   quem   seria 

Tão   serio,    e   tão   sizudo,    que    pudesse 

Conter   o   rizo  5   Nada   te   valera 

Rtsponder-lhe    gritando,    «   que   imitavas 

Os   distinctos   avós,   que   dos   Noronhas 


•^fv"    fc-fs»     w^    v*^     .^N.  H 


240 


A   prosápia  exaltarão   generosa 

Nos  séculos   passados.   »    Todos  sabem 

Que  o  valor  nJo  consiste  nos  vestidos. 

Antes  seguem   as   modas.  A   virtude 

Assiste  com  socego  inalterável 

Nos   grandes  corações.  Ora   esta   regra 

Corre  a   nivel    d'altura   do   Parnaso. 

Imite-se  a  pureza  dos   antigos, 

Mas  sem   escravidão,  cora   gosto   livre, 

Com   polida  dicção,   com   phrase  nova, 

Q.ue   a  fez,   ou   .idoptou   a  nos'a  idade. 

Ao   tempo   estão  sujeitas   as  palavras  ; 

Umas  se   fazem   velhas,   outras  nascem  : 

Assim   vemos  a  fértil   primavera, 

Encher  de   folhas  ao  robusto  tronco, 

A   quem   despio  o   inverno   desabrido. 

Mud3o-se   os   tempos,   mudâo-se   os   costumes 

Camões  dizia  imtgo,  eu  inimigo; 

O   ponto  está  que   ambos  expliquemos 

Aquillo  que    pensamos.   A  energia 

Do   discurso   e   da    phrase   nâo  consiste 

No   feitio   das   vozes,   mas   na   força  : 

Salvo,   conforme   aos   gárrulos  trovistas. 

Que   nâo  te   chamío  justo,  sem   chamar-te 


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J41 


Ou   robusto,   ou   augusio  :    inda  que   sabio 
Detestas    a   lisonja.    O   raro   Apelles 
Rubens  e   Rapliael,    inimitáveis 
■Não   se  fizerão   pela   còc    das   tintas  ; 
A   mistura   elegante   os   fez    eternos. 
Quem    não   percebe  bem  este  segredo, 
Cuida   que    em    dizer   viór   tem    dito   tudo: 
Que    muito,    se    n.io    ha    discernimento, 
li    reina    a    afTectação  !    Vejo    pedantes 
Trepados    em   cadeiras,   descompondo 
Os   mais   honrados   cidadios   de   Athenas, 
Sem   raz.^o,   nem   vergonha  :  e   vejo   gente 
Prudente   e   sabia   embasbacar  nos   gestos 
Do   mono    petulante!    Muito   pôde 
A   opinião,   a   teima   ou   o   capricho  ! 
K    o    pedantismo    pôde    mais    que   tudo. 
Pois   arrasta    a    raz.io,    piza    a    verdade  ; 
K    em    sabendo   servir-se    da   lisonja, 
Vôa    por    esses    ares,    sobe   ao    cume. 
Onde   a   vaidosa    ideia   ergueo   o   templo 
Da   fantástica   fama.   Alli   se   abraça 
A    soberba   e    a   vaidade    co'    a    preguiça. 
Vive    a    ignorância   alli,    dalll    pretende 
Dictar   as   leis    ao   mundo.    M.ts   que   digo? 


5í 


m^ 


Que  furor  atrevido  me  arrebata  ? 

Que  demónio  me  inspira   allegorias. 

Sem   permissão  do  tribunal   censório 

Dos   criticos   modernos  ?   Nâo   é    moda 

Um   estro   nobre,   tudo   está   mudado  : 

Ha   pragmática   nova,   estreitas   regras, 

Que  obriga  a  jejuarmos,    poesia 

Tem   longa   quarentena  ;   e   não   me   espanta 

Ver   poetas   mirrados,   se   a   abstinência 

Das  clausuras   fugio  para  o  Parnaso. 

Os  nobres  Portuguezes,   christSos  velhos, 

Acaso   são   gentios,   como   forão 

Pindaro,   Homero,   Sophodes,   Virgilio, 

Para  inventarem   cousas   inauditas  ? 

Fabulas  novas  ?  Bastão  as   pinturas 

De  quatro  bagatellas  :  uma  fonte. 

Um   bosque,   ura   rio,   um  campo,   ura  arvoredo. 

Um    rebanho   de   cabras,   dous   pastores 

Com  cajado  e  snrrão  ;  uma   pastora. 

Que  se  está  vendo  n'agua  :  ha  melhor  cousa  ? 

Quem   pôde  fazer  mais  ?   Que  nos  importa 

Que  o  verso  seja  frouxo  ou  deslocado, 

Sem   gramraatica  a   phrase.   sem   pureza, 

E  sem  graça  a  dicção  ;   oa   emfím  tudo 


'■'■l^«-r-=;r.Tr^-írr'^'^'.;rT"r-'>^'...^^^í.rrTr^'^7r.-5--i-^ 


■*«f 


Sem   connexão,   sem   ordem,    sem   juizo  ? 

O   caso  está   que   lembrem   as    pedrinhas 

Lá   no   fundo  do   rio,   sem   que  esqueça 

A   gaita  do   pastor,   nem   os   abraços 

Da  simples   pastorinha  :   e   que   as   palavras 

Sejão   humildes,   velhas    e   caducas 

Sequer  de  quando  em  quando.  Ah!  senhor  Coude! 

Se   isto   é   ser   bom   poeta,    bom   poeta 

Eu  o   prometto  ser  era   pouco   tempo. 

Mas   tu,  senhor,   bem   sabes  quanto   custa 

Ser   fidalgo   da   casa    do   deos  louro  : 

Não  se   compra   a   dispensa   com   dinheiro. 

Nem   vale   ter  o   pai   no    Desembargo  ; 

Mas   é   preciso   grande   génio,   longo 

E   escolhido  estudo;   ouvir  a   todos, 

Seguir   a   poucos  ;   conversar  c'os   mortos, 

Quero   dizer,    c'os   livros   todo    o   dia, 

E   toda    a   noite  :    alli   se   faça   branco 

O   cabello   que    foi   ou   preto,    ou   louro. 


'^ 


-7^* 


I. 


V_yS   brilhantes  trançados   enastrando 
Com    verde   mirto,   com   cheirosas   flores, 
Kos   lindos   olhos   vivo   rutilando 

O  doce  lume 

Do   cego  Nume, 

Alvas   donzellas, 

A   quem   vos   ama, 

Da   crespa    rama. 

Que   Bassareo 

Ao   mundo   deo. 


•^í 


"i 


f^^ir. 


Co'    as   brancas   mãos   no   copo   crystallino 

Lançai   ligeiras 
Loiíro   Falerno,   rúbido   Sabino  ; 

Eia,   voai. 

Deitai,  deitai  ; 

Gró    gró,    ti    t.i, 

Que   cheio  está. 

Ora   brindemos 


tM: 


m^        _  -^  .^.- .^   ,  _ ,— • »|-^ 


DITHYRAMBOS 


V 


m8 


As    gentis  Graças,   castos  Amores  : 

Ko  mar  lancemos 
Rixas,  tristezas,   magoas,  temores. 


Mas  de  coradas   nuvens,    afumados 

Vejo  em  torno   girar  os  negros    montes  : 

Cândida    espuma 

De  purpúreas   fontes 

Ferve,  e  se  enleia 

Ka  crespa  veia. 

Com   que   o   ribeiro 

Cone  ligeiro. 

Por  entre   as   aveleiras  buliçosas 
Das  balsas   espinhosas, 

Mil  capripedos  satyros    auritos, 

E  mil  Faunos  brincões. 
Já  vem   saltando, 

A  tetra  c'o  ruidoso  pé    trilhando. 


Sincinnas   choreia?, 
B'stonidas    feias 
Formão  bradando  : 
Evoó,   Saboé, 


'>-^>->^-^5í^í'T^: 


249 


^■^  /J'*. 


Amores   inspira, 
O'  doce   Leneo, 
Amores   bebamos, 
Do   peito   lancemos 
Os   sustos,   temores, 
Xos  copos   já   temos 
As   Graçis,   Amores, 

Evoé, 

O'   padre   Lyeo. 

Saboé, 

Evan   Basçareo. 

As   ferulas   protervas   coriscando, 
Entre  as   cervinas   peMes   maculosas 
Derramão   brilhantes 
Tremulas   estrellas, 
Sobre   as   soltas  bellas 
Fulguricrinantes 
Tranças   pampi;iosas 
Das   thyrsigeras   Thyadas   raivosas. 
Corycio   escutando 
O   phrygio   clamor. 
Está    ululanío 
Com   triste   fragor. 


tl-N 


ajo 


Sobre  o  prado  amero 
Tremilhicando  o  pávido  Sileno, 
Do  ebrifestivo  copo  que  trasborda 

Pela   micaute  borda 
Deixa  entornar,   cora   rubicundo   rosto, 
O   cheiroso   rubi,   o   quente   mosto  : 
Encrespou  o   nariz,  e  sacudindo 
Os  húmidos  bigodes,   ficou  rindo. 

Evoé, 

O'  padre   Lyeo. 

Saboé, 

Evan   Bassareo. 

Com   Tyrso   potente, 
Era   carro  luzente 
De  tigres  puxado, 
Dourando  este  dia, 
Desterra  o  cuidado, 
E   traze  alegria. 

Evoé, 

O'   Padre   Lyeo. 

Saboé, 

Evaa   Bassireo. 


í<-'^-^>>^k^^'^ 


Os   copos   brilhantes 
O   bom    nictileo 
Em   brindes   retinem, 
E   amor  adejando 
Co'   as   azas   rorantes. 
Se   está   mergulliando 
Era   ondas    brilhantes. 

Evoé, 

O'   Padre   Lyeo. 

Saboc, 

Evan   Bassareo. 


i 
1 


Ao  Snr  António  Diniz  da  Cruz  e  Silva, 
sócio  da  Arcádia. 

OACCHO,  Elpino,  cantemos,  dá-me  o  bromio 
Oh  !   que  bem  que  elle  sõa  !   Eu  toco  ;  canta 

Baccho,   Baccho,   evoé. 
Mas  que  fazes?  Kão  ouves?  Olha,   escuta 

O  estrépito  sonoro 

Da  confusa   Thymele. 
Kão   saltas?   NJo   te   alegras,?   Olha,   escuta. 

Baccho,   Baccho,   evoé. 


^* 


Os  olhos  tens  chorosos  ;  somnolento, 
Estúpido  o  semblante,  rubicundas 

E   quentes   as   orelhas  ; 
O   nariz   frio  ;    os   braços   pendurados. 
Cambaleias?  Tu  cahes  ?   Elpino,  cahes  ? 
Ah  !   J.i  sei  ;  os  symptomas  bem   conheço, 

Opprime-te   a   ambrozia  : 
Kada-te  o  coração  no  licor  forte. 
Que   corre  em   catadupas  pelas   veias. 


H>    A  '^l:\r:lÍ^^^J^ 


V>fcy$<lfr, 


''  '^ 


Dcce  Padre   L3eo,   acode,    acode 
Acode  ao  teu  Elpino  : 
Bacclio,   Baccho,   evoé. 

Vtm,   vem,   ó  ditln-rambo,   se   as   alegres 
Crepitantes  lenèas   te   não   prendem; 
Se   afogado  do   fumo   dos   legumes, 
Os   olhos  esfregando   as   ventas  torces  ; 
Vem,   vem,   qu'eu   te   prometto 
(Por  esta   taça  o   juro) 
Devoto   celebrar   as   anthesterias  : 
Vem,  vem   Baccho,   evoé. 

Mas,   que   ouço  !    Escuta,   Elpino  : 
Ouço   ao   longe   ranger  os   parafusos 

Dos   cheirosos   lagares  ! 
Descendo   pelas   roscas    grita    a    vara  ; 

Bom   signal,   evoé. 

Vejo,   por  entre   chuvas  de   bagaço. 
Um   vulto   pelos   ares   vir  batendo 
Compridas   azas  ;    mas   não   tem   cabeç.i, 
KJo  tem   pés,   nâo  tem   mios : 
Ah  !   já  na  terra   pouza  : 


'4 


•*u 


í 


a$4 


Vamos  Elplno  ver  ;  um  odre,  um  odre  I 
Es  tu  Baccho,  evoé. 

Elpino,  toma,  bebe 
O   valente  elixir,  que  nos   restaura 

Das  passadas  fadigas, 

Que  aquenta  os  frios  membros. 
Que   faz   vermelho   o   velho   descorado, 

Que   alegra   a   mocidade. 

Que  o  somno  concilia  : 

Elpino,  toma  bebe, 

Baccho,  Baccho,  evoé. 


<!> 


MOTES  E  GLOSAS 


M. 


iARfE,    faie-tc   la   moda, 
H  Icus    temores   desterra, 
Que   os   soldados   desta   era 
Tr.i^ciii  por    moda    uma    roca. 


Se   queres   ser   namorado 
Da   moça   mais   presumida, 
Deixa  de   paizano   a   vida, 
Senta   praça   de   soldado. 
Traze   chapéo    cerceado, 
Kspadada   a   testa   toda, 
Casaca   com    pouca   roda, 
Nunca  dinheiro   comtigo  ; 
Pois    é   moda   tnl     castigo  ; 
Marte,  fa\e-te   da    moda. 


5  3 


2;8 


Kão   temas   a   reluzente 
Sanguinosa  espada   fria  ; 
O   pilouro,   que    assovia, 
E   que   mata  de   repents  : 
Kem   petardo,   que  e;trideute 
A'   dura  porta   se   aferra  : 
Busca  o  desprezo   da   guerri 
Com   torvo   irado   sembiai-.te, 
Faze-te   forte,   chibante, 
E  léus  Umores   desterra. 


Com   retorcidas   bigodes 
Os   antigos    Cassiílctes, 
Sem   rabichos,    nem    topetes 
Trczandavâo   mais   que   bodes. 
Marte,   da   moda   bem   podes 
A   roca  brandindo   fera 
Mostrar,   que   náo   foi   nem    era 
Gente  de  tanto  valor 
Para   batalhas   raellior, 
Que  os  soldados  desta   era. 


J^À^ 


2Í9 


InJa   que    a   roca   se   poi.ha 
Como   caroclia    .-.os  poltrões, 
Hoje   seiscentos   Koidões 
Kão   tem   da   roca   vergonha. 
Empestados   desta   ronlia, 
Que   trouxe   moda   tão   louca, 
Fazendo   aos   rapazes   coca 
Era   trajes  de   Cruz-diabo, 
Nos   mostrão   por   moda  o   r.^bo, 
Tracem   por    »:olt    H»iii    roccit. 


Di 


'E  que   me  serve  o  querer-te, 
Nem   tão  pouco    idolatrar-te  ? 
Sujeitar-me  a   teus  preceitos, 
E  vir  outrem   a   lograr-te  ? 


De  que   me  servem    gemiJos 
Ao  céo  vímente   espalhados  ? 
Se  a   meus  rogos  magoados 
Cerras,   Marília,   os  ouvidos  ? 
Se   mil  extremos  perdidos, 
Perdidos  só  por  mover-te 
Chegão,   cruel,   a  ofTender-te. 
Se  nada  emfim    me  desculpa, 
Antes,  o  qucrer-te  é  culpa. 
De   que   inc   serve   o    querer-te  ? 


261 


De  que   me  serve  ?    Que   vale, 
Que  o   pranto   meu   pezaroso, 
Qual  ribeiro   caudaloso 
As   duras   penhas  abale? 
Grite,   murmure   ou   me   cale, 
Kada   chega   a   magoar-te. 
Quem   c   que   pôde   abrandar-te? 
Se  para,  ingrata,   tnover-te, 
Dt:   nada   serve   o   querer-te. 
Nem    ião  pouco    idclatrar-te. 


Cuidei   que   viver    atado 
Ao   grilhão   da   tyrannia, 
Em   compaixão   trocaria 
Tão   estranho   desagrado. 
Vejo-me   desenganado  ; 
Vejo  em   lagrimas   desfeitos 
Meus   olhos,   que   tão   sujeitos 
Teu   duro   império   rendeo  ; 
Nada,   Marili;-,,   valeo 
Sujeltar-me   a    teus  preceitos. 


Mas   é   tal   o   roeu   torm.-nto, 
Que  heide  com   gosto  soffrè-lo  ; 
Pois   imaginir   perde-lo 
Inda   é   maior  sentimento. 
Nâo,   Marília,   o   pensamento 
Káo  sabe  deixar  de  amar-te; 
Antes  escolhe  enconrrar-te 
Sempre   ingrata,   sempre   esquiva, 
Que  ver-te  emfim   conipassiv.i, 
E  vir  outrem   a  lograr  te. 


■f^^^Mí^ÊMSpW 


III. 


Tudo  faz  o  Padre  António. 


A    negra    melancolia 
Com   os   olhos    no   cliSo   postos, 
Suspiros,   pranto,    desgostos 
Sobre   os    mortaes    diffundia  : 
Q.iu.-.do    a    rizonl; a    alegria 
Apparece   a    tempo   idóneo, 
E   como   o   branJo    Favonio 
Dissipa    a    nuvem    do    pranto  ; 
M.-is    tornar   em    doce    canto 
TiiJo  fa^    o   P.iJrí  ^-iiiíoiUo. 

Tn   fazes,    Delfim   sonoro, 
.Mudar   em    consolações 
As   penosas   aftlicçôes 
Com    o    instrumento   canoro  : 
Fazes    que    do    Piudo    O    côro 


264 


Por   ti   deixe   o   lago   Aonio  ; 
Fazes  descer  do   Telonio, 
Por  te  ouvir  o  deos  luzente, 
E   tu   fazes....   Finalmente 
Tudo  fa^  o   'Padre  António. 


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CANTIGAS 


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30 


Wg95Sii''>ÍSimSS%sM: 


L/O   campo   de   Rio  frio 
J.i   vier.io   os   soldados, 
Trazem   corações   Je   bronze 
Km   dura   guerra   ensaiados. 

I"eroze3   c   carniceiros, 
ArrastAo   duros    canhões, 
Ameaçando   ruinas, 
Incêndios,   roubos,   traições. 

Cora   pifaros   e   tambores 
Nos   atroão   os   ouvidos  : 
Os   fundos   valles,   os    montes 
Gemem    do   estrondo   feridos. 


'.>♦.. ♦..♦»>7  % 


268 


As  bandeiras  de   Cupido 
Desampararão  traidores, 
De   linhas   e   baterias, 
Se  espantarão  os  Amores. 

De  improviso  se  levantão 
As   brancas  azas  abrindo  ; 
Ora  nos  ares   suspensos. 
Ora  ás  estrellas  subindo. 

As  settas,  que   lhe   cahirão 
Ficão  no   campo   pizadas, 
Rotos  os  sonoros  arcos, 
As  vendas  despedaçadas. 

Successo  t.ío  lastimoso 
Andio  as   moças  carpindo  ; 
Soltos  os  louros  cabellos, 
Descorado  o   rosto  lindo. 


269 


Nas   curvas   margens   do    Tejo, 
Que  lambe   a  crespa  corrente, 
Para  onde  fugio   Amor 
PerguntSo  tristes   á   gente. 

Pelos   ásperos   outeiros, 
Com   seu   pranto   rociados, 
Umas   bradão   por   Cupido, 
Outras   praguejão   soldados. 

A  seus   fervidos   gemidos, 
O   pobre   nâo   lhe   responde  ; 
Antes   com   pânico   medo 
Até   das   moças  se   esconde. 

Teme,   que   ate   nos    paizanos, 
Galharda   gente   mimosa  ! 
Se   ateie   o   fogo   voraz 
Da  feia   guerra   estrondosa. 


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^N-N^í» -^-^  ^*  *^»^^p  "^I '     •- '  *   -f- *f- -*- --f — í*  "í"  ^li^  "^  ^^^T~ 


Nunca   mais   com   brando   rogo, 
Com  recíprocos   suspiros, 
Sujeitará    corações 
A  seus   laços,   a  seus  tiros. 

Fugio   Amor,   escondeo-se, 
Levou  comsigo   a  alegria  : 
Murcharão  se  as  lindas  flores, 
Apagou-se   a   luz   do  dia. 

Mas   quem   quízer  saber   onJe 
Escondido  Amor  está, 
Venha  ver  de  Lylia  os    olhos, 
As  frechas   de   .^mor   verá. 

Ah  !  fecha,   Lylia,  teus  olhos, 
Nío  deixes  sahir  Amor, 
Emquanto   ouvires  das    armas 
O   desabiido   fragor. 


'f^.j*í,9. 


"^^ V ^'i- ^-?'r ^^?  ■  * '    " '~-  ^r -^ -i- -1- ■f^^<-é'- -p'F?^:\' 


Kspera   que   a   paz   dourada 
Tomando   ao   collo   os   Amores, 
Com   os   cocares  dos  elmos 
Empennera   seus   passadores. 

Deixa,   que   ardidos   ginetes 
Rompendo   os  campos   talados, 
Em   vez   de  bellicos  Sagres, 
Arrastem   curvos   arados. 

Ent.io   á   sombra   dos    ramos, 
Q.UC   estende   o   carvalho   annoso, 
A   casta   pomba   arrulando 
Chamará   o   fido   esposo. 

Então   co'  a   frauta   sonora 
Modulando  em   desafio, 
O   teu   nome   ensinarei 
As    mansas    aguas   do    rio. 


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II. 


Cuidava   que    Briolanja 
Era   branda,   como   bella, 
Cuidava   que   era   marmanja, 
Mais   tenra  do   que   vitella. 

Mas,   ai,   ai,    ai, 
EUa  é  cem  vezes, 
E  cem  mil  vezes 
Muito   mais   dura, 
Que   onça   esfaimada, 
Loba   malvada, 
Que   na  espessura 
DegoUa   as   rezes. 


N.  -1, ^ .;. -!-^-!- -!- 4;^-!;-!' -'::-J- -!-  -!-  -l-  -!- -t- -^^4- -J;-'-í- -J- ^-  ^ 
.„  ^.^  ...^ ..>,>..  ^.......^....^ ^^^ 

li 


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Ao  Divino  Espirito  Santo  no  anno 

em  que  sérvio  de  Imperador  um  filho 

do  111""'  e  Exm»  Snr 

D.  José  de  Alencastro. 

Alrao  Espirito  divino, 
Deste  império   protector, 
Inílamma  os  devotos  peitos, 
De   que  foste    Creador. 

Tu   Paraclyto   te   chamas  ; 
Fonte   viva   e   sempiterna  ; 
Incêndio   de  caridade  ; 
H   dedo   da   mão   paterna. 

Do   estellante  Empyreo  desce. 
Nas   azas   de  Serafins  : 
Anjos,   thronos   te  acompanhem, 
Potestades,   Cherubins. 


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274 


Já   com   vozes   incessantes 
Três  vezes  Santo   te  accIamSo 
E   de   tua   immensa   gloria 
A   magestade  proclamão. 

Abrão-se  as   portas   do    céo. 
Enche  de  luzes  a  terra, 
Os   rebeldes  inimigos 
Longe  de   nós  os  desterra  ! 

Venhão   em   nosso    socorro 
As  Celestes   legiões, 
Para   a  tremenda   batalha 
Arraa-nos    os    corações. 

Mil  coriscos   vomitando 
Caia  o  dragáo   furibundo, 
Que   accezas   fauces   abrindo 
Deseja   tragar  o   mundo. 


-— A?í- 


275 


Derrotadas   as   catervas 
Do   c.iliginoso   baiuio, 
Hm    nossas   roxas    bandeiras 
A    victoria    está   brilhando. 

Sobre   a   dourada   coroa 
Do   devoto  imperador. 
Vemos   fuzilar   os   raios 
De   teu   divino   esplendor. 

Kmquanto    de    nossos   olhos 
Teu   lume   santo   fõr   guia. 
Confessarão    os    infernos 
Deste   império   a   soberania. 

De   dourada   paz   gozando 
Cantaremos   teus   louvore-;, 
Dissipando   as   densas   trevas 
O    ruido    dos    tambores. 


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276 


Em  triumpho   campeando 
Cantaremos   a  victoria, 
Té  ver  de  Sião   os   muros 
Cobertos  de  immensa  gloria. 

Seguindo  tuas  bandeiras 
Em   teu  serviço  alistados, 
Foliões  e  imperador 
Somos  de  Christo  soldados. 

Armados  do  lume  teu. 
Rutilante  escudo  forte  ! 
Esperaremos  constantes 
A  curva  fouce  d.i   morte. 

Se  nossos  votos  te   agradâo, 
Se  escutas    nossos   clamores. 
Sobre  a  casa  d'Alencastro 
ChovJo  os  teus  resplendores. 


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Katrc   cândidas   virtudes 
Com   illustre  IieroicidaJe, 
Esmalta   os   brazões   do   sangue 
Magnânima   caridade. 

Qual   o  pelicano  terno, 
Q.ue  o   peito  de  ouro   rasgando 
Está   c'o  sangue  das   veias 
Os   filhos  alimentando; 

Assim   a   grande   alma   illustre 
Em   celeste   amor   acceza, 
O   coração   rasgará 
Para   acudir   á   pobreza. 

Nos  sólios  da  eternidade, 
Que  occulta  tanto   mysterio, 
A  desejío  ver  c'roada 
Os   vassallos   deste   império. 


Ç~JJ'I        II   I  liill  '   MPl  I  llllii 


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T-í-^í-^í^z^i^srsEíZS^Ezr 


ENDECHAS 


1^; 


Mg 


P.islora.   vJUE.M   amor   não   tem, 
XSo   tem   coração, 
De   branda   atTeiíão 
Alma  se   mantém. 

P.islor.     Mas   quem   amor   tem 
Serve   á   crneldaJe, 
E   Ja   liberdade, 
Mão   conhece   o   bem. 

Piísíora.   De   dois   corações 
Reciprocas   dores 
Dos    gentis    Amores 
SSo   arco,   e   farpões. 


'Pastor 


36 


O    lindo   volver 
D'iins   olhos   rendidos, 
Em    peitos    feridos 
Derrama    o    pra/er. 


k4 


»4i 


'Pastora.   Deseja  dizer 

Balando  o    cordeiro 
No   valle,   no  outeiro. 
Que  sabe  querer. 

Pastor.     O   pego  do   mar 

A   praia   nas  fragas, 
Quebrando   mil    vagas 
A  vem    abraçar. 

Pastora.   Q.ue   bom   fora  Amor 
Se  fora  leal  ; 
Mas  é   grande  mal. 
Que  seja  traidor. 

Tastor.     Se  em   amor  nio  ha 
Singelas  tenções  ; 
De  enganos,  traições 
Quem   nâo   fugirá  ? 

'Pastora.   Bem   posso   mostr.ir 
Quem   te   ama   fiel. 

Tastor.     De  quem   é  cruel. 
Que  devo  esperar  ? 


283 


TJstora.   Se   me   amas,   pastor, 
Sou   fida   pastora. 

Pastor.   Sc   não   es   traidora. 
Já   creio  em   Amor. 

^mhos.    Que   doce  prazer 

Káo  sente   quem   ama. 

Pastora,   Tâo  suave  chamma 
Dci.\emo-la  arder. 


II. 

Em   mil  agonias 
Cercado  de  abrolhos 
As  noites,  os  dias 
Me  deixào  Licor*. 
Depois  que  teus    olhos 
Os   meus   captivárâo, 
E   me  sujeitarão 
A   tanto   rigor. 

Se  tratas   assim 

Com   tal   tyrannia, 

Q.aem   por  ti  se  inílamma 

A  quem  te  nâo  ama; 

Que  mais  lhe  faria 

O  teu  desamor  ? 


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4* 

■*■■*- 

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THEATRO   NOVO        f 

DRAMA.  T 


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Aprigio  Fafes, 
Aldonsã 


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À. 


Actores. 


,  suas    filhas 
Branca 

Arthur  Bigodes,  mineiro  e  compadre  de  Aprigio. 

Jofre   Gavino,    musico   e   mestre  de   AlJonsa.  -^ 

Inigo,    actcr.  I 

Braz,    Licenciado.  y 

Monsieur  Arnaldo,    architecto.  1 

Doutor  Gil  Leinel,   poeta.  T 


A> 


r  .:. 

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Vale    mais   a   fortun.i,   que  a  sciencia  : 

O   coração  presago  é  o  piloto 

Com    que  se   arroja  ao   mar  quem  Deos   ajuJ.u 

Ha  delgado   chatim,   que   mal   entende 

Que   dous  e   três   sio   cinco,   e   sempre   ganha, 

Ou    no    contrato    lance,    ou    na    commenda  : 

E  quantos   vemos   nós   com   guarda-livros, 

Com   seiscentos  caixeiros  zigues-zigues 

Dar  c'os   bodes   na   arêa,   e    nas  esquinas 

O   bom   nome   servir-lhes   de  epitaphio  ! 

Mas   deixando   preâmbulos,   approvo 

A   idéa    do   theatro;    é   bom   projecto, 

O   ponto   só   consiste  em   desbancarmos 

O   da   rua  do   Conde   e   Bairro   Alto. 


Aprigio. 

Senhor   Arthur   Bigodes,   meu   compadre, 
Quem    tem    tfio   bom    amigo,   não   duvida 
De   abalançar  se   á   mais   custosa  emprez.i ; 
Este   meu   tal   e   qual    pouco   bestunto, 
O   trago   prenhe   sempre    e   recheiaJo 
De    soberbas  i.ió.is  ;    mas    nia    tinhi 
C;ilor  bastante   na  myrrada   bols.i. 


-^ 


«^k)ímí®.'^- 


4 


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V 


Para   o   br.iço   chegar  a   executa-las. 

O  céo  bem   sabe,   quantas  vezes,  quantas, 

Vociferando,   disse :   Em   hora  infausta, 

Por  longos   mares,  d'cntre   nós   fugindo. 

Se  ausentou  meu  compadre  Arthur  Bigodes 

Coração   de   Alexandre,  farto   amigo, 

Pé  de  boi  portnguez ;   mal  empregado 

Nos  desertos  sertões  dessas  Arábias, 

Entre   gente   boçal,   entre   bugios  ! 

Arthur. 

Manso,   fiel   amigo,   essas   lisonjas, 
Carapuça   nAo  sâo  desta  cabeça. 
Sou   amigo   e   compadre  ;   isto   me   basta  ; 
Faço  o   que   devo.   Vamos   .idl.inte. 

Aprigio. 

Tanto  que   a   frota  veio,   uma   alma   nova 
Senti   pular  no   peito  ;   a   fantasia 
Entrou  a  erguer  palácios  e  castellos  : 
Vi  dragos,  serpes  vi  :   quando  sonhava, 
Vologeso  e   Catío  me  appareciâo 
Com    punhaes   e   cadúas  :  acordava 


■)>y 


Aturdido   Jc   caixas   e   trom!  etas  : 
Estes   e    oiitroí    projjctos    me   inspirarão 
A   iiléa   de   um    tlieatro  :   cu   sempre   tive 
Bom   dedo   para   a   cousa  ;  fiz   marmotas 
Varias   famas    vesti,    e    Cniz-Jiabos 
Para   os   cirios   do   Cabo   e   d'Atalaia. 

Arthur. 

O   diuhvjiro   está   prompto  ;   agjra   falta 
Q.uem   nos  arme   a   charola. 


Aprigio. 

Caro    amigo, 
A   teu   aibitrio   entrego,    e   deixo   tudo. 

Arthur. 

A   mini,   Aprigio?   Fora;    nSo   sou  desse 
Q.UC  emprestando   dinheiro   com   usura, 
Dão   mil   regras  depois   de   economia 
Ao   pobre   padecente,   que    corrido, 
Como   cão  com  funil   atado   ao   rabo, 
Vai   ladrando  e    fug:ndo    á   surriada. 


'Y 


Aprigio, 

Sempre   graça   tiveste  :   apaUvraJos 

Alguns  siijiitos  tenho  iutelligentes, 

Architecto,   poeta,   bons   actores, 

Um    musico   chapado  ;   e   para   damas 

As   minhas  duas   filhas,    Branca    e  AUonsa  ; 

Ambas  filhas  de    peixe,    ambas   formosas. 


4- 


Arthur. 

Pois  isso   é  ouro   sobre   azul  ;   que   o   povo 
Ou  dorme,   ou   ri,   se   vè   uma   tapuia 
ArrancanJo  suspiros  emprestados, 
Torcer  os   vesgos  olhos,   e   mostrar-nos, 
Abrindo  a  negra   boca,   que   é   cerrada. 
Eu  empresto  o  dinheiro  ;   mas   declaro, 
Que  isto  se  entende  emquauto  as  dimas  forem 
Engraçadas,   formosas,   e   bem   feitas  ; 
Q.ne   para  vir   gasta-lo  com   serpentes 
Kão   o   ganhei,   passando  tantos  dias 
Por  duros   morros,   por  incultas    fragas, 
Talvez   comendo   carne   de   macacos. 


•^^m. 


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Aprigio. 

Basta,  compadre,   basta  ;   as   minhas   filhas 
Muito   bem   sabes   como   são   galantes  ; 
AlJonsa    lia   de    fazer   primeira    dama  ; 
Branca,   a  segunda  :   tu   verás   pendentes 
De  seus  travessos   olhos   todo   o   povo  : 
Tantos    os    corações,    tantas    as    Troias, 
Km   amoroso   incêndio   chammejando. 
Tu  mesmo,   meu   compadre,   sem   remédio, 
Apezar  dessas   cãs,    embaraçado 
H.is   de  scntir-te   na    vukanea   rede. 

Arthur. 

Eu   não  sou   tilo   sizudo,    nem   tão   velho, 
Q.ue    viva    por   demais;    emfim,     sou    homem; 
Nem   tive   nunca   coração   de   pedra  ; 
K   pouco   bastará   para   movcr-me; 
Muito   mais   as   paixões,   que   docemente 
Os  ânimos   revolvem. 


V 


Aprigio. 

Ora   vou-me 
Chamar   a   nossa   gente,   para   vermos 


■^^ 


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r.taíéê— >^- 


■ô\ 


Em   que   alturas  estamos  :  entretanto 
Te  chamo  as  raparigas.  Branca !    Branca ! 
J    ç.  Aldonsa!  Venliâo  cá.  Adeos,  compadre.  (Vai-se) 


SCENA    III. 

ALDONSA,  BRANCA   e  ARTHUR. 

Arthur. 


Como   formosa   vens,   Aldonsa  bella  ! 
«[  Em   teus   olhos  fuzila   a  luz   dos   astros  : 

^  Ao  menos  deste   mundo  cá  de  dentro, 

És  tu  o  claro  sol,   tu  és  a  aurora. 
Oh  !   quanto   filha   minha  ;   (sim,   que  filha 
Bem  te  posso  chamar)   oh  !   quanto  sinto 
Q.ue   os  annos   me   roubassem   todo   o  lustre 
Da   fresca  mocidade  !   Q.ue  os  invernos, 
Nesta  gelada  estriga  convertessem 
A   brilhante   madeixa;   que   algum   dia. 
Dourados  caracóe;  por  estes   hombros 
Ao  zephiro  entregava  !   Oh  I   se   eu   pudesse 
Banbar-me  no  JordJo,  e  remoçando 
-i~  Dar-te  um  gentil  mancebo  por   marido  ! 


303 


Aldonsa.  t^- 

T 

Sempre   biincamlo   vem    o    meu    padrinho.  M 

*! 

Branca.  Sj^- 

T 

Senhor  Artliur   Bigodes,   como   passa  ?  jV 

>5> 


Arthur. 

Mui   bem,   senliora   Branca.    Ouves,   Aldonsa  ? 
Hu   não   brinco,   antes   fallo   bera   deveras. 

Branca. 

Pois   a   mana,   senhor,   essa   não   zomba  : 

Noite   e   dia  conversa  em   seu   padrinho; 

Nío   fall.i   n'outra   cousa,   quantas   vezes 

Se   á   porta   batem,   vai   correndo   á   porta  ; 

E   porque   dá   com   outro,   do  semblante 

A   cõr   lhe   amarellecc,   e   recuando 

Sobrcsalt.id.i,   diz   que   não    é   ellc.  I 

i 

Arthur.  j 

Quão   feliz,    minha   Branc.i,   e   quão   ditoso. 

Se   isso   verdade   fôr.i,   me   julgara  !  ^:j1,-_ 

luda   porém    Aldonsa   m'o   nâo   dice 


í 


+ 


304 


Para   tão  fácil   ser,  que   me   arreganhe. 
Que  dizes,   bella  Aldcnsa  :    aquillo   é   certo  ? 


'  Aldonsa. 

A  mana  não  te  eng,ina,   nem  te  mente  : 
.1  Mas  se  te  adoro,  deverei  dizè-lo  ? 

Arthur. 

Deveras,   deveras,   que  essa  innocente 

Suave  inclinação  em   nada  ofTende 

A   modéstia,   o   decoro  :    inda  que  custi 

A'   moça   mais  amante  o  confessa-lo. 

Posto  que  honesto   fim  lh'o   approve   e  doure. 

Aldonsa. 

Pois  vive  descansado  que  te  quero. 

Branca. 

Eu  dou-lhe  os  parabéns,  senhor  Bigadcs. 

Arthur. 


Eu  rs   acceito,   Branca.   Minha  Aldonsa, 
Q,ue  nunca  me  enganei  com  os  teus  olhos, 


Agora  o    chego   a   v^r  ;   iielles   ao   longe, 

Muito   ha  que   descobri  um    hrarnlo   gesto. 

Que   n'alma  me   bulia  ;   mis   atado 

Ao   pezado    trambolho  de   meus   aiinos, 

Lutando   afílicto   com   setenta  invernos, 

Por   mais   que   ardiâo   férvidos   desejos, 

Capazes  de   animar   a   fria   pedra, 

Tiritando   com   medo,   enregelava  : 

Porque  um  homem  qu'é  serio  e  qu'é   prudente. 

Antes   se   humilha   a   parecer    covarde, 

Que   levar   na   bochecha   uma   apupada 

Destas     rascoas   de   hoje,   presumidas, 

Qiie   buscâo   Tamerlões,   imperadores, 

Franchinotes,   casquilhos   e   poetas. 

Para   ao   depois    berrarem    com   ciúmes. 

Sem   achar  cabeções   com   que  os   subjuguem. 

Tu   és,   Aldonsa,   a  excepção    da   regra. 

Amável,   linda,    cândida,    innocente  ; 

Qual    rosa    pudibunda   em    manhã    fresca. 

Que   da    rústica    mão   do    jardineiro 

Djixa   talhar   o    pé,    deix.i   colher-se. 


» 


Y,  Aldonsa. 

I  Tào  estranWos,  tâo   grandes  elogios 

V  Não   chego   a   merecer  ;   antes   conhe;o, 

A-  Que   a  maior  parte   da   fortuna  é   minha. 

]■  Uma  pobre  donzalla,  sem   mais   dote, 

Que  seu   singelo   amor,  em   nossos  dias 
Mui   pouco,   ou  nada  vale  :   sem  riqueza 
Quem  soffre   a  formosura  ?  Sãos  costumes, 
Honrado  sangue,   angélico   semblante, 
Não   namorão   os   noivos  deste  tempo. 

Branca. 

Miior   favor  te   faz   o   teu    padrinho. 

Aldonsa. 
Assim,    mana,   o   confesso,   asim   lh'o   digo. 

SCENA  IV. 

APRIGIO,   JOFRi:,    INIGO,   e  os   mesmos. 


4- 


Aprigio. 

^Aqui   trago,   compadre,   estes  senhores. 
Ambos  um  non  plus   ullra  do  theairo  ; 


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T 


São    músicos,    actores,    dansariíios, 

Grandes  poetas  ;   tudo   ao    mesmo   tempo  : 

Sâo   dous  tomos   de   r.ir.i   miscelânea.  M 

Em    ambos   quiz   mostrar   a   natureza,  ^^  L,. 

Q.ue   sabia    fazer   uma    obra    prima.        *  * 

O    Senhor   Jofre,   qunnJo    as    árias    cant.»  i^ 

As   almas   arripia  ;   calda  os   vento-;.  ^ 

Pois    o    mancebo    cá,    o    meu    In'go  ! 

Este   vivo   bemol,    este    magano. 

Nos  lances   amorosos   é   um   pasmo  ! 

Arthur.  í. 

Ambos,    bem    me    paretem:    gentis    nirços! 

'* 

Jofre.  ! 

Sou    antigo    cri.ulo   desta    casa,  ] 

E    mestre   da   senhora    D.    Aldonsa  ; 
Por   tão   honrado   titulo    me    julgo 
Merecedor  de   grandes   elogios. 

Arthur. 

Logo   o   mestre   sahio   o   mais   esbelto  ?  ', 


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^X' 


-^ 


Inigo. 

Eu  nSo  posso   allegar  antiguidades  ; 
Mas  vou  também   na  folha.   Venturoso, 
Se  de  applauso  e  favor  me  vejo  digno, 
Apezar  de  n.ío  ter   merecimento. 

Arthur. 

Ambos  discretos  sío. 

Aprigio. 

Mais  que  discretos  ! 
Sío  os  melhores  Ciceros  da   Corte, 
Capazes  de  pregar  !  Aqui  o  amigo, 
Um   drama  já  compoz.   Logo  o  veremos. 

Inigo. 

Dize-me,   Branca,  que  AfFonsinho  é  este? 

Branca. 

Ê   padrinho  da   mana. 

Arthur. 

O  Senhor  Jofre, 
Quanto  tempo  ha  q.i'ensina  nesta    casa? 


309  m  1 


Aprigio. 


Jofre. 

Ha   já  três   aiinos,   pouco   mais  ou   menos. 

Arthur. 

Com  que  três  annos  ha,   que   nest»   casa  j 

Tem  entrada  o  senhor  ! 


w 


Ai  !   meu  compadre,  . 

Tu   cuidas  qu'  inda  tâo   alarves  somos, 
Como  no  tempo  em  que  d'aqui   te  foste  ? 
Já  li   vão   os   biocos   Portuguezes, 
Mourisca  usança,   bárbaro   ciúme, 
Q.ue  uma   pobre   mulher    aferrolhava, 
Q.uaes  se   guardão   frenéticos    orates  : 
Ha  gente  mais  feliz  1   Outros  costumes 
Adoptou   a   naçSo,   abrio   os   olhos. 

Arthur. 

Eu   cuido  que   os   tapou. 

Branca. 

Que  rabujento  ! 


-^^• 


-*- 


'^^i^ 


Jofre. 

Adeos,  senhor  Aprigio. 
1  Aldonsa. 


Y  Jofre 


Espera,  Jofre. 


Que  espere!   Para  que? 

Aprigio. 

I  Para  tratarmos 

1  Deste  novo  theatro. 


Jofre, 

Que  theatro  ? 
Com  este  pregador,   mandas  chamar-me 
Para    ouvir  a  missão  de  um   Carioca  ? 

Arthur. 

Olhem   lá  se  se  dóe  da   matadura. 


Inigo. 

Nio  desesperes,  Jofre  ;  tem   prudência. 


1 1 Í! 


l 


SCENA  V. 

GIL   c   os   mesm   s. 
Gil. 

Senhor   Aprigio    Hafcs,    aqui    venho 
Cumprir   as    suos   ordens. 

Aprigio. 

Ciro    amigo, 
Homero    Portuguez,    Pindaro    nosso, 
|.i   cá   te  suspirava.    Vem   comtigo 
As   Musas,    vem    as    Graças. 


t 
k 

V 


Gil. 

Basta,    b..s:a  ; 
\.io   estamos    nós    autros   os    poetas 
A   tartos   elogios   costumados  : 
Os    mesmos    que    nos    pedem    um    soneto 
Para    render    a    d.ima   desdenhosa. 


-^ 


^^m- 


mw^^ 


Ou   os   aniios   louvar  de  uma    abbaJessa, 

Depois  de  ter  campado   por  discreto 

A'   custa   de  um   poeta,   sera   vergonha, 
T 
j»,  Jurão   que  sâo  uns  doudos   os   poetas. 

i 

it  SCENA  VI, 

BRAZ,    ãConsíeur   ARNALDO  e   os  ditos. 

Braz. 

Amigo  Aprigio    Fafes,   aqui   trago 
Monsieur  Arnaldo,   pratico   architecto  : 
O   Pozzi,   Paradossi   e   Bibiena 
Traz  alli   no  emicraneo,  a  perspectiva 
Na  pineal  lhe  vellica  com  tal  força, 
Q.ue  era   cada   pulsação  da  traca-arteria, 
Um  theatro  magnifico  levanta. 

Aprigio. 

Viva,   viva,   senhor   Arnaldo.   Agora 
Q.ue  estamos  todos   juntos,   comecemos 
A  nossa  conferencia  :   venha   a  banca. 
Vossès  nâo  ouvem  ?   TragJo  m»is  cadeiras 


5  ..-     ^.    -,í,^,T/;r|- 


f 


I! 

ií 

Arthur.  Ij 

"4 

Q.uero    que    a  par  de   mim   se   assente  AUonsa. 

Branca  (para  Inígo')  , 

Queres  qu'eu   fique   cú   da  outra   banda?  T 

Jofre.  i 

Parabém,   parabém,   senhora   Aldonsa.  f 

Aldonsa.  ] 

Se   tu   souberas,   Jofre 

Jofre.  t 

Bem    entendo.  1 

T      •  '* 

Inigo.  I 

Que   te   parece.   Branca,   o   Tupinamba  ? 

Branca.  | 

Velho   e   relho. 

1 

Aprigio. 

Sentemo-nos,   senhores  • 
Que   grave  tribunal!   Que   magestoso  1  r 

40 


•á:* 


"ã- 


gm^^ 


3«4 


Mal   sabe   o   mundo   agora,   que   pendente 

Deste  conclave  está  o  seu  destino. 

Oh  !   quanto,   amada   pátria,  quanto  devss 


T 

h  A  t-u  bom  cidadão  Aprigio  Fafes, 

j  Suando   e   tressuando   por  salvar-te 


Do  pélago    profundo  da   ignorância, 

Onde   pobre  jazias,   atolada 

Entre   péssimos   dramas  corriqueiros! 

Deste   cano   real   lioje   te  saco, 

Qual   saca   o   gandaeiro  um   prego   torto 

D'entre  os   cliicbelos   velhos  da  enxurradi. 

Gil. 

Senhor   Aprigio   Fafes,   isto  é   tarde, 

E  eu  tenho  que  fazer.  Vamos  ao  ponto. 

Aprigio. 

Sim,  senhor,  sim,   senhor:   o   caso  é   este 

E   bem  o   sabeis   vós,   ha   quanto  tempo 

Que  eu  desejo  fundar  um   bom    theatro  ; 

Agora  que   a   fortuna   me  dep.ira 

Feliz  occasiáo  de  executa-lo 

Com   o  favor,    alli,   de   meu   compadre. 


ti 
i 


É   preciso   ajuntar   a   sarabanda, 
Repartir  os   papeis,   escollier   obra, 
As   vistas   iJear  e   celebrarmos 
Com   solemne   escritura   este   contrato. 


Senhor   Aprigio   Pafes,   o   theatro 

Depende,    mais   que   tudo,   do   poeta. 

Q.ue   fazem   bastidores   e   instrumentos. 

Sem   dramas   regulares  ?   Uma   boa 

E   perfeita  tragedia,   inda  despida 

Da   magnifica   pompa   do    apparato, 

Tem   mais   graça  e  mais  força  i]'um   máo  drama 

No   tlicatro   de   Reggio   ou   de   Veneza, 

Com   soberbas   tramóias   recitado. 

Jofre. 

Amigo   Gil   Leineli   ninguém   te   nega 
O   constante   poder  da   poesia  : 
Mas   quem  ha  de  soffrer    Catio   ou    Dido 
Do   grande   Metastasio,   repetido 

Entre   velhas   cortinas,   sem   orchestra  ? 


f 


t 
Gil.  f^ 


i 

? 

Ni 

t 


^- 


Aprigio. 

Kada,  nada,   senhores  ;   desse   modo 

Aqui  nos  amanhece  :   todos  juntos 

Nâo   podemos   fallar  :   irá   votando, 

Por  turno   cada  qual,   quando   lhe   toque. 

Continua,   meu  Gil  ;  dize  o  que  entendas. 

Gil. 

Errado   vai,   quem   julga   que   o  theatro 

Só   para   divertir  o   povo   rude, 

Dos  antigos  poetas   foi  achado. 

Coaj   mais  alto  desígnio,  Athenas,   Roma, 

E  outras   cidades   mil,  o   receberão. 

Pôde  nelle  ensinar-se  i   mocidade 

Guardar  as  santas   leis,   a  fé  devida 

A   cara  pátria,   ao   principe,   aos   amigos. 

Pôde   nelle   mostrar-se  quanto   é   feio 

O  pallido  semblante  da  cobiça. 

Da  avareza  infeliz,  da  triste  inveja  ; 

Mas  para  recolher  tJo   grande  fruto, 

É  necessário,  Aprigio,  que  o  poeti 

Em  sizuda  dicçSo,   em   phrase  nobre, 

Com   sonoroso   verso   torneado, 


(5%    ; 


irri 


Exponha   ao   povo   fábulas  sublimes, 
Tragedias   ou   comedias    regulares. 
D'aqui   venho   a   tirar,   que   no   theatro 
Não  devemos   soffrer   drama  imperfeito, 
Cuja   graça   consiste   na   doçura 
D'afeminada   musica   moderna, 
Na   remendada   phrase   de   mil   vozes 
Barbaras,   ou   guindadas,   ou   rasteiras. 
Longe,  longe   de   nós   esta  mania  : 
Restauremos   o   portuguez   theatro. 
Desagravando   a   casta  lingua    nossa, 
Dos   aleives,   que   sem  razão   lhe   assacâo. 

Aprigio. 

Viva  o   Doutor   Leinel,    Doutor  das   gentes  ! 
Q.Mem   me   dera   qu'o   bom   Goldoni   ouvisse 
Como   ronca   um   poeta   de   Lisboa! 
Agora   f.illa,   Br.iz    Licenciado. 


i 


Braz. 

Eu  que  posso  dizer  í  Q.ue  me  parece 
Muito  mal  tudo  quanto  aqui  se  dice. 
Que   proveito   tiramos   em   metter-nos 


^- 


j'» 


k 

V 


No   principio   em   camiza  de  onze   varas  ? 
Tragedia  é   cousa  que   ninguém   atura  : 
Quem   ao   theatro  vem,   vera   divertir-se, 
Quer  rir  e   não   chorar  ;   lá  vai  o  tempo 
De   lagrimas  comprar  ás   carpideiras. 
Não  faltão  boas  operas,   comedias. 
Em   francez,  italiano,   em   outras  linguas, 
Que   pôde  traduzir  qualquer  pessoa, 
Com   enredo   mais   cómico  ;   que  o   povo, 
Sò  se  agrada  de  lances  sobre  lances. 
Quem  isto  não  fizer  jamais  espere 
Que  o  povo  diga  bravo,  e  dê  palmadas. 
Ê  o  voto  que  doa. 


Aprigio. 

Optimamente. 
Arnaldo,  agora  vota. 


4- 


Arnaldo. 

Meus  senhores. 
Venho  ajustar  o   preço  do  theatro. 
Com   dramas  não   me   metto  :   os   bastidores 
E  só   o  que   me  toca.   Porem   digo. 


;i9 


Aldonsa. 

Kegro   gosto  !    Quem   póJe   divertir  se 
Co'    a   pavorosa  scena   de   iim    fligello? 


4 


Que   regular   tragedia   nas   Italias 

Muito   ha   que   S2   não  usa  :   que   a   mudança 

De   vistas   sobre   vistas,   as   tramóia-. 

Mares,   incêndios,   Jragos   e   batalhas, 

São   cousas  de   que   o   povo  se   namora. 

Já   eu   fiz   era   theatro   trovoadas, 

Com    raios    e    relâmpagos    tão    próprios; 

Qne   as    dimas   desmaiavão  :    era    um    gosto 

Ver   a    gente   fiigir   dos   camarotes  ♦, 

Espantada,   br.idar  misericórdia.  | 


t 

k 

Y 


Branca. 

Bom   architecto  !   Magico   parece. 

Aprigio. 

C.»lai-vos,   filhas.   Vote   agora   Inigo. 

Inigo.  I 

I 
Muito   dizer   podia,    pois   que   tenho  -J)'— 

Experiência   bastante  de   theatros  ; 


-^-TT- 


I 

4' 


Actor  de  profissão,   isto  me  basta  : 

E   também,  senhor   Gil,   o  louro   Apollo, 

■è"  De  comigo  tratar  nào  se  envergonha. 

4-  Mas  por  nâo  demorar  a  conferencia, 

V 
'.  Em  branco  assignarei.   Estou  por  tuJo. 

V 

Arthnr. 

O  cão  é  Mouro. 

Apriglo. 

Inigo,  desabafa  ; 
Dize  quanto  souberes  :  falia,   falia. 
És  a  columna  do  theatro   novo  . 


Inigo. 

Pois  se  devo   faltar,   digo,    senhores, 
Que  o  theatro  sem  dansa  pouco  vale  ; 
Muito   menos  sem   musica.   Podia 
Quem  a  gloria  qnizesse  de  primeiro, 
Pôr  no   theatro   as   operas   cantadas 
Na  lingua   portugueza.   Eu    aqui  trago 
Uma   por  mim   composta  neste   gosto. 
É  a  perda  de  Tróia  :   vc-se  Enéas 


4- 


csTà)  J" 


321 


Aprigio. 


Tem   vários   duos,   árias,    cavatinas. 
Eu   cuido   que    desbanco   a   Metastazio. 

Branca. 

Agora  sigo-me   eu. 

Aprigio. 

Espera,    Branca. 
Perdoa,   amigo  Jofre,   que   a  memoria 
Principia   a   faltar-mc  :    preterido 


f5 


Sallir   c'o   pai   ás   costas  :   vai   Ascanio  J\\^ 
Com   os   caros   penates   abraçado  :  * 

Arde   a   cidade:   cahem   as   altas   torres:  , 

Embarca   a   gente   phrygia  :   muitos   annos  £j,v?j 
Por   inbospito   mar   andâo   vagando,  t 

Até   que   surgem   no   distante   Lacio,  Vr 

Onde   Encas   a   Turno   tira   a   vida,  A 
£  casa  com    Lavinia. 


Y 


Bravo  !    Bravo  !  1 

Inigo.  j 


-x- 


322 


•1  Por  engano  fi;aste,  e  bem  podias 

I  Pe.lir   a  tua   vez.   Perdoa  e   falia. 

i  Jofre. 


(y.  Em  tal   não  reparei  :   eu  sou   sincero, 

Y 

Digo  o  que  entendo,  e  cnido  qu'o  theatro 
Sem  musica  e  sem  dansa,  nada  vale. 
Ha  cousa  mais  formosa  que   a  ligeira, 
I  Calada   pantomima,   cujos   gestos, 

*  Sem   auxilio  das   vozes,   representâo 

Recônditas  paixões,  mudos  suspiros, 
<iue  entende  o  coraçílo,  ouvem  os  olhos  ? 
Que  melhor  espectáculo,   que  os  leves 
Grandes  saltos  mortaes  ?  Que  ver  nos  ares 
Bater  c"os  calcanhares   oi;o   vezes, 
Torcer  o  corpo  e  revirar  os   braços  í 
Mas  nunca  votarei   em   que   façamos 
Opera  em   portuguez  toda  cantada  : 
Para  tanto  não  è   a  lingua  nossa  : 
Algumas  árias,   duos,   recitados 
Se  podem  tolerar;  o   mais  em   prosa: 
P.ira   o  theatro   nòs  nâo  temes  versos. 


-^- 


32} 


Aprigio. 

Falias   como   um    Catão.   Que   dizes,   I 
Branca. 

Hu   sou   de    parecer,    que   só   se    f.ii;ão 
As    portuguezas   operas    impressas: 
Encantos   cie    Mcdca,    Precipícios 
'De  Phaelottlc,   Alecrim    e    Mangcrona. 
Km    outras    nunca   achei    g-lauíaria. 


Aprigio. 

Esse   voto   era   digno   de    r;iais   annos. 
A    ti,    amigo   Artliur,    que    te    parece  ? 

Arthur. 

Que   podem    parecer  me   taes   loucuias? 
l.stou   touto   de    ouvir   estes    senlmres  ! 
Parece-me   que   estou    entre    Paulistas 
Que    arrotando   coiigonia,    me    aturdia» 
('o'a    fabulosa   illustre   descendência 
De    seus   ciai  os   avós,   que   de    cá    forAo 
Em    jaleco    e    ceroulas.    Mas   pergunto  : 
.'\3    comedias    de    Calderon,    Mureto, 


-A- 


324 


t 

Y 


Candâmo   e   Salazir,   isso  não   presta? 
Tem   bichos,   meus   senhores  ?    Tanta   gente, 
Imperadores,   reis,   infantes,    duques, 
Os  condes  e  os   marquezes,  qa'as  ouvião 
Com   gosto  e  com   prazer,  erâo  uns  asnos  ? 
Só  estes  meus  senhores  tem  juizo  ? 
Que   Colombos  e  Gamas  denodados, 
Para  achar  novos   climas,   novos   mares  ! 
Pois  digo-vos  que  sò  se   a  minha  Aldonsa 
Fôr  de   contrario   voto,  o   meu  dinheiro 
Servirá   para  as   barbaras   idéas, 
De  que  prenhes  trazeis  essas   cabeças. 


Aprigio. 

Aldonsa,   minha   AlJoiísa,   que   uos   dizes  ? 

Aldonsa. 

Eu  digo,  que   me  louvo  no  t;u   voto. 

Gil. 

Falia,   formosa  Aldonsa,   tu  bem   sabes 
Quie;  sâo  as  leis  e   r.'gris  do  theatro. 


52S 


ti 

% 


Aldonsa. 

Não   acceito   a  lisonja,   porc;n   digo, 
Q.u'emfi.n   approvo   quanto   tu  votajte. 

Aprigio. 

Hu   que  tenho   dois   votos,   digo   o   mesmo. 

Arthur . 

Acabou-se   a  questão,  vivamos  toJos. 

Aprigio. 

Agora,   amigo    Gil,   que   obra   faremos  ? 

Gil. 

hu  tenho  vários  dramas  traduzidos, 
De   Sophocles,   d'EiiripiJes,    Terêncio. 

Aprigio. 

Nida   de    grego,    nada;    fora,    fora: 
Sempre   te  ouvi  dizer,   quj   elles   não    tinha: 
Os   lances   amorosos   de   que   gosta 
O   povo   portuguez. 


4' 


-^•-\#' 


-*- 


326 


Gil. 


*  Tragedia  do   Ferreira  ? 


Queres   a   Castro, 


Aprigio. 

Deos   me   livre  ! 
Amigo   Gil  Leinel,  eu  desejava 
Um  drama  teu.   Conheço  nesses  olhos 
A  suave   t  ernura  de   teus    verses. 


í  Gil. 


Pois,   amigo,   encetemos  o  theatro 
Com   a  minha   Iphygenia. 

Aprigio. 

Bello   nome  I 
Isso  è  que  eu  chamo  titulo  arrogante  ; 
E   qne  em  vermelh:s  letras,   nas  esquinas 
Ha    de  pescar  curiosos  a  cardumes, 
Repartâo-se  os  papeis;   vamos  «  isso. 

Gil. 

Iphygenia  será  Aldonsa  bella. 


^"'IjÍs) 


Aldonsa. 

t  extenso  o  papel? 

Gil. 

Não,  é   pequeno. 


T 


o   tenhor  Jofre   s^  j  i   Achilles:   seja....  -1^ 

Arthur.  A 

V 

1-spere;   tenha   mão,    senhor   poeta  ; 

Veja  como   reparte   essas    garrochas, 
O   primeiro   galan   a   mim    me   toca. 

Gil. 

Não   pôde  ser   gaUn,    ha   de   ser    barbas. 

Arthur. 

Ku   barbas!   Eu  que  empresto   o  meu   dinheiro  ! 

Gil. 

1'^   que   tem   o   dinh-jiro   co'  a   figura  ? 
Um   velho   nunca   pôde   ser   mancebo  ? 

Arthur. 

Senhor   poeta   Gil,   f.iça-me   graçi, 

V.   ponha-se   na  rua.  (^Lev.jntuo-se   iodos) 


Aprigio. 

Artbur...  amigo... 
Onde   está   a   prndencia  desses   anncs? 


í?  Arthnr. 

k 


-^ 


Quaes   annos  !   ^inles  que  lodo  es  mi  dama : 
Aldonsa,  não  a  largo.  Tenho  dito. 

Jofre. 

Qne  tal,  senhora  Aldonsa? 

Aldonsa. 

Escuta,  Jofre. 

Branca. 

Senhor  Arthur  Bigodes,  não  se  engrile  ; 
Será  o  que  quizer.  Quer  ser  Achilles  í 

Braz. 

Arnaldo  amigo,  vamo-nos  safando, 
Que  isto  não  pár.i   aqui. 

Arnaldo. 

É   gente  douda.   {Fâo-se  os  Jous) 


}29 


ti' 


TODOS,   menos  os  ilous. 

Aprigio. 

O'   paz,   serena   pa,:  !   Que   nos   Jeixasle, 
E   abrindo   as   brancas   azas   te  sumiste  ! 
Inspira-rae  palavras,  com  que   possa 
O   velho  socegar  incarniçado. 
Amigo  Arlhur  Bigodes,   que   me   perdes  ! 

Arthur. 

Q.ucria  o   Doutor   Gil,   esse   barbicas, 
Poeta   bordalengo,  dcfraudar-me 
D'ametade  de   mim  !   Fora  c'o  tallio ! 

Inigo. 

Jofre   amigo,   despcJe-te   cie   Aldonsa. 
42 


SCENA  VII.  ^ 


~t^ 


ei 


Gil. 


Amigo  Aprigio  Fafes,  eu  attendo 


•f  Ao  respeito  devido  a  tua    casa  ; 

r(K  Por  isso  nâo  respondo  a  taes  injurias. 

A  Arthur. 

T 

I  Adeos,  senhor  poeta;   faça  versos 

A's  moças  do  seu  bairro;  não  se  meta 
L  A   Padre   Cura  de   outra  freguezia. 

i"  Gil. 

Penhor  Arthur  Bigodes,  fallaremos,  (Faí-í«). 


SCENA  VIII. 

Os  mesmos,  menos  GIL. 

Jofre, 

Adeos,  ingrata  Aldonsa. 

Aldonsa. 

Ouve-me,  Jofre. 


Jofre. 

Nào   venho   do   Brazil.   Eu   cá  sou    pobre. 

Branca. 

A   mana  não  tem   culpa ;   crê-me    Jofre. 
Arthur. 

Senhor  mestre   de   solfa,   vá-se  embora, 
Que   esta   menina   toma  agora   estado, 
E   vai   senhora   ser  da  sua   casa. 


Inigo. 

Branca,   o   mineiro   cuida   que   esta  casa 
E  senzala  ou   possilga  de   crioulos. 

Branca. 

Assim    convém,   assim   melhor  se   encrava. 

Aprigio. 

Amigo    Arthnr,   as  noivas   ii.ío   costumío 
Os  mestre,   despedir:    levão  comsigo 
Cravo,  livros  de  solfa.  O   mestre  attento 
Vai  logo  no  outro  dia  visita-la. 


'IZ^ 


* 


i-f 


5J2 


►jl» 


Arthnr, 

Se  fôr  a  minha  casa,  híi  d;    parti-lo. 

Jofre. 

Sim,   barbas  lhe  deo  Maio.   Adeos,  Aprigio. 
(Fai-se.) 


SCENA  X. 


Os  mesmos,   menos  JOFRE. 


Aldonsa. 

Infausta  sede  de   ouro,   a   quanto  obrigas 
A   cara   liberdade!   O   puro   aíFecto 
A  duro  captiveiro  hoje  condemnas! 

Arthnr. 

Amigo  Aprigio   Fafes,    de   theatro 
Bem   te  podes  deixar:   nssis   nos  bastio 
Os  theatros,   que  temos  em   Lisboa. 
Kem  tudo  ha  de  ser  operas  ou  comedia. 


353 


\ín   caso   com   AlJonsa,   e   doto   Branca  ; 
O   noivo,   lá   o   busca;    pois   conheces 
Os   bonifrates   de  chapéo   pequeno. 
De    rabicho  e   casacas  estiradas, 
De   que   gostão   as   moças   deste   tempo. 

Aprigio. 

Alli   Inigo  está,   que   para   genro 
Deseja  de   compra-lo   a   mesma   Thetis. 

Inigo. 

Q.ue   ventura   maior!    Branca,   que   dizes: 


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1 


Branca, 

liem   sabes   o   que   posso   responder-te, 
Sc   de   antigos   extremos   n.To   te   esqueces. 

Aprigio. 

Inda  o   fado   nío   quer,    inda   não   chega 
A   época   feliz   e  suspirada, 
De   lançar  do   theatro    alheias   Musas, 
De   restaurar   a   sceua   portugueza. 


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334 


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Vós    manes  de  Ferreira  e  de  Miranda, 

E  tn,  ò  Gil  Vicente,   a  quem  as  graças 

Embalarão  o  berço,  e  te  gravarão 

Na  honrada  campa  o  nome  de  Terêncio; 

Esperai,  esperai,  quMnda  vingados 

E  soltos,  vos  vereis  do  esquecimento, 

Illustres   Portuguezes,   no  theatro 

iSío  negueis   lugar  ás  vossas  Masas  : 

Elias,  não  as  alheias,   publicarão 

De  vossos  bons  avós  os   grandes  feitos, 

Q.ue  eternos  soarão  em  seus  escritcs  : 

E   podeis   esperar   paga   tão   nobre, 

Se  detestando  parecer  ingrato. 

Lhe   defenderdes  o  paterno  ninho, 

E   quizerdes  com   honra   agazalha-las. 


■*- 


(?)    G,    "S). 


^^^_,,r4^vfgl^cíí?j!}^.,^ 


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ASSEMBLÉA  OU  PARTIDA 


DRAMA. 


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iH  111 


Actores. 

Braz  Carril. 

D.  Urraca  Azevia,  sua   mulher. 

Jofre  1 

D.   Dulce  >  filhos  dos  ditos. 

D.  Branca       ) 

Jacob  Bilhostre. 

Gaspar  Picote. 

Gil   Fustote,   compadre   de   Braz   Carril. 

Doutor  Muconio,   medico. 

D.  Mafalda,   sua  filha. 

Florestão,   escudeiro  de   Bra^   Carril. 

Lourença,   criada  do   mesmo. 

L'm   alcaide. 

Um   escrivão. 

Dous   gallegos. 

Prostaiicas. 

Jogadores  e   convidados. 
D.imas   convidadas, 
duadrilheiros. 

.^    ícena   representa   a   casa   de   Braz   Carril. 


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SCENA  I. 

BRAZ   CARRIL   e   GIL   FUSTOTE. 


Braz. 

Entendes,   Gil   Fustote,   o  que  te  digo  ? 

Gil. 

Entendo,   entendo  :   dizes   que    p.irlida 
Hoje   em   casa   terás,   ou   assemblca. 
Amigo   Braz   Carril,   estas  galhofas, 
l-intares  e   merendas,   sAo  o   fruto 
Da  reloucada  teima  de  fidalga 
Com   qne  tua  mulher  sagaz  te   enloixa, 
C)u  te   embrulha   na   rede   era   que   perucas. 
Compaixiío   grande,   compaixão   me   deves. 
Partidas  !   Assemblca  !   Que  mania  1 


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* 


Braz. 

E  charaars  tu  mania,   Gil  Fustote, 
O  viver,  como  vive   a  gente  seria 
Hoje  em   Lisboa  ?  Grandes  e  pequenos 
Todos  querem  gozar  das  s3s  delicias, 
Do  suave  prazer  da  companhia. 

Gil. 

Sem  esses  bons   prazeres   e  delicias, 
Nossos  avós  e  nossos  pais  viverão 
Fartos,  alegres,  ricos,   e   contentes. 

Braz. 

Ora  já  que  trazião  retorcidos 

Os   grizalhos  bigodis  ;  estirada 

A  esquálida  guedelha  ;  no  pescoço 

Crespas   golilhas  ;   gorra   na  cabeça  ; 

As  calças  retalhadas  e  pantufos; 

Káo  tragas  tu  casaca  e  cabelleira, 

Nem  ates  com  fivelis  os  sapatos. 

MudJo  -  se  os  tempos,   mndao  •  se  os  costumes 

Nio  vês  no   frio  inverno  ao  tronco  annoso 

Cahir-ll.e   as   murchas   câs,   e  quando  torna 


A  fresca  primavera,  verdejarem 
Cobertos  de  mil   folhas  novos   ramos  ? 
Assim   as   modas   são,   assim   os  usos  : 
K  devemo-nos  todos   sujeitar-nos 
A   tJo   perpetuas   leis  da   natureza. 

Gil. 

Amigo,   amigo,   est.ii   perdido...   doudo... 

Braz. 
Com   os   olhos   abertos. 

Gil. 

Não   t'o   invejo. 
Nem   quero   governar   a   casa  alheia  : 
Fica  -  te   em   paz   com   tuas   assembléas, 
Podes   sem   mim   fazer  a   synagoga. 

Braz. 

Caro   Fustote,   espera   que   n.io    posso... 

Gil. 

l^u  n.lo  cauto,  nem  sou  arreborrinho  ; 
Pouco  gosto  de  ch.i,  menos  de  jogo  ; 
Falta   cá   não   farei.   Adeos,   amisro. 


1í 


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* 


Braz. 

Espera,  espera,  podes  divertir-te. 
Ouvindo  duas  árias,  temos  doce, 
E  doce  delicado,  se  quizeres. 

Gil. 

Não  caio  nesse   anzo!. 
Braz. 


Espera,   escuta. 


Meu  Gil  Fustote, 

Gil. 

Dize,   que  mais   queres  ? 

Braz. 

Eu  queria  pedir-te  algum    dinheiro. 
Porque  estou  sem  real  :   olha  em  que   dia  ! 

Gil. 

Pois  a  perpetua  lei  da  natureza, 

Qiie  murcha  as  folhas,   e  que  traz  partidas, 

Não  dá  também  dinheiro  para   o   gasto  ? 


34  5 


-V] 


Braz. 

Amigo  Gil   Fustote,  cu   pouco   peço  ; 
Dá-me,   sequer   seis   mil   e  quatrocentos  : 
Acode-me;   e   conforme   o    nosso   ajuste 
Sete   e  duzentos     lançarás   na   conta. 

Gil. 

Seis   mil   e   quatrocentos!   Q.uem   m'o5   dera! 
Nio   me   pagão   tio   bem   os   teus   foreiros  ; 
K   a  divida   vai   j.l   de   fóz   em   fora. 

Braz. 

Oito   mil   reis   porás. 

Gil. 

Isso  é  perder-te. 
Braz. 

Q.ual   perder-me  ! 

Gil. 

Amigo,  eu   não   podia  ; 
Mas  vejo   o   grande   aperto...   Toma...  escuta 


—ti;   -^- 


5-)4 


"fe— í 


Eu   chamo  a   Deos  dos  ecos  por  testemunha 

Sem   juro  te  levar,  sem  interesse 

De  tão  forçosa  vexação  remir-te  ; 

E  ^ue  o  pouco  que  mandas  qu'  accrescente 

A  nossa  conta,   é  dado  e  nâo  por  força. 

Sim   de  livre  vontade.  Adeos,  amigo, 

Que  vou   vestir-me  e  logo  torno.   {Fai-sc.) 


SCENA  II. 

BRAZ  (ílí«iíi//í). 


Braz. 

Tenho 
Para  sequilhos,   chá,   café  e  cartas, 
Falta  só  para  luzes.   Que  remédio  ! 
Recorro  ao  coscorrinho  da  senhora 
Que  è  fonte  limpa.  D.  Urraca..  Urraca  (c<i«/a«io). 


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c/  SC  ENA   III.  «^■ 

Y  BRAZ    e   URRACA.  'é> 

*  Urraca. 

Assim   se   ch.ima,   Braz,   uma   fidalga  ? 

Braz. 

Perdoa,   filha,   que   hoje   nâo   me  lembro 
Nem   de   Excellencias,   nem   de  Senhorias. 
Mandando  á  via  estou    a   náo   ronceira 
Com   vento   escasso   e   com   estofas  aguas. 

Urraca. 

O   rato  sempre   foge  para   a  palha  ; 
E    preto   velho   n.io   aprende   lingua. 

Braz. 

Que   vens  a  dizer  nisso  ?   Q.ue  me  esqutço 
De   etiquetas,   mesuras,   ceremonias, 
E   mais   ritos   e   leis   da   fidalguia. 
Com   que   queres   Urraca   ser  tratada  ? 


.(^  J3    "^J 


\/    I»"         — ■        ~-         ^^i-      •     —      i  c     ^ — /  «-  <?»  ^  r-'     vi; ív     vT"^ 


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Ou  entendes,   que  meus   [Togenitores  ^ 

Descendem  de  outro  Adão,   e  que   nâo  forSo       i 

Por  seus  honrados  feitos  estimados,  j. 

Bons   vassallos   fieis   e   servidores  ?  é 


^  Urraca. 

Tem  bem  que  ver  Carris  com  Azevias, 
Por  linha  masculina  descendentes 
De  principes,  de  reis,   imperadores, 
E  que  até  nos  colchetes  dos  costados 
Tera   mitras,   e   roquetes  ! 

Braz. 

Basta  !    basta  !   (fa- 
^endo-lhe  muitas  corte-las) 
Senhora,   Excellentissima  senhora, 
D.  Urraca  Azevia  !...  Mas,   menina. 
Vamos  ao  caso :   falta  para  a  noite 
Dous   arráteis   de   velas...    Eu   nâo   posso... 

Urraca. 

Queres,  já  sei,   pregar-me  esse  callote. 

Braz. 
Nio   é   callote  ;   que   pagar   prometto 


■w 


Urraca. 

Quando   tiverem   dentes   as   gallinhas  ;  V 

Mas   para   que   conheças   que  não  falto  J>^ 

Quando   é   preciso,   mandarei   busca-los.  ' 

Braz. 

Onde  mezas   não   ha,   nâo   ha  c.ideiras, 
Colheres,   castiçaes,   pratos,   bandejas  : 
Querer  dar  assembléas   e   partidas, 
H   nadar  sem   bexigas. 

Urraca. 

.Mas    com   lábia 
Tudo   se   vence,   tudo   se   consegue  ; 
Porque   a   gente   ordinária  agazalliadi 
Com   uma   tal   lhaneza,   facilmente 
Dei.xa   cardar   a   lã.   Anda  o  dinheiro 
Pelas   mãos   de   villòes   contra   vontade  ; 
li   como   galgo   em   trela  cobiçoso 
De   entrar  nas   algibeiras   de  fidalgos, 
Para  brilhar  com   pompa  e  luzimento, 
Km   ricas     mezas,   em    custosas   galas. 


i)  y 


348 


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Braz 

Ah  !   Vossa  Senhoria  ou  Excelleiícia, 
E  perdida  entre  nós  :  que  s2  doutrina, 
Q.ue  politicas  máximas  de   Estado, 
Cahindo  não  lhe  estáo   por  entre  os  dedos  'i 
Que  florente  nSo   fora   o  vasto    Império 
Dos  fulas  Amazonas,   se  o  regera 
Tão   gentil   coração,    alma   tão   nobre  \ 


Urraca. 

Só   me  julga  capaz  de   mandar   gente 
Tão  çúfara  e  boçal  ?  Negros,   Tapuias  ? 
Agradeço-te,   Braz,   o   bom    conceito 
Q.ue  tu   fazes  de  mira  :  bem   me  conheces. 
Se   fosse   outra   qualquer,  dessas  que   campão 
Por  letradas,   que   gostão   de   ouvir   versos, 
Q.ue  os  repetem,  que  os  faz.-m,  se  lh'os  fazen.. 
Dessas... 


A    A  -: 


ít^i  549 


h  SCENA  IV. 

V        Um   Gallego   com   uma   teiga  o  os   mesmos. 

Gallego. 

Aqui,  senhor,   manJa  meu    amo 

Senhor  Jacob  Bilhostre,   o  que  se  pede. 

Vera  oito  castiçaes  :  diz  que   tesoura 

li   traste   que   nâo   t.-m,   menos   de   prata  ; 

Q.ue   virá   a  seus   p<js,   como  lhe   ordena, 

Q.ue  sempre  estimará    poder  servi-lo. 

Braz. 

Vai-te,   dize   ao   senhor    [acob    Bilhostre, 
Que  tudo   recebi,    que   fica   entregue. 

iVai-se  o   Galho  o) 

SCENA    V. 

BRAZ   e   URRACA. 

Braz. 

Vejamos  q  e  taes  sâo.   Olá  !   Soberbos  ! 
Q.ue  scci.1,   minha  Urraca  !   Estás  contente  ? 


■í  3  50  ^|-> 


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I                                       Urraca.  '' 

y  Nunca  vi  castiçaes  ?   Tu  imaginas  -^ 

^  Que  em  berço  de  cortiça   me  embalarão  ?  *^ 

'  Que  nasci   n'um  curral  ?  * 

'f  ^ 

Braz. 

Não   digo   tanto  ; 
Mas   olha,  são  magníficos  e  novos. 

Urraca. 
Na   verdade  são  bons,  mal   empregados 
Hm   casa,  onde  bastava  uma  candeia  ; 
E   talvez,  que   nem  essa  ella  teria. 
Quando  cebo  vendia  ao   Remulares 
Na  fétida  baiúca...  Mas    o  tempo... 

SCENA  VI. 

Outro  Gallego  com   teiga  e  os   mesmos. 

Gallego. 

Aqui   manda  o  senhor  Gaspar  Picote 

Assncareiro,  buUe  e  cafeteira 

Com   três  dúzias  de   chicaras  e   pires. 


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Q.ae   sente   nío   ter   mais  ;   e   fica   promptc 

Para   a   vossas    mercòs  servir  em    tudo.  1 

1 
Urraca    (irada    e  furiosa).  k 

Mercê,   a   mim    mercO   ?   mercê,   maroto  ; 

Atrevido,   insolente,   vai-te   embora, 
Tu   não  sabes   fallar  ?   Dize   a   teu   amo 
Que  te   raanie  ensinar  :    logo   pareces 
Criado    do     villão... 

Braz. 

Urraca,   Urraca... 

Urraca. 

Tolo,    tolo!    E    pretendes   que   tolere 

Semelliante   dizer?   Foras   tu   outro 

E   souberas   melhor  desaggravar-me. 

Mas   tenho   quem    nas   veias  lhe   circule 

O  síngue   generoso   de   Azevias, 

Q.'.ie   vingar  saberá   tamanha   oíTensa.   (Vai-sc). 


s/fr' 


Gallego. 

A   senhora  está  douda  ?  Coitadinha  } 

Braz. 

Vai-te,   rapaz,  adeos  ;  vai-te  depressa, 
NJo   te  venha  pregar  alguma  surra. 

Gallego. 

A   mim  !  senhor,   porque  ? 


Braz. 


•A.  SCENA  VII.  '^■ 

A  GALLEGO  e    BRAZ   CARRIL.  A 


Safa-te,  foge. 

(^  Vai- se  o   Gallego"). 


^;-V- 


5S3  ^ 


l                               SCENA    VIII.  I 

i  T 

■^   JOFRR,  URRACA,  FLORESTÃO  (.om  «m^i  /íjok^j)  V- 

LOURENÇA  e  BRAZ. 


Jofre. 

Maroto...   patifão...   viUão...   gallego... 
Atrevido...  insolente...  {Correndo  lodo  o  thcUrr"). 

Braz. 

Olá,    que   c   isto  ? 
Jofre,    não   ouves?   Onde   vais?...   Esper.'. 

{Correndo   atras   de  Ji"frc). 

Jofre. 

Este    vi'lão    ruim,    ladrão,    patile... 

Urraca. 

Mata  !    tíUio,    m:ita  !   A   ferro   e   fogo 
Assolarão   teus   inclytos   maiores 
Tetuão,   Azaniôr,   Tangere,   Arzilia, 

45 


^:-^T 


c.---t' 


Florestão. 

Mate,    fidalgo,   mate   esse   giHego  ! 
Seja   David   do   sórdido   Golias. 

Braz  (íi  Jofré), 

Tem   mão,   tem   mão. 

Jofre. 

Senhor,  deixe-me. 

Urraca. 

Mata  !   meu   filho,   mata  ! 
Florestão. 

Morra,   mate. 
Braz   {ctifitJado). 
A  quem,   a  quem  ? 

Jofre. 
VilUo  .. 
Urraca. 

I-ilho... 


Mata  ! 


■•t 


355 


-"">-^'^ 


Florestão. 

Fidalgo... 

Lourença, 

Mnte  !... 

Braz    (jiegíi-lhe   no  hraçd). 
Tem   mao,   ol.i  !   Jofre,    que   f.\r.cs  ? 
Lourença    {dando    ivi   Jofre) 

Com    a   pá   de   varrer  nesta  batalha 
A    forneira   serei   de   Aljubarrota. 

Braz  (dd-!he) 
Kão   ouves,    maroi.ío  ?   Anda   patife  ! 

Urraca. 
Vill.lo... 

Florestão. 
Fidalgo... 

Urraca. 
Assim    se   trata   um   filho 
Descendente   de   heroes? 


"ii' 


FlorestãO    (susUnão   a    Brai). 
Fidalgo... 

Lourença. 

Dalgo. 
Florestão. 

Vossa  Excellencia,  Vossa  Senhoria... 

SCENA  IX. 

JACOB   e  os  ditos. 

Jacob. 

A   partida  por  entremez    começa  ? 
Senhora   D.  Urraca...  Amigo,   amigo. 

Braz. 

Senhor  Moiisieur  Bilhostre,    este   magano... 

Urraca. 

Senhor   Bilhostre,   um   filho   meu...    Fidalgo, 
Descendente  do   grande  Lancerote 
Q.ue  a  Barbarõxa  arrancava  as  barbas, 
Q.iie   arrastou   pelos  sórdidos  cabellos 


;,^b     l.-'      -  _  I-'. 


.)l 


Solimões,   Mustafás   e   Mafamedes 


^'f.' 


r 


J,  Kâo   devera   seu   pai   injuria-lo,  J,, 

<À.  1-;    na   minha   presença.  ,Á. 

t  t 

Braz. 

Mas   que    injuria  ? 

Urraca. 

Kão   c   injuria   dar-llic   bofetadas  ? 

Alma   fidalga   de   meu   pai,   que    gozas 

Xo   empyreo   ao   menos   do   lugar   de   du^piL', 

Como   nâo   desces   a   vingar   tamanha, 

Tão   desmedida   afíVonta  ? 

Jacob. 

NSo,   senhora, 
O    castigo   de   um    pai   não   é   injuria. 
Mas   senhores,   o   dia   do   partida, 
Um    tão   solcmne   dia,    não   c    dia 
De   arruidos,   de   rixas   e    disputas. 
\'.m   Londres,   em   Pariz,   Parma   e   Veneza, 
Kstes   bons   dias   são   em   todo   o   mundo 
Ao   prazer  e   socego   dedicados. 


^  3S8  Lp 


Y  .  .  t 

'i  Solto,  e  mil  farpas  de  ouro  desptdindo,  V 

■A-  Anda  voando  Amor  nas  asserabléas,  X 

Jf  £  qual  sonora  abelha  em  lindas  flores,  JL, 

t  Bebe  o  suave  néctar  nos  formosos,  Y 

.-;,  E  triumphantes   olhos  das  Madamas,  • 

Cora  que  ferozes  corações  abranda 
D'bomens,  os   mais  austeros  e  sizudos. 

Braz. 

Muito  bem   me  parece.   Pazes,   pazes. 
Leva  a  teiga  dahi  ;  ouves,  Lourença  ? 

Urraca. 

Que  perdestes,   meu  Jofre  ? 

Jofre   (^apalpando-se). 

Uma  arrecada, 
Q.ue  me  cahio   da  orelha  :  e   tenho  sangue. 

Braz. 

Uma  orelha  ? 

Florestão. 

NSo,   senhor,   um   brinco. 


Urraca. 

Busca,   Lourença. 

Lourença   (^brincando   e   cantando). 

Um...  dois...  três,  e  argolinha  {parando) 
Hi-la..,   não...   finca   pó  de   pampolinha. 

Florestão. 

lii-la,   fidalgo.   Alviçaras,   fidalga. 
Braz. 

O  r.-i  está  bem,  senhora,  vá  vestir-se : 
Vai  tu,  Lourença,  vai  limpar  a  prata; 
E   tu   vai,   Florestão,    comprar   o  doce. 

Urraca  (^faicndo-lhc    uma    maura'). 
Com   licença,   senhor  (vai-se). 

Jacob. 

Minha   senhora. 

Jofre. 

Q,uem   íia   de   penteat-me,   se   vais   fora  ? 


Florestão. 

Se   me  manda   seu   pai. 

Braz. 

Xào,   nâo,   primeiro 
O  podes  pentear. 

Florestão. 

Vamos,   fidalgo. 

Jofre. 

Vamosde  pressa,  Florestão,  que  é  tarde.  (  Fã  o-íf) 

SCENA  X. 

JACOB  BILHOSTRE  e  BRAZ  CARRIL. 

Jacob. 

Hoje,  senhor  Carril,   vinha  mais  cedo 
Para  metter  em  ordem  de  batalha 
As  mezas  e  cadeiras  ;  todos   falláo 
Em   partida,   assembléa  ;   poucos  sabem 
As   regras   da  importante  symetria, 


'é.  .  "' 


Com  que  se  deve   preparar  a  sala, 
J.  Que  serve  para  ura   acto  tâo  vistoso  ; 

tk,  Porém   vejo   que  tudo   está  já   prompto, 

I  Tudo  no  seu  lugar. 

*  Braz. 

Falta-me  a  cera, 
Acabou-se  o  dinheiro. 

Jacob. 

Eu  pouco  trago  ; 
Bastará   um   quartinho  ? 

Braz. 

Basta,  basta  ; 
Eu  lhe  mando  já  vir  as  raparigas. 

Jacob. 

-Muito   bom   cravo. 

Braz. 

E  do   Doutor  Muconio, 
D'aquelle   coripheo  da   Medicina. 

46 


li; 

t 
i. 


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* 


Jacob. 

EUe  vera  cá  ? 


Braz.  ^ 

Espero   que     nâo  falte. 


Jacob. 

Sua  filha  virá  ? 

Braz. 

Foi  convidada. 

Jacob. 

Venha   cora   Deos. 

Braz. 

Eu  cuido   que  me  chamâo. 

SCENA  XI. 

JACOB,  BR.AZ,   DULCE  e  BRANCA. 

Dulce. 

Vá  depressa,  meu  pai,   que  é  lá    preciso. 


•■•V  '    A,      /,'—.,,-/.•■■« 

■'  '4    ■    '  Sff  "^x''        "''  í^^-» 

3M  1^ 


Braz.  ■" 


X 


Que   falta  IA?  4' 

Dulce.  Y 


M,  Dijiheiro  para  assucar.  (^Vai-sc  '2f,r^).  .'j. 

Branca. 

Boa   tarde,   senhor    Jacob   Bilhostre. 

Jacob. 

Senhora   D.   Branca,    boa  tarde. 

.Minha    Dulce,   meu'  bem,   minha  senhora. 

Dulce. 

A    Pedro   donde    vem   fallar   gallego  ? 

Jacob. 

Do   coração,    do   coração   rebenta 
O   vesuvio   do   fervidos   suspiros, 
Com   que   humilde,   captiva   a  liberdad.-, 
Anse   esses  lindos   olhos  ajoelha. 

Dulce. 

Não    me   falle   em   latim,   que   não   entendei. 


=^^ 


--t^ 


364 


Jacob. 

Entendes,  bella  Dulce,  bem  me  entendes, 
Estas  as  phrases  sáo,  com  que  se  explica 
Uma  alma  tão  discreta   que  te  adora. 

Dulce. 

O  bem  que  representa  !   Logo  mostra 
Que  a  filha  do  Doutor  soube  ensaia-lo. 

Jacob. 

A  filha  do  Doutor  ? 

Dulce. 

D.  Mafalda. 
Jacob. 

Se  eu,   Branca,   lhe   fallei... 

Branca. 

Eu,  que  me  importa  ! 

Jacob. 

Escuta,  minha   Dulce.. 


o  Dulce. 

Jj  É   mui  formosa  ! 


Jacob. 

Aqui  de   comprimento... 
Dulce. 

Mui   discreta. 
Jacob. 

Se   fui   á  sua   casa... 

Dulce. 

Q.UÍ    bem  canta  ! 

Branca. 

Dansa   muito   mellior  ! 

Jacob. 

Porém,    senhoras... 

Dulce. 

Tem   bom   dote. 


;!l 
I 


366 


Jacob. 

Mas   eu... 
Branca. 

O  pai  é  rico... 
Jacob. 

Escuta,   minha  Dulce... 

Dulce. 

Eu  n.ío  sou   sua. 
Da   formosa  Mafalda   é  sò  vassallo, 
Esse   perdido   coraç.io   infame  ; 
Tudo,   tudo  já   sei, 

Jacob. 

É   tudo   engano. 
Se,   Dulce,   quebrantei   a   fé   jurada, 
Nunca   mais   a   meus   olhos  esclareça 
O   vivo   e   gentil   lume,   que   amanhece 
Era   teu   semblante   angélico  ;   troando 
Em   vermelhos   coriscos  se   converta. 
Caia,  fulmine,  assombre,  desfeaace, 


'^ 


367 


■'  Alma,   vida,    sentidos,   pensamentos, 

X  li   o   fido   coração   onde   tu   reinas 

X  Deixe   a   teus   pés   de   lagrimas   banhado 

A 

^  Entre    pizadas    cinzas    palpitando. 

Dulce. 

Uranc.i,   nío   lhe   resisto. 

Branca. 

Hu   me   estremeço. 

Jacob. 

Uulce,    minha   senhora,    Dulce   amada, 

Ah  !    não   fujas,   escuta,   ouvc-me,   espera, 

Ao   menos   me   permitte   o   disafogo 

Daquclla   mão   beijir   por  despedida, 

A   cujo   aceno   o   mesmo   Amor  se   humiliia. 

1-;   que   de  Amor  o  arco   retorcido, 

linristadas   as   frechas   estridentes. 

Mirou   ao   fraco   peito   que   anhelava 

De   teus  soberbos   olhos   ser   ferido. 

Hem    me   viste   cahir,    Dulce,   bem  viste 

Do   roto  coração   o  sangue  quente 


Fumegando  brotar,  e  em  crespos  rios 
Alagar  a  campanha  que  pizavas, 
Os   míseros  despojos  arrastando. 

Dulce. 

Oh  !  que  fracas  nós  somos  !   Pois  nos  rende, 
Nos  encanta  e  captiva  a  liberdade, 
O  doce  som  d'umas  sonoras  vozes, 
Q,ue  raras  vezes,   mana,  percebemos. 

Branca. 

As  que  de  versos  gostão,   não  resistem 
A  buena-dicha  d'um   poeta  amante. 

Jacob. 
Dulce,   formosa  Dulce  !   Dulce  ingrat.i. 
Se   minhas  tristes  queixas  n.to  entendes, 
Entende,  entende  as  lagrimas  que  choro. 
Olha,  vê  c*os  teus  olhos,  cm   meus  olhos 
Brilhar  o  vivo  fogo,   com   que  abrazas 
Uma  alma,  que  sò  vive  de   querer-te. 

Dulce. 

Branca,   nSo  posso...  Morro. 


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'"^^y^s  ■' 


369 


Branca. 


Choras,    DuIcí:  ? 

Dulce. 

Basta,   basta,   Jacob,   emfim   venceste. 
De   tao   fiel    rendida   vassallagcni, 
N.io   quero   desprezar   o   sacrifício  ; 
Mas   ouve   a   dura   lei,   se   me   promettes 
Observa-la   com   animo   constante. 

Jacob. 

Pela   luz   dos  teus   olhos   o  prometto. 

Dulce. 

Vj   o   que   dizes  ;    nunca   mais   .'i   casa 
Tornarás   de   Mafalda. 


Jacob. 


Assim   o   juro. 


Dulce,   minha   senhora. 


SCENA  XII. 

GASPAR  PICOTE  e  os   mesmos. 

Picote. 

Boa  tarde, 
Senhora   D.   Dulce :    minha  Branca, 
Boa  tarde,   ou  bons  dias,  pois  já  vejo 
Q.ue  vâo  amanhecendo  nesta  casa 
Os   polidos  costumes  estrangeiros. 
Graças  a  Deos,  que  temos   assembléa. 
Que  já  temos  partida,  que   podemos 
Sem   pejo   conversar,   que   rir  podemos 
Sem  receio  dos  olhos   assustados, 
Com   que   a  senhora  D.  Urraca  altiva, 
Inda   mais   que  ciosa,   pretendia 
Espantar  os   lindissimos  Amores, 
Que  em   torno  do  seu   rosto   andio    vo.^ndo. 

Branca. 

Isto   é   comedia,   Duke  ;   trazem   ambos 
Os   papeis   estudados. 


Dulce. 


Branca. 

Imagina,   senhor   Gaspar   Picote, 

Que   isto  c   casa   de   baile  ?   Ind.i   não   sabe 

Que    pessoas   de   nossa   qualidade.... 

Picote. 

]íi    vejo,   são   lie   pedra,   s.io  de   bronze  : 
E    em    vez   de   alvos,    de   crystallinos   peitos. 
Trazem   arnezes   d'aço   e   diamante. 
Onde   debalde   rompe   Amor  as   setta";. 

Branca. 

Xâo    o  diga   zombando,   pode   crc-lo. 

Picote. 
.Santas    Páscoas  ;   mas   isto   de   partida, 
H    a   feira   da   Gualva,   onde   se   escolhe  : 
Logo   virão   pelouros,   branda    cera. 
Que    com    mui    pouco   lume   se   derrete. 

Dulce. 

Lé   com   Ic,   cré   com   cié. 


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Picote. 

Amor  é  cego, 
E   nunca  soube  ler  genealogias. 
Dize,   Branca,  vira   D.  Mafalda  ? 

Branca. 

Virá,  logo   virá,   perfiJo,   ingrato. 

Dulce. 

Tu  choras,   Branca  í 

Branca. 

Choro,    Dulce,    choro 
O  negro  fado,   a  minha  desventura, 
Q.ue  a  querer  me  forçou  com   tanto  extremo 
Um   perjuro,  traidor,  pérfido,  ingrato. 

Picote. 

Um  perjuro,  traidor,   pérfido,  ingrato, 
Palavras  são  de   Amor,   e  de  quem   ama  ; 
Mas  tâo  grande  senhora,  e   tio  fidalga 
NJo  pode  ter  amor,  amar  nâo  deve, 
Q.ue  desta  vil   p.iixâo  nasceo  izenta. 


E   dois   milhões   de   avós,   que  nâo   fariío, 
Se  sonhassem   que   a   neta   namorada 
Maculava   a   prosápia    generosa, 
Acolhendo   os   suspiros  de  um   amante. 
Que   ao   certo   nâo   se  sabe  se   descende 
De  Abel,  ou  de   Caim.   Mellior  me    fora 
Remar  n'uma   galé  ;   qual   outro   Orestes 
Das   veneráveis   fúrias   avexado 
Me   vira   cm   toda   a    parte   perseguido 
De  finados   heroes,   sombras   illustres. 

Jacob. 

Caro   amigo   Picote,   basta,   basta  ; 
Estes   arrufos  sâo   de   namorados. 
Mas  hoje  não   é   dia,... 

SCENA   XIII. 

JOFRE     e     os    ditos. 


Jofre. 

Meus  senhores 
Meu  Jacob,  meu  Gaspar,  caros  amigos... 
Mas,   pára   carruagem  ;   foi   á   porta.... 


Será   D.   Mafalda...   Com   licença. 

Vou  abaixo  busca-la,   e  dar-lhe  o  braço. 

Picote. 

Perdoa,  minha  Branca. 

Branca. 

Alii  vem  Mafalda, 
E  não  vais   recebê-la  ? 

Picote. 

Uâo,  senhora. 


SCENA  XIV. 

JOFRE,  MAFALDA,   URRACA  e  os  ditos. 

Mafalda. 

Não   pude   vir   mais   cedo,   senhor  Jofre. 
Jofre. 

Quando   a  aurora  apparece,  sempre  c  cedo. 
Eu   aqui    venho  já   co'a  minha  dama. 


Urraca. 

Minha  linda   Mafalda,   quanto   estimo 
Que   venhas  divertir-te  e   divertir-nos. 

Braz. 

O   Doutor   não   virá  ? 

Mafalda. 

Teve   recado 
Para   ir  a  uma   junta,    mas   vem   logo. 

SCENA  XV. 

GIL  FUSTOTE,  LOUREXÇA,   BRAZ 
e   l-LORESTÃO. 


Gil. 

Ora   vejamos   isto  de   assemblca 
Em   que   vem   a   parar. 

Braz. 


Que  te   parece, 


i 
t 

^  Amigo  Gil  Fustote  ?  Nào  te  agrada 

X  Tâo  sincera   alegria  ? 

A  Gil. 

Agrada,   agrada. 

Braz. 

Nâo  ha   maior   prazer  que   a  companhia. 

Gil. 

Té  o   lavar  dos   cestos  é  vindima. 

Braz. 

Lourença  !   FlorestSo  !  Venhâo  cá   todos, 
Tragão  cadeiras,  tragão  cartas,  luzes. 

Lourença. 

Trarei  os  castiçaes,  ou   candieiro  ? 

Braz. 

O   candieiro,  tola.  Velas,  vólas. 

Lourença. 

Sem   castiçaes  ? 


_(?Ç    ,ii    S)   °o 


;;|  _JJ' % 

<1  !> 


4- 

T  Lourença 


Braz. 

Corn   castiçaes.   Q.ue   burra 


Temos   sepulcro.   (Vcíi-se).  ' 

Florestão. 

Cuido  que  c  charola.  {Vai-sc). 

SCENA  XVI. 

V^\7.,  J.\COB,    G.\SPAR    PICOTE,  JOFRK, 

GIL   FUSTOTH,   MAFALDA,   DULCE, 

BRA\CA   e   URRACA. 

Braz, 

Eia,    scnliores,   vamos,   comecemos 

.A   tamosa   partida,   haja   fandango, 

.\legr;a,    briíiquemo";,    alegria  ; 

l"òra   uma   câ   se   l.iuce,   fallem,   fallcm. 

Minhas  senhora,,-;,   dancem,   cantem,  ri.ío; 


£ — 5K^ 


i 


* 


Fora,   fora   daqui   as   ceremonias.  7 

Allons,  sentar,  sentar  sem   precedências,  ,  ^ 

Venha  chá,  venha  doce,   venhâo  cartas,  •• 

Joguem,   e  ralhem,  gritem,  descomponha 

O   parceiro  ao  parceiro,  é  desafogo,  • 

Que  foi  sempre  a  quem  perde  concedido. 

Senhor  Bilhostre,  a  boa  poesia 

Apezar  de   Platão  e  de  seiscentos. 

Que  nunca  o  lerão,  seu   lugar  merece  : 

Venha  mote...  lá  vai,   IA  vai,   ouçamos. 

Jacob. 

Amigo   Braz   Carril,   a   poesia 

Káo  c  'adufe,   gaita,   nem  viola, 

Que  tanja   cada  qual  quando  lhe   agrada  ; 

Logo,   logo  será. 

Picote. 

Ao   cravo,   ao   cravo. 
As   senhoras   cantando   nos   inspirio 
Versos  das  Musas  e  de  Apollo  dignos. 

Jofre. 

A   sc:ihora   Mafalda   principie. 


,ír- 


~~^  '    *-*:^'. 


Já  pezados  nas  azas  os  Amores 
Hstao   co'   a   boca   aberta   para   ouvi-la 
E   os   estrondosos   ventos   enclaustrando 
Eolo   amarra   o   odre,   porque   teme 
Que   tSo  doces   angélicos   accentos 
Varrendo   os   mansos   ares   lhe   desmanchem. 

Mafalda. 

Isso,   com   pouco   mais,   era   um   soneto. 

Dulce. 

E  dos   da   moda. 

Picote. 

O   prologo  é  já   grande. 
Vamos,    que   o  tempo   vòa. 

Braz. 

É  certo,   é   certo; 
Senhores,   attençao  :   fallem  calados. 
Vá,   sente-se,   senhora   Mafaldinha. 
Mas  espere...  a  cantata  de  Dido  ha  de 
Ser  recitada.   Seja  cm   pé.    Ouçamos. 


* 


'i)   Wj 


'^S). 


(^^ 


\ 
t 

Mafalda. 

Inda  mais   essa  ? 

T  Braz. 

^  Faltâo   bastidores; 

Cuidarei  no  tbeatro  pouco   a   pouco. 


Mafalda  (recitando). 


CANTATA 


Já   no   roxo   oriente   branqueando 
As   prenhes   vélas   da  troiana  frota 
Entre   as   vagas   azues  do   mar  dourado 
Sobre  as   azas  dos  ventos  se  escondião. 

A   misérrima   Dido 
Pelos   paços   reaes   vaga  ullulando, 
Cos  turvos   olhos   inda   em   vio   procura 

O  fugitivo  Enéas. 
Só  ermas  ruas,   só  desertas    praças 
A   recente   Carthago  lhe   apresenta  : 
Com   medonho   fragor   na   praia  tiúa 
Fremem   de   noite   as  solitárias    ondas  ; 


^'•^'tí- 


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íE 


J82 

E   nas   douradas   grimpas 

Das   cupolas   soberbas 
Pião   nocturnas   agoureiras   aves. 

Do  marmóreo  sepulcro 

Attonita  imagina 
Q.ue  mil  vezes  ouvio  as  frias  cinzas 
Do  defunto  Sichêo  com  débeis    vozts, 
Suspirando  chamar  :   Elisa,  Elisa. 

D'Orco  aos  tremendos  Numens 

Sacrifícios   prepara  ; 

Mas  vio  esmorecida 
Em  torno  dos  thuricremos  altares 
Negra  escuma  ferver  nas  ricas  taças, 

E  o  derramado  vinho 
Em   pélagos  de  sangue  converter-se. 

Frenética  delira; 

Pallido  o  rosto  lindo. 
A   madeixa  subtil   desentrançada  ; 
Já   com  tremulo  pé  entra  sem  tino 

Mo  ditoso  aposento, 

Onde  do  infido  amante 

Ouvio  enternecida 
Magoados  suspiros,  brandas  queixas. 


383 

AUi  as  cruéis  Parcas   lhe   mostrarão 

As   ilíacas   roupas,   que    pendentes 

Do  thalamo  dourado    descobrião 

O   lustroso   pavèz,   a  teucra   espada. 

Com   a   convulsa   mio   súbito   arranca 

A   lamina   fulgente  da   bainha, 

E   sobre   o   duro   ferro   penetrante 

Arroja   o   tenro   crystallino   peito  : 

1{   em   borbotões   de  espuma    murmurando 

O   quente  sangue   da  ferida  salta  : 

De   roxas   espadanas   rociadas 

Tremem   da  sala   as   dóricas   columnas. 

Três   vezes   tenta    erguer-se. 
Três   vezes   desmaiada  sobre  o   leito 
O   corpo   revolvendo,   ao   eco   levanta 

Os   niacer.idos   olhos. 

Depois   attenta   na  lustrosa   malha 

Do  prófugo   Dardanio, 
Hstas   ultimas   vozes    repetia, 
li   os   lastimosos   lúgubres   acce.itos 
Pelas    áureas    abobadas    voando 
Longo   tempo   depois   gemer  se    ouvir3o  : 


1^ 


^ 


Doces  despojos 
Tão  bem  logrados 
Dos  olhos  meus, 
Hmquanto  os  fados, 
Emquanto   Deos 
O   consentião. 
Da  triste   Dido 
A  alma  acceitai. 
Destes  cuidados 
Me  libertai. 

Dido  infelice 
Assas  viveo  ; 
D'alta   Carthago 
O  muro  ergueo  : 
Agora  núa, 
Já  de   Charonte, 
A   sombra  sua 
Na  barca  feia, 
De  Phlegetonte, 
A  negra  veia 
Surcando  vai. 


■!*- 


•i  -'"  I 


V 

Braz. 

1 

J, 

í 

Bravo  !    bravo  ! 

Dulce. 

Que   viva  ! 

i 
t 

1 

Jacob. 

Bravo  ! 
Branca. 

Urraca. 

líxcellente   cantata  ! 

Picote. 

Bclla,    iiobro  ! 

Jacob. 

A    musica   c   sublime  ! 

Jofre. 

A   poesia 
Não   c   menos   suave,    c   na   verdade 
Pôde   calçar   o   trágico   cothurno. 

Viva  ! 

?..•••  1 


t 

Mafalda . 

^ 

K   do 

senhor 

Bilhostre. 
Branca. 

Viva  ! 

Dulce. 

viva  ! 

É  do 

senhor 

Bilhostre  ? 
Jacob. 

Sim 

Dulce. 

senhora 

Fc-la 

para   .a 

senhora  ? 

Jacob. 

Não, 

Mafalda. 

senhora. 

Nío, 

minha 

Duke. 
Dulce. 

Basta,    j. 

percebo. 

I'. 


é  i> 


3^7 


Braz. 

i 
Seguem-so   versos,   c.iniem   os   poetas 

Com   plectro   de   marfim   em   lyras  de   ouro.         J\ 

Jofre.  . 

l.á   vai. 

Braz. 

Tu   o   piimeiro  ? 

Urraca. 

Tu   poeta  ? 


..(.^'jS*  ®)  '^. 


Jofre   {recitando). 


SONETO 


(C)- 


fi- 


Nâo   menti,   nSo,   se  disse,   qu'  os  Amores 
Estavão   no  ar  suspensos,   esperando 
Q.ue  tua  voz  divina  modulando 
Aplacasse  dos  ventos  os   furores  : 

Ergue,  Mafalda,  os  olhos  vencedores, 
Vê-los-has  por  aqui  andar  voando, 
E  os  retorcidos  arcos  affrouxando 
Lar^        '       teni  as   mãos   os   passadores. 

Nâo  vês  o  fulvo  Tejo  c'  o  tridente 
Os  caval^os  azues-  estar  detendo 
As  levantadas  ondas  reprimindo  ? 

■Se  isto  sente   Mafalda   quem   não  sente, 
Que   nâo  sentirei  eu,   ouvindo  e  vendo 
Tua   angélica  voz,   teu  rosto  lindo  ? 


'  y  -'  4^ 


<i 


Mafalda. 

Bello,  sublime  ! 

Jacob. 

Viva. 

Braz. 

Bravo  I    bravo  ! 

Picote. 
Que   viva  !   senhor  Jofre. 

Jofre. 

Basta  !   basta  ! 
Urraca. 
Tu   poeta,   meu   Jofre  ?   Coitadinho  ! 

Picote. 

K    que   máo   é,   senhora,   ser   poeta  ? 

Urraca. 

De  frenezi   tSo  louco  imaginava 
Q.ue   só  pobres,   viUões,   adoecião  ; 


"^^  39°  ■^4.'^ 


i  ; 

■  ! 

I  E   teus   grandes   avós,   qu'  erâo  illustres,  ! 

'^-  Sabião  de   cavallos,   não  de   livros.  "fl» 

^  Bilhostre.  i 

Seriâo  excellentes   alveitares. 


X 


* 


Dulce. 

Poetas,   nunca   achei  nos   nobiliários. 
Antes  Mouro,    ou  Judeo. 

Branca. 

Dulce,   estás  douda  ? 
Jacob. 
Que   ha   de  ser,   se   eu   compuz  o  recitado  ! 

Braz. 
Victor  sério,   senhores  ;  versos,   versos. 

Dulce. 

Q.aeres  que   todos   só  de   versos   gostem, 
H   perverter   as   leis  da   natureza. 


39' 


Jacob    (recitando). 
E  perverter  as   leis   d.i    natureza 


SONETO 


Se   tuas   longas   aza.;   JcspreganJo 

De   negras   louras    plumas    estofadas 
Atrás   das  leves   horas   apressadas 
O   bom    dia   qu'ispero    vem    voando: 

Como   te   estás,   ó   tempo,   demorando 
Nestas   só  de   desgosto   prolongadas  : 
|á  que   vierão   tio    acceleradas, 
Co'  a    mesma    pressa   deixas   ir   passand.. 

Mas  eu   cuido   que   á   soena   lastimosa 
De    meus    males    te   deixa    suspendido, 
Ou   perdes  só   comigo   a   ligeireza. 

Ah  !   foge   de   tragedia  tâo   pasmosa, 
dv.e   mostrar-te   uma   vez   enternecido 
/;'  pcricrícr  as  leis   ihi   natureza. 


■•-.^0  U 


592 


Viva  ! 


Dulce. 


Picote. 


Bonito  ! 

Braz. 

Deo-me  c'os  pés  n'  alma  ! 

Urraca. 

Nem   o  soneto  os  tem,  nem  tu  Amores. 

Braz. 

O  soneto  tem   pés,  amor  eu  tenho. 


Urraca. 

Insolente,   traidor,  tu  imaginas 

Que  ter  um  velho   amor,  nSo  ó  tontice  ? 


59  5 


Picote   (recilando). 
Que  ler  uni  velho  amor,  não  é  tontice. 


SONETO 


Estavão   as   três   Graças   penteando 
O    cabello  subtil   de  Amor  um   dia, 
Qual   c'  o   iiiarfim   assyrio   lh'os  abria. 
Outras   andâo    mil   gommas   preparando. 

Amor,   como   rapaz,   de   quando   em   quando, 
Co'  a  dourada   cabeça  lhe   fugia  ; 
Poràm   vê   qu' Eufrosina  se  sorria, 
Porque   Aglauro   lhe   está  as   cãs   tirando. 

O   menino   pasmado   vê   no  espelho 

Por  entre   os    anneis   de   ouro   reluzente 
Branquejar   a   saraiva   da   velhice  : 

Suspira,   e  diz  ;   Oh  !   Saiba   a  cega   gente, 
Q.ue   Amor  nascendo   moço   se   faz   velho, 
Que   ter    um    velho    amor,    não   c  tontice. 


"V 

394 


.!^ 


Urraca. 

Senhor  Picote,  viva    muitos  annos  ! 


^  liravo  !   Picote,  viva  !   bom  soneto. 

Branca. 
Viva  !  senhor  Picote.   Ha  de   escrevè-lo. 

Picote. 
Tal   não   farei,   por  certo. 

Braz. 

Eu  também  quero 
Mostrar  o   meu   talento.   Venha   mote. 

Urraca. 

Q.ue  fazes,   Braz,   que   fazes  ? 

Braz. 

Versos,   versos  ; 
Porque  também  levei  palmatoadas, 
Aprendi,  estudei  ;  e  no   meu  tempo 
Soube  mui   bem   svntaxe. 


'»:'' 


Braz.  A 


.'í.' 


SCENA  XVII. 

MUCOXIO   e  os  ditos. 

Mticonio. 

Boas   noite?. 
Criado,    meus   senhores  e  senhoras. 

Jofre. 

Senhor   Doutor   Muconio. 

Muconio. 

Senhor  Jofre. 
Mas  que   vejo  !    senhores.  Fujío  !...   fuj.\o  !... 
Foge  !    Mafalda,   fujío  !   fiijão  todos  ! 

Braz. 

De  que   havemos   fugir  ? 

Dulce. 

Ai    que    eu    desni.iio. 


W1  596,  ,^ 


* 


Branca. 

Que  é  ? 

Urraca. 

Que  será  ! 

Muconio. 

Fujamos  !„, 

Jacob. 

De  quem  ? 

Muconio. 

Fujâo 
Fujâo,  fujâo,  senhores  !  Estão  cegos  ? 
N3o  tem  visto,   nâo  tem  inda   observado 
No  senhor  Jofre  os  tétricos   symptomas 
Da  endémica,  epidemica  estrangeira 
Pestífera   Uthal  enfermidade, 
Que   grassando   em   Lisboa,    insulta,    ataca 
A  pobre,  dcbil   mocidade  estulta? 

Braz. 

É   peste,   meu  Doutor  ?  "* 


\   :^    '•^-   :f;. 

^Í>  397  í^ 


Jacob. 

Está   zombando, 
Senhor    Muconio  ? 

Picote. 

Brar.ca,   ser.á   ópio  ? 

Muconio. 

Não   zombo,   nSo,   senhores,   fallo   serio. 
Ê   um   forte   contigio   de   chicotes, 
De  tranças   e   de   arrochos   no   cachaço, 
De  que  andâo  enfeitados  os   casqui  lhos. 

Jacob. 

Eu  não   disse,   senhores,   que   era   brinco  ? 


'r.- 


y  Muconio.  1" 

,  Sim,    senhor,   peste  ;  y' 

V  E   peste   a   mais   cruel   que   tenho   visto.  T 

Urraca.  ; 

■:;■;  * 

Deos   nos  livre,   Doutor  ! 


'■•■•■"'A   A-V' 

^^:  398  ,l;_5 


'••■^i 


Muconio. 


V  É  bom   brinco,   Bilhostre,  é   mal,   é  peste, 

J^  E   a   plica   polonica  doença,  ,^ 

'  Q,ue  asjira  como  no  Norte,  e   em  vários  climas   ' 

■;'■;  Os  Polacos  e   Sarmatas  transforma  ^ 

Em   medonhos  espectros  e   fantasmas. 

Transforma    cá  no   nosso   continente 

Os   mancebos   gentis   em   bonifrates. 

Braz. 

Q.'je  nova,   que   recôndita  sciencia  ! 
Já   tinha  repara 'o   na   grossura 
Deste  immenso   cHcote  de  meu  filho  ; 
Mas   cuidei   que   era  moda. 

Muconio. 

Boa   moda  ! 

Jofre. 

E   boa  lograçio.   Doutor  Muconio. 

Muconio. 
Que  é  boa  lograçâo  ?   Fujâo  !   fujamos  !... 


•  '  \    .>•      ■ 


399 


Braz. 

•A. 

Espere,   meu    Doutor,   diga   primeiro. 
J\,  I:m   que   pára   eite   mal,   em    que   consiste  ? 

Muconio. 

Consiste   na   disforme,   va.   medonha. 

Espantosa   grossura   dos   cabellos, 

Que  scirrhosos,   talvez   lignificados, 

Se   grudão   e   se  empastão   um   com   outro  : 

Ejta   massa   fatal,    ou   côdea   espessa^ 

A   cutânea   excreç.^o    embaraçando. 

Os   hvimores   estagna   excrementicios, 

Sc   intlatr.ra.to,    se    coagulão    nas    minutas 

Scriferarias    glândulas    represos. 

Jofre. 

Q.ue  se   segue   d'ahi  r 

Muconio. 

O   que   se   segue  ? 
Mais   alta   que   a  coiumiia   tle   Traj.ino, 
Uma    agulha,    ou    pyramide   disforme 
De   esquallidos   cabellos,    sobre   a   testa 


^4  ^°°  kp 


Dos   enfermos   estúpidos    erguida, 

Lhe  carrega  a   moUeira  com  tal   pezo, 


i 


jv  Q.ue  convulsos  os  olhos  retorcidos,  -,• 

A  ^       ,  A 

I  Ou   abertos   em   hórridos   espasmos,  | 

Si  trabalhão,  se  cansão,  se  enfraquecem,  J, 

Donde   veio   o   contagio   das   lunetas. 

Que  tantos  Polyphemos  de  um  só  olho 

Encrespando  o  nariz,   mettem   á  cara. 

Braz. 

Forte  doença  I 

Branca. 

Triste   enfermidade  ! 

Jofre. 

Chiraeras,   petas,   logravões,    mentiras. 

Braz. 

Calte,  insolente  !   Diga,  meu  Muconio. 

Muconio. 

A   disforme   pasmosa  intumcsciencia 
Atacando   estas   glândulas  que  disse. 


Eque   por   lociçfio  são   conglobadas. 
As   conglomera   tanto,    e    tanto    as   iini-', 
due    a   estranha    mole,    túrgida    grandeza 
Nos   inchados   pescoços   apparece, 
Apezar   de   dez    varas   de    gravata, 
Que   amortalha   os   focinhos   espantados. 

Urraca. 

Coitado   do   meu   Jofre  ! 
Braz. 

Eu   b.m    di/ia. 
Vendo   que   não   bastava   meia   peça 
De   cambraia,   de   cassa,   ou    nui>selina 
Para  duas   gravatas.   .Meu   Muconio, 
Falia,   dize-nos   tudo   quanto   sabes. 

Muconio. 

Quanto  sei,   meus  senhores,   s.ào   incríveis 
Deste   tremendo   mal,   deste   contagio 
Os  enormes   e   mágicos   portentos, 
Peiores   que   os   thessalicos   prestígios, 
Com   que   Circe   tornou   os   companheiros 

SI 


k 


Do  sábio   Grego   era   javalis   cerdosos. 
Alevedado  o  túmido  fermento,  A 

Q.ue   as   glândulas,   em&m,   apinhoadas  «jj* 

Em   tamanhas  escrófulas  acabáo,  f 

Q.ue  em  seus  doutos  escritos  nos  attestão 
Banivenio  e  Boneto,  que  cortarão 
Alporcas  de   sessenta,   e  trinta  libras. 

Picote. 

Ópio,   carapetão. 

Braz. 

Bravo  !   Muconio. 

Muconio. 

Leiilo,  senhores,  leiao,  náo  se   riào, 
Ouçio  :   In  momento  lemporis  do   eivferrao 
Incha  o  pescoço  ;  os  tabidos  bracinhos 
Sc  myrrâo  e  se  encolhem,   e  parecem 
De   boneco  de  massa  :   mal   campeio 
As  entanguidas  pernas  marasmadas, 
E  dos  luidos   pés  cascos  vidrentos 


T 

O    tnrso   e    metatarso   edcmatoso 

i  Só   consenti   n.is   unhas   as   fivellas. 

'^  Finalmente,   senhor,   degenerando 

I''  A    massa   dos   humores   pelas   pravas 

Estranhas    qualidades,    que   lhe    adquire 
A   errada    nutriçSo    em    todo    o    corpo  ; 
Os    liorrendos    estragos   se    propagão 
Da  triste,   da   fatal   metamorphose, 
Q.UC   os   enfermos   e   miscros   casquilhos 
Em    peraltas   ridículos   transforma. 

Braz. 

Tem   razão,   tem   razilo,   agora   atino 
N.i   caus.i,   e    na   moléstia,   e   já    me   lembro 
De    vários    manequins   empanturrados, 
Que   passei.to   as   ruas   de   Lisboa 
Pallidos,    paralvticos,    convulsos, 
Q.uasi    sempre    c'os    beiços    ruminando, 
Q.ue    trazem    j.i   safados   de   lan;bc-!os. 

Jofre. 

Tal   não   creia,   senhor,   ó   zombaria. 


404 


"<r-; 


Braz. 

Calte,   tolo,    asneirâo.   Senhor  Muconio, 
Quero  sào  o   rapaz,   ahi  lh'o  entrego, 
E  se  manda  que  faça  qaarentena, 
Ko  telhado  o   porei,   nâo  nos  empeste 
Com  seus  malignos  e  raortaes  vapores. 

Muconio. 

O   mal   ainda   parece   incipiente, 
Remédio   lhe    daremos  ;   mas   primeiro 
Intento   dissecar  este  cabetlo  ; 
K   valente   tortulho,   enorme   trança  !. 

Urraca. 

Meu  Jofre,   tem   constância,   tem   paciência. 

Jofre. 
Senhora,   que   é  mentira. 

Muconio. 

Qual   mentira  ! 
Braz. 
Chiton,  tolo,   chiton. 


Jacob. 

E   cae  no    logro  ! 
Picote. 

Forte   pateta  ;   come   bem    as   petas  ! 
Braz. 

Fiorestâo  !    Florestâo  ! 

Florestão. 

Senhor. 
Braz. 

Depressa, 
Desmancha   esse   rabicho,   essa   serpente. 

Jofre. 

Hei   de   ficar,   senhor,   esgadelhado  ? 

Braz. 

Sim,   senhor,    sim,  senhor.   Senhor   Mucor.io, 
Faça  quanto   quizer,   talhe,   retalhe. 
Purgue,   sangre,   tosquie,   desenrole.... 


Muconio. 


1  ■  •>. 


Y  Olhem   lá,   meus  senhores,  se  me  engano  I  y 

V  Lignificada   a   pútrida  matéria  V 
1  Já  vera   apparecendo.   Vejâo,   vejâo  ] 

~)f.  Que  tassalho  de  pio!...  É  caso  horrendo!  ;^ 

'  Braz. 

Pois  que   vai,   minha   Urraca,   que  me  dizes, 
Em  que  se  torna  o  sangue  de  Azevias  ? 

Urraca. 

Que   posso  responder  ?   Estou  pasmada  ! 

Jacob. 

E   forte  surra  ! 

Picote. 

Lograçâo  completa. 

Muconio. 

Que   tal  c  o  caroço  do  lobinho  ? 
Coitado   do   rapaz  1 


40? 


Braz. 

Deite   isso   fora. 


A  Muconio. 

t 

I  isada,   naja,   senhor,   Jeve   guardar-se, 

Kstes  são   os   cabellos   com   que   s.íra 

De   tâo   damiiado    cilo    a    mordedura. 

Agora   vamos   receitar,   escute  : 

Este    villoso,    esquálido   chumaço 

Scirrhoso,    laparão,    túrgido   edema 

De  tun;entes   cabellos  empastados, 

Crestado,   secco,   estitico,   myrrado, 

Pela   má   rotação   do   sangue   podre, 

E    total   discrazi.-    dos    humores 

Ácidos,   corrosivos,   virulentos. 

Adquire   a  secca   e   tabida   dureza, 

Q.'je   do   secco   cação   a   rija   pelle  ; 

Para   estendê-lo,    para    amacia-lo 

Deve  ungir-se   com   1'alsamo   asinino, 

E   para   o   ver   elástico   e   fle.xivel 

Duas   vezes   ao   dia,   nove  dias, 

Ha   de   baté-Io.   e   muito   bem   sova-lo. 

Com   este   mesmo   arrocho,   taco   ou   toco. 


■o. 


li     .•-■ 


'4  408  ',-^ 


li   remédio  excellente,  é   approvado,  " 

Que   descobri  nos   priscos   cartapacios  JL 

De  Philon,  Serapiâo,   dos  Apollonios.  »*. 

A 


Jacob. 

Nâo  está  mào  o  récipe,   Mucoaio  ! 

Jofre. 
Basta,   basta  de  judiar  comigo. 

Braz. 

Callas-te  ou  queres,   Jofre,   que  te  cure  ? 
Approvo  esse  remédio  ;   mís,   Muconio, 
Onde   acharei   o  bálsamo   asinino  ? 

Muconio. 

A  previdente  madre   natureza 
Não  cria  sem  antídoto  o  veneno. 
No   mesmíssimo  corpo   dos   enfermos. 
Bem  atrás  das  orelhas,  deposita 
Este  forte  elixir  em   ténues  vasos, 
Oa  delgados   folliculos,   que  cheios 
Do  sueco  burrical,  sendo  espremidos. 


409 


Talha,   embota   as   partículas  do   sangue, 
K   o  deixa   circular   sem   embaraço. 

Braz. 

Mas  diga-me,   Doutor,   como  se  espreme  ? 

Muconio. 
Puchar-lhe   muito   bem   pelas   orelhas. 

Picote. 

K   bom   o  tal  remédio  ? 

Braz. 

Quer  que  o   faça  ? 
Jacob. 

Peior,  peior. 

Urraca. 

Coitado   do   meu  Jofre  ! 

Muconio. 

Não,   senhor,   inda   n.lo,   e   depois   disto 
K   preciso   cortar-lhe  aquclla  trunfa, 


Para  a  fauce  messoria  ficar  livre, 

E  a  coronária  região  sem  pezo.  A- 

Desembaraçada,  os  liquiJos  rolantes  »{■• 

Deixará   permear   pelos  seus  vasos  ;  ' 

Banhos,  emborcações  e  cataplasmas,  ^^ 

Além  de  outros  remédios,   facilmente 

A   força  vencerão  destas  medonhas 

Tão  enroscadas  áspides  da  Lybia  ; 

E  se  com  todos  se  pratica  o   mesmo, 

A  florente  Lisboa  vereis  limpa 

De  caraças  ou  frentes   de  Medusa  ; 

Praga,  ou  nuvem   de  estultos  gafanhotos, 

De  tarecos  rabões,   melhor  diria  : 

De  rabudos  bachis,  de  enormes  caudas. 

Braz. 

Estou,   Doutor,  attonito  ;   e  ji  vejo 
Quanto   sabe,   quem   sabe   a   Medicina. 

Muconio. 

Agora  ouçamos  Juas  árias  novas. 


A    -   .  .      . 
411  h.  -^ 


SCENA   XVIII. 

í 
LOURENÇA,   FLORESTÃO   e  os  dito^.  ' 

Lourença. 

Senhor  I  senhor  ! 

Florestão. 

Senhor  ! 

Braz. 

Temos   mais   peste  r 
Florestão. 
Peior,  senhor,   pcior  ! 

Braz. 

Dize,   que   é   isso  ■' 
Lourença. 
Peior,  senhor,   peior  ! 


ST'' 


4" 


Braz. 

É   fogo   em   casa  ? 
Florestão. 
Peior,  peior,  senhor  ! 

Lourença. 

Minha  senhora  ! 
Dulce. 
Morreo  o  papagaio  ?  Dize,  dize  ? 

Florestão. 
Peior,  muito  peior  !   Batera   á  porta. 

Braz. 
Vai  ver  quem  é. 

Florestão. 
Peior  ! 
Braz. 

Vai  ver,  Lourença. 
Lourença. 
Peior,  muito  peior  ! 


Florestão. 

Peior  que  tudo 
Braz. 

Falia....    dize....  quem    é  ? 

Florestão. 

Peior  !  Alcaides, 
Escrivães,   e  diabos   quadrilheiros. 

Urraca. 

Ai  !   mofina  de  mini  ! 

Branca. 

Tremo. 
Dulce. 

Desmaio. 
Bilbostre. 

Ronda  talvez  será. 

Braz. 

A   ronda  ?...   a   ronda  ?... 


-  '  ■*.    >  "■ 


">  Florestão. 

Y  É   o   poder  do   mundo   com   espadas, 

Y  Com   chuços,   alanternas,  até  cuido 

'  Q.ue  trazem   o   carrasco  e  mais   a  forca. 

Bilbostre. 

Que  será  ? 

Picote. 

Que  ha  de  ser  ? 

Bilbostre. 

Commigo  nada. 

Picote. 

Menos  commigo, 

Braz. 

Se  será  commigo  ?... 
Abre-lhe,   Florestão,   abre-lhe  a  porta. 


# 


4  «4  j'^p 


SCENA   XIX. 

A        MEIRIKHO,   ESCRIVÃO,    Q.UADR1LHE1ROS 
e   os   ditos. 


Meirinho. 

Eu,   senhor   Braz   Carril,   venho    mandaJo. 

Escrivão. 

Somos    mandados,    manda-nos    quem    pôde. 

Braz. 

Pois  são  (e  tanto  phariseo)  mui  mal  mandados. 

Meirinho. 

A   parte   requereo  :   fomos   mandados. 

Escrivão. 
K   parte  rija. 

Meirinho. 

Nâo  se  dobra   a   nada. 


4  l6 


Braz. 

Mas,   que  querem  de   mim,    senhor  meirinho  ? 

Meirinho. 

Este   mandado. 

Braz. 

Irra  !   Mais   mandado  ! 
Vem   mandado  o  meirinho,  e  vem   mandado 
O  escrivão,  os  esbirros  vem   mandados, 
G  sobre  isto  ainda  vem   mais  um  mandado  t 

Urraca. 

A   casa  d'um   fidalgo  quadrilheiros  ? 

Meirinho. 

Somos  mandados. 

Escrivão. 

Seja,  ou  náo  Adalgo, 
Qjiem  deve,  paga  ;   porém  eu,  senhora. 
Ao  senhor  Braz   Carril,  bem   o  conheço, 
E  que   fosse  fidalgo   não  sabia  : 
Nomea-lo  por  tal  agora  o  ouço. 


tíJ  [>> 

ii' 


Urraca. 

Y  A    gente   baixa   não   conhece  a   nobre.  "'^ 

i  Escrivão.  'Ç 

K   nobre  ?....   Pôde   ser. 


Urraca. 

Meia    tigella. 
Escrivão. 

Isso   é   louça   quebradiç.i. 

Urraca. 

lí   prata   fina. 
Meirinho. 

Vamos,   vamos,   senhor,   este   mandado, 
Senhor   Carril. 

Braz. 

K   que   mandado   é   esse  ? 
Escrivão. 

Nove   centos   mil   reis,   que   o   senhor   deve 
A    Martinho    Uaimon. 


ffjj  418 


Meirinho. 

É  estrangeiro. 
Braz. 

É   ura   ladrão  laJino  :   bem   conheço. 
O   capataz  de  quantos   berlinguetes 
Nos  vem   aqui  vender  gatos   por  lebres. 
Nabos  eni  saccos  ;   cascavéis,   pandeiros, 
Gaitinhas,   berimbáos,   quinquilharias  ; 
Qae  promptos  a  fiar  tentâo  a  gente, 
E   depois  de  empolgar   rapaces  unhas, 
Fervem  as  citações,  fervem   penhoras. 

Meirinho. 

Isso  nâo  c  do  caso,  esta  sentença.... 

Braz. 
E   como  hei  de  pagar   essa  quantia  ? 
Venhio   cá  outro  dia  ;   hoje   nâo   posso. 

Escrivão. 

Então,   senhor  Carril,   dè-nos  licença. 
♦- 
Braz. 

Licença,   para   que  ? 


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7 

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Escrivão. 

Para   fazermos 
Penhora  no  que   acharmos. 

Meirinho. 

Ou   ir   prezo. 
Urraca. 
Ir   prezo   meu   marido  ? 

Escrivão. 

Não   se   assuste  : 
Talvez,  senhora,  qu'  haja  nesta   c»?a 
O   valor  da  sentença   e   mais   das   custas  ; 
A   nossa   diligencia,   isso   cá   fica. 

Miiconjo. 

O   cravo   é   meu,   custou-nie   o   meu   dinheiro. 

Bilhostre. 
S.io   meus   os   castiçacs,   senhor   C.irrança. 
Picote. 

As    chicaras  siio  minhas  (para  o  e!cri:'ão'),  e  protesto, 
Senhor    André    Garrote,    que   s.io    minhas. 


^ 


Meirinho. 

Nós,  senhores,   fazemos  a  penhora, 
Depois   requererão. 

Muconto. 

Essa  está   boa  ! 

Bilhostre. 

É  forte  chasco  ! 

Picote. 

Adeos,  chicaras,    bulle. 

Fustote. 

Como   te  vai,   amigo,   co'  a   partida  ? 
E   divertida   emfim,   c   uso,   é   moda. 

Braz. 

Té   o   lavar  dos  cestos   é   vindima. 
Meu  querido  Jacob,   Picote  amigo, 
Doutor  Muconio,  amigo,  caro  amigo  : 
Generoso  Fustote,   «Ima  d'um   principe, 
Acudi-me,  livrai-me,   bons   amigos  ; 
E  que  acç2o   mais  illustre,   mais  honrada. 


l  —     l^J  — íe 


Q_v.e   Acudir  um    amigo   a   outro   amigo  ? 

A   amizade   tiel,   e   verdaJeira 

E   dadíiva  do   cio,   e   do   céo  digna, 

E   dos   Inimanos   o   maior  tliesoiiro  ; 

E   fonte  donde   mana   a  lioiira,    a   fama, 

Que  os  míseros   mortaos  transforma  em  deoses 

Prilhaudo    estão   no    eco    Castor   e    Pollux  ; 

E    no   sagrado    templo   da    memoria 

Nizo,    Euryalo,    Pylades,    Orestes. 

Haverá   coração,   haverá   peito 

Tanto   de   áspero   e   rígido   diamante, 

Que   nâo   estale,   ao   menos   se    enterneça, 

Vendo  do   caro   amigo   miserável 

A   consorte   fiel   desamparada. 

Os   innocentes    fillios    sem    abrigo, 

E    nas   mesquinhas   mãos   da   fome   horrenda, 

Da   triste   desnudez   e   da   vergonha 

Expostos   a  desprezos   e   ludíbrios? 

Sois   meus   amigos  ?   Que    fazeis,   amigos  ? 

Gil. 

Es  tu  Tullio,  meu  Rraz?  Eu  não  sou  néscio  : 
Kão   me   quero   perder,    não   tenho   em   casa 


L- 


Partidas,   assembléas  :   bem   me  basta 
O  que  perdi  comtigo,   e  tu  gastaste 
Em   golodices,  secias,   pataratas. 
Q.jera   muito  nâo  tiver,  que   gaste   pouco  : 
Deixe-se  de  partidas,  d'assembléas, 
Brilhar  nSo  queira  á  custa  dos  amigos. 


Que  inhumano  ! 


Dulce. 

Urraca. 

Que   baixo,  vil  ! 
Branca. 


Infame  1 


Dulce. 

Jacob,  caro  Jacob  !   Da  triste   Dulce 
Os  suspiros  e   lagrimas   ardentes, 
A  fé   imraaculada,   amor  sincero, 
Se  alguma  cousa  podem   raerecer-te, 
Nâo   me  deixes   Jacob  ;   e  se   por   minhas. 
Estas  sentidas  vozes   niio  te  movem 


::--«r 


1 

6 


7  Mova-te  o   grande  e  triste  desamparo 

J,  De   uma   casta  donzella,   bem   nascida. 

T  Jacob. 

]  Dulce,   minlia   senliora,    minha  gloria, 

''  Não   le   assustes,   não   chores,   nâo  te   afflijas, 

Quanto  sou,   quanto   valho,   quanto   posso, 

Tudo   ao   teu   descanso   sacrifico. 

Branca. 

Acaso  esperas,   dize,   que  te   peça  ? 

Picote. 
N.lo,   Branca,   n:lo,   senhora  ;   espero... 

Branca. 

Esperas  ? 

Picote. 

Q.ue   me  deixem   fallar.   Senhor   Carranca, 
Vou   buscar   o   dinheiro. 

Muconio. 

Espera,   espera  : 
Amigo   Braz    Carril,   não  sou  de   pedra, 


y 

^•••(y 


? 


7  Nem   sou  tigre,  homem  sou,  os  homens  amo, 

.^  De  ter  humano  coração  me  prezo.  I 

,1^  Descansa,   pagaremos  o  qne  deves  : 

I  Darás   Dulce  a  Jacob,   Branca   a  Picote, 

lofre   case  co'a   rainha   Mafaldinha, 
E   todos  três  o  escote  pagaremos. 

Braz. 

Que  dizes,   D.   Urraca  ? 

Urraca. 

Paciência..,. 
Perdoem   meus   avós,   mas   a  desgraça.... 

Braz. 

Casem,   casem  ;   Muconio,  estais  contente  ? 

Bilhostre. 

Minha  Dulce,   meu  bem  ! 

Dalce. 

Ciro   Bilhostre  \ 


M. 


42S 


>;-^^ 


Picote. 

Brtnca,   minha   esperança,   que   ventura  ! 

Branca. 

Q.ue   ventura,    Gaspar,   meu   doce   emprego  ! 

Lourença. 
H   nós,   meu   Florestâo,   não   nos   casamos  ? 

Florestão. 
K   porque   nâo,   Lourença,   sendo   grátis  'i 

Muconio. 

Senhor  André   G.irrote,   em    minha   casa 
O   espero    d'aqui   a   meia   hora  : 
Para   pagar   maiid.tdo   e   diligencia, 
Tenho   não   sò   dinheiro,   mas   bigodes. 

Braz. 

Q.ue   generoso  exemplo  de  amizade, 

De   nobres   corações,   de   honrados   peitos  ! 

Mas   neste   raro    exemplo   se  nâo   fie 

Quem    se    er:ipe!'a   no    mar   de    dcsperdicios. 


■*•— fc-  Ce — 5f- 


,C"-- 


Guarde-se  da  súbita  procella 
'D'alcaides  e  credores,  que  santelmos 
Nem  em  todos  os  topes  apparecem  ; 
E  Bilhostres,  Muconios  e  Picotes 
São  dífficeis  de  achar.   Batei  as   palmas. 


15 


PARTE  iri 


^^^'^ii*^: 


'«-rA^-íi^-c)*^-^: 


díssertaç(3es. 


DISSERTAÇÃO  PRIMEIRA 

sol  re  o  caracter  da  trugcJia  proj'omio  ser  inalienável 
regra  delia,  ndo  se  dever  ensaitgueníar  o  thea- 
Iro  e  tio  desempenho  de  cujo  dratna  devem  rei- 
nar o  terror  e  a  compaixão,  para  que  assiii; 
com  esta  represenlaçio  se  purguem  os  estec- 
ladores  destas  c  outras  scmelhaníes  paixões  (1). 

Nuc  puoros  coram  impulo  HoJua  tiudjut. 
Il(.u*i.,  Ars.  root.  V.  Ks.-,. 


Nobilíssimos,   sapientissimos     e    amantíssimos 
Senhores, 

Se  assim  como  a  vossa  compaixão  prosegue 
no  desígnio  de  instruir-rac,  pôde  desculpar  os 
meus   erros  a  vossa  indulgência;  perderei   o   medo 


(i)  Recitada  na  conferencia  da  Arcádia  lusi- 
tana  no   dia   26   de   agosto    1757. 

As  composições  que  se  seguem,  diz  Innocen- 
cio,  são  muito  louvadas  por  F.  M.  Trigoso  na 
sua  Memoria  sobre  a  ^ícadia  pela  liberdade  e 
eloquência   de  seu   estylo. 


45 

« 


4i2 


de  fallar  diante  de  vós,  sem  me  ensaiar  no  estudo 
das  mais  solidas  doutrinas.  Mas  quem  me  ha 
de  persuadir,  que  exercendo  funcções  do  meu 
destino,  e  levado  da  honra  de  obedecer-vos,  não 
desperdice  aquelle  tempo,  que  podia  aproveitar 
em  ouvir  as  vossas  lições  ?  Que  systema,  ou 
que  questão  posso  discutir  na  vossa  presença,  sem 
que  vos  enfastie  ouvir  o  que  já  sabeis  ;  ou  talvez 
o  que  refutais  ?  De  que  a  te,  ou  de  que  sciencia 
poderei  combinar  uma  regra  de  que  vós,  melhor 
do  que  eu,  não  conheçais  profundamente  toda  a 
sua  extensão?  Assim  é,  senhores  ;  porém  vós 
quando  me  chamastes  para  membro  desta  socie- 
dade, concebestes  outra  idéa  mais  illustre.  Qui- 
zestes  ser  úteis  á  pátria:  e  um  projecto  tio  ge- 
neroso  não  se   pôde   praticar  sem  com  efifeito  en- 

^  ^'J         sinardes  os  vossos   compatriotas. 

fk"  Affortunado   fui  eu,  se    fui    um    dos  que   pri- 

,-\  meiro  vos  deveo  esta  piedade:  e  seria  ingrato  se 
1A(  olhando  para  vòs,  como  para  mestres,  tivesse  pejo 
W)  de  mostrar  a  minha  insuficiência.  Capacitado  pois 
desta  verdade,  e  não   podendo   resistir  a  tão  for- 


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^D         raosa    reflexão,  discorrerei  em  um  ponto,  que  en- 


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^^ÍL*!:*-. 


433 


tre  toJos   os   da   Poética   foi   sempre  para   mim   o 
mais  difficnltoso. 

Seguindo  a  Demétrio  Phalereo,  ou  a  Neopto- 
lomeo  de  Faros  e  certamente  a  Aristóteles,  esta- 
beleceo  Horácio  a  inalterável  regra  de  que  na 
tragedia  se  não  devia  ensanguentar  o  theatro,  isto 
é,  que  as  feridas,  os  tormentos,  e  as  mortes,  qr.e 
são  inseparáveis  do  caracter  deste  poema,  se  não 
deviáo  expor  á  vista  dos  espectadores  ;  mas  sim 
fia-las  de  uma  facunda  narração,  ainda  que  o 
mesmo  Horácio  parece  que  forneceo  as  armas 
aos  fautores  da  opinião  contraria,  lembrando-lhcs 
que  com  menos  efficacia  persuade  o  que  se  conta, 
do  que  aquillo  de  que  os  olhos  se  informão  per 
si   mesmos  (i). 

Quem    observar    com    circumspecção   as  trage- 
dias antigas,  achará,  que  esta  regra  foi  quasi  sen-  -c  '»s 
pre  religiosamente    guardada.  ,, 

Ainda  entre   os   modernos  ha  poucos  documen-  '^ 

tos   que   possão  contesta-la.  Os  Francezes   a   rece-  w'  '?* 


berão,  a   adoptarão,    c     a    defendem   com   a   pra- 


i 


(i)   HoRAT.,    Voct.,    vers.    i8o.  ^líí  lí> 

55 


(  n  J» 


;*-tô 


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4}4 


tica,  e  com  a  doutrina.  Nós  temos  a  gloria  de 
que  a  nossa  Castro  (i)  seja  um  exemplo  de  que 
nâo  a  ignoramos,  e  de  que  a  seguimos.  Os  In- 
glezes,  iiaçâo  em  que  mais  se  descobre  os  gé- 
nios dos  republicanos  antigos  (2),  e  que  no  orbe 
litterario  fazem  uma  grande  figura  ;  os  Inglezes, 
digo  eu,  são  os  que  menos  respeitarão  esta  lei, 
infringindo-a  reiteradas  vezes  de  que  é  triste  tes- 
temunha o  seu  Catão  e  de  que  talvez  os  fez  gos- 
tar aquelle  ódio,  com  que  sacrificão  á  sua  pre- 
tendida liberdade  uma  testa  coroada. 

É  verdade  que  á  primeira  vista  parece  es- 
tranho que  um  poema,  que  nasceo  nos  braços  d.i 
alegria  e  da  festividade,  exija  de  sua  natureza 
uma  peripécia  sanguinolenta  ;  e  ainda  mais  ex- 
traordinário, que  sendo  do  seu  caracter  as  mor- 
tes, as  feridas,  e  os  tormentos,  hajâo  de  frustar 
^  r[,  aos   olhos  estas   imagens  funestas  e   horrorosas  ; 


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parecendo    que   uma    vez   que   ellas   nâo  sejâo  o 


(i)  Doutor  António   Ferreira. 
^  (j)   Regrs  et  exactos    Tyrannos   densum    humeris 

hibit   aure   vulgus. 


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■  ^  '«r*. 


43S 


principal  obji;;to  da  scena  tragic.i.  penierá  grande 
parte  da  sua   força   e  da   sua   efficacia  este  poema. 

Antes  de  desatar  esta  duvida,  é  preciso  desco- 
brirmos a  razão  por  que  sejão  as  catastrophes  fu- 
nestas essenciaes  da  traged  ia,  lembrando-nos,  de 
que  este  drama,  segundo  a  sua  natureza,  é,  como 
disse  um  grande  liomcm,  o  throno  das  paixões, 
em  que  conforme  Aristóteles,  devem  reinar  o 
terror  e  a  compaixão,  para  que  assim  nos  purgue 
destas  e  outras  semelhantes  (i).  Ora  se  os  es- 
pectadores sahirem  alegres  com  nma  peripécia  af- 
fortunada,  perderão  sem  duvida  toda  a  ternura  e 
semente  de  Constança  (digamo-lo  assim)  que  o 
poeta  lhe-;  tiver  inspirado,  pondo-lhes  em  movi- 
mento o  terror  e  a  compaixão.  Deste  principio 
nasce  a  justiça  cotu  que  são  criticados  aquelles 
m.ios  poetas,  que  ordinariamente  acabão  as  suas 
tragedias  com  uma  catastrophe  ditosa,  e  atro- 
pelando não  só  a  regra,  mas  a  razão,  em  que  ella 
se   funda. 

Ainda   que   seja   esta   a   natureza    da     tragedia, 


(i)    Le    Hossu,  Toem.  Epij.,   T.   II,    p.-ig.    19^. 


■■V»  --     ■»•,-■■>-      .    .  *.~ 


■.Aej^x*~i^ 


4J6 


nio  é  ella  tão  austeramente  rigorosa,  que  baja 
de  expor  aos  olhos  de  todos  o  que  a  humanidade 
nSo  poderia  so£frer  sem  indignação,  e  que  a  po- 
licia pede  que  se  occulce,  ainda  que  se  conte  ; 
com  tanto  que  ella  seja  eficazmente  o  fim  a 
que  se  dirige,  isto  é,  a  mover  o  terror  e  a  com- 
paixão. Para  o  poeta  chegar  a  este  fim  nào  é 
preciso  que  Medéa  diante  do  povo  despedace  os 
filhos  ;  que  Atreo  preparasse  a  nefanda  cèa ;  que 
Progne  se  converta  em  ave,  ou  Cadmo  em  ser- 
pente. Tudo  o  que  assim  se  dispõe  no  theatro  fica 
incrível,  desgosta  os  ouvintes,  e  não  persuade; 
hista  que  eloquente  narração  o  exponha  aos  nos- 
sos ouvidos  com  eloquência,  que  chegue  ao  co- 
ração ;  as  figuras,  as  imagens  (n'uma  palavra), 
a  verdadeira  poesia,  um  estylo  pathetico,  sem 
que  os  olhos  se  perturbem  com  os  espectáculos 
horrorosos. 

Persuadidos  assim  de  que  para  mover  o  ter- 
ror e  a  compaixão,  não  é  preciso  derramar  o  san- 
gue no  theatrOj  fica  menos  difficultoso  o  conhe- 
cimento, e  a  contemplação  desta  doutrina,  pois 
coasegue  assim    a   tragedia    o    purgar-nos  di  se- 


'•^:^ 


Í^^-3-^-- 


melliantes    paixões   pelo   meio  o   mais   suave   e   o 
mais   decoroso. 

Assim  se  mistura  o  útil  com  o  deleitoso  ;  as- 
sim foge  o  poeta  de  fazer  inverosimil  a  sua  ac- 
íão,  ou  de  dever  mais  a  habilidade  dos  actores 
á  disposição  das  scenas  e  tramóias,  do  que  á  boa 
economia  da  fabula  e  enérgica  força  dos  seus 
versos. 

Falta-nos  examinar  se  com  tudo  persuade  mais 
o  que  se  vè,  do  que  aquiUo,  que  se  ouve,  como 
lembra  Horácio,  e  se  a  narração  basta  para  mo- 
ver as  paixões,  quanto  exige  a  natureza  da  tra- 
gedia. É  esta  uma  duvida,  que  certamente  me 
abria   o   campo  para  uma  larga   dissertação,   se   a  J  (i 

angustia   do   tempo,   e  o   respeito  da  Arcádia   não  f^n 

acudissem   á   pobreza  do   meu   discurso.  *A  f* 

Não  saberei     negar    de    que     mais     individual-  ^'  ju 

mente   ficarei   capacitado   do  que   eu   testemunhar  C^i 

com   os   meus  olhos,  do  que   aquillo,  que  simples-  jy 

mente  ouvir  ;   mas   esta   vantagem,   que   seria  pre 


^r'' 


0%  (•'  p 

cisa   para  eu  dispor  de  qualquer   successo   em  um  ^p   ^ 

tribunal,  não  é  necessário  qae  assim  seja  no  thea-  ^   ^ 

Iro;    ainda   que  bem  conheço  que  a  differença,  que  r-p   jj 


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ha  entre  a  poesia  dramática,  e  exageratica,  consiste 
em  que  aquella  obra,  e  esta  conta.  No  theatro  não 
só  escuto  o  que  se  diz,  mas  vejo  o  que  se  faz.  Na 
epopeia  não  vejo   o   qne  se  faz;  ouço  o  que  se  diz. 

Devemos  não  perder  de  vista  o  hm  da  trage- 
dia, para  mover  o  terror  e  a  compaixão.  Se  por 
exemplo  me  propõe  o  poeta  a  desgraça  de  QiJipo, 
consiste  a  força  desta  persuasão  em  mostrar-me 
um  homem,  que  inviolavelmente  commette  um 
parricidio,  matando  a  seu  pai  Laio  ;  um  inces- 
tuoso adultério,  casando  com  sua  mãi  Jocasta  ; 
usurpa  um  reino,  irrita  a  divina  justiça  ;  e  de- 
pois com  teimosa  curiosidade  procura  indagar  a 
origem  de  tantos  males,  até  que  chegando  a  conhe- 
cer-se  réo  dos  mais  abomináveis  delictos,  homi- 
cida de  seu  pai,  incestuoso  com  sua  mãi.  pai  e 
irmão  de  seus  filhos,  desesperado,  com  as  snas 
próprias   mãos  tira   a  si    mesmo   os  olhos. 

Abre-me  a  scena,  mostrando-me  a  mocidade 
de  Thebas  diante  do  altar  prophetico  de  Ismeno: 
o  summo  sacerdote  sacrificando  ;  na  cidade  não 
se  ouvem  senão  prantos  e  suspiros  ;  uma  vio- 
lenta piste  devora   aquelles  miseráveis.  Consulta- 


■<-^''1í(Z^/^' 


439 


se  o  or.iculo,  vem  a  resposta,  descobrem-se  al- 
guns indicies,  exige  o  eco,  que  o  delicio  origi- 
r.al  se  expie  com  a  morte  do  delinquente.  E  em- 
quanto  se  ex.imina  quem  c  o  desgraçado,  quantas 
vezes  me  assusto,  receando  não  seja  aquelle  mesmo 
homem  que  eu  vi,  como  pai  da  pitria,  chorar  com 
os  innoccntes,  jurar-Uie,  que  não  deixará  de  soli- 
citar o  remédio  daquella  calamidade,  ainda  que 
seja  á  custa  da  sua  vida  ;  um  homem,  que  dis- 
solveo  o  enigma  da  Hsphinge  :  finalmente  um  rei 
clemente.  Chega  o  reconhecimento,  vejo  que  este 
mesmo  Oídipo  é  o  culpado.  Quanto  me  compa- 
deço! 

Affirmo-vos,  senhores,  que  nunca  li  esta  trage- 
dia de  Sophocles,  que  não  chorasse,  quando  vejo 
o  miserável  rei  com  os  innoccntes  filhinhos,  ora 
l.izendo  imprecações,  ora  clior.mdo  sobre  elles  la- 
grimas de  sangue,  e  neste  triste  desamparo  deixar 
a  nuillier,  a  casa  e  o  reino  :  ao  mesmo  tempo 
ouço  a  noticia  de  que  Jocasta  se  matou.  Ha  mais 
terror!  Ha  mais  compa'xão!  Eis-aqui  como  a  tra- 
gedia consegue  seu  fim,  sem  me  fazer  inverosímil 
a   sua   f.>bula. 


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440 


Pelo  contrario,  se  eu  visse  este  mesmo  CE4ifo 
metter  os  dedos  pelos  olhos  atè  arranca-los,  ou 
duvidaria  do  mesmo  que  estava  vendo,  ou  a  difi- 
culdade, com  que  o  actor  executasse  este  passo,  me 
provocaria  o  riso.  Por  isso  Horácio  manda,  que 
se  passe  por  detrás  da  scena,  o  que  não  deve  ap- 
parecer  no  theatro.  Aristóteles  diz,  que  isto  è  que 
se  chama  golpes  de  mestre,  porque  é  preciso  que 
a  fabula  seja  composta  de  modo,  que  quem  nâo 
faz  mais  do  que  ouvir  as  coisas  que  succedem, 
ainda,  que  as  veja,  trema  comtudo,  quando  lh'as 
contarem,  e  sinta  o  mesmo  terror,  e  a  mesma 
compaixão,  que  se  não  pôde  deixar  de  sentir, 
-  quando  se  ouve  a  tragedia  de   CEdipo  (i). 

'^\  Ficando  pelo  que  toca  i  razão  relativa  d'esta 

regra,  em  que  provado  assim  o  que  me   atrevi   a 
propor-vos,  devo  examinar  se  a  autoridade  de  Aris- 
^^  (^  toteles,   em   que  se   fundou    Horácio,    padece   no 

ir  0^  texto  alguma  duvida,  ou  se  tem  sido  contestada, 

i,    ^2  E  certo  que   muitos  e   grandes  homens  tem  iii- 

Qfí\ji)  terpretado  mal   as  palavras  do  pbilosopho  tirando 

w^     — 

^  W)  (O  Arist.,  Poet.,   ca,i.    14. 


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d'elUs  a  errada  consequência  de  que  o  theatro 
se  deve  ensanguentar,  para  bem  se  mover  o  ter- 
ror e  a  compaixão.  O  maior  trágico  de  Franç-i 
Mr.  Corneille  no  exame  do  seu  Horácio  diz:  «  se 
é  uma  regra  não  ensanguentar  o  theatro,  nâo  é  cer-  a-Í^ 

tamente  do  tempo  de  Aristóteles,  que  nos  ensina 
que  para  mover  efficazmente  são  precisos  grandes 
desgostos,   feridas   e    mortes   em   espectáculo.    » 

Vários  traductores  d'esta  inestimável  obra, 
quero  dizer,  da  Poética  de  Aristóteles,  traduzem 
o  texto  no  mesmo  sentido  mortes  in  aperto  Jac- 
tam (i)  ;  porém  outros,  a  quem  abona  o  sábio 
Dacier,  mortes  evidentes  e  certas;  pretendendo  que 
debaixo  desta  expressão  geral  comprehenda  Aris- 
tóteles as  duas  espécies  de  mortes  que  succedem 
na  tragedia,  as  que  se  não  vòm,  e  as  que  se  vêm  , 
porque  uma  personagem  pôde  vir   acabar  de  mor-  S^  (^i 

rer   no  theatro,   conuanto    que    nelle    nâo  tenha  ^ 

sido   ferida.  -t  '^ 

tf    * 

Vejamos,  senhores,    se    repetindo-vos  o  texto,  ,.j< 


conforme  a  traducçSo  de  Dacier,  se  coraprehende 


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(i)   Alexandre   P.ie;io   Florentino.  pi 


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melhor  esta  verdade,  ou  se  a  traducçao  franceza 
quadra  melhor  cora  o  seu  contexto  (i).  Além 
destas  duas  partes  da  fabula,  que  pertencem  á  ma- 
téria, ha  também  uma  terceira,  que  eu  chamo 
paixão:  já  se  tem  explicado  o  reconhecimento  e 
a  peripécia.  Chamo  paixão  uma  acçSo,  que  destroe 
alguma  personagem,  ou  que  causa  violentas  dores, 
como  sào  as  mortes  evidentes  e  certas  ;  os  tor- 
mentos, as  feridas,  e  todas  as  outras  cousas  se- 
melhantes (2). 

A  palavra  paixão,  de  que  se  serve  aqui  Aristó- 
teles, não  significa  uma  paixão,  que  se  move  na 
alma  por  este,  ou  aqnelle  respeito  ;  mas  sim  no 
sentido,  em  que  ella  significa  padecimento,  como 
quando  dizemos  (se  é  que  se  pôde  explicar  uma 
cousa  profana  com  os  mysterios  da  nossa  reli- 
gião) a  'Paixão  de  Chrislo.  Nesta  significação  se 
entende  este  termo:  e  para  que  esta  paixão  se 
ache  em  uma  tragedia,  não  é  preciso  que  as  fe- 
ridas, as  mortes,   e   os  tormentos  se  exponhão  no 


(i)  Dacier  traducçâo  de  Arist.,  cap.  XI,  not.  14. 
(2)  Arist.,  Poet.,  cap.   XI. 


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tlieatro  ;  bast.i  que  o  auditório  fique  certo  que 
esta,  ou  aqiiella  personagem,  vai  padecer  infal- 
livelmente  aquella  morte,  aquelle  tormento,  e  que 
depois  com  energia  e  com  facúndia  outra  perso- 
nagem lhe  conte  este  lastimoso  caso,  ajudando-o 
a  compadecer-se  com  as  reflexões,  lamentações,  e, 
se  preciso  é,  com  as  lagrimas,  como  diz  Horácio: 
Que  se  o  poeta  quiser  que  chore  o  espectador,  lia  de 
elle  chorar  primeiro. 

Aqui  me  lembra  advertir,  que  esta  paixão  é  tanto 
do  caracter  da  tragedia,  que  pôde  haver  fabula 
simples,  isto  sem  peripécia,  ou  reconhecimento, 
como  é  o  c/^/a.v  de  Sophocles,  a  Hcctiha  de  Kuripi- 
des :  mas  lulo  pnde  haver  nenhuma  sem  paixão, 
pois  sem  ella,  como  já  vimos,  é  impossível  mover 
o  terror  e  a  compaixão,  que  o  o  fim  da  tragedia. 

Daqui  se  infere  ir.contestavelmente,  que  o  pliilo- 
sopho  estabelece  esta  regra.  Nãoé  verosimil  que  um 
homem,  que  apoiou  toda  a  sua  doutrina  na  pra- 
tica dos  antigos,  concebesse  a  idéa  de  fundar  um 
systema  que  lhe  é  contrario   (i).   O   mesmo  ^ja\ 


(i)   Hedelin   in    Praxi   Theatrica. 


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de  Sopbocles,  cora  que  os  fautores  da  opinião  con- 
traria se  tem  allucinado,  não  se  mata  no  thea- 
tro,  como  elles  pretendem ;  mas  bem  se  percebe 
que  esta  fatalidade  se  passa  em  um  bosque  vizi- 
nho :  assim  se  escutão  os  clamores  de  Agamem- 
non(i);assim  se  ouve  gritar  Clytemnestra,  quando 
é  ferida  por  Orestes  (i);  e  os  mais  exemplos,  que 
vós  sabeis,  e  que  eu  julgo  supérfluo  repetir. 

Finalmente,  senhores,  nâo  deixaria  de  ser  cul- 
pável a  rainha  aífoiteza,  se  eu  me  atrevesse  a  dis- 
cutir mais  uma  matéria,  em  que  devia  só  cônsul- 
tar-vos.  Basta  que  eu  mostre  o  desejo  que  tenho 
de  instruir-rae,  e  que  vos  proteste  sinceramente 
que  não  me  dedico  aos  trabalhos  académicos,  com 
outra  esperança  mais,  do  que  com  a  idéa  que  tenho 
concebido,  de  que  correndo  por  vossa  conta  a  di- 
recção dos  meus  estudos,  algum  dia  saberei  imitar- 
vos;  e  que  então  poderei  sem  pejo  faltar  na  vossa 
presença,  e  concorrer  para  a  utilidade  publica, 
para   o   credito  do  reino  e  para  gloria  da  Arcádia. 


(i)  Agamen.  de   Eschil. 
(2)   Sophoc. 


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DISSERTAÇÃO  SEGUNDA  ^ 

iohrc  o  viesiiio  caracter  da  IragcJia  e  utilidades 
resultantes  na  sua  perfeita  composição  (\). 


iiimum  auditoris  ajunto, 
r.,  Ars.  Poot.,  yers.  100. 


Nobilíssimos,   sapientissimos  e   amantissiinos 
Senhores, 


i 


Como   estou  seriamente   persuadido  de  que   vós  /ia 

nSo  sõ  soffreis,  mas  em  certo  modo  approvais  o 
meu  trabalho  com  o  projecto,  certamente,  de  pro- 
movè-lo,  e  de  adiantar-me  assim  em  matérias  de 
litteratur.i  ;  torno  a  fallar  na  vossa  presença  ; 
torno  a   mostrar   quinto   necessito   das   vossas   li- 


(i)   Recitada  na   Conferencia   da   Arcádia   lusi- 
tana  no   dia    30   de   setembro  di    1757. 


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ções  ;  torno  a  implorar  a  vossa  indulgência  (i). 
E  já  que  no  congresso  passado  tratei  a  regra,  que 
serve  de  limite  á  força  com  que  a  tragedia  move 
nos  nossos  ânimos  o  terror  e  compaixão,  sem  lar- 
gar de  mâo  o  prumo,  procurarei  sondar  este  ma- 
ravilhoso pélago,  mostrando  quanto  é  necessário 
que  a  tragedia  mova  as  paixões  para  conseguir  o 
fim  a  que  se  dirige:  qual  é  este  fim,  e  se  elle 
de  sua  natureza  é  capaz  de  concorrer  para  a  boa 
policia  de  uma  republica. 

Horácio  conhecendo  profundamente  a  razão,  a 
força,  e  os  admiráveis  effeitos  deste  activo  fil- 
tro da  poesia,  propõe  na  sua  Poética  a  regra  nSo 
só  para  a  tragedia,  mas  para  todos  os  poemas  ; 
advertiiido-nos  que  não  basta  que  elles  sejão  ador- 
nados de  bellezas,  mas  que  é  preciso   também  que 


4C 

.  r 'í  •         o   poeta   mova  nos  corações  dos  ouvintes  as  pai- 


xões   que  lhe   parecer,  ou   que  exigir   a   naturez  i 
.<((         da   sua  composição. 


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jj  ' -j  (1)   Ille  per  exientum  fanem  mihi  posse  videi ur 

M      7  Ire  poeta  ;  meum  qui  pectus  inanitcr  angit 

"  Irritai,   mulcet  fahis  terrorihus   impUt 

•^  _2^  OiCagnus  til  et  modo  me  Thcbis,  modo  ponit  Ather.is. 


Este  mesmo  grande  critico  escrevendo  a  Augus- 
to, lhe  dizia  :  <c  Q.ue  para  elle  sò  era  bom  poeta 
o  que  possuindo  bem  a  difficil  arte  de  mover  as 
paixões  lhe  commovia  o  coração  com  poéticos 
fingimentos;     ora    irritando-o,     ora     aplacando-o,  ^'-ía. 

e  finalmente  enchendo-lhe  o  peito  de  terror,  e  de 
espanto  :  bem  como  um  magico,  que  o  transpor- 
tasse uma  vez   a   Thebas,   outra   a   Athenas.  » 

Para    conhecermos   nós   quanto   esta   regra   não 
só   é   relativa   á   tragedia,   mas   que   incontestavel- 
mente quadra  com  a  sua  natureza,    e   é   como  alma 
de    todas   as   suas   forças,   será   preciso   trazermos 
.í  memoria   a  definição   deste   poema   (i).  «  A  tra- 
gedia  é   pois   a   imitação  de  uma   acção  grave,  in-  ^  i 
teira,  e  que  tem   uma  justa   grandeza,  cujo  estylo  ^v 
c  agradavelmente  temperado  ;  mas  difTerentemente          À' •/ 
em   todas   as   suas  partes;   e   que   sem   o   soccorro         ^  í? 
da   narração  pelo  meio  do  terror  e  da  compaixão,          V; 
acaba  de   purgar  em   nós   este   género  de  paixões,          ^      ll 
e  todas   as   outras   semelhantes   (2).   »                               w''''^ 


(1)  Arist.,   Poet.,  cap.    6,   pag.  mihi    72. 

(2)  BoiLEAU,   Poel.,   Cant.    5.  ti 


'   ^-'^■^. 


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448 


É  preciso  que  a  tragedia  mova  as  paixões,  e 
nisto  se  conforma  com  os  mais  poemas.  Deve 
especialmente  mover  o  terror,  e  a  compaixão  aqui 
se  affasta  delles,  e  deve  purgar-nos  destas,  e  de 
outras  paixões  semelhantes  :  assim  os  excede;  as- 
sim fica  útil;   assim  è  maravilhosa  (i). 

Quanto  é  preciso  para  mover  as  paixões,  ó 
escusado  que  o  examine,  pois  julgo  que  qualquer 
de  vós  trará  continnamente  nas  mios  as  melho- 
res Poéticas,  as  Rhetoricas  de  Aristóteles,  de  Lon- 
gino,  de  Demétrio  Phalereo,  de  Cicero,  e  de  Quin- 
tiliano, alem  dos  modernos,  que  excellentemente 
tem  tratado  esta  matéria.  Agora  bastará  que  veja- 
mos qual  é  o  melhor  caminho  de  mover  o  terror 
e  a  compaixão. 

É  certo  que  estas  duas  paixões  nascem  da  sor- 
preza  (2).  E  isto  é  a  admiraçio  que  nos  causa 
um  successo  inesperado,  que  quando  menos  o  cui- 
damos, então  nos  assasta  e  nos  arrebata.  Esta  é  a 


4  Ao 
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^^ 

\  ^  qualidade  de  tudo  qnanto  é  sublime  e  admirável  ; 

s    

^  41  (O  Le  Bossu,  Trait.  du  Põem.  Epiq.,  chap.   9. 

i  w3  (zS  AmsT.,  í>o</.,  9. 


x-^r-^iríí'^'^* 


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pois  no  que  assim  vemos  succeJer,  achamos  sem- 
pre um  caracter  maior  do  que  nas  revoluções  que 
vem,  quando  nós  as  esperamos  (i).  Se  um  ho- 
mem nunca  tivesse  visto  a  luz  do  dia,  que  esp.uito 
lhe  não  causaria  ver  sahir  do  horizonte  um  globo 
luminoso,  que  estendendo  os  seus  raios  pela  super- 
fície da  terra,  cobria  tudo  de  cores  e  de  clari- 
dade? Mas  para  que  a  sorpreza  cause  este  bom 
effeito  na  tragedia,  é  preciso  que  as  causas  nas- 
ção  umas  das  outras  contra  a  nossa  esperança  (2)  : 
não  basta  que  os  incidentes  sejâo  puramente  for- 
tuitos (3)  ;  mas  é  preciso  que  o  poeta  com  boa  eco- 
nomia disponha  de  tal  forma  a  sua  fabula,  que  os 
episódios,   ou   os  incidentes,  nascendo  uns  dos  ou-  .T 

tros,   conduzâo   a   pessoa    fatal    do    drama   ao   re-  , 

conhecimento;  que  deste  reconhecimento  nasça  a 
peripécia  ;  que  a  peripécia  mostre  a  protogneste 
em  uma  catastrophe  desditosa,  contra  o  que  pro- 
mettião   as   circumstancias,   e   ideava   a   esperança 


M 


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(i)   Arist.,   Poel.,   9. 

(2)    Ibi. 

(5)   Pacier,   Not.,    26.  -^ 

57  1 


•  ^-tSTG  a  i»  "  ff.--» 


4$o 


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dos  espectadores  :  então  é  infallivel  a  compaixão, 
e  também  é  natural  o  terror  ;  então  me  compa- 
deço; então  me  assusto;  então  me  transporto  fora 
de  mim   mesmo. 

Aqui  vemos  que  o  maior  segredo  deste  me- 
thodo  de  mover  as  paixões,  consiste  na  sorpreza, 
que  nos  causa  um  successo  tirado  dos  incidentes 
nascidos  uns  dos  outros,  e  que  nos  permettiâo  o 
contrario.  E  porque  esta  circumstancia  falta  nos 
casos  puramente  fortuitos,  por  isso  a  sorpreza, 
que  procede  delles,  não  chega  a  mover  em  nós 
estas  paixões  com  a  actividade  que  pede  a  na- 
tureza da  tragedia,  falta-lhe  a  qualidade  de  ma- 
ravilhosos. 

Com  effeito  nada  tem  disso  um  naufrágio,  a 
cahida  de  uma  casa  e  outros  desastres  semelhan- 
tes :  é  verdade  que  então  nos  compadecemos,  mas 
nesta  compaixão  não  tomamos  maior  parte  do  que 
aquella,  a  que  simplesmente  nos  obriga  a  humani- 
d.ide  (i).  Mas  nos  incidentes  que  nascem  uns  dos 
outros,  a  idéa  do  espectador  movida,  e  cheia  do 


(i)   Dacier,  Not.,  27,  A  Toet.  de  Arist.,  cap.  9. 


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objecto,  vè  juntamente  a  causa  e  fim  d'  aquelle 
horroroso  successo  ;  e  desta  duplicada  vista  se- 
guem iiifallivelmeiite  a  sorpreza  e  as  paixões  :  e  por 
isso  ha  tanto  de  maravilhoso  na  Sagrada  Escrip- 
tura,  onde  sào  tSo  frequentes  os  successos  extra- 
ordinários produzidos  sempre  de  incidentes,  que 
nascem  uns  dos  outros  contra  a  expectação  dos 
leitores. 

Para  o  poeta  conseguir  o  efFeito  que  se  propoz 
pelo  meio  do  movimento  das  paixões,  deve  ter 
diante  dos  olhos  duas  cousas  ( i )  :  uma  é  o  meio  de 
as  fazer  receber  dos  seus  ouvintes,  ou  leitores  , 
e  outra  é  fazer-lhes  effectivamente  sentir.  Em- 
quanto  ú  primeira,  ò  preciso  que  disponha  os  âni- 
mos p.ira  lhes  embutir  as  paixões;  emquanto  \ 
segunda,  deve  não  misturar  paixões  incompatí- 
veis (2).  Com  eíTeito  para  transportarmos  uma  :r*»" 
cousa,  é  preciso  primeiro  tira-la  de  onde  estava  .^  '  J 
para   a   levarmos   para   onde  a  queremos   põr :   «s-  ■  '« 


^* 


(i)Le  Rossu,    Trait.    da    Poevi.    Epiq.,    cap 
pas^e    261. 

(2)   Idem,   ibi.  ""0 


»      »í_ 


"^     -ti 


45* 


sim  devemos  com  tal  progresso  conduzir  os  in- 
cidentes da  tragedia,  que  pouco  a  pouco  vâo  cres- 
cendo os  embaraços  ;  e  quando  o  espectador  está 
ji  como  abalado,  esperando  algum  grande  suc- 
cesso,  então  é  que  o  poeta  se  deve  aproveitar 
desse  instante  para  soltar  os  diques  do  terror  e 
da   compaixão. 

Por  estar  fora  desta  regra,  critica  o  Padre  Le 
Bossu  o  Ajax  das  Melamorphoses,  pois  Ovidio  fa- 
zendo comparecer  este  capitão  na  presença  de  uns 
juizes,  que  estavão  em  perfeita  tranquillidade,  prin- 
cipia o  requerimento  pelas  figuras  as  mais  vio- 
lentas, e  as  mais  patheticas  (i).  O  que  em  lugar 
de  inclinar  os  ânimos  ao  partido  que  pretendia 
Ajax,  o  dá  a  conhecer  por  um  homem  colérico, 
^ /»  desarrazoado,  e  que  está  fora  de  si  mesmo;  carac- 
'  •»'  '        ter  certamente  mais   próprio  para  ser  aborrecido. 


^^ 


do  que  para  persuadir. 


^,  ^  Ainda  que  esta  doutrina  seja  mais  própria  para 

^       _        a  epopeia,   e  outros  poemas,   no  que  toca  á  pri- 


meira parte,   comtudo  eu  me   lembrei  delia,   para 


CA 
»  ft  (O   L^  Bossu   já  citado. 


^'tT--^ 


que  advertíssemos,  que  ainda  que  a  sorpreza  é  a 
origem  do  maravilhoso,  e  que  é  da  natureza  da 
tr.igedi.i,  nJo  devemos  comtudo  dispor  uma  con- 
textura de  incidentes  falsissimos,  e  da  repente, 
sem  que,  nem  para  que,  amontoarmos  incidentes 
lastimosos  e  funestos  (i) ;  mas  que  devemos  tira- 
los  uns  dos  outros,  com  tal  graduação  que  in- 
sensivelmente se  vâo  dispondo  os  ânimos  dos  ou- 
vintes para  receber  aquillo  mesmo  que  nâo  accei- 
t.irâo,  se  dependesse  de  seu  arbitrio  a  sorte  do 
protagonista. 

Em  quanto  á  segunda  parte,  todos  sabem  que 
o  amor,  e  o  ódio  não  podem  estar  juntos,  e  que 
assim  mesmo  seria  impossível  que  a  reinarem  em 
uma  dama  diversas  e  incompatíveis   paixões,  além 

de  cahirmos  na  Polymithia,   ou   perdermos   a   uni-  ÍA  rZ, 

■  c "»  ■ 
d.ide   da   acção,  seria  difficultoso   que   uma  paixão  '  'jw 


repugnasse   ao   effeito    da    outra,   e   que   por  este 


(i)    BoiLEAU,   PoeL,    Cant.   3. 


l> 


modo  se  nos  não   fizesse  impraticável   o   mover  os  Ô     - 

ânimos.  V 

Alguns  espíritos  fracos   não   sendo   senhores   de  '  »   O 


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454 


uma  fértil  imaginaçio,  tem  cabido  em  outto  de- 
feito mais  ridículo  e  mais  estranho ;  quero  dizer, 
procurão  mover  o  terror  e  a  compaixão  pelo  meio 
das  tramóias  e  decorações,  ou  de  incidentes  mon- 
struosos ;  por  isso  diz  Aristóteles,  que  nascer  o 
terror  e  a  compaixão  da  contextura  dos  inciden- 
tes é  o  melhor,  e  que  a  isto  é  que  se  chama 
golpe  de  mestre  (i).  Eschylo  cahio  naquelle  de- 
feito nas  suas  Eumenides,  nâo  excitando  o  terror 
e  a  compaixão  mais  do  que  com  o  espectáculo. 
Todos  sabem  a  historia  do  seu  terrivel  coro  das 
fúrias,  e  os  nocivos  effcitos  que  produzio  no  se.i 
auditório.  H  notável  o  parallelo  que  faz  Uacicr 
deste  drama  com  o  (Édipo  de  Sophocles.  Quandi> 
nòs  (diz  elle)  lemos  hoje  as  Eumenidrs  de  Eschy/o 
^  ' A  não   nos  sentimos   muito    peneirados ;  porque  o  que 

•■  "» •  havia  de  terrivel    neste    dram/i,  nascia  da  decora- 

'  '    Ô  f""  •   """^  quando   lemos  o  CEdipo,  não  podemos  dei- 

ff,  . 

J-»  -.^  xar  de  tremer,  e  de  sentir  os  mesmos  movimentos  de 

^ /'*--'  tfrror  e  de  compaixão,   que  sentião  aquelles,   que  a 

*^.  ,  vião  representar   no  theatro. 

*   « 


s: 


(i)  AmsT.,  Poel.,  cap.    1 1,   pag.   mihi   211. 


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455 


Desprezando  estas  reflexões,  e  estas  solidas  dou- 
trinas, tinha  o  máo  gosto  adoptado  o  peior  sys- 
tema  :  dragões,  mágicos,  navios,  incêndios,  bata- 
lha?, naufrágios,  cárceres,  patíbulos,  demónios  e 
espectros,   erSo   os  milagres   do   theatro.   Ha   bem  Qj^ 

pouco  que  uma  corte  polida  fazia  as  suas  delicias 
de  semelhantes  espectáculos.  E  Metastasio,  não  ob- 
stante alguns  destes  defeitos,  teria,  se  quizesse, 
uma  estatua  no  Capitólio.  E  para  sentir,  que  um 
homem  como  este,  excellente  poeta,  tenha  innu- 
meraveis  vezes  infringido  as  mais  irrefragaveis  leis 
da  tragedia. 

Outro  defeito  ha,  que  não  6  menos  impio  : 
com    effeito,    n.ão   só  n.ão   move,   mas  ó   ridículo.  \ 

Deste  género  sSo  as  transformações,  as  serpen- 
tes, e  outras  puerilidades  semelhantes,  de  que  deve 
abster-se  um  bom  poeta,  c  de  que  nJo  pôde  gos- 
tar   um    discreto  espectador. 

Também  devemos  notar,  que  para  mover  o  ter- 
ror e  a  compaixão  não  c  conveniente,  como 
entenderão  muitos,  escolher  para  assumpto  das 
tragedias   os   niartyrios,    quero    dizer,    os    marty- 


rcs    nâo   devem    ser    heróes    de    semelhantes   poe-  ^ 

,  P 

•  -<»  «  ' -.A  *  \:- 1}  >  -. 


456 


mas  (i).  Aristóteles  diz,  que  a  pessoa  fatal  da  tra- 
gedia nâo  deve  ser  nem  um  homem  muito  máo,  nem 
muito  bom  ;  porque  se  virmos  padecer  um  grande 
infortúnio  a  um  homem  muito  bom,  este  espectá- 
culo mais  nos  moverá  á  indignação  do  que  á  ter- 
ror e  á  piedade,  e  se  fôr  um  homem  muito  máo, 
isto  é,  um  Ímpio,  um  facinoroso,  também  a  sua 
desgraça  nSo  fará  em  nós  este  efFeito,  pois  c  certo 
que  o  terror  e  a  compaixão  são  paixões  que  nas- 
cem promptamente  das  desgraças  dos  nossos  se- 
melhantes. Logo  quem  se  ha  de  compadecer,  ou 
atemorizar  de  ver  em  um  patibulo  un  famoso  mal- 
feitor, uma  peste   da  republica  ? 

O  amor  próprio  é  base  de  todas  as  paixões,  e 
por  isso  o  martyrio  do  homem  santo,  e  que  nos 
é  superior  em  virtudes,  causa-nos  horror,  mas 
nunca  compaixão,  ou  piedade;  pois  o  horror  as 
affugenta  nestes  casos  tâo  fortemente,  que  ou  ficâo 
supitas,  ou  desapparecem.  Corneille  é  de  opi- 
nião contraria,  talvez  por  ter  dado  ao  publico  o 
scu  Polyc-icto  antes  de  ter  lido  Aristóteles  apoiado 


(i)  Arist.,    'Poet.,  cap.    13. 


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457 


em  Menturno,  que  na  sua  Poética  decide  que  a 
Paixão  de  Nosso  Senhor  Jesus  Christo  pôde  ser 
matéria   de    tragedia. 

Tudo  isto  é  necessário  para  que  a  tragedia 
chegue  ao  desejado  fim  a  que  se  dirige,  isto  para 
que  consiga  o  purgar  em  nós  o  terror  e  a  com- 
paixão, e  todas  as  outras  semelhantes  paixões. 
Platão,  que  lhe  não  attribuio  tão  útil  efficacia,  a 
banio  da  sua  republica  ;  e  muitos  pretendem  que 
este  effeito  não  seja  mais  do  que  uma  chimera, 
trabalhando  por  mostrar,  que  a  tragedia  em  vez 
de  purgar-nos  das  paixões,  as  suscita,  e  as  pro- 
move. Porem  estas  accusações,  como  são  fundadas 
em  sOphisma,  não  podem  vencer  a  força  da  ra- 
zão,  e  da   verdade. 

É  certo  que  á  primeira  vista  parece  impos- 
sível que  a  tragedia  haja  de  purgar-nos  das  pai- 
xões, que  ella  mesma  influe  nos  nossos  corações; 
mas  em  reparando  em  Dacier,  como  se  deve  en- 
tender este  termo  de  purgar  as  paixões,  conhece- 
remos  a   razão. 

Os  Académicos,  e  os  Estóicos  dizem  :  Lançar 
fora  as  paixões  ;  desarreiga-las  da  alma;  isto  é  su- 
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4S8 


perior  às  forças  da  tragedia  ;  isío  não  fa^  ella.  Mas 
os  Peripateticos  persuadidos  que  o  excesso  das  pai- 
xões é  qae  as  faz  viciosas,  e  que  sendo  reguladas, 
são  nteis,  e  ainda  necessárias,  entendem  por  pur- 
gar as  paixões,   reduzi-las  a  uma  justa  moderação. 

Eis-aqai  o  fim  da  tragedia,  eis-aqui  o  que  ella 
é  capaz   de  fazer  ;  e  não  é   pouco. 

A  tragedia  move  em  nós  o  terror  e  a  compai- 
xão, expondo-nos  no  theatro  as  desgraças  dos  nos- 
sos semelhantes  ,  desgraças,  qae  merecerão  por 
culpas  involuntárias.  Assim  nos  familiariza  com 
estes  infortúnios  ;  assim  nos  ensina  não  temò-los, 
ou  tolera-los  com  paciência,  e  com  constância. 
O  imperador  Marco  Aurélio  é  da  opinião  de 
Aristóteles  ;  diz  :  «  Que  as  tragedias  forío  pri- 
meiro  introduzidas    para    fazer  lembrar    aos    bo- 


lhes advertir,  que   devem    necessariamente  succe- 


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.f  ^  .  raens  dos  accidentes  que  succedem  na  vida  ;   para 

^    ^  der  ;  e   para   lhes  ensinar  que   as   mesmas  cousas, 

/'  O  Í>í6  os  divertem  na  scena,  lhes  não  devem  parecer 

i^  fl  insupportaveis   no  theatro  do  mnndo  »  (i). 

ilj  ( i)    Marc.   Aur.    art.   6.  n.   livr.   das    TJe/e.v. 


*á 


459 


NSo  só  a  tragedia  purga,  como  temos  visto, 
o  terror  e  a  compaixão,  também  modera  todas  as 
outras  paixões  :  obriga-nos  a  que  examinemos  a 
causa  das  desgraças  que  nos  representa  :  e  conhe- 
cendo nós  qual  foi  a  paixão,  que,  por  exemplo, 
precipitou  CEdipo  em  semelliantes  desesperações, 
c  impossível  que  não  cuidemos  muito  em  nos 
abstermos  de  uma  temerária  e  cega  curiosidade, 
pois  unia  vez  que  se  leia  aquelle  excellente  dra- 
ma, facilmente  se  conhece,  que  estas  duas  pai- 
xões, mais  do  que  o  incesto  e  do  que  o  parrici- 
dio,  forão  a  causa  da  desgraça  de  Uí.iipo.  Desta 
sorte  ó  que  uma  fabula  trágica,  com  o  disfarce 
das  allegorias,  nos  imprime  na  alma  as  proveito- 
sas máximas  da  Ethica  ,  assim  nos  forma  para  a 
sociedade;  assim  nos  dispõe  para  a  virtude  ;  assim 
nos  ensina  a  obrarmos  grandes  acções  ;  a  ser  útil 
.1  pátria,  e  á  republica.  Os  heróes  de  Athenas,  de 
Thebas  e  de  Koma  talvez  que  sejio  discípulos  da 
tragedia. 

E  com  efieito  que  frutos  não  colheria  uma 
republica,  se  nos  theatros  se  ensinassem  as  vir- 
tudes, e  as  grandes  acções?   Bem  sei  que  na  nossa 


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460 


religião  ha  melhores   cadeiras  e  escolas  da  Ethica. 
Os  pregadores  evangélicos   incontestavelmente  fa- 
rão sempre  melhor  progresso ;   mas  a  depravação 
"•^r  dos    costumes   e  dos  caprichos  dos  homens,  obsta 

não  poucas  vezes  a  este  santo   projecto. 

Um  homem  da  corte  raras  vezes  vai  ouvir  os 
pregadores,  sem  a  prevenção  de  que  elles  háo  de 
censurar-lhe  o  seu  procedimento;  e  este  pejo  com 
que  olhão  para  elles,  como  para  seus  inimigos, 
ou  ao  menos  como  para  juizes  severos,  embaraça 
notavelmente  a  persuasão. 

Aos    theatros    concorre  todo  o  mundo  com   a 

idéa  de  que  só  vai  divertir-se,  e  recrear-se.   H  se 

*i  il  °   poeta  tem  a  feliz   arte  de  obrigar  a  que  os  es- 

fm  f^  pectadores  se  transportem   com   o   movimento  das 

^ />  paixões,  e   neste  transporte  lhes  inspira  uma  ma- 

,  ^'  xima  de  boa  Ethica,  o  triumpho  é  infallivel.   As- 

^-_   y'         sim    para   um    menino  enfermo   beber  o  remédio 

«^   "         se  lhe  costuma    banhar   com  o   mel   a  circumfe- 

^  rcncia  do  copo.  Os  bons    generaes  usão    muitas 


^    n: 


vezes  de  estratagemas.  Não  quero  dizer  nisto,  que 
_.  se  levantem  theatros  e  que  se  desamparem  os  pul- 

^-   ^         pitos  :  hajâo  umas,    e    outras    aulas.   Dev.i-se    a 


461 


todas  a  boa  educação  da  mocidade;  a  reforma 
dos  costumes  ;  as  máximas  da  virtude  ;  o  aborre- 
cimento dos  vicios  ;  o  amor  da  pátria  ;  e  gloria 
da   nação.  ■^ 

Não  c  meu  intento  defender  as  tragedias  ir- 
regulares e  monstruosas,  aquellas  em  que  sò  reina 
uma  paixSo  criminosa  ;  aquellas  que  ensinão  o 
adultério,  a  aleivosia  e  que  atacâo  vigorosamente 
a  castidade,  que  pintâo  os  Césares,  os  Brutos,  os 
Enéas,  não  como  homens,  mas  como  mancebos 
affeminados  e  impertinentes  amadores.  Esta  for- 
midável peste,  que  depressa  se  derrama  nâo  só 
pela  corte,  mas  pela  cidade  ;  esta  tragedia  ainda 
que  tem   mais    fautores,  é  certamente   a   que  deve  )  ,* 

subir   a   sentença    de    PlatSo,   a   censura   dos    San-  *>^ 

A-  A 
tos  Padres,   e  a   condemnaçâo  dos   Concílios.  ^c— v 

Te  í* 
íJâo   me   atrevo  a  cansar    mais    a   vossa  pacien-  _i^  ww 

cia  :    com    argumentos   t.ío   triviaes    acabareis     de  r^  .  ^ 

conhecer  a  debilidade  do   meu  discurso  ;    e    per-  J^  /^ 

mitta    o   nosso  numen   tutelar,   que  nâo  desespe-  <* 

reis  do  meu  adiantamento,  que  eu  da  minha  parte,  ^O   Õ 

para   vos   descobrir  a    sinceridade,   com     que    me  "   4^ 

sacrifico  aos  trabalhos    académicos,   vos   confesso,  çp   f^ 


46» 


que  para  obedecer-vcs  me  tenho  feito  plagiário, 
nào  fazendo  nos  meus  discursos  mais  do  que  trans- 
crever aquelles  poucos  autores,  que  a  má  for- 
tuna, que  me  persegue,  me  não  pôde  arrancar 
das  mãos. 


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DISSERTAÇÃO    TERCEIRA  r^ 

íobrc  ser  o  principal  preceito  para  formar  um  bom 

poeta  procurar  c  seguir  somente  a  imitação  Aos 

melhores  autores  da  aiitiguiJaJe  (1). 


jo  vcrbum  vcri  o  curabia  roJdeie  Hdu 
Interpre,...  . 

lIoKAT.,  Al».    l'oet..  V.  135. 


Preclarissimos,    amantissimos   e  sapientissimos  i 

Senhores,  *,].: 

Se   assim    como   vós,  6   Árcades,    desejais    for-  A' 'A 

mar  em    mim   um    membro    digno   de   tio  illustre  .r-  ■>* 
sociedade,   quizcssc  a  fortuna   dar  a   mão   a   meus 


(i)  lU-citada  na  Conferencia  da  Arcádia  lusi- 
tana  no   dia    7   de   novembro  de    1757. 

Autorisado  por  Innocencio  emendei  proveito 
para  preceito  na  surania  desta  dissertaçSo.  (Vide 
"Diec.   "Bihl,,  art.   GarçJo,   pag.    391.) 


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464 


desejos,  ajudando-me,  ao  menos,  com  a  tranquil- 
lidade,  de  qoe  necessita  quem  escreve,  poderia  eu 
de  algum  modo  desempenhar  vossa  generosa  elei- 
ção, e  assentar-me  menos  envergonhado  em  um 
ÇÇ  Ingâr,   que   por  sorte  do  escrutinio  tocava  a  um 

de  nossos  melhores,  e  mais  distinctos  sócios.  Sub- 
stituir as  vezes  de  um  homem  sábio,  eloquente 
e  erudito,  as  vezes  de  um  Elplno  1Z>onacriense  {i), 
não  é  pezo  com  que  possSo  meus  hombros.  Para 
commetter  tâo  árdua  empreza,  necessitava  de  mais 
brilhantes  armas.  Longo  estado,  profunda  erudi- 
ção, um  vasto  conhecimento  dos  autores  mais 
versados  e  de  melhores  tempos,  uma  natural  ele- 
gância e  delicada  pureza  de  linguagem,  são  pre- 
dicados e  talentos  que  não  descubro  em  mim,  e 
os  que  sò  me  podião  desculpar  a  confiança,  com 
que  me  sacrifiquei  a  tão  di£Bcil  empenho.  A  glo- 
ria de  obedecer-vos  é  a  única,  e  feliz  circumstan- 
cia  que  me  anima,  e  me  promette  a  indulgência, 
de  que  me  fazia  talvez  indigno  meu  atrevimento. 
Se  não  satisfaço,  ao  menos  obedeço. 


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(i)  O  Sr.   António  Diniz  da  Cruz  e  Silva. 


Entre  as  solidas  máximas,  com  que  Horácio 
pretende  formar  iim  bom  poeta,  não  c,  como  vós 
sabeis,  menos  importante  a  imitação.  Kào  fallo 
da  imitação  da  natureza,  mas  da  imitação  dos  bons 
autores,  daquella  imitação,  á  qual  deve  a  Arcádia 
sua  grande  reputação,  e  não  pequena  parte  do-í 
honrados  elogios  com  que  foi  recebida  de  nossos 
mais  prudentes  e  doutos  patricios,  e  que  ha  dj 
espalhar  seu  nome  pelas  nações  estrangeiras,  liste 
foi  em  todos  os  séculos  e  será  em  todas  as  id.>- 
des   o   maior  segredo  de   tão   divina   arte. 

Os  Gregos  e  os  Latinos,  que  dia  e  noite  não 
devemos  largar  das  mãos,  estes  soberbos  origi- 
naes,  são  a  única  fonte  de  que  manão  boas  odes, 
boas   tragedias,   e   excellentes    epopeias. 

Este  é  o  verdadeiro  génio,  a  que  o  vulgo  chama 
veia  poética   e   os  doutos   cnthusiasiiio. 

Muito  pode  o  espirito  humano!  Mas  nunca  terá 
força  para  subir  tão  alto,  se  não  fòr  pela  estrada 
que  trilharão  os  antigos  poetas  e  oradores.  Entre 
nós,  depois  que  acabarão  os  bons  dias  da  poesia 
portugucza,  poucos  forão  os  que  penetrarão  seme- 
lhante   mystcrio,    de   que   são    miseráveis   testenr.:- 

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nhãs  as  obras  dos  seiscentistas.  Guardava  o  céo 
para  a  Arcádia  a  honra  e  a  vaidade  de  erguer  esta 
bandeira,  e  levar  comsigo  seus  compatriotas.  Hoje 
todos  desejão  imitar  os  antigos,  todos  estudâo  pe- 
los Gregos,  pelos  Latinos  e  pelos  nossos  bons  au- 
tores :  mas  fugindo  de  Scylla,  quantos  vàrâo  em 
Charybdes? 

Querem  ser  imitadores  e  nâo  passâo  de  uns 
humildes   plagiários. 

Para  evitar  tão  depravado  extremo,  nos  re- 
commenda  Horácio  o  modo,  com  que  devem  ser 
imitados  os  antigos  ;  e  ainda  que  neste  lugar  esta- 
beleça outras  regras  para  conseguirmos  tio  de- 
sejado fim,  a  mim  me  pareceo,  olhando  para  o  vi- 
cio mais  commum,  que  devia  escolher  para  as- 
sumpto as  poucas,  mas  importantes  palavras,  com 
que  tSo  grande  critico  nos  ensina  a  imitar,  e  nos 
mostra  o   perigo,  de  que  devemos  fugir. 

Muitos,  querendo  imitar  Virgílio,  fazem  um.-i 
m.d  traducçio  desta,  ou  daquella  imagem  de  t:lo 
grande  poeta  ;  e  escravos  de  snas  palavras,  não 
passáo  de  traductores.  Não  imitão,  roubão  e  des- 
pedação   as   obras  alheias:   desfigurão   o   que   lhes 


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46^ 


agrndou,  como  se  tomassem  por  emprc?a  fazer-nos 
aborrecer  o  que  admiramos.  Disto  acha-se  que  eii- 
fermâo  tartos,  quantas  sSo  as  obras,  que  todos  os 
dias  apparecem  cheias  de  lugares  dos  poetas,  não 
imitados,  mas  servilmente  traduzidos.  É  tio  forte 
a  prtoccupação,  de  que  nascem  tão  lastimosas  des- 
ordens que  muitos  com  vaidade  e  com  soberba 
apontão,  e  mostrão  os  pensamentos,  ou  iJéas,  que 
roubarão,    ou    traduzirão. 

Esta  epidemia,  que  talvez  reinava  no  tempo 
de  Horácio,  Ibe  deo  razão  para  advertir  aos  poe- 
tas dos  vicios,  de  que  devião  fugir,  quando  qui- 
zessem  imitar,  recommendando-lhes,  que  não  tra- 
duzissem palavra  por  palavra,  como  um  fiel  in- 
terprete: r.ssim  explicão  este  lugar  os  melhores 
commentadorcs  da  sua  Poética.  E  não  sei  com 
que  razão  o  tr.iductor  portugiiez  trabalha  por  mos- 
trar, que  Horácio  nestas  palavras  d.i  regras  para 
as  traducçõcs.  Julgo  que  a  ninguém  deixará  de 
parecer  obvio  e  natural  o  sentido  do  texto,  tâo 
livre    de    amphibologia. 

Todos  sabem  que  Horácio,  ainda  quando  pa- 
rece  passar   de   umas   para   otltras   cousas,  guarda 


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o  melhor  methodo,  e  conserva  o  fio  da  sua  dou- 
trina. Dom,  que  nâo  podia  faltar  em  um  tâo  grande 
lyrico    acostumado  ás  digressões,  que  parecendo- 

y^JL  lhe  alheias  do   assumpto,   nascem   delle,  e  o  dei- 

xio  mais    brilhante,  magestoso  e   sublime, 

Nao  falta  quem  compare  os  poetas  com  os  na- 
vegantes. A  agulha,  que  lhes  mostra  os  rumos, 
é  a  estrella  que  os  guia,  e  leva  a  salvamento  : 
sem  ella  serião  mais  frequentes  os  naufrágios,  e 
nSo  poucas  vezes  os  que  demandassem  remotas 
praias,  nâo  voltariâo  com  a  feliz  noticia  de  no- 
vos continentes.  O  poeta,  que  não  seguir  aos  an- 
I  'igos,   perderá  de  todo  o  norte,  e  não  poderá  já- 

*^T/g  mais  alcançar  aquella  força,  energia  e  magestade, 

/•  vv  com  que  nos   retratão  o  formoso    e  angélico  sem- 

*4'r>  blante  da  natureza. 


Devemos  imitar    e  seguir  os  antigos  :  assim  no- 
lo  ensina  Horácio,  no-lo  dieta  a  razão,   e  o  cou- 
^  fessa  todo  o   mundo  litterario.  Mas  esta  doutrina. 


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^    /  ,  este  bom  conselho,  devemos  abraça-lo,   e  segui-lo 

2  S  <!«  modo,  que   mais  pareça  que  o  rejeitamos,  isto 

5^    ^  c,  imitando,  e  não  traduzindo.  Os   poetas,   devem 

^   i  sor  imitados  nas   f.bulas,   nas   imagens,  nos  pen- 


469 


samentos,  no  estylo  ;  mas  quem  imita,  deve  fazer 
seu  o  que  imita  ;  se  imito  a  fabula,  devo  conser- 
var a  acção,  ou  alma  da  fabula  ;  mas  devo  variar 
de   forma   os    episódios,  que  pareça  outra  nova   t  ^'^^ 

minha  :  se  imito  as  pinturas,  não  devo  no  meu 
poema  introduzir  um  Polyphemo  ;  mas  do  painel 
deste  gigante  posso  tirar  as  cores  para  um  Ada- 
mastor :  se  imito  o  estylo,  não  devo  servir-me 
das  palavras  dos  antigos,  mas  achar  na  lingua- 
gem portugueza  termos  equivalentes,  enérgicos  e 
magestosos,  sem  torcer  as  phrases,  nem  adoptar 
barharismos. 

Olhando   para    a     pratica    dos    Latinos   e   bons  j 

modernos,  achamos  religiosamente  guardados  estes  j    " 

preceitos.  Assim  imita  Virgílio   a   Homero  na  sua  '^^ 

Eneida;    assim  imita  a  Theocrito  na  sua  Bucólica. 


•  fft 

Assim   imitou   Camões    a    Virgílio;   António   Fer-  vi.  ^ 

reira  a  Horácio  ;   Sophocles  a  Theocrito  ;    Bion   a  r\i. 

Mosco.   Todos   conhecem     o    original   que  achou  ^" 

Ovídio  em   Huripedcs   para   formar  a  soberba  pin-  ^ 

tura  do  carro   de   Phaetonte  ;   nos   conselhos   com  ç  p   Ò 

que   o   pai   encaminhou   a   resoluçSo   do   filho     do  *■    "^ 
cuidado   com  que  se  assusta,   e   da    paternal    mise-  p   f^ 


^ 


ricordia,  com  qne  prantèa  a  desgraça  do  atrevido 
mancebo.  Quando  em  idade  mais  adulta  observa- 
mos mais  attentamente  estes  formosos  astros  da 
poesia,  se  nâo  fosse  irrefragavel  a  chronologia, 
se  nâo  constasse  da  historia,  poderiamos  duvidar 
d:  quem  era  o  original  ;  assim  como  tem  hayido 
quem  ponha  em  problema,  qual  das  duas  nações 
merece  a  primazia. 

Se  fallasse  com  homens  menos  instruídos,  can- 
sar»me-hia  em  confrontar  as  copias  com  os  ori- 
ginaes,  os  Latinos  com  os  Gregos  ,  os  Portu- 
guezes  com  uns  e  outros.  Mas  na  presença  de 
Arcides  nâo  me  atrevo  a  mostrar  como  cabedal 
meu  o  que  tem  feito  trivial  a  inundação  de  Poé- 
ticas e  Rhetoricas,  que  já  cansâo  o  espirito  mais 
o"/"»  ávido  de  erudição,   e   mais   cobiçoso  de  sciencia. 

iTí  Pa 

..'^'  Nâo   pareça   qne  levado    desta  doutrina,   quero 

^  dizer,  do  muito  que  Horácio    e  todos  os  bons  cri- 

-^  ticos   recommendâo   a  imitação  dos   antigos,   tiro 


por  consequência,   que  o  poeta  nâo  deve  dar  uni 
passo  livre,   e  que  nâo  pôde   adornar  seus  poemas 
'^    t.  com  pinturas,  de  que  nâo  conheça  originaes.   Bem 

<1 


^   *  será    que   nâo   chegue  a   perdè-los    de  vista;   mas 


seguindo  este  rumo,  pôde  l.irgar  as  velas  á  su.i 
fantasia,  e  voar  ate  descobrir  novos  mundos.  Fe- 
liz aquelle  que  não  só  imita,  mas  excede  ao  seu 
original.  Virgílio  não  poucas  vezes  cortou  esta 
palma,  excedendo  na  concepção  e  energia  a  abun- 
dância do  poeta  que  imitava.  Nas  poucas  palavras 
deste  hemestichio  Jovis  onínia  plena,  abrangeo  as 
circumstancias,  com  que  Aracto  descreve  a  om- 
nipotência: outras  vezes  applicando  e  vestindo  de 
mais  formosas  cures  a  imagem  que  imitava,  como 
neste;    verso-  : 


m 


Olli  dura   quies  óculos   et  ferrus   nrgct 

Somnus   in  aeiernam    cl.iudioilur    Inmhia  nocleiíi, 

nos  quaes  accrescentou  magcstade  á  magestade 
de  Homero.  Algumas  vezes  servindo-se  dos  orado- 
res gregos,  dava  a  seus  pensamentos  a  luz  e 
pompa  da   poesia,   como   nestes   versos  : 

Aut  Juriis   Ceei  meus  ejjera   neqiiid  inausuiii 
Ant  inlentatum   scellerisve  dolive  fuisset  : 

que   os   críticos    conhecem   ser   imitação   de   outra 


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semelhante  sentença  de  Demosthenes,  ou  de  Es 
chinês. 

Esta  generosa  liberdade  concede  Horácio  aos 
poetas,  e  tanto  se  não  envergonha,  que  se  jacta 
de  havê-la  tomado,  quando  fallando  dos  imitado- 
res servis,  disse  de  si   mesmo : 

O'   imilatores   scrvum  ptcus,    ul   mihi  s.ipe 
'Bilem,    s.cfe  jocum    vesiri   niovere    íumultus 
Libera  per  vacuuni  posui  vestigia  priíiceps, 
Non   aliena   meo  prcssi  pede  ;  qui  sibi  fidit 
'Dum    regit   exanien. 


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Solto  de  tâo  pezada  escravidão,  imita  o  mesmo 
Horácio  o  lyrico  grego,  sendo  em  muitos  lu- 
gares conhecidamente  superior  a  Pindaro.  Quan- 
tas vezes  a  simples  mudança  de  uma  palavra  afor- 
mosèa  um  verso,  de  forma  que  parece  nâo  só 
outro,  mas  fica  na  verdade  melhor.  E  bem  co- 
nhecido o  verso  de  Enripedes,  que  se  lè  em  So- 
phocles,  sem  mais  differença  que  a  de  um  vocá- 
bulo ;  mas  tio  diflferente,  que  nada  tem  Sophocles 
que  restituir  a  Euripedes,  nem  Euripedes  que  pe- 
dir a   Sophocles. 


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473 


Eis-aqui  o  que  nâo  penetrão  a  maior  parte 
dos  nossos  poetas,  pois  adorío  com  tal  supersti- 
ção seus  antigos  originaes,  que  querendo  imita- 
los,  não  tem  valor  para  mudar  uma  syllaba, 
quanto   mais   uma   palavra. 

Sobem  pela  estrada,  que  pizarão  nossos  bons 
poetas;  seguem  as  pizadas  dos  Latinos  e  dos  Gre- 
gos, mas  tão  cobardes  e  medrosos,  que  tarde,  ou 
nunca  chegarão  aonde  elles  subirão.  Semelhan- 
tes ao  desgraçado  caminhante,  que  em  uma  te- 
nebrosa noite  piza  o  caminho  tão  carregado  de 
■iusto,  que  finalmente  tropeça,  cahe,  e  se  precipita. 

O  poeta  é  senhor  da  matéria  de  que  trata  : 
se  a  invenção  c  toda  sua,  pôde  forraa-la  como 
lhe  parecer  ;  se  a  pedio  emprestada  a  algum 
dos  antigos  poetas,  deve,  quanto  lhe  fôr  possí- 
vel, reduzi-la  a  tão  nova  figura,  que  pareça  ou- 
tra,  e  que   fique  sendo  sempre   a   mesma. 


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ORAÇÃO  PRIMEIRA 

ím   que  ic  Intima  c  pcrsiiii.le  aos  ^Árcades  se  inlc- 
resscm  cm  cumprir  as  leis  i!a  Arcádia  que  crão 
cmpcuhar-sc  com  todo    o    esforço  nu  restaura- 
fào  da  eloquência  e  antiga  poesia  portuguesa  (l). 


Kobilissimos   e   sapieiuissimos   Árcades, 

Se  a  opuU-ncia  di  matéria  pôde  fertilizar  a 
idéa  do  orador,  se  lhe  pôde  dar  força,  energia 
€  elegância  para  mover,  para  arrebatar,  e  para 
persuadir,  certo  estou  eu,  ó  Árcades,  de  que  hoje 
poderei  com  minha  oraçio  dominar  vossos  âni- 
mos,  ganhar  vossa   attenvão   e   benevolência. 

Sois  Árcades,  sois  Portuguezes.  Falia  comvos- 
co  um  compatriota,  e   não   pretende  mais,  do  que 


(i)   Recitada    na    Conferencia  da   Arcádia   lusitana 
■no  dia   8   de  maio  de    1758. 


478 

obrigar-vos  a  cumprir  o  que  dispõe  as  leis  da 
Arcádia  :  o  que  exige  a  vossa  honra,  e  o  que  se 
deve  á  gloria  da  nação,  do  estado  e  do  príncipe. 
Já  vejo  que  todos  estais  suspensos,  e  que  tal- 
vez nâo  falta  quem  diga  :  que  homem  é  este,  que 
sempre  excogita  para  assumpto  das  suas  orações 
objectos  fantásticos  ?  Que  nos  accusa  de  crimes, 
que  nós  nâo  commettemos,  e  que  devendo  apren- 
der comnosco  a  orar,  tem  degenerado  cm  decla- 
mador?  Mas  também  eu,  ó  Árcades,  vos  pergun- 
to :  e  se  este  declamador  vos  narrar  factos  in- 
contestáveis, se  produzir  documentos  authenticos, 
se  tratar  de  uma  matéria  per  si  mesma  grande, 
magnifica  e  capaz  de  levantar  a  reputação  da  Ar- 
cádia,  chamar-me-heis   orador  ? 

Confessareis  que  tenho  aprendido  comvosco  ? 
Qiie  vos  imito  1  E  que  mereço  ser  admiitido  a 
fallar  em  vossa  presença?  Pois,  Árcades,  hoje  nâo 
qiiero  senão  mostrar-vos,  que  o  pacifico  e  pros- 
pero reinado  do  nosso  clementíssimo  soberano 
está  clamando,  que  cumpramos  o  que  proniet- 
temos  ;  quero  dizer,  que  séria  e  inalteravelmente 
nos  appliqnemos  com   todas  as   nossas  forças   ao 


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-♦♦-    ■•«-    ♦♦-    ■♦♦•    •♦♦•    •• 

479 

honrado  trabalho  do  restniirarmos  a  eloquência  e 
poesia  portugueza.  Som  a  fundação  de  uma  Ar- 
cádia feria  impraticável  o  magnifico  projecto  de 
restaurar  estas  duas  divinas  artes,  artes  em  que 
se  apoia  a  duração  da  sociedade  ;  de  que  depende, 
a  memoria  dos  homens  illustres  ;  e  não  poucas 
vezes,  a  conservação  da  republica  ;  isto  reconhe- 
cerão os  MeJicis,  as  Christinas,  os  Pedros  Gran- 
des,  Luiz   XIV,   e   D.   João   o  V. 

Que  importa  que  entre  uma  congregação  de 
homens,  ou  bárbaros,  ou  ignorantes,  haja  um  Ho- 
mero, ou  um  Demosthenes  ?  Isto  fará  que  re- 
ligiosamente se  guarde  a  pureza  da  linguagem, 
a  energia  da  dicção,  ou  verosimilidade  de  pensa- 
mentos ?  Persupdo-me  que  este  homem  será  obri- 
gado a  calar-se,  a  esconder  as  suas  obras,  e  a 
suspirar  no  seu  gabinete,  emquanto  o  resto  da 
nação  prostituo  o  credito  de  todos,  divulgando 
escritos  de  que  os  estrangeiros  ou  zombem,  ou 
se   conipadeção. 

Corre  o  tempo  ;  atoia-se  a  epidemia  ;  despre- 
zão-se  os  bons  autores ;  não  valo  o  exemplo  d.i 
antiguidade  ;   apaga-se   a   memoria   da   arte  ;   e   fi- 


i|Hi"""«l||l'i||li' I|n||l' l|l"ir""il||l'l|| ;     1-  ' 


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nalmente  se  transforma  o  génio  da  nação.  Se  no 
fim  desta  época  apparecesse  uma  alma  capaz  de 
atalhar  o  damno,  acha  já  com  tantas  forças  o 
inimigo,  que  ainda  que  adquira  a  honra  de  ata- 
ca-lo, raras  vezes  colhe  os  louros  do  triumpho. 
Sâo  tâo  frequentes,  e  talvez  tâo  domésticos  os 
exemplos,  que  nâo  devo  respeita-los.  Prouvera 
Deos,  ó  Árcades,  que  ainda  hoje  em  Portugal  não 
avultassem  mais  as  ruinas  deste  geral  destroço, 
do  que  as  miseráveis  reliquias  da  restituída  Lis- 
boa. Sò  uma  academia,  uma  sociedade  de  homens 
sábios,  zelosos  do  bem,  e  da  honra  da  sua  pá- 
tria, é  o  Alexandre  qne  pôde  cortar  este  nó  gor- 
diano,  é  o  Achilles  de  que  pende  a  expugnação 
de  Tróia. 

Vós  mesmos,  senhores,  conhecestes  a  força  desta 
máxima;  vòs  a  adoptastes;  e  vós  a  tendes  feliz- 
mente praticado.  Mas  não  reparais,  senhores,  que 
esta  erapreza  é  trabalho  de  um  rei  sábio,  de  um 
rei  grande  ?  Nós  podíamos  soflfrer  sobre  nossos 
hombros  pezo  tão  formidável  ?  Mão,  senhores  : 
a  outro  se  deve  a  restauração  da  eloquência  e 
da    poesia.   Um  soberano,    que   Deos  creou  para 


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pai  de  seus  vassallos  ;  um  príncipe,  que  nós  ama- 
mos, e  que  nos  ama  ;  um  rei  tão  grande,  que 
não  necessita  de  conquistas  para  fazer  respeitado 
seu  augusto  nome  ;  um  génio  clementissimo, 
amante  da  paz  e  das  sciencias  :  este  foi  o  novo 
astro,  que  influio  tão  gloriosa  revolução  no  Por- 
tugal   litterario. 

O'  paz,  santissiina  paz,  dom  celestial  :  tu  que 
alTugentas  os  vicios,  que  conservas  a  religião, 
que  produzes  a  abundância,  que  defendes  a  hones- 
tidade, que  animas  as  artes  e  sciencias  :  ó  paz, 
a  ti,  santíssima  paz,  devemos  o  felicíssimo  rei- 
nado do  amabilissimo  Augusto  portuguez  :  tu  no- 
lo  conservas,  tu  fazes  gozar  da  publica  tranquil- 
lidade,  de  que   necessitão  as  sciencias   e   as   artes. 

Não  vos  pareça,  ó  Árcades,  que  um  soberano 
só  protege  as  academias:  mandou-lbe  passar  um 
Alvará,  e  uma  Provisão  Régia.  Talvez  que  esta 
protecção  nâo  seja  a  mais  efficaz.  Enche  de  vai- 
dade os  membros  da  Academia;  e  honrados  com 
titulo,  adormecem,  desprez.ío  a  gloria,  que  só  ad- 
quirem com  o  trabalho,  esquece-se  a  instituição, 
e  se   se   ajuntão,  não  se  colhe  de  suas  assembléas 


61 


■e.-^í^y^ttv  gi 

482 

mais  fruto  do  que  o  apparato.  A  verdadeira  pro- 
tecção consiste  na  tranquillidade  publica,  na  paz 
e   na   abundância. 

Agora  provar-vos-hei,  ó  Árcades,  que  deve- 
mos esta  venturosa  situação  á  sabedoria  do  nosso 
augustissimo  soberano.  Mostrarei  que  restaurou, 
ou  para  melhor  dizer,  que  fundou  o  commercio: 
aquelle  admirável  apoio  da  monarchia,  de  que 
pendem  as  forças  da  nação,  a  magnificência  do 
príncipe,  e  a  reputação  do  estado:  aquelle  nego- 
cio fundado  na  boa  fé,  e  na  verdade  ;  aquelle, 
que  liourão  as  leis  ,  aquelle,  que  tem  feito  glo- 
riosas, e  florentes  tantas  monarchias.  Deverei  pro- 
var, que  este  grande  rei  para  sustentar  o  novo 
commercio  lhe  franqueou  os  meios  de  formarem 
tão  importantes  fundos ;  que  concedeo  privilégios, 
e   que   lhe   deo   navios. 

Vós  não  sabeis,  ó  Árcades,  para  que  se  fun- 
dou um  tribunal  de  commercio.  Qpem  ignora  a 
severidade  com  que  se  prohibirão  os  contraban- 
dos? E  a  magnificência  com  que  se  fundarão  fa- 
bricas '<  Pois  a  que  se  dirigia  todo  este  apparato  ! 
Que  desejava  o   coração  deste  amabilissimo  prin- 


r"iii"iii 'riii'"iii ;i 

48, 


cipe?  Não  era  a  nossa  traiiqiiilli Jade,  a  publica 
abundância  e  a  segurança  do  estado  ?  E  se  fal- 
tasse este  apoio  ás  artes,  e  ás  sciencias,  quem 
poderia  restabelecê-las  ?  Qual  seria  o  Alcides,  que 
vencesse  este  traballio  ?  Se  ura  piincipe  impru- 
dente, ou  ambicioso,  desejasse  as  províncias 
alheias  ;  se  para  devasta-las,  ou  para  possui-las 
levantasse  numerosos  exércitos,  lançasse  pezados 
tributos,  fizesse  innumernveis  reclutas  :  se  nos 
estrugisse  a  artilberia  :  se  nos  incommodassem  os 
quartéis  ;  se  nos  algemassem  os  inimigos,  quem 
estudaria?  Quaes  serião  nossos  versos?  Que  força 
teria   a   eloquência   portugucza  ? 

Sem  revolvermos  muitos  livros,  fitando  a  nossa 
contemplação  unicamente  na  historia  das  letras, 
acharemos  com  facilidade,  que  os  bons  séculos 
nascerão  nos  braços  da  paz  ;  dur.irào,  em  quanto 
durou  a  tranquillidade  publica;  e  acabarão,  tanto 
que  se  arvorou  o  estandarte  da  guerra.  Grécia, 
Roma,  Itália,  França  e  Portu^'al  ainda  nos  olVe- 
recem  em  seus  anuaes  incontestáveis  exemplos 
dt-sta  verdade.  Quem  fez  cnmuidecer  a  lingua  de 
Cícero,  senão  quem  destruio  a  paz,  aquclla  mesma 


484 

paz,  que  talvez  se  devia  em  grande  parte  à  elo- 
quência do  orador.  Finalmente,  para  que  me  canso 
em  amplificar  o  que  vós  sabeis,  e  uma  matéria, 
que  para  ser  grande  e  magestosa,  não  necessita 
nem   dos  adornos,  nem   dos  auxílios  da  Rhetorica. 

Mas,  ò  Árcades,  se  nós  conhecemos  esta  ver- 
dade, se  nâo  somos  tão  ingratos,  que  neguemos 
este  beneficio,  para  que  nos  esquecemos  da  nossa 
obrigação?  Q.ue  esperamos?  Que  nos  acobarda? 
Q.ue  nos  prende?  Não  deixemos,  senhores,  não  dei- 
xemos passar  inutilmente  um  tempo  tão  precioso: 
agora,  agora  é  que  devemos  honrar-nos  de  sermos 
Árcades,  de  cumprirmos  o  que  devemos  a  um  prín- 
cipe tão  digno  de  ser  honrado.  É,  Árcades,  ú 
tempo  de  lhe  pagarmos  tanto  beneficio;  nâo  como 
nós  devemos,  mas  como  nós  podemos.  Trabalhe- 
mos seriamente  em  adiantar  os  progressos  de  tão 
illnstres  faculdades.  Façamos  tão  glorioso,  quanto 
é  feliz  o  século  de   D.  José   o  I. 

Aqui  deveria  eu  propor-vos  o  methodo  de  con- 
seguirmos esta  empreza,  e  de  verificarmos  tão 
soberbas  esperanças  ;  mas  eu  fallo  com  Árcades, 
fallo    comvosco,   que  bem  sabeis  qual  é  a  estrada, 


485 

<5ue  devemos  seguir  par.i  adiantar  o  progresso  de 
tão   illustre   sociedade. 

Frequentar  as  asseniblc^s  é  sem  duvida  a  pri- 
meira pedra  deste  sumptuoso  edifício;  mas  fre- 
quentar sem  methodo,  e  sem  proveito,  é  deixar 
a  m.icliina  sem  alicerces.  Qual  sei  i,  ou  qual  de- 
via ser  este  methodo,  é  matéria  para  que  não 
bastão  as  minhas  forças.  Depende  de  que  todos 
nos  ajuntemos,  Je  que  cada  um  com  ingenuidade 
firopouha  o  seu  arbítrio,  de  que  se  tome  a  mais 
prudente  resolução  ;  e  de  que  se  observe  cons- 
tante e  religiosamente  o  sj^stema,  que  sahir  ap- 
provado. 

Mas  para  que  me  canso,  ò  Árcades  ?  Quem 
dá  ouvidos  á  oração  do  presidente?  Ou  quem  1'ie 
■deo  autoridade  para  deliberar?  Basta  fazer  um 
discurso  em  louvor  da  Academia;  ou  para  melhor 
dizer,  basta  engana-la  com  detestáveis  lisonjas  ; 
não  é  este  negocio  tão  sincero,  que  inereça  mais 
ponderação,  do  que  sofirer  um  papel  em  prosa, 
que  sempre  é  fastidioso  ;  e  muitos  são  de  pare- 
cer que  se  devem  supprimir,  pois  não  servem  de 
mais   do   que   de  f.izer  compridas   as   lições. 


.MM. I I Mi< !tu» iiIImIIi ilSJi Il'>.;ll HtuSl 


Ah  !  senhores,  que  violento  furor,  que  ira,  que 
indignação  me  nSo  possue,  quando  me  lembro,  que 
estes  pensamentos  nascem  entre  homens  sábios,  en- 
tre nós,  entre  Árcades  !  Queremos  restaurar  a  elo- 
quência, e  nâo  podemos  soffrer  que  se  exercite  ! 
Bastará  ler  Cícero,  duintiliano  e  Aristóteles  para 
se  formar  um  orador  ?  Sabe  os  nomes  dos  tropos, 
e  das  figuras,  sabe  o  que  é  exórdio,  e  pôde  orar  ? 
E   Cicero   tremia,   porque  lhe  faltava  o   exercício. 

Perdoai,  ó  Árcades,  esta  liberdade,  que  é  filha 
do  zelo,  com  que  amo  a  vossa  reputaçSo,  e  o 
credito  da  nossa  Arcádia:  se  quizerdes  refrear  o 
meu  atrevimento,  vede  que  ó  sincero  e  justo  cum- 
prir o  que  promettestes  de  ser  útil  á  nação,  fa- 
zendo honra  á  pátria.  A  venturosa  paz  é  o  prin- 
cipal, digno  objecto  ;  pois  nos  conserva  nosso 
clementissimo  rei.  e  por  elle  nos  vem  as  felicida- 
des de  que  gozamos,  a  tranqnillidade  pública,  os 
presentes  e  futuros  interesses  para  esta  monar- 
chia  :  tudo,  Árcades,  tudo  isto  argae,  e  vos  obriga, 
porque  assim  o  promettestes  ;  e  quem  nJo  dirá 
não    serdes   obrigados   a  cumprir  vossa   palavra  } 

Disse. 


ORAÇÃO  SEGUNDA 

íni    que   se   ilccLinia     contra     a    faliu   de   npplicação 

dos  Arcjdcs  aos  estudos,    tiolaiido-os   esquecidos 

jà   das   leis   da   sua    eniprc;^a,  e  obrigações   dos 

seus   estatutos   (i). 


Amantissimos   o   sapiciitissinios   Senhores, 

Se  as  circumstancias  do  lugar,  e  a  distincção 
dos  ouvintes  podem  assustar  alguma  vez  o  animo 
do  orador,  que  cobarde,  que  temeroso  não  ve- 
nho hoje  fallar  na  vossa  presença  ?  Não  houve 
preceito  que  me  obrigasse  :  não  c  a  abundância, 
que  me  desculpa  :  nem  o  cscrutinio,  nem  a  vossa 
eleição   me   nomearão    presidente.    Q.uera    deixará 


(i)   Recitada   na   Conferencia   da   Arcádia   lusi- 
tana  no   dia    30   de   junho   de    I7S9- 


«..iijW^ijfetv » 

4S8 

de  accusar  a  minha  afFoiteza,  e  o  meu  atrevi- 
mento ? 

Parece-me,  que  ainda  que  a  modéstia,  que  go- 
verna as  vossas  acções,  vos  obriga  a  dardes-nie 
attenção,  não  se  livrará  de  estranhar  a  vossa  idéa 
que  um.  homem  destituido  de  todos  os  talentos, 
e  tâo  pouco  versado  em  matérias  de  eloquência, 
nâo  tenha  pejo  de  frequentar  uma  cadeira,  em 
que  desmaiariâo  os  Ciceros,  e  os  Demosthenes. 
E  quanto  será  mais  pezada  vossa  reprehensâo, 
se  souberdes,  ó  Árcades,  quem  venho  substituir  ? 

Confesso-vos,  senhores,  que  esta  reflexão  me 
envergonha,  e  me  confunde.  O  profundo  conhe- 
cimento da  arte  de  orar ;  a.  pureza  e  energia 
da  phrase  ;  a  sublimidade  dos  pensamentos  ;  a  boa 
ordem  ;  a  vasta  erudiçáo  do  nosso  sábio  pastor 
Matalezio  Klasmeno,  nilo  slo  estes  talentos  umas 
das  mais  solidas  columnas,  em  que  se  apoia,  e 
em  que  descansa  a  gloria,  e  a  honra  da  Arcá- 
dia? E  se  eu  tenho  que  supprir  a  falta  deste  fa- 
moso pastor  ;  se  yoluntariamente  tomei  sobre 
meus  hombros  este  formidável  pezo,  como  poderei 
consegui-lo  ?  Quem   deixará   de   estranha-lo  ?  Ou 


489 


qual  de  vós  será  tão  indulgente,  que  se  abstenha 
de   reprehender-me  ?   Assim  c,   ò  Árcades. 

Mas  se  a  impoitancia  da  matéria  pôde,  de  al- 
gum modo,  relevar  a  baixeza  do  estylo,  a  falta 
de  disposição  e  do  veliemcncia,  procurando  assim 
com  minha  oração  iuteressar-vos  no  adiantamento 
da  reputação  da  Arcádia  ;  se  vos  descobrir  o  ca- 
minho, que  deveis  trilhar  para  alcançardes  maior 
nome  (se  é  possivcl)  e  mais  honrada  fama,  por- 
que me  não  ouvireis?  Quantas  vezes  não  vemos 
nós  em  inexpertos  praticantes  governarem  com 
felicidade  o  mesmo  leme,  que  tocaria  os  cacho- 
pos  na   mão   dos   mais   famosos   pilotos  ? 

Logo  que  fundamos  esta  nossa  sociedade,  me 
interessei  tanto  nos  seus  progressos,  como  se  a 
causa  fosse  só  minha.  Trabalhei  comvosco  quanto 
o  permettir.ão  minhas  débeis  forças,  tentamos 
aquelles  caminhos,  que  nossos  compatriotas  ou 
desprezavão,  ou  não  conheciio.  Fizemo-nos  fa- 
mosos, conseguimos  que  o  Menalo  seja  nomeado 
com  admiração  e  com  respeito  :  que  se  leião,  que 
se   busquem,  e   que  se   estimem   nossas   obras. 

Assim  é,  ó  Árcades  ;   mas  seja  me  licito  pergun- 


490 

tar-vos  :  e  está  assim  satisfeita  a  nossa  obriga- 
ção í  Não  era  o  nosso  projecto  restabelecer  a  boa 
poesia  e  a  verdadeira  eloquência  pelo  meio  da 
mais  severa  critica  "í  A  invençSo  da  nossa  em- 
preza  está  verificada  ?  Teve  já  a  sua  devida  ob- 
servância entre  nós  ?  Sujeitamos  á  critica  nossos 
escritos  sem  aborrecermos  nossos  censores?  Reina 
entre  nòs  aquella  sinceridade  com  que  reciproca- 
mente devemos  despir-nos  de  paixões  particulares, 
e  sacrificarmo-nos  e  nossos  estudos  á  cansa  com- 
mnra,  á  honrada  pátria  e  á  gloria  da  Academia? 

Não  sou  eu,  6  Árcades,  tão  lisonjeiro,  que 
me  atreva  a  dizer-vos,  que  está  completo  este 
grande  projecto,  que  pelejamos,  e  que  vencemos. 
Não,  senhores,  antes  sinceramente  vos  confesso, 
que  não  levantando  nunca  de  semelhante  ponto 
a  minha  contemplação,  cheguei  a  persuadir-me, 
que  um  certo  espirito  de  vaidade,  uma  quasi  in- 
vencível negligencia,  uma  certa  cobardia,  que  nos 
ata  e  que  nos  prende,  nos  precipita  a  cahirmos 
em   reprehensivel    lethargo  e  reiterados   absurdos, 

Parece-me  que  temos  mas  mãos  a  planta  de 
uma  populosa  cidade  ,  que  abrimos  n'uma  parte 


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491 


um  profundo  alicerse,  que  levantamos  na  outra 
uma  soberba  columna.  Está  cortada  a  pedra  para 
a  grande  obra  :  não  faltão  os  obreiros  ;  e  talvez 
sobejem  os  architectos  ;  mas  apezar  de  todo  este 
magnifico  apparato  a  cidade  não  pôde  alojar  os 
habitantes  de  uma  aldeia  !  E  quem  susterá  o  riso, 
vendo  este  ridiculo  painel  ?  Chamar-me-heis  in- 
solente, porque  vò-lo  ponho  diante  de  vossos  olhos? 
Assim  o  julgaria  a  malicia  ou  a  desconfiança,  se 
eu  não  apparecesse  na  scena,  se  não  fosse  actor 
da  tragedia. 

Permitti-me,  senhores,  que  discorrendo  em  tão 
importante  matéria,  possa  fallar  livremente,  possa 
dizer  o  que  entendo.  O  projecto  do  estabeleci- 
mento da  Arcádia  foi  grande,  foi  magestoso,  foi 
útil  c  era  necessário.  Os  estatutos,  com  que  ella 
se  fundou  erão  sólidos,  apoiados  na  razão  e  na 
prudência,  e  concernentes  ao  glorioso  fim,  a  que 
se  dirigio  o  nosso  trabalho  e  a  nossa  esperança. 
Os  ânimos  estavão  dispostos  ou  ao  menos  os  sem 
blantcs  :  chegou  a  desejada  occasiSo,  mudarão-se 
os  bastidores,  desapparcceo  a  sinceridade,  con- 
fundio-se  a   boa  ordem,  enchemo-nos  de  nm   ter- 


492 


ror  pânico,  nJo  pudemos  soffrer  a  critica  ;  apodc- 
rou-se  de  nós  a  soberba,  cresceo  o  ódio,  e  se  não 
se  reformasse  a  lei,  já  então  ficaria  despovoada  a 
Arcádia,  o  Menalo  sem  pastores,  e  nós  em  vez 
de  amigos  e  de  companheiros,  jurados  inimigos 
uns   dos  outros. 

Que  fatal  exemplo  da  inconstância  e  da  fragi- 
lidade dos  homens  !  Serenou-se  a  tempestade,  fi- 
cámos contentes  e  satisfeitos  ;  porque  ficámos 
com  liberdade  de  chamarmos  bom  ao  que  era 
máo:  livres  da  custosa  obrigação  de  discernirmos 
o  falso  do  verdadeiro,  senhores  absolutos  do  Par- 
naso, com  a  amplissima  faculdade  de  infringir- 
mos, cassarmos,  ou  derogarmos  as  mais  preciosas 
leis   da   poética  e   a   rhetorica. 

E  que  fizemos?  Clamávamos  contra  os  miserá- 
veis seiscentistas,  contra  o  mão  gosto  da  nação: 
chorávamos  pelos  bemavcnturados  dias  de  Camões, 
de  Bernardes  e  de  Ferreira:  comprávamos  a  todo  o 
custo  as  suas  obras,  como  que  fosse  o  mesmo  tê- 
las,  que  imita-las.  Entramos  a  chamar  ode  ao  que 
era  idylio,  idylio  ao  que  era  satyra,  satyra  ao  que 
era  dithyrambo:  n'unia  palavra,  corria  com  passos 


49} 

tão  accelerados  a  nossa  decadência,  que  já  pa- 
recia inevitável  a  ultima  ruina,  ou  ao  menos  se 
deveria  julgar  impossível  o  remédio  destes  damnos. 

Aquelles  pomposos  desígnios  de  domar  o  gé- 
nio da  nação,  fazendo  que  a  critica  fosse  reci- 
bida  como  conselho,  e  nío  como  offcnsa,  aquella 
magnifica  idóa  de  banir  da  poesia  portugueza  o 
inútil  adorno  de  palavras  empcUadas;  conceitos 
estudados  ;  frequentes  antitheses;  metaplioras  exor- 
bitantes, e  hyperboles  sem  modo  ,  introduzindo 
em  nossos  versos  o  delicioso  e  apetecido  ar  da 
nobre  simplicidade,  foião  os  dois  poios  que  pri- 
meiro perdemos  de  vista.  Erguerão  a  cabeça  es- 
ses mesmos  vicios,  que  promettiamos  e  juráva- 
mos reformar,  ou  reprimir,  ficando  tolerados  ou 
por  inércia,  ou  por  cobardia,  ao  mesmo  passo  que 
o  podão  pintado  em  o  nosso  escudo  ameaçava 
ou   tazia   rir   aos   estranhos   (i). 

Não  vos  pareça,  ó  Árcades,  que  debaixo  des- 
tas    palavras   em    lugar   ile    um   verdadeiro     zelo, 


(l)  Allude  as  armas  da  Arcádia,  um  podão 
com  a  seguinte  legend  i  :  Inincal  inutilia  (Vide 
TiiEOi-iiiLO   Braga,  ViCiin.   tia   hist.   da  litl.  porl.). 


illliilll 1I11.1IIJ .rlliiiill 


Illii!" illinlll «niiiíllj 


■**■*■         ■■■■'■*■  _._j|ii*--*-    .    '■'■■^         '■'■'■ 


494 

que  me  move,  e  qne  me  atormenta,  se  encobre  on 
o  veneno  da  satyra,  ou  uma  simulada  maledi- 
cência. 

Nâo,  senhores,  sou  eu  o  primeiro  que,  apezar 
destas  desordens,  conheço,  admiro  e  divulgo  as 
rarissimas  bellezas  poéticas,  que  brilhâo  em  nos- 
sos escritores  ;  os  sublimes  talentos,  de  que  sois 
dotados:  confesso  sem  o  menor  espirito  de  adula- 
ç5o,  que  muitas  de  vossas  composições  podem  dar 
aos  nossos  contemporâneos  uma  clara  idéa  da  boa 
poesia  e  da  verdadeira  eloquência;  mas  isto,  se- 
nhores, nâo  b.ista;  nós  promettemcs  mais,  nâo  nos 
ajuntamos  para  as  cousas  ficarem  no  seu  antigo 
estado.  Serdes  vós  grandes  poetas,  e  grandes  ora- 
dores, e  ser  eu  medíocre  em  quelquer  destas  duas 
f.icnldades,cum  phenomeno,  que  appareceria,  ainda 
que  nâo  houveste  Arcádia;  e  talvez  que  menos 
injuriosa  me  seria  a  minha  ignorância,  se  livre  de 
funções  da  Academia,  deixasse  de  expor  ao  pu- 
blico  a   minha   incapacidade. 

Desta  lastimosa  falta,  que  eu  lamento,  e  de 
que  talvez  se  queixar.ío,  outra  nasce,  e  é.  Árca- 
des,   da   reprehensivel  indolência,  que  reina  entre 


nós.  Entregues  a  uma  vergonhosa  íiidiffercnça,  dei- 
xamos passar  os  dias  como  se  não  tivéssemos 
mais  que  fazer,  como  se  iios  não  obrigássemos 
a  mais  louvável  trabalho,  como  se  não  houvésse- 
mos de  dar  conta  ao  publico  do  tempo,  que  con- 
sumimos inutilmente,  ou  como  se  elle  se  pagasse 
de  puerilidades,  ou  se  governasse  pelos  mesmos 
respeitos,  que  nos  arrasiâo  e  nos  constrangem 
a   commettermos   estes   abusos. 

Se  eu  clamar,  que  approvei  este,  ou  aquelle 
poema  porque  era  do  meu  amigo,  ficará  descul- 
pado o  .lutor?  Haverá  homem  prudente,  que  ap- 
prove  o  meu  froxo  procedimento?  Se  eu  não  quiz 
sujeitar  á  censura  os  meus  escriptos,  porque  cheio 
de  amor  próprio  e  de  soberba,  julguei  que  não 
havia  na  Arcádia  quem  devesse  ter  o  atrevimento 
de  censurar-me  haverá  quem  se  não  ria  de  mim? 
Será  b.istante  apologia  divulgar  que  ninguém  na 
Arcádia  faz  melhores  os  versos  do  que  cu  ?  Não 
acharei  quem  me  responda,  que  dahi  o  que  se 
segue  é  que  todos  somos  péssimos  poetas  ?  Cer- 
tamente, que  estes  presagios  não  é  preciso  conhe- 
cer as   estrellas,   para   poder   annuncía-los. 


i(jpi«..M|pii,]ili-~'fq]l"lj;;i"""ii;;i'.I|rn™njiji";||F«'^lpii|IP>'-«()j^^^^  Il[r'j;ií 'lúí' 

illlri il1ii!:!ti. dii:'!v  hJl .il!:::'!li...w-)lltiilllh.,.„.iillhrillii.™-iflii.(!l !l;.t''i \^'vhv,..A'.'^ llli''' !'!li 


496 

A  experiência  acaba  de  mostrar-nos,  que  se  o 
uso  da  critica  se  tivesse  conservado  em  seu  vi- 
gor, seriâo  dignos  de  honra  e  de  louvor  os  pro- 
gressos da  Arcádia.  Quem  foi  tSo  bárbaro,  que 
deixasse  de  estimar,  que  o  coUegio  censório  esti- 
vesse potente  para  rever,  e  purificar  as  obras,  que 
queremos  imprimir?  XSo  ficamos  desenganados  de 
que  a  censura  nâo  era  o  patíbulo;  e  que  em  vez 
de  infâmia,  resultava  delia  maior  credito  a  quem 
por  este  meio  dava  aos  sens  escriptos  o  ultimo 
verniz?  ReprovAr3o-me  a  minha  composição,  e 
que  injuria  me  fizerão?  Jurárâo-me  de  ser  eter- 
namente a  fabula  do  povo,  e  de  ter  nos  exem- 
plares da  coUecçao  um  espectro,  que  me  vexasse, 
que   me  perseguisse  e  que  me  atormentasse. 

Advertirão-me,  como  amigos,  e  entre  os  estra- 
nhos acharia  cruéis  e  innnmeraveis  Rhadamantos. 
Cahiria  sobre  mim  a  formidável  chusma  de  es- 
píritos insolentes,  e  ociosos,  que  se  cevâo  e  pa- 
rece que  se  nutrem  de  criticar,  ou  para  melhor 
dizer,  motejar  e  detrahir  quanto  se  escreve,  que 
nJo  perdoão  uma  virgula,  e  que  sabem  de  cór 
as  regras  da  grammatica  e  da  ortographia:  aquel- 


les,  que  tem  na  sua  mão  a  craveira  dos  juízos, 
e   que   só   approvão   as   obras   de   seus   amigos. 

Estareis  talvez  persuadidos,  de  que  estou  sa- 
tisfeito de  mostrar-vos,  que  a  critica  é  o  único 
meio,  que  temos  de  conseguir,  que  cheguem  i 
posteridade  nossos  escritos,  e  que  frequentando 
mais  as  censuras,  poderemos  atalhar  estas  desor- 
dens e  avançar  a  nossa  reputação.  Mas  eu  ainda 
clho  para  mais  longe  ;  ainda  vos  peço  maior  re- 
:'òrma.  Não  basta  criticar  o  que  se  faz,  é  pre- 
ciso  ensinar    o   que   se    ha  de    fazer. 

Sim,  sapientissimos  Árcades,  é  preciso  que  nos 
appliquemos  com  niethodo,  e  com  frequência  a 
explicar  as  regras  mais  difiicultosas  da  poesia,  e 
da  rhetorica,  de  sorte,  que  qualquer  de  nossos 
sócios  possa  conceber  uma  clara  idéa  destas  fa- 
culdades, e  seguir  uma  uniforme  doutrina.  De- 
vemos empenhar-nos  em  que  brilhe  geralmente 
nas  composições  de  nossos  pastores  a  mesma  pu- 
reza da  lingLia,  e  a  mesma  graça  de  estylo,  a 
mesma  magnificência  de  imagens,  a  mesma  perfei- 
ç.io  d'arte;  n'uma  palavra,  O  mesmo  gosto,  e  até, 
se  possivel  fosse,  o  mesmo  génio.  EntJo  seria  útil 


498 

a  Academia,  eutão  poderíamos  jactar-nos  de  ser- 
mos os  fundadores  de  tio  sumptuoso  edifício,  en- 
tSo  confessarião  nossos  compatriotas  que  fazía- 
mos o  século  do  nosso  adorado  e  clementíssimo 
soberano  mais  distíncto,  e  mais  famoso  do  que  o 
de  Augusto,   de   Pedro    Grande  e  de   Luiz   XIV. 

Para  conseguirmos  este  glorioso  fim,  nâo  será 
preciso  qne  cada  um  de  nós  componha  uma  poé- 
tica, ou  uma  rhetorica  :  as  mesmas  dissertações, 
que  os  árbitros  repetem  nas  conferencias,  e  a  ora- 
çSo  do  presidente,  havendo  a  providencia  de  lhe 
ter  distribuído  a  matéria  por  pontos  ou  questões, 
que  tenbâo  connexSo  umas  com  as  outras,  po- 
derão condnzir-nos  tâo  longe  sem  que  cheguemos 
cansados,  ou  que  desmaiemos  no  caminho.  O  fruto, 
que  se  deve  esperar  deste  trabalho,  é  certamente 
inestimável,  e  eu  vos  prometto  que  chegueis  a 
colhê-lo,  se  approvando  o  meu  arbítrio,  nos  le- 
vantarmos do  vergonhoso  lethargo,  em  que  ja- 
zíamos. 

Kâo  creio  que  haja  entre  nos  quem  me  pre- 
tenda reclamar  a  liberdade,  com  que  foi  fundada 
esta   Academia  :   circumstancia,  com  que  onvi  já 


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Nllll .i.iiH IIINiIliriillll m niMinimililJII uj.i.KUl Mlllillllt i [ 

499 

quali6car  a  sua  excellencia,  ou  talvez  arrogar- 
Ihe  a  primazia.  Quem  não  vc  quanto  ê  mais  útil 
e  proveitoso  tratar  com  methodo  eíta,  ou  aquella 
faculdade,  do  que  hoje  disputar  sobre  a  tragedia, 
amanha  sobre  a  historia,  depois  tratar  das  éclo- 
gas, e  logo  de  questões  de  orador  ?  Que  mais  po- 
deria fazer  quem  tivesse  o  malvado  desígnio  de 
atormentar  a  memoria,  e  o  juizo  dos  ouvintes  ? 
O  agrado  que  traz  comsigo  a  variedade,  e  que 
tem  já  passado  a  axioma,  é  a  perniciosa  origem 
de  que  nascem  estas  desordens.  E  que  terríveis 
damnos  não  tem  ella  csusaJo  na  republica  das 
lettras?  Com  tão  cxquisita  doutrina  se  resolverio 
poet.is  dramáticos  a  misturar  o  sòcco  com  o  co- 
thurno  :  foi  o  berço  da  tragi-comedia,  dos  acrós- 
ticos e  dos  labyrinthos,  verdadeiros  monstros,  a 
que  bem  podemos  chamar  sonhos  de  um  doente. 
H  que  estes  vicios  reinassem  entre  o  vulgo, 
que  fossem  sustentados  por  medíocres  poetas,  ou 
para  melhor  dizer,  espúrios  trovadores,  não  me 
admirara  ;  mas  que  uma  companhia  de  homens 
doutos,  que  SC  levantou  para  restaurar  o  bom  gosta, 
haja  de   adoptar  os   mesmos   dogmas,   e   que  não 


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trabalhe  quanto  pôde,  e  como  deve  para  conse- 
guir o  que  prometteo,  é  o  mesmo  que  abrirera- 
se  os  montes,  e  sahir  um  ridiculo  ratinho.  Que 
general  será  são  louco,  que  emprenda  tomar  uma 
praça  sem  dispor  o  sitio,  formar  as  linhas,  mon- 
tar as  baterias,  avançar  os  aproches,  bater  a  bre- 
cha, e  escalar  as  muralhas  ;  bastará  dizer  que  vai 
render  Bergabzum?  Haverá  quem  o  creia,  vendo 
que  o  exercito  á  vista  dos  muros  ameaçados,  con- 
some os  dias  em  jogos  e  banquetes?  Que  reina 
no  campo  um  profundo  socego,  como  se  estives- 
sem em  segura  paz  ;  e  que  apenas  ha  quem  se 
lembre  do   projecto? 

Nâo  adormeçamos,  ò  Árcades,  ao  som  de  uma 
aura  popular,  que  hoje  nos  levanta  ás  estreitas, 
e  amanh2  nos  ha  de  precipitar  no  abysmo,  sendo 
a  primeira,  que  cruelmente  devore  a  nossa  re- 
putação. Estes  applausos  são  nuvens,  que  qual- 
quer zephyro  as  dissipa.  Cuidemos  estabelecer  a 
nossa  memoria  em  mais  solidas  columnas,  que 
resistindo  á  força  do  tempo,  possão  transmiti-las 
á  posteridade.  Que  proveito  me  resulta  de  que 
ou   por   ignorância,   ou   por  ceremonia,  gabem  ílI- 


501 

giima  composição  minha,  se  eu  mesmo  ftgit.ido  de 
uma  espécie  lie  recurso,  descorfio  dos  applausos, 
e  sinto  as  dores   de   que   anda  achacado   o   papel  ? 

Evitemos  este  dissabor  com  o  remédio  da  cri- 
tica; e  para  que  haja  tempo,  em  que  nem  delia 
necessitemos,  tratai  de  formar  um  systema  de 
bom  gosto  pelas  mais  irrcfiagaveis  regras  da  poe- 
sia, e  da  eloquência.  lUustrem-sc  os  Aristóteles, 
os  Dcr.osihenes,  os  Longinos,  os  Horacios,  os 
Ciceros  e  os  Quintillianos  :  seja  este  nosso  tra- 
balho e  nossa  occupaç.io.  Ponhamos  em  mais 
socego  as  musas  :  deixemo-las  restaurar  as  forças, 
que  estSo  cansadas  de  tão  continuas  tarefas.  Ap- 
pareção  depois  mais  fortes,  mais  engraçadas,  e 
mais  dignas  de  assistirem  com  novo  alento  á  som- 
bra  dos   pinheiros   do   Mi;nalo. 

Kis  aqui,  ò  Árcades,  as  idéas,  que  ha  muito 
revolvo  na  memoria  ;  até  que  instigado  do  zelo, 
com  que  estimo  a  vossa  reputação  soube  guardar 
em  segredo,  persuadindo-me  que  era  culpável  um 
silencio  de  que  resultava  tanto  prejuízo  á  gloria 
commum  desta  sociedade.  Dar-me-heí  por  bem  pago 
do   meu   desejo,   ou   por   absoluto  da  minha  auda- 


I|i"ll;t Ilinilli 'ii|l"l;|( rt|||iiiit "nitHMiii "i[]|i^||i ]j;i)i]n ;iiii|; 

..allli.lllli Illnllh lliA...><*.l»».:..  :ll|i,:l! lult HhiH trl 


eia,  se  for  tâo  feliz,  que  chegue  a  ver,  que  vós, 
compadecidos  da  minha  incapacidade,  entrais  no 
projecto  de  instruir-me,  e  que  o  publico  reconhe- 
cendo que  cumpris  o  que  promettestes,  vos  honre 
com  os  soberbos  titulos  de  bons  compatrícias,  de 
verdadeiros  sábios,  de  restauradores  do  credito  e  glo- 
ria da  nação. 


"(Psi^jfej^ffljjpsi"' 


i,iiii„iiiiiiiiiii— .miii||||ii|||i,i||| 

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ORAÇÃO  TERCEIRA 

cm  que  se  persuade  os  bem  devidos  louvores  do  nosso 
soberano,  sempre  augusto  c  fidelíssimo  (1). 


Confesso-vos,  illustrissimos,  sapientissimos  e 
amabilissimos  senhores,  que  eu  me  vejo  confuso, 
perplexo,  e  clieio  de  temor,  todas  as  vezes,  que 
tenho  que  discorrer  na  vossa  presença.  Conheço, 
que  vós  me  puzestes  neste  lugar  não  só  para 
sondardes  a  minha  insuflíciencia,  mas  também 
para  me  promoverdes  a  maiores  estudos.  Sei  qual 
c  para  comigo  a  vossa  indulgência;  que  descul- 
pais os  meus  erros,  e  que  me  haveis  acudir  com 
as  vossas  lições.  Tudo  isto  sei,  tudo  vos  agra- 
deço ;  mus  nada  disto  c  bastante  para  vencer  o 
meu   justo   receio:  nada  disto  apaga   a   vehemente 


(i)   Recitada   na   Conferencia  da  Arcádia   lusi- 
tana no  dia    4   de   março   de    1763. 


T       ^       !1       ^        3        >        3        >       '3         /        .?  _> 


S04 

idéa,  que  tenho  concebido  da  vossa  erudição,  dos 
vossos  raríssimos  talentos.  Vejo-me  na  presença 
dos  melhores  oradores,  dos  melhores  philosophos, 
dos  melhores  criticos  :  n'uma  palavra,  na  vossa 
presença. 

Que  posso  eu  dizer,  que  seja  digno  de  uma 
assembléa  tào  conspícua  ?  Nâo,  senhores,  recitai 
as  vossas  composições,  e  contentai-vos  de  que 
eu  as  escute,  que  nâo  farei  pouco  se  comprehen- 
der  bem  todas  as  maravilhosas  bellezas  de  vosso 
elegante,  enérgico  e  magestoso  estylo. 

Se  o  vosso  projecto  é  reformar  a  poesia,  pu- 
rificar a  língua  portugueza,  restaurar  a  arte  de 
orar  ;  estabelecer  um  systema  de  bom  gosto,  pelo 
meio  de  uma  prudente  critica,  com  que  pódc 
contribuir  para  tâo  glorioso  fim  o  meu  fraco  dis- 
curso, o  meu  depravado  gosto,  e  o  meu  grosseiro 
estylo  ? 

Mas  se  emfim,  senhores,  é  indispensável  que 
eu  cumpra  as  obrigações  deste  lugar;  se  nâo  c 
licito  subtrahir-me  ao  cargo  de  fallar  hoje  na 
vossa  presença  ;  se  devo  dizer  alguma  cousa,  que 
seja  digna  da  vossa    attenção,  resolvo-me  a  mi- 


«l^iíí^^ííj.®  ^ 

íí,(;ÇT!!I!^iÍjÍiiC!!!!!!!Ímii'iiíí,iiiC!!!!!!!iií^  i\<w:'u\\ i i 

505 

nistrar-vos  matéria  para  vossas  composições.  Corra 
por  vossa  conta  o  revesti-la  de  sublimidade  de  pen- 
samentos, de  energia  de  dicção,  e  de  boa  eco- 
nomia da  fabula,  que  exige  a  grandeza  do  as- 
sumpto. 

T;ndo  nós  a  felicidade  de  vi%  ermos  debaixo 
de  um  governo  o  mais  benigno,  que  tem  desfru- 
tado o  reino  de  Portugal,  não  seria,  amabilissimos 
sócios,  feia  a  nossa  memoria,  se  com  ella  não 
passasse  á  posteridade  a  noticia,  de  que  não  de- 
generando da  filiação  portugueza,  tinhamos,  para 
mostrar-nos  agradecidos,  trabalhado  por  fazer 
eternas  as  grandes  acções,  as  heróicas  virtudes 
de   nosso   clemenlissimo   soberano. 

Q.ue  dirião  os  vindouros,  se  lessem  nas  nos- 
sas décadas,  que  em  Lisboa  se  tinha  fundado 
uma  academia,  que  erao  Portuguezes  os  membros 
delia,  que  estava  em  ditosa  paz  o  reino  todo  ; 
que  a  justiça  brilhava  incorrupta  ;  que  não  si; 
tolerava  o  vicio  ;  que  se  estimava  a  virtude  ; 
que  florescia  o  comniercio  ;  que  se  conservavão 
as  conquistas  (ou  para  melhor  dizer);  que  rei- 
nava   o    augusto,    o    pio,    o    fidelíssimo    Senhor 

64 


506 

D.  José  I  ?  E  que  os  Árcades  se  esquecerão  de 
cantar  estas  virtudes  ?  Que  dedicarão  as  suas 
composições,  e  os  seus  estudos  a  objectos  menos 
dignos,  e  menos  magestosos  ?  Q.ue  horrorosa  con- 
jectura !  Que  infâmia  para  os  nossos  nomes,  se 
os  vissemos  accusados  de  tio  enorme  ingratidJo! 

Eu  me  envergonho  só  com  a  primeira  idéi  : 
gcla-se-me  o  sangue,  estremeço,  parece-me  que 
foge  o  tempo  ;  que  chegão  os  séculos  futuros,  e 
que  ouço  detestar  tâo  abominável  tradição.  Per- 
doai-me,  senhores,  esta  distracção  ;  se  aqui  ha 
enthusiasmo,  é  a  força  da  verdade,  que  me  toca 
o   coração,   que   me  sorprende,   que   me  arrebata. 

E  bem  vulgar  o  axioma,  de  que  os  bens  não 
são  desejados,  senão  quando  se  perdem.  Vivemos 
no  centro  da  paz  :  nio  conhecemos  a  nossa  fe- 
licidade. Talvez  que  os  soldados  se  queixem  de 
não  haver  guerra  :  talvez  que  o  piloto  murmure, 
de  que  não  saião  armadas,  Chamão  a  isto  não 
sermos  conhecidos  no  mundo.  Lembrâo-se  das 
expedições,  que  nos  ganharão  tantas  conquistas. 
Trazem  sempre  na  memoria  o  campo  de  Ourique, 
Aljubarrota,   as   Linhas   de   Elvas  ;   mas   não  com- 

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^s>.-<í^líõ!fcí>.«;^ ^ ^^^^ ^  _^ 

"'" ' ' ' ' 's^síií^igjí»*! 

507 

putâo  a  despeza  de  uma  longa  guerra  ;  o  sangue 
qua  custa  qualquer  victoria  ;  os  incommodos  de 
uma  contribuição  ;  .1  violência  das  reclutas  ;  e 
as  feias   consequências   da   licença   militar. 

Póde-se  interprender  com  justiça  uma  guerra: 
póde-se  avançar  o  exercito  com  vantagens:  tudo 
pende  da  fatalidade  de  um  dia  :  pôde  ser  obri- 
gado a  retirar-se  precipitadamente:  podíamos  ver 
a  nossa  capita!  cercada  de  tropas  inimigas.  En- 
tão tudo  seria  espanto,  tudo  confusão  :  todos  de- 
testariJo  a  guerra,  e  chorarião  pela  paz  :  se  fi- 
tarmos a  consideração  em  uma  scena  tão  funesta, 
se  virmos  alijar  as  bombas  ;  cahir  os  edifícios  ; 
atear-se  um  voracíssimo  incêndio  ;  derraniarem-se 
pelas  ruas  as  aíilictas  mais  com  os  innocentes 
filhos,  espavoridos  do  estrondo  da  artilheria  ;  as 
donzellas  desamp  iradas,  cobertas  de  pó  e  de  san- 
gue ;  os  cansados  velhos  não  podendo  fugir  :  fi- 
nalmente, os  nossos  esquadrões  atropelando  os 
seus  mesmos  compatriotas;  os  soldados  inimigos... 

Basta,  senhores  ;  não  c  preciso  mais  ;  levan- 
temos, os  olhos  para  o  nosso  clementíssimo  rei, 
para    aquelle     astro   de    paz,   de   abundância,   que 


nos  livra  de  tantas  calamidades.  Que  odes,  que 
versos  n3o  merece  ?  E  se  o  soffrèra  a  nossa  re- 
ligião, que  hymnos  lhe  não  cantaríamos?  Que 
altares  lhe  não  ergueriamos  ?  Não  os  merecia 
mais  Augusto ;  nem  Horácio  tinha  mais  razão 
para   jurar  pelo   seu   nome. 

Se  quem  tem  um  largo  conhecimento  da  ma- 
téria, que  pretende  expor  nos  seus  poemas,  lhe 
não  falta  a  energia,  nem  a  elegância:  quem  de- 
sejará cantar  as  reaes  virtudes  de  utn  tão  grande 
rei,  que  não  tenha  fertilidade  na  fantazia,  graça 
nas  palavras,  e  força  nos  pensamentos?  Que  falta 
pois,  nobilíssimos  sócios,  senão  principiar  ?  E  que 
vos  demora  ? 

Talvez  com  profundo  respeito  receais  que  no 
augusto  coração  não  sejão  bera  recebidos  os  vos- 
sos louvores?  Dizeis-me,  que  entre  as  grandes 
virtudes  deste  bom  principe  brilha  a  modéstia  : 
que  é  ella  a  que  aparta  do  throno  a  infame 
adulação.  Assim  é  ;  mas  a  verdade,  a  verdade  é 
que  domina  naquella  grande   alma. 

Se  nós  para  louvarmos  o  nosso  soberano  nos 
fosse  preciso  tecer  elogios  mentirosos,   invectivas 


coutra  os  vicios,  seria  justo  o  nosso  receio.  Mas 
cantar  virtudes  verdadeiras,  acções  notoriamente 
grandes  ;  effeitos  da  clemência,  da  justiça,  da 
generosidade,  não  pôde  deixar  de  ser  uma  acção 
bem  acceita  daquelle  animo  justo,  que  nâo  cos- 
tuma  deixar   a   virtude   sem   premio. 

Ha  poucos  tempos,  que  a  Divina  Providencia, 
quiz  que  os  Portuguezes  sofiVessem  os  golpes  de 
um  horroroso  fl.igello.  Cliegou  o  grande  instante  : 
revolveo-se  o  pavimento  da  cidade  :  cahirão  com 
feio  estampido  as  torres,  os  templos  e  os  palácios. 
Tudo  forâo  lagrimas,  tudo  espanto,  tudo  confu- 
são !  Q.ue  memorável  dia  !  Sahinios  das  ruinas 
das  nossas  casas,  deixando  alli  tudo  quanto  é 
necessário  para  a  commodidade  da  subsistência  da 
vida.  Refuginnio-nos  no  campo  e  insensivelmente 
se  nos  foi  apresentando  tudo  quanto  podia  re- 
mediar-nos  e  ajudar  o  nosso  novo  estabelecimento. 
Que  impulsos  de  compaixão,  de  clemência  não 
movèrã)  o  augusto  coração  de  um  bom  rei, 
quando  poz  os  olhos  na  calamidade  pública !  Que 
ordens,  que  determinações  iiâo  sahirâo  daquella 
grande   alma   em     soccorro     dos   aíHigidos   Portu- 


,-.tMl».«.ini.l'hw.''IIln:|Il AA-  ,.rti; 


510 


guezes  !  Grande  rei !  Rei  sábio  !  Rei  pacifico  ! 
Rei  clemente  ! 

Q.ue  mais  heróico  assumpto,  amabilissimos 
sócios  !  Certamente  que  nâo  teve  Horácio,  nem 
Virgilio  outro  tão  clieio  de  verdades  maravilho- 
sas, nem   tio  susceptível   de   bellezas  poéticas  I 

K3o  é  menos  digna  de  elogios  a  sabia  eleiçSo, 
que  este  monarca  faz  de  seus  ministros.  Que 
excellentes  poesias  se  nSo  podem  compor,  que- 
rendo mostrar  o  augmento  do  commercio  !  A  nova 
economia  das  conquistas  !  O  grande  projecto  do 
estabelecimento  das  fabricas  !  A  disciplina  das 
tropas  !  As  lei;  que  quotidian.imente  se  cstSo 
promulgando,  dirigidas  todas  a  refrear  os  vícios 
que  fomenta  o  espirito  da  ambiçSo,  ou  do  liti- 
gio !  Elias  sói  farSo  novo  codi[;o,  que  será  o 
fasto  da  historia  portugueza,  em  que  melhor  se 
veja,  nâo  sem  admiraçio,  «  felicidade  que  tive- 
mos os  que  vivemos  debaixo  de  um  tSo  feliz 
governo,   e  sábio   ministério. 

Sim,  senhores,  eu  estou  já  vendo  que  nos 
vossos  corações  faz  uma  notável  impressão  este 
discurso,  já  estais  resolutos  a  sacrificar  todas  as 


511 

vossas  forças  a  tio  honroso  trabalho.  Parece- 
nie  que  j.í  estou  ouvindo  as  singulares  compo- 
sições, com  que  mostrais  bem  recebido  o  meu 
arhitrio. 

Se  a  soberba  dos  Romanos  edificou  o  Capi- 
tólio :  se  fez  deste  edifício  o  sacrário  da  heroici- 
dule  só  para  ser  agradecido  aos  valorosos  capi- 
tães, que  conservarão  por  longo  tempo  a  feli- 
cidade da  republici,  c  a  gloria  de  nação;  nós 
que  podemos  levantar  estatuas  mais  Juráveis  aos 
nossos  heróos,  isto  c,  que  podemos  fazer  eternas 
as  grandes  acções  transmittindo-as  á  posteri- 
dade nos  nossos  escritos,  com  que  inércia  os 
deixaremos  sepultados  em  um  ingrato  esqueci- 
mento ?  Se  de  justiça  devemos  este  obsequio,  se 
c  acrédor  delle  ura  rei  o  mais  amável,  o  mais 
clemente,   que   nos   ata  ?   que    nos   demora  ? 

Tem  tanta  força  a  justiça  desta  causa,  que  a 
mim  me  parece  que  já  nos  vossos  semblantes 
descubro    algum    gesto,    que    me   repreheiíde. 

A  verdade  não  precisa  de  defensores.  Vós, 
melhor  do  que  eu,  conheceis,  e  observais  este 
magnifico   assumpto.     Ha   muito   que   premeditais 


-WWT 


»»¥        ^ 


(S^í^i^Va' 


5Í2 


expõ-lo  ao  mundo  nos  vossos  elegantes  poemas. 
Não  foi  ingratidão,  nSo  foi  descuido,  se  tardastes 
em  intentar  a  grande  obra.  Quizestes  delinea-la 
com  prudência,  fundando-a  nas  solidas  bases  da 
verdade,  mas  a  modéstia  vos  deteve  os  passos, 
não  pensando  que  a  Divina  Providencia  nnnca 
tira  dos  thesouros  da  sua  bondade  as  grandes 
almas,  que  fazem  felices  os  povos,  que  são  as 
delicias  da  sua  nação  ;  sem  formar  espíritos  ca- 
pazes de  serem  panegyristas  de  suas  illnstres 
acções,  não  devíamos  conhecer  um  príncipe  tão 
benemérito,   sem  tão  excellentes  poetas. 

Não  houve  Achilles  sem  Homero,  nem  Augusto 
sem  Virgílio. 


ORAÇÃ.O    QUARTA 

ti)!  que  Imta   ãc  conciliar  a  seu  javor  as  vonla.ics 

dos  Árcades  contra  falsas    apreciações    que    se 

haiiào  levantado  (1). 

.  .  .  IMimntst  lia.c  ultio,.,uod  «o  jiidiro  nomo  norcns  abeolvitur.... 
Kx  JuvcsiL,  Satir.  13. 


Não  creio,  6  Árcades,  que  em  vossos  corações 
s.'  pervertesse  a  antiga  sinceridade  de  costumes 
com  tio  violenta  metamorphose,  que  para  recon- 
ciliar-me  comvosco  me  seja  preciso  cantar  a  p.i- 
Hnodia.  Vós  estais  offendidos  ?  Eu  ultrajei-vos  ? 
Haverá  entre   nós   algum   espirito   tSo   escravo  d.i 


(i)  Kstn  oração  não  vem  numerada,  nem  traz 
a  sumnia  do  assumpto  e  tão  pouco  a  data  em 
que  foi  recitada,  na  edição  de  1778.  Impressa  de- 
pois da  terceira,  dci-lhe  naturalmente  a  nuniera- 
ção  seguinte,  adoptando  o  sumraario  de  Innocen- 
cio.   (Vid.    'Dicc.   hihl.,   artigo   Garção,  pag.  591.) 


*^^           ^^^  ww^  ^^w      '      www  "yr^  w^ 

*^- AAA ^  ^*A^*^T^*^'^*^^T*.  Vt*.^^^**.*.V^^*^^'. 

S«4 

vangloria,  que  não  possa,  nem  se  atreva  a  sof- 
f rer  a  verdade  í  Chamar-me-heis  atrevido,  porque 
son  zeloso  da  honra,  e  do  credito  da  Arcádia  } 
Porque  nâo  sei  lisonjear-vos  cora  fantásticas  es- 
peranças; porque  vos  nâo  attribuo,  se  possivel 
é,  maior  merecimento  do  que  o  vosso  ?  Ou  final- 
mente porque  nâo  me  atrevo  a  divulgar  com 
soberba  jactância,  que  restaurámos  a  boa  poesia 
e  a  verdadeira  eloquência  ?  Que  peleijamos,  e 
que   vencemos? 

Nâo,  Árcades,  nâo  sou  tâo  ingrato,  que  vos 
julgue  destituidos  de  piedade,  e  de  benevolência. 
Tenho  reiteradas  provas  de  que  sois  indulgentes 
para  comigo  ;  e  se  em  minhas  obras  ha  algum 
sólido  merecimento,  a  quem  devo  esta  vantagem 
senão  a  vós,  ás  vossas  lições,  e  ao  vosso  exemplo  ? 
Mas,  como  aáo  ha  juiz  mais  recto,  do  que  a 
própria  consciência  ;  como  nâo  ha  mais  intolera- 
rel  castigo,  do  que  o  remorso,  eu  sou  o  mesmo 
que  me  accuso,  e  me  condemno. 

Confesso-vos,  ò  Árcades,  que  foi  indiscreto  o 
zelo,  com  que  me  atrevi  a  imputar-vos  um  crime, 
que  vós  nâo  tínheis  commettido  ,    um    tâo  ver- 


51  5 


gonhoso,  como  seria  faltardes  á  vossa  palavra  ; 
csquecer-vos  da  gloria  da  na^âo,  e  desprezar  os 
interesses  da  pátria.  Estas  erâo  as  funestas  con- 
sequências, que  traria  consigo  qualquer  desunião, 
que  se  levantasse  entre  nós.  Ou  se  possuidos  de 
mais  atrevidos  desejos,  desamparássemos  o  Me- 
nalo,  porque  o  julgávamos  pequeno  theatro  para 
nossos   accelerados   progressos. 

K  quando  eu  via  que  os  Árcades  desejavão, 
que  se  não  demorassem  as  sessões,  que  se  não 
negasse  ao  público  o  gosto  de  ler  os  nossos 
esiíritos  ;  quando  via  crescer  o  numero  dos 
pastores  do  Menalo  ;  quando  achava  de  cada 
vez  maiores,  e  mais  extraordinárias  bellezas 
poéticas  cm  vossos  versos;  quando  ouvia  orar 
com  eloquência,  com  força  e  com  energia,  como 
me  atreveria  a  proferir,  que  a  Arcádia  estava 
exposta  á  menor  decadência  ?  Porventura  devia 
julgar-vos  tão  cobardes,  que  se  pudesse  espe- 
rar de  vós,  que  cedêsseis  aos  prognósticos  da 
inveja  ? 

Havia  quem  dissesse,  que  não  havia  Arcádia  ; 
mas    havia   Arcádia  :     havia     quem     dissesse,   que 


«.-íff^JV^íV® 

£•— 

— *! 

516 

os  Árcades  emraudecêrâo ;  mas  os  Árcades  nâo 
emraudeccrâo  :  havia  quem  dissesse,  qne  os  Ár- 
cades já  não  se  ajuntav.io  110  Menalo  ;  mas 
os  Árcades  ajuntavão-se  no  Menalo.  Finalmente 
havia  quem  dissesse,  que  nâo  podiamos  tornar 
a  ajuntar-nos  ;  mas  nós  quizemos  aj.uitar-nos, 
ajuiitarao-nos;  quizemos  que  houvesse  uma  sessão, 
houve  uma  sessão. 

Devíamos  dar  ouvidos  a  quem  desejava  a  nosssa 
ruina,  porque  não  podia  ouvir  a  nossa  fama  ; 
a  quem  queria  que  nos  calássemos,  porque  não 
pode  fallar  como  nós  falíamos  ;  a  quem  desap- 
provava  os  nossos  versos,  porque  nâo  tinhâo  con- 
soantes, ou  porque  imitávamos  Horácio,  Pindaro, 
Theocrito  e  Bion  ?  A  quem  estranhava  a  nossa 
dicção,  porque  adoptávamos  a  de  Camões,  de 
Bernardes  e  de  Ferreira  ;  a  quem  desapprovava 
a  nobre  simplicidade  de  nossos  pensamentos, 
porque  é  escravo  de  Gongora  ;  a  quem  final- 
mente nâo  soffre  nossas  orações  e  dissertações, 
porque  nâo  discutimos  nellas  frivolos  problemas, 
ou  porque  guardamos  austeramente  os  regras  da 
arte  de   persuadir  ?     E   certo   que     nâo.     É   certo 


nSo  Iki  entre  nós  um  espirito  tão  humilde,  que- 
pudesse  sujeitar-se  a  tão  pânicos  terrores.  E  eu 
temi    que    acabasse    a   Arcádia  ? 

Que  importa,  que  importa  que  alguns  animo? 
malévolos  procurassem  desatar  os  estreitos  la- 
ços de  felicíssima  união  e  de  nossa  inalterável 
tranq\iillidade,  attribuindo  sinistras  intenções  a 
nossas  criticas  e  apologias,  se  nós  as  recebemos 
com  sereno  rosto,  se  as  suscitamos  e  as  quere- 
mos.   E   eu    temi    que    acabasse    a    Arcádia  ? 

Que  imjortaque  nos  apontem  para  as  Scj-llas, 
cm  que  naufragarão  tantas  Academias,  se  a  nossa 
dura  e  durará  á  sombra  da  gloriosa  paz,  em  que 
nos  conserva  o  nosso  clementíssimo  soberano. 
E   cu   temi    que   acabasse   a   Arcádia  ? 

Que  importa  que  digão,  que  sacrificamos  a 
particulares  interesses  e  domesticas  paixões  o 
estudo  de  tão  divinas  artes,  se  nós  de  cada  vez 
nos  engolfamos  com  mais  ardor  na  liçào  dos 
Gregos,  dos  Latinos  e  dos  Portuguezes  ;  se  os 
imitamos,  se  talvez  os  igualamos,  e  se  algum 
de  vós  chega  a  excedê-los.  V.  cu  temi  que  se 
acabasse   a   Arcádia  ? 


5.8 

Q.ue  importa  que  houvesse  quem  chorasse  com 
simuladas  lagrimas  nossa  desunião  e  nosso  esque- 
cimento, se  nós  continuamos  as  sessões.  E  eu 
temi   que   acabasse   a  Arcádia  ? 

Q.ue  importa  que  haja  quem  se  atreva  cora 
descoberta  insolência  a  zombar  das  nossas  pro- 
messas e  de  nossas  esperanças,  se  vossos  escritos 
desempenhâo  com  honrada  gloria  quanto  promet- 
testes  ;  e  se  vosso  distincto  illustre  merecimento 
vos  fazem  dignos  da  real  protecção.  E  temi  que 
acabasse   a  Arcádia  ? 

E  preciso.  Árcades,  que  sejais  nimiamente  in- 
dulgentes, se  ainda  soffreis  que  falle  em  vossa 
presença  quem  proferio  tSo  estranho  absurdo,  è 
preciso  que  me  risqueis  do  catalogo  des  Árcades 
e  que  nos  troncos  destes  pinheiros  se  apague  o 
nome  de  Corydon.  Porém,  senhores,  se  vós  antes 
de  proferir  a  sentença,  examinardes  a  justiça  da 
causa,  achareis  que  no  excessivo  zelo  da  honra 
da  Arcádia  consiste  todo  o  meu  delicto:  achareis 
um  Árcade,  que  estima  a  reputação  da  Arcádia, 
e  que  teme  que  se  arruine,  porque  a  estima. 
Tal    é   a   fragilidade   de   nossos   corações  ! 


I  ,i;,,^ „'^:!S!^^^^Z , ,.,,,,  ^ , 

'       "' (9-=ií^,^í>^lS ' ' "'"'"" 

(^unr.do  houve  avarento,  qiie  não  fosse  covar- 
de ?  dualquer  niiJo  llie  congela  o  sangue;  a 
leve  folha  de  um  álamo  meneado  pelo  fresco  zc- 
pliiro.  lhe  parece  um  trovão  ;  e  acostumado  a 
temer,  facilmente  se  persuade  que  ha  quem  lhe 
rouba  os  thesouros,  que  guarda  com  ambição  e 
disvelo. 

Se  eu  me  não  interessasse  pela  vossa  glo- 
ria e  pelas  vantagens  da  Academia,  ouviria  mur- 
murar publicamente,  murmuraria  com  clle.  Aca- 
baria a  Arcádia,  ficaria  mais  descançado;  quebra- 
ria as  pezadas  algemas,  que  vós  me  puzestts; 
■-■  reclamaria  minha  antiga  liberdade,  isto  é,  zom- 
baria das  regras  de  Aristóteles,  de  Cícero  c  de 
Quintiliano  ;  faria  uma  tragedia  com  a  mesma 
facilidade,  cora  que  vós  compondes  uma  estrophe  ; 
inculcar-me-hia  por  poeta,  por  critico  e  por  ora- 
dor ;  a  toda  a  hora  leria  os  meus  versos  aos 
riesmos,  a  quem  mil  vezes  os  tinha  repetido  ; 
nio  cuidaria  na  pureza  da  dicção,  da  harmonia 
do  verso,  da  magnificência  da  fabula,  da  igual- 
dade dos  costumes,  da  constância  dos  caracte- 
res ;   finalmente   faria   versos   sem   poesia,  orações 


520 

sem  eloquência,  ou,  para  melhor  dizer,  faria 
quanto  vós  reprovais  e  reprovaria  quanto  vós 
fazeis. 

Se,  por  exemplo,  me  encarregasse  de  compor 
uma  comedia,  sem  ler  Aristophanes,  Plauto  e 
Terêncio,  sem  examinar  no  que  consiste  o  ver- 
dadeiro ridiculo  ;  poria  no  theatro  Jasoii,  desem- 
barcando em  Colchos  com  os  valorosos  Argonau- 
tas, namorado  de  Medéa,  roubar  o  Velocino  e 
depois  de  atravessar  os  mares  nunca  de  antes  na- 
vegados, depois  de  ter  quebrantado  todos  os  en- 
cantos, de  vencer  dragões,  e  conseguir  tâo  pre- 
cioso triumpho  entregar  a  um  simples  lacaio  um 
thesouro  tSo  inestimável,  só  para  que  o  bufão 
podesse  dizer  um  ridiculo  equivoco  ;  nâo  cuidaria 
qxxe  o  protogonista  fosse  um  zeloso,  ou  um  ava- 
rento ;  e  isto  guardaria  eu  para  uma  tragedia  ; 
seria  um  rei,  um  capitão  ;  os  amores  ainda  que 
fossem  attribuidos  a  um  velho,  ou  a  um  Catáo» 
serião  o  sal  attico  das  minhas  scenas  ;  arderia 
Troya;  appareceriào  exércitos,  ainda  que  os  ca- 
vallos  deitassem  por  terra  os  bastidores,  e  se 
pudesse  introduzir  no  theatro  o  apparato  de  uma 


_ ^ ^^^^    ®íiS!ÍÍ^^*ír-,f „. ., 

I'  !i|i llk,.illr.illi 1UI1.11II Gi.iíliiili i!Ui.;ll :-!''UI '!m 

S2I 

trincheira,  que  lançasse  bomb:is  e  disparasse  ar- 
tilheria.  EntSo  ganharia  uma  nova  fama,  a  que 
nâo   aspirou   Sophocles,   nem    Euripedes. 

Eis-aqui  a  ruina,  que  eu  temia,  quando  temia 
que  acabasse  a  Arcádia  ;  eis-aqui  o  perigo,  a  que 
me  parecia  que  estava  exposta  a  poesia  portu- 
gueza. 


ftJhtewidutl'' 


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<ítS/i^*^  -=- 


'"is^ífejg^Jíí*®'" 


p.n||iiij|ii> 


Ii!>iiliy||i.„ 


ORAÇÃO  QUINTA  (i) 

para  se  rccilar  no  acto   ão    jnramenlo  de  hatnleiras  do 

Regimento  de  lufa  iílcria,  sendo  Coronel  delle  o 

Illustrissimo    c    Excellcnlissimo    Marque^,    das 

Mi  tias. 


Nobilíssimos  senhores   officiaes  ;   nobres  e   hon- 
rado?  camaradas. 

Sempre  a  gloriosa  reputação  das  armas  depen- 
deo  da  disciplina  militar.  Os  povos,  que  mais 
religiosamente  observavSo  as  leis  da  guerra,  fun- 
darão reinos,  conquistarSo  impérios  e  chegarão 
,1  ser  senhores  de  quasi  todo  o  mundo.  Assyrios, 
Gregos  e  Romanos,  em  cujas  décadas  lemos  ainda 
hoje    os     mais     illiístres  exemplos  de   valor,     nâo 


(i)  Dei-lhe  esta  numeração  segundo  a  ordem 
que  guarda  na  ediçJo  de  177S,  onde  occupa  o 
ultimo  lugar  das  orações  nella  impressas.  Nâo  se 
menciona  comtudo  a  data  em  que  teria  sido  re- 
citada. 


524 

commetterâo  facções  pasmosas  fiados  na  força  e 
numero  de  phalanges  e  lc|'iões  ;  mas  sim  no 
estudo,  com  que  a  sombra  da  mais  profunda 
paz  aprendiâo  os  vastíssimos  preceitos  da  arte  da 
guerra. 

Que  nâo  fizerâo  poucos  Portuguezes  em  Afri- 
ca, Ásia  e  America  !  Se  tallárâo  campos,  arraza- 
râo  cidades  e  subjugarão  ferocíssimas  nações,  foi 
sempre  a  disciplina  quem  pizou  e  submetteo  a 
desordenada  multidão  dos  bárbaros.  Fsta  incon- 
testável tradição  vos  põe  diante  dos  olhos  a 
mais  clara  idéa  das  honradas  obrigações  de  um 
soldado  ;  e  nSo  seri  muito  que  em  corações  por- 
tuguezes inspire  um  ardentíssimo  desejo  de  so- 
leranemente  ligar-vos  com  tâo  santo  juramento  ; 
juramento,  de  que  depende  toda  a  fortuna  da 
guerra. 

Neste  público  e  solemne  acto,  em  que  jura- 
mos as  bandeiras,  se  obriga  o  regimento,  e  nos 
obrigamos  todos  a  servir  como  leaes  vassallos 
ao  nosso  legitimo  rei  e  senhor ;  a  guardar  suas 
reaes  ordens  ;  a  obedecer  cegamente  aos  comman- 
dantes  ;   a  defender   as   bandeiras  ;   a   iiSo  evitar  a 


ri^i^^  ^^, r^ 


morte;  a  sustentar  o  terreno;  a  ganha-lo;  a  não 
desertar,  a  arrostar-nos  sem  susto  com  o  mais 
formidável  inimigo  ;  finalmente  a  derramar  glo- 
riosamente o  sangue  pela  defensão  da  pátria, 
pela  honra  e  gloria  de  nosso  clementissimo  so- 
berano. 

Q.ue  Portuguez,  ou  que  vnssallo  de  tão  bom 
rei  deixará  de  abraçar  com  gosto  e  de  observar 
religiosamente  tão  honrados  preceitos?  Q.uem  ha- 
verá tão  cobarde,  que  na  rtferta  das  armas  e 
no  ardor  dos  conllictos,  alçando  os  olhos  e  pon- 
do-os  nas  bandeiras  de  sen  regimento,  não  haja 
de  abalançar-se  ao  mais  vivo  fogo,  não  obre  pro- 
dígios de  valor  e  de  fidelidade,  se  lembrado  de 
tão  santo  juramento,  vir  que  Deos,  que  o  rei, 
que  a  pátria  e  que  seus  majores  lhe  estão  na- 
quellas  bandeiras  brad.mdo  pelo  desempenho  da 
sua  palavra  ;  pela  obrig.ição  de  seu  ofTicio  e  pela 
honra  de   toda   a   nação  ? 

Não  fora  estranha  exageração  dizer,  que  nas 
bandeiras  se  representa  o  soberano.  Quem  levar 
em  seu  coração  bem  gravada  tão  magnifica  idé', 
commetterá    com    sereno    rosto    as     mais     árduas 


lIBip» ilinip iinil 

...it')iiii(rt< ilioilii». ilii>iliitu.rt, 


..,|P--— g^ 


emprezas.  Quem  haverá,  que  figurando  um  breve 
instante  em  sua  imaginação  ;  que  vê  cercado  de 
inimigos  um  rei,  delicias  de  seus  vassallos,  pai 
da  pátria,  pio  e  magnifico  que  observa  recrescer 
os  esquadrões  ;  que  ouve  o  tropel  dos  cavallos, 
o  fragor  da  artilheria  ;  que  vê  brilhar  as  armas; 
e,  finalmente,  que  vê  travar  a  peleija,  não  sinta 
inflammar-se  em  um  generoso  e  indómito  furor  ; 
não  arranque  a  espada  e  não  tema  que  algum 
se  lhe  adiante  e  lhe  roube  a  gloria  de  vencer, 
ou  de  morrer  primeiro  ?  Quem  haverá,  que  pe- 
netrado da  mais  nobre  fidelidade,  tema  as  sibi- 
lantes rociadas  de  mosquetaria,  ou  não  rompa  os 
mais  cerrados  batalliões  ?  Um  soldado  portuguez 
deve  olhar  para  as  bandeiras  de  seu  regimento 
como  para  um  painel,  que  a  toda  hora  e  a  todo 
o  instante  lhe  apresenta  aos  olhos  esta  pintura. 
A  este  glorioso  juramento,  o  qual  abrange 
todas  as  obrigações  da  vida  militar,  deveo  a  re- 
publica romana  o  respeitado  poder  de  suas  armar.  ; 
o  pasmoso  progresso  de  suas  victorias  ;  e  a  in- 
crível vastidão  de  seus  dominios.  Poucas  legiões 
forâo   o  instrumento  de  tão  avantajados   successos. 


®.^í^l^fe^«> 


Tanto  pòJe  a  boa  disciplina  !  Na  guerra  nunca 
a  multidão  desordenada  atropelou  o  pequeno  nu- 
mero bem  disciplinado.  Q.ue  farião,  ou  que  po- 
dião  tentar  os  Romanos  contra  a  espantosa 
multidão  dos  Gallos  sem  disciplina  ?  Quem  lhes 
daria  forças  contra  os  agigantados  corpos  dos 
Germanos?  Quem  os  aconselharia  a  desprezar  o 
poder,  c  arrogância  dos  Hispanos  ?  Quem  os 
levaria  a  contrastar  os  estratagemas  e  a  riqueza 
da  Africa?  Quem  finalmente  lhes  infundiria  animo 
para  vencer  a  arte  e  prudência  dos  Gregos,  se- 
não a  boa  disciplina,  alcançada  pelo  continuo 
exercício,  pelo  incansável  estudo  da  arte  da  guerra 
c   pela  religiosa  observância   do   juramento  ? 

T.ão  honrado  era  o  nome  de  soldado,  e  tão 
santas  as  obrigações  militares  nos  bemaventurados 
dias  daqnella  famosa  gente,  que  era  quasi  sacri- 
légio pegar  nas  armas,  e  servir  na  guerra  quem 
antes  com  solemne  juramento  não  houvesse  sido 
installado  na  ordem  da  milícia  !  De  Catão  se  conta, 
que  licenciando  Pompilio  uma  legião,  na  qual 
militava  o  filho  d'aquelle  grande  patrício  ;  e 
querendo   o   generoso   mancebo  ficar   no   exercito, 


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528 

o  velho  e  sizudo  pai,  zeloso  dos  antigos  costumes 
das  leis  militares  e  da  severidade  da  disciplina, 
foi  o  primeiro,  que  protestou  pela  observância, 
escrevendo  a  Pompilio,  que  nâo  consentisse  stu 
filho  na  tropa,  sem  tomar-lhe  segundo  juramento, 
pois  sem  esta  solemnidade  lhe  nâo  era  licito 
peleijar  com   o   inimigo. 

Eis-aqui  o  pezo,  que  tâo  grandes  homens  da- 
vâo  ao  juramento  das  bandeiras.  A  estes  religio- 
sos costumes  e  santas  máximas  de  guerra  deveo 
Roma  a  antonomásia  de  cidade  e  a  gloria  de  ca- 
pital de  todo  o  mundo.  A.  disciplina  lhes  infun- 
dio  valor  ;  e  o  valor  de  seus  grandes  capitães  e 
de  seus  obedientes  e  intrépidos  soldados  levou  as 
águias  romanas  ás  mais  remotas  províncias  do 
mundo. 

Os  soldados  portuguezes,  ainda  mais  que  os 
romanos,  estão  obrigados  a  defender  com  valor, 
constância  e  fidelidade  as  bandeiras  de  seu  corpo 
e  o  guiáo  do  exercito.  Quasi  todas  estas  insí- 
gnias aprescntlo  aos  olhos  as  sagradas  quinas 
de  Portugal  ;  ou  ao  menos  as  cores  tiradas  de 
um  brazâo   dado  pelo  mesmo  Deos,  quando  para 


529 

si  fundou  tão  glorioso  império.  Que  soldado 
liaverA  tio  inf.imc  e  tão  perjuro,  que  antes  não 
quizesse  derramar  o  sangue  e  perder  a  vida,  que 
ver  na  mão  dos  inimigos  abatidas  e  arrastadas 
tão  sagcadas  bandeiras?  Quem  escolheria  antes 
um  captiveiro  nffrontoso,  que  uma  morte  hon- 
rada }  Quem  teria  valor  para  tornar  a  ver 
os  seus  amigos  e  parentes,  infamado  de  tão 
horrenda  cobardia  V  Como  se  atreveria  a  alçar 
o  collo  trilhado  do  jugo,  ou  que  pretendiria 
obrar   com   as   mãos   calejadas   da   soga? 

Nobres  e  muito  honrados  camaradas,  em  vossos 
semblantes  estou  vendo  a  feroz  indignaçSo,  com 
que  detestais  tão  abominável  e  feio  procedimento  ; 
e  talvez  me  reprehendeis  de  lembrar-vos  o  que 
não  ignorais.  Assim  c  ;  mas  o  zelo  de  serviço 
de  Sua  Magestade,  o  amor  da  pátria,  me  fizerào 
esquecer  de  que  fallava  com  Portuguezes  e  coin 
soldados  disciplinados  por  um  coronel,  em  cujas 
illustres  acções  e  generosas  virtudes  tendes  a 
mais  própria  doutrina  da  honra,  do  zelo  e  áo 
fervor,  com  que  deveis  cumprir  com  as  obriga- 
ções de   soldado. 


«7 


a-gj^V^txg' 

530 

Continuai  pois  com  incansável  animo  no  exer- 
cicio  das  armas.  Deste  trabalho  depende  o  bon' 
successo  das  batalhas.  Dcos,  El-Rei  e  Portugal 
vos  entregâo  hoje  aquellas  sagradas  bandeiras 
limpas  da  menor  mancha  de  cobardia  e  infiile- 
lidaJe  ;  e  vede  que  ante  tão  grandes  juizes  haveis 
de  dar  conta  da  gloria,  com  que  vô-las  entregâo. 
Aprendei  a  pelejar  e  a  nào  temer  o  perigo ;  quem 
deseja  a  paz,  prepara-se  para  a  guerra.  K.io  vos 
esqueçais  de  qual  é  a  obrigação,  a  que  vos  liga 
a«te  juramento,  e  se  trouxerdes  presente  sempre 
na  memoria  e  gravado  em  vossos  corações  o  so- 
lemne  acto  deste  prospero  dia,  sereis  verdadeiros 
soldados,  vassallos  de  tão  bom  rei  e  filhos  de 
tão  honrada   pátria. 

Disse. 


,.. IlUlbiill '" -vi :IMIl'<l9 


ORAÇÃO  SEXTA  (i). 


mimosus  „t>iuo  forti^  apliant.. 
HoK.,  Od.  7,  I.il..  U. 


Ainda  que  a  experiência  mo  tenha  repetidas 
vezes  mostrado,  que  a  vossa  benignidade  desculpa 
o;  meus  erros,  confesso,  ò  Árcades,  que  nunca 
recebi  a  incomparável  honra  de  fallar  em  vossa 
presença,  que  me  não  achasse  trespassado  de 
susto  e  possuído  de  uma  confusio  invencível;  mns, 
este  susto  e  esta  confusão  é  certo  que  devia  des- 
amparar-me  quando  chegasse  o  promettido  e  fe- 
liz tempo  de  conseguir  a  Arcádia  a  reforma  da 
poesia  e   da   rhetorica,    isto     é,   quando    vós    íre- 


Ci)  Esta  oração  é  a  primeira  que  se  encontra 
no  Ms.  do  Cónego  Manoel  de  Figueiredo.  Pôde 
ser  considerada  inédita,  pois  só  uma  limitada  parte 
de  acha  trasladada  no  Curso  de  lilleratura  por- 
tui^ueia  do  Snr  Visconde  de  Correia  Botelho,  do 
qual  aproveitamos  as  varias  notas  illustrativ.is 
do    texto. 


532 

quentando  esta  assembléa  completásseis  a  grande 
obra  que  emprehendestes  fundando  esta  Academia 
para  adiantamento  e  utilidade  dos  vossos  compa- 
triotas; quando  eu  aproveitando-me  das  vossas  li- 
ções e  vencendo  a  minha  natural  rudeza  colhesse 
comvosco  o  fruto  de  tão  magnificas  experiências  e 
me  julgasse  tão  perfeitamente  instruído  nestas  di- 
vinas artes,  que  me  atrevesse  sera  pejo  a  combi- 
nar as  suas  solidas  regras  e  a  desempenhar  a  sua 
admirável  theorica  com  uma  felicíssima  pratica, 
como  fazem  os  bons  poetas,  os  verdadeiros  ora- 
dores,  ou  para   melhor  dizer   como  vós  fazeis. 

Mas  todo  o  apparato  desta  magestosa  scena  su- 
bitamente desappareceo.  Vós  não  conseguistes  o 
que  intentastes,  nâo  cumpristes  o  que  promettestes  : 
e  eu  fiquei  como  estava  envolto  em  grossas  nu- 
vens de  ignorância,  mais  cheio  de  temor  e  de  es- 
panto. Dantes  só  temia  a  vossa  critica,  agora 
não  ha  individuo  no  nnmdo  literário,  que  me  não 
pareça  um  Encelado  ou  um  Thifeo.  Assim  como 
o  incauto  piloto  qne  vendo-se  repentinamente 
acommettido  por  uma  negra  tempestade,  entre  o 
alarido  dos  trovões,  os  sibilantes  brados  dos  \en- 


S35 

tes,  os  espantosos  echos  do  mar  e  rasgados  re- 
flexos dos  relâmpagos,  perdendo  o  rumo  e  per- 
dendo o  animo,  espera  que  sobre  o  desamparado 
navio   caia   a   macliina   celeste. 

Mas  esta  súbita  mudança  de  onde  nasceo,  ó  Ár- 
cades ?  Houve  alguma  força  superior  que  fizesse 
tão  violenta  metamorphose  ?  O  publico  zombou 
dos  nossos  escritos?  O  generoso  pastor  Albano, 
fechou-nos  a  porta  desta  cabana  (i)  ?  Tinhanios 
quando  ílorescia  a  Arcadi.i  maior  abundância  de 
cabedaes,  que  facilitasse  a  subsistência  de  tão 
numerosa  companliin,  e  houve  uma  mão  tão  avara, 
que  veio  a  saquear  as  choupanas  do  Menalo?  E  se 
lieide  seguir  esta  metaphora,  que  inundação  de  lo- 
bos degoUou  os  nossos  rebanhos?  Ou  que  pasto- 
res mais  valentes,  nos  lançarão  fora  destes  bera- 
aventurados   montes? 

Parece-me   que   todos   me   respondeis,   que  estas 
conjecturas   são  verdadeiros  sonhos  de  um  doente, 


(i)  D.  losé  1  havia  adoptado  o  nome  acadé- 
mico de  1).  João  V  na  Academia  romana  dos  Ár- 
cades. (Camillo  Castello  Branco,  Ciirs.  litt. 
fort.,    vol.    11,    pag.    176). 


•S»  líííl^l^íií.® 


J34 


são  chimeras  destituídas  não  só  de  realidade  mas 
até  de  verosimilhança.  Mas  os  efFeitos  correspon- 
dem a  uma  destas  causas,  a  Arcádia  eramudeceo  ; 
nossas  flautas  nâo  se  ouvem  ;  o  Menalo  está  in- 
teiramente desamparado,  e  até  me  parece  que 
nós  mesmos  nâo  conhecemos  uns  aos  outros; 
aquella  inestimável  e  boa  harmonia  que  reinava 
não  só  em  nossas  opiniões  e  doutrinas,  mas  até 
em  nossas  almas  e  em  nossos  corações,  aquella 
sagrada  alliança  de  uma  pura  e  sincera  amizade 
estabelecida  em  não  menos  honroso  fundamento 
do  que  no  commercio  das  sciencias,  dos  livros  e  das 
mais  perfeitas  composições  da  eloquência,  desva- 
neceo-se.  Nós  mesmos  (com  quanta  vergonha  o 
confesso)  nós  mesmos  a  alteramos,  a  prostituímos 
e  finalmente  a  relegamos  do  Menalo  :  e  porque 
causa?  Que  insana  allucinação  nos  possuía,  quando 
nos  atrevemos  a  desmantelar  tâo  soberbo  edifí- 
cio ?  Éramos  tâo  fátuos  que  esperássemos  dever 
a  nossa   fama   A   ruína   da   Academia  ? 

Nâo,  Árcades,  ainda  que  esta  appareça,  não 
foi  esta  a  causa,  outro  foi  o  motivo,  e  senão 
menos  desculpável,  certamente  mais   vergonhoso; 


53  S 


íoi  n  nossa  cobardia  e  a  nossa  ambição;  soflrci 
que  vôl-o  diga.  Vjja  o  mundo  que  nem  só  fic- 
ções tem  entrada  na  Arcádia  ;  se  até  fundamos 
r.i  verdade  nossos  poemas  e  nossos  jiensamentos, 
i;ão  vos  deve  escandalisar,  que  sem  lisonja  e 
sem  prevenção  vos  exponha  a  verd.uie  tal  qual 
cu  a  comprehendo ;  e  prouvera  a  Deos  que  vós 
podesseis  reconvir-me  nesta  occasiio,  expulsar- 
r.ie  de  tão  illustre  companhia,  por  haver  adop- 
tado   imposturas. 

A  nossa  ambiçJo  (não  vos  assusteis)  a  grande 
ambição  de  gloria  com  que  nos  sacrificamos  ao 
trabalho  de  tão  profundos  estudos,  foi  quem  nos 
rtduzio  a  tão  extrema  penúria,  foi  quem  execu- 
tou tão  vergonhosa  catastrophe  :  julgamo»  que 
entre  montes  não  cabia  a  nossa  fama  e  quizemos 
cxpôl-a  a  maior  theatro,  e  Deos  que  não  podia 
deixar  de  proteger  nossos  desejos,  emquanto  fo- 
rão  sinceros,  nSo  tardou  em  levantar-nos  a  maior 
altura  de  honra  e  de  estimação.  Apparecemos  aos 
olhos  do  publico,  agradamos,  fomos  ouvidos  ; 
conhecião-se  os  nomes  e  respeitava-se  a  Arcádia. 
Kntão  namorados  de  tão  alta  fortuna,  nos  pare:eo 


536 


mal  tornar  para  um  monte  e  viver  em  cabanas. 
Presidir  n'uma  grande  sala  magnificamente  deco- 
rada, rodeado  de  ouvintes  illnstres,  sábios  e  vir- 
tuosos, que  talvez  conversavâo  nos  successos  da 
campanha,  eraquanto  nós  fallavamos  como  se  nos 
ouvissem  :  ou  estavão  com  o  lapis  notando  pa- 
lavras que  lhe  parecerão  novas,  porque  não  le- 
rão Ferreira  nem  as  toparão  nos  sermões  do 
padre  Vieira  ? 

Cantarmos  nossos  versos  ao  som  de  vima  or- 
chestra  numerosa,  e  talvez  imprópria,  isto  é  que 
julgamos  hor.ra  :  e  uns  homens  que  trajarão  estas 
galas  e  fizerâo  tão  respeitável  figura,  não  devem 
concorrer  mais  em  uma  simples  sala  a  que  cha- 
mamos cabana,  não  devem  contentarse  de  que 
os  ouça  com  attenção  e  louve  sinceramente  quem 
os  conhece.  Isto  é  pouco.  Se  eo  sei,  se  eu  sou 
poeta,  se  eu  sou  orador,  quero  que  me  apontem 
com  o  dedo,  quero  que  todos  me  conheçâo,  e 
isto  se  é  fruto  que  pode  colher-se  em  uma  Aca- 
demia chega  tão  tarde,  que  já  nâo  merece  esti- 
mação. 

Eis-aqni,   senhores,   a  desatinada    soberba  que 


Í37 


se  apoderou  da  nossa  fantasia  ;  até  que  fatiga- 
das nossas  esperanças,  desmaiarão  :  .juebrárão- 
se  nossas  forças  e  concluindo  uma  perfeita  peri- 
pécia. Passamos  do  fausto  para  a  humildade  do 
Estado,  para  a  maior  miséria,  e  cheios  de  um 
abatimento  de  que  sò  nós  éramos  autores,  cruza- 
mos os  braços  e  offerocemos  os  pescoços,  para 
nos  atar  au  jugo  uma  mão,  que  não  se  atrevia 
a  erguer-se  contra  a  Arcádia  :  quero  dizer  derra- 
mou a  inveja,  a  preguiça  e  a  ociosidade  sobre 
nós   todo   o   seu    intolerável   veneno. 

Estes  vicios  com  mais  ou  menos  força  tomarão 
posse  de  nossos  discursos;  uns  dizião  que  a  Arcádia 
não  podia  subsistir  sem  patrocínio,  como  se  fosse 
pouca  a  tutela  de  quem  é  senhora  de  todo  o  mundo, 
dos  astros  e  dos  céos  (i);  outros  julgavão  que  sem 
rendas  cffectivas,  não  podia  conservar-se  uma 
companhia  de  homens  sábios,  porque  sem  um 
escrutínio  de  prata,  se  não  devião  elegtr  Árca- 
des;  outros  que  era   indispensável    fazer   mais  ses- 


(i)  Tomarão  os  Árcades  como  protectora  a  Vir- 
gem Maria.  (Castello  Branco,  Ohracil.,  pag.  i  7S). 

_^    -^    -^ .  — ,  ^-<^i5(^i^®^    _    ^ 


558 

soes  publicas,  porque  este  foi  o  único  objecto  da 
fundação  dl  Arcádia,  ainda  que  tal  não  lembrovi 
aos  fundadores  ;  outros  finalmente,  que  não  po- 
dia subsistir  uma  sociedade,  sem  se  effeituar  .1 
impressão  de  suas  obras,  pois  sem  este  pennacho 
ninguém  podia  fazer  bem  versos,  nem  exercitar- 
se  na  arte  de  persuadir,  e  que  o  publico  queria 
ver  com  vagar  e  com  seus  próprios  olhos  os 
nossos  defeitos,  que  para  satisfazermos  tão  sin- 
cera vontade,  devíamos  á  custa  da  nossa  repu- 
tação, fazer-lhe  este  gosto.  Para  isto  é  que  se 
fundarão  Academias,  e  sem  isto  depressa  acabão 
ou  se   arruinão. 

Se  estes  ridículos  pensamentos  não  achassem 
acceitação  e  talvez  applauso  entre  dòs,  porque 
passaria  tanto  tempo  sem  nos  ajuntarmos,  por- 
que não  haverião  sessões  ?  Para  que  desprezaría- 
mos tão  honrado  exercício  e  nos  esqueceríamos 
do  que   promettemos  á   pátria? 

Envergonhemo-nos,  senhores,  da  reprehensivel 
cobardia,  de  tão  culpável  indolência.  Contente- 
mo-nos  com  o  que  cabe  era  nossas  forças,  que 
não  é   pouco   vermo-nos   livres  de   credores,  e  de 


l!li>l(!li»...illh.>lhtii....illlhitllt>i»-.4lfl)nlllh ifl:arllH»..,n()titlllii..««lhi/s..->'ll 


5  39 


credores,  que  talvez  imaginassem,  que  não  sò 
lhes  deveríamos  a  fama  mas  até  os  eutendimeu- 
tof:.  Não  é  pequena  a  gloria  de  merecermos  grande 
applauso   e   sabermo-lo  desprezar. 

Tempo,  tempo  virá  em  que  cheguem  os  echos 
do  nosso  merecimento  aos  ouvidos  de  quem  o 
estima,  de  quem  o  conhece  e  de  quom  o  proteje  (i), 
ainda  quando  o  descobre  desvalido,  pobre  e  despre- 
zado. Já  nós  ouvimos  da  sua  bocca  promessas  qua 
não  hão  de  faltar,  e  foi  a  nossa  cobardia  quem 
deixou  fugir  a  occasião.  Cuidemos  era  merecer 
o  premio,  que  é  mais  fácil  consegui-lo,  do  que 
merecc-lo  :  e  ordinariamente  o  deseja  quem  o 
não  merece.  A  .\rcadia  fundou-se  para  adianta- 
mento d.is  bellas  lettras,  e  não  para  fazer  osten- 
tação de  talentos,  para  divertir  o  pubblico,  ou 
para   dar   que    fazer   aos   prelos. 

Porém,  Árcades,  que  força  do  enthusiasmo  me 
obrigou  a  fazer  uma  declaração,  estando  obrigado 
a  discutir  hoje   nesta   assembléa  algum   ponto  d* 


(i)  AUude  ao  conde  de  Oeiras.  ("Castello  Bran- 
co,   obra   cit.,    pag.    179). 


.li'-  "  a> 


J40 

rhetorica  ou  de  poesia?  Quem  faz  caso  dos  meus 
clamores,  ou  quem  não  conhece  que  eu  sou  cúm- 
plice dos  mesmos  delictos,  de  que  me  faço  ac- 
cusador,  e  talvez  juiz  ?  Assim  é,  senhores,  mas 
se  não  houver  quem  advirta  estes  abusos,  quem 
advogue  pela  causa  commum,  ficará  a  Arcádia 
eternamente  sepultada  em  tão  feio  lethargo.  Eu 
não  vos  crimino,  nãc  vos  accuso,  choro  e  quero 
lamentar-me  convosco,  quero  comvosco  prantear 
a  nossa  desgraça,  quero  lembrar-vos  que  promet- 
testes  ensinar-me,  quando  me  chamastes  para 
esta  sociedade.  Não  posso,  não  sei,  não  me  atrevo 
a  concorrer  para  a  ultima  ruina  da  boa  fama  e 
solida  reputação  que  tínhamos  adquirido  entre 
os  nossos  compatriotas.  E  que  matéria  mais  di- 
gna de  ser  tratada  por  um  Árcade  não  só  zeloso 
da  honra  da  Academia,  mas  até  da  gloria  da  na- 
ção ?  E  se  devo  com  effeito  tratar  de  alguma 
regra  de  poesia,  farei  uma  pequena  reflexão  sobre 
as  qualidades  e  natureza  da  peripécia,  alma  da 
tragedia. 

A  peripécia  é  uma  súbita    mudança  do  estado 
prospero  para  ura   abj-smo  de   misérias  e  de  hor- 


*- "^ '*^^-^^t^**' ^ ^ 

54' 

rores.  Assim  Qidipo,  rei  de  Thebas,  marido  de  Jo- 
casta,  venerado  por  sábio  e  Iionrado  cora  o  itlus- 
tre  nome  de  libertador  e  pai  de  seus  vassallos, 
possuido  de  uma  vehemente  ambição  de  conser- 
var este  inestimável  titulo,  vendo  devastar  aquella 
populosa  cidade  uma  voraz  e  inexorável  peste, 
tanto  examina,  tanto  se  obstina  e  a  tanto  se 
atreve,  que  o  mesmo  ardor  da  sua  curiosidade 
o  precipita  em  um  pélago  de  angustias,  de  mal- 
dições e  de  remorsos  :  acha-se  marido  de  sua 
mãe,  filho  de  sua  esposa  e  irmão  de  seus  mes- 
mos filhos.  Autor  da  ruina  da  pátria,  objecto 
da  ira  divina,  réo  de  suas  mesmas  imprecações, 
execrando,  abominável,  impio  e  prófugo,  arranca 
oí   próprios   olhos   e   foge   de   Thebas. 

Eis-aqui  a  mais  perfeita  peripécia  que  vio  o 
theatro  de  Athcnas,  e  que  talvez  veriio  os  de 
todo   o   mundo.   Quereis   outro   exemplo  ?... 

Mas,  senhores,  que  matéria  escolhi  para  a 
minha  oração  ?  Que  estranha  força  torna  a  pôr- 
me  a  Arcádia  diante  dos  olhos  ?  E  que  fatal 
exemplo  da  inconstância  da  fortuna  me  nSo  re- 
presenta   o    torpe   esquecimento   com     que    temos 


';■•". "M  ',l»''-.,/  ■ liiii-lll wm'- 


542 

tratado  os  progressos  e  vantagens  da  Arcádia  ? 
Quem  nâo  esperaria  que  uma  companhia  tâo  nu- 
merosa, composta  de  sujeitos  tâo  dignos  da  pu- 
blica estimação,  havia  de  ser  durável  a  havia  . 
conservar-se  apezar  do  génio  da  nação  ?  App.i- 
receo  em  triumpho  :  louvou  o  maior  dos  reis  e 
o  maior  dos  ministros  :  e  foi  louvado  pelo  maior 
dos  reis  e  pelo  maior  dos  ministros  e  guiada  por 
sua  mesma  vaidade,  cahio  no  estado  da  miséria. 
Os  seus  próprios  filhos,  os  seus  maiores  amigos, 
todos  fugirão,  todos  a  desampararão,  quebrando- 
ihe  as  forças  e  esquecendo-lhe  o  nome  os  mes- 
mos, que  o  receberão  d'ella. 

Ha  espectáculo  mais  digno  da  nossa  commisera- 
ção,  ou  painel  mais  capaz  de  provocar  o  nosso 
pranto,  ou  finalmente  mais  trágico  exemplo  e  mo- 
delo de  uma  perfeita  peripécia  ? 

Contemplai,  ó  Árcades,  o  apparato  desta  scena 
e  se  sois  Portuguezes,  se  amais  as  sciencias,  se 
desejais  adquirir  um  nome  honrado,  não  desam- 
pareis a  Arcádia  ;  continuai  as  vossas  sessões,  nâo 
desanimeis,  que  nos  perigos  é  que  se  conhecem 
as  almas  grandes;  na   força  da  tormenta  é  que  o 


543 


coração  illustre  deve  mostrar-se  forte.  Se  com 
tUeito  ha  alguma  força  que  nos  opprima,  o  que 
iKio  devemos  crer,  agora  é  qne  estamos  obriga- 
dos a  desempenhar  nossa  palavra,  a  mostrar-nos 
íonstantes,  fortes  e  animosos.  Zombaremos  da 
inveja,  pisaremos  a  ambição,  triumpharemos  da 
cobardia,  renascerá  a  Arcádia,  renascerá  a  vossa 
fama. 


Jk. 


r)l]llll1[ri.„..ill]lirill 


—    »*p 


I*!*!*! 
*<i'* 


W^^^y^ 


ORAÇÃO   SÉTIMA  (i). 

Se  a  primeira  vez,  ó  Árcades,  que  vós  me  obri- 
gastes a  orar  em  publico  neste  solemne  dia,  não 
tivesse  exposto  em  forma  de  dissertação,  os  tex- 
tos, os  decretos  pontifícios  as  autoridades  dos 
Santos  Padres,  e  as  resoluções  des  concílios,  que 
alem  da  devoção,  e  pode-se  dizer  instincto  portu- 
uuez,  nos  obrigSo  a  jurar  e  defender  o  altíssimo  m y- 
sterio  da  Immaculada  Conceição  da  Puríssima  Pa- 
droeira da  Arcádia,  pôde  ser  que  ainda  hoje  não 
escolhesse  a  melhor  parte  da  matéria  que  deve 
fazer  minha  oração  digna  de  vossos  ouvidos,  ca- 
paz  de   persuadir,   bastante   para   mover   o   animo 

(i)  Esta  segunda  Oração,  inserta  no  Ms.  de 
Figueiredo,  diz  o  Snr  Visconde  de  Correia  Bo- 
telho, que  a  trasladou  em  parte,  haver  sido  re- 
citada em  1758,  terceiro  anuo  da  tundaçâo  da 
Arcádia.  (Castello  Branco,  Curs.  litl.  port., 
tomo   II,   pag.    166). 

69 


546 

do3  circurnstantes,  cheia  de  energia,  de  grandeza, 
de  magnificência  e  de  respeito.  Muitos  dos  quc 
primeiro  do  que  eu  fallárâo  neste  lugar,  com  pro- 
funda erudição,  com  solida  doutrina  e  com  viril 
estylo,  sustentarão  a  justiça  da  causa  e  defendêrSo 
a  l'.onra  da   Senhora. 

Faltava  quem  tomasse  sobre  seus  hombros  o  hon- 
rado peso  de  render  as  graças  pelos  recebidos 
beneficies  era  norr*;  de  toda  a  Arcádia,  a  inefável 
protectora  de  nossos  estudos,  cujo  santo  patrocí- 
nio visivelmente  brilha  nas  gloriosas  acções  du 
Academia,  no  adiantamento  da  poesia  portugueza, 
na  acceitaçlo  do  publico,  no  amparo  de  um  mi- 
nistro, prudente  e  sábio,  e  no  favor  dfo  melhor 
dos  príncipes,  de  nosso  augusto  e  clementisso  so- 
berano. Faltava  quem  confessasse  o  que  devemos, 
faltava  quem  rompesse  um  silencio  que  poderia 
accusar-nos  de  ingratos,  ainda  que  produzissemos 
em  nossa  defeza  ou  a  impossibilidade  do  agrade- 
cimento,  ou   a   grandeza   do   beneficio. 

Tínhamos  fundado  uma  sociedade  debaixo  do  aus- 
picio e  da  tutela  da  Senhora,  víamo-la  triumphar 
da  inveja,   e  o   que   mais   é,   rebatendo  iníquas  ac- 


547 


cusações  dissipar  o  estranho  systema,  com  que  o 
máo  gesto  tinha  envilecido  a  nobreza  das  bellas 
arícs.  Resuscitou  a  poesia  verdadeira ;  restaurou- 
se  a  boa  eloquência  e  ainda  não  havia  entre  nós 
qacni  publicamente  tivesse  erguido  as  mãos  ao 
còo  e  renicsse  as  devidas  graças  a  nossa  Immacu- 
lada  Padroeira,  quem  confessasse  ingenuamente, 
e  na  face  de  todo  o  mundo,  que  os  Árcades  ní») 
■onfião  em  suas  força^,  mas  sim  no  celestial  pa- 
irrcinio  que  escolherão,  que  os  guarda  e  que  os 
anima. 

A  importância  desta  causa  pedia  melhor  advo- 
gado, mas  a  grandeza  da  matéria  falia  por  si 
mesma,  não  depende  dos  auxílios  da  rhetorica  : 
successos  tão  incontestáveis,  como  maravilhosos, 
ainda  narrados  sem  artificio,  persuadem,  interessão 
e  arrebatão. 

Parece-me,  ó  Árcades,  que  não  pôde  haver  mais 
BNCcUente  ideia  do  reconhecimento,  do  que  a  sim 
pies,  mas  fiel  narração  dos  benefícios.  Esta  má- 
xima que  ainda  nos  lugares  cm  que  entra  a  li- 
sonja seria  agradcvtlmente  recebida;  quando  ?'e 
trata  de  agradecer  favores  que    recehen-.os  do  cén. 


548 

é  o  único  e  o  mais  elegante  modo  de  publica  e 
solemnemente  nos  confessarmos  e  de  nos  mos- 
trarmos obrigados.  E,  com  effeito,  quem  será  tão 
bárbaro,  que  olhando  para  os  progressos  da  Arcá- 
dia, não  reconheça  que  só  a  força  de  tão  alta 
protecção  podia  adianta-los,  ou  para  melhor  dizer, 
corôa-los  com   tanta   honra   e   com    tanta    gloria. 

Se  fitarmos  nossas  reflexões  no  estabelecimento 
desta  sociedade  e  ponderarmos  os  terriveis  em- 
baraços que  foi  preciso  vencer,  ficaremos  persua- 
didos, que  não  houve  circumstancia  que  deixasse 
de  parecer  milagre.  O  tempo,  o  lugar,  a  diffi- 
culdade  da  empreza,  a  magnificência  da  ideia, 
tudo  pedia  un  braço  mais  forte  de  que  os  nos- 
sos e  uma  constância  invencível  e  extraordinária  ; 
e  quando  parecia  que  a  planta  ainda  estava  na 
mão,  vimos  levantadas  as  soberbas  columnas  e 
sobre  ellas  fechadas  as  vastíssimas  abobadas  deste 
maravilhoso   edifício. 

Sofifrei,  6  Árcades,  que  para  melhor  mostrar  a 
nossa  felicidade  me  lembrem  antigas  calamida- 
des, á  semelhança  do  experimentado  piloto  que 
para  bem   calcular   a   sua   derrota,  se  não  esquece 


IS^ÍÍ^^,' 


^^^J^  ^ 

S49 

Jl-  marc.ir  o  porto  donde  levantando  o  ferro  c 
desfrald;snJo    as    velas,    principiou    a   viagem. 

Perdidas  e  derrotadas  em  Atrica,  com  a  gloria 
das  armas  portuguezas  nossas  altivas  esperanças, 
principiou  a  quebrantar-se  o  génio  forte  da  nação  : 
apagou-se  a  honra  da  ambição  de  :;Ioria  que  até 
aquella  desastrada  época  nos  tinha  feito  trium- 
phadores  e  invencíveis.  Caliirão  os  ânimos,  enfra- 
quecerão-se  as  mãos,  como  de  quem  já  as  desti- 
nava para  as  algemas.  Ainda  entre  as  cinzas  bri- 
l!;avao  de  quando  em  quando  algumas  relíquias 
da  perdida  grandeza  daquelles  bemaventurados 
dias,  até  que  finalmente  cahindo  sobre  nós  a  força 
d.i  tyrannia  nos  vimos  sujeitos  a  um  rei  estranho, 
ou  para  melhor  dizer,  a  um  usurpador,  sem  fa- 
zenda, sem   honra   e   sem   liberdade. 

Estas  successivas  desgraças  ao  mesmo  passo 
que  embotarão  as  armas  e  opprimirão  as  forças 
da  monarchia,  afugentando  as  boas  artes  até  ali  esti- 
madas e  conhecidas  em  Portugal,  introduzirão 
tão  estranha  desordem  nas  escolas,  que  em  pou- 
cos annos  perdeo  a  poesia  portugueza  seu  antigo 
génio.  A  nobre  simplicidade,  a  pureza   da   phrase, 


r  ^>  *  1B»  *  O  * 


*"^ífâ»âÍ^^ 


^-íí^!^5í>^ 


a  verosimilhança  dos  pensamentos,  o  raaravilhoso 
das  ideias  e  energia  das  figuras,  tudo  foi  tratado 
com  desprezo.  Jactava-se  a  barbaridade  daquelles 
tempos  que  assim  sacudio  o  jugo  das  regras  ni- 
miamente austeras,  e  que  só  serviâo  de  opprimir 
a  força  do  espirito.  Tão  prolixos  erio  em  pontos 
de  liberdades  uns  homens  que  arrastavâo  grilhões  ! 
Correo  o  tempo  e  chegou  o  grande  instante 
de  quebrarem  os  Portuguezes  os  cepos  em  que 
gemiâo.  Subio  ao  throno  um  legitimo  herdeiro 
do  sceptro  e  das  virtudes  de  D.  Affonso  Henri- 
ques ;  mas  o  que  era  até  entio  effeito  da  misé- 
ria e  do  captiveiro,  veio  a  ser  consequência  da 
alegria.  A  teimosa  guerra  com  que  nos  vimos 
obrigados  a  rebater  a  fúria  dos  Hespanhoes  ainda 
nâo  permittia  que  entre  o  rnido  das  armas  e 
motim  dos  tambores  se  desse  ouvidos  .á  harmonia 
das  musas  :  continuava  a  decadência.  Ajustou-se 
a  paz,  socegarilo-se  os  ânimos,  mas  estava  tão 
inveterado  o  contagio  que  se  houve  quem  o  in- 
tentou, náo  houve  quem  nâo  desesperasse  da  res- 
tiuraçito  das  bellas  letras,  das  artes  e  das  sciencias 
em   Portugal. 


o  negocio  eru  tão  iir.port.uue  c  Je  tão  difficil 
cxito,  que  nem  ainda  o  grande  espirito  e  pró- 
diga mão  do  magnifico  U.  João  o  V  poude  con- 
.-eguir  mais  do  que  lançar  os  primeiros  funda- 
n.entos;  estimou  os  sábios,  premiou  os  mestres 
e  enriqueceo  as  livrarias  do  reino  e  fundou  a 
real  Academia  da  Historia.  Roubou-lhe  a  morte 
esta  gloria,  quando  principiava  a  amanhecer  em 
Portugal  as  primeiras  luzes  do  bom  gosto,  da 
verdadeira  erudição   e   da   prudente   critica. 

Devemos  alegrar-nos  de  ser  incontestável  que 
o  primeiro  documento  cm  que  podemos  fixar  a 
cpoca  desta  restauração,  c  o  papel  critico  que 
compoz  e  imprimio  o Krcade  Sincero  JerahriciiscÇi'). 
K  verdade  que  alguns  espirites  mais  fortes,  ten- 
tarão esta  emprcza  ainda  hoje  árdua,  e  então  im- 
possível ;   mas    como   nas     primeiras   escolas     rei- 


(i)  José  Xavier  de  Valladares  e  Souza.  Gar- 
ção reporta-se  ao  opúsculo  d'aquelle  escriptor  : 
Exame  critico  de  uma  Svlva  poctica  fiiía  A  morlc 
(Li  Screnissima  Senhora  Infanta  'D.  Francisca,  IJ)'). 
Era  autor  da  Sylva  Caetano  |osc  da  ^alva  Souto 
Maior,  antonomasticamente  o  Camões  do  lipcio. 
(Obra   cit.,    nota   a    pag.    169). 


\^^r\^7~\^ — \^    \>    \r    \/     \x    N/     v/    v/, 
Ty\ 'yx»    r\^y\     ^\     f\     /\    xy.    ^\     /\ 


552 


nava  um  certo  espirito  de  opinião,  que  soberbamente 
sustentava  o  partido  do  máo  gosto,  o  verdadeiro 
methodo,  ou  se   nSo  conhecia,  ou  se  desprezava. 

Fundarão-se  Academias,  algumas  permanecerão, 
mac  sem  mais  fruto  do  qne  o  de  propagarem  o 
contagio.  Mos  últimos  annos  do  prospero  reinado 
de  D.  João  o  V  apparecèrào  os  primeiros  crepúscu- 
los do  bom  gosto.  Já  então  a  Sociedade  dos 
Occultos  estabelecida  em  um  palácio  em  que 
sempre  habitarão  as  musas  e  fundada  por  um 
génio  extraordinário,  herdeiro  nâo  só  do  sangue, 
mas  também  dos  raros  talentos  e  virtudes  de  seu? 
eruditos  progenitores  (i),  trabalhava  neste  tempo 
na  restauração  da  lingua  portugueza,  do  est\'lo 
e  da  boa  poesia.  Poderia  ser  qne  a  ella  se  devesse 
toda  a  gloria  se  a  publica  desgraça  nâo  sep.i- 
rasse  tâo   útil   e  tâo  sabia   companhia  (2). 

Em  um  tempo  de  calamidades  e  de  afflicções 
quando  parecia  que  os  Portuguezes  só  tratavâo 
de  reedificar   Lisboa    e  de  restabelecer    os    seus 


(i)  AUude  a  D.  Francisco  Xavier  de  Mene- 
res,   quarto   Conde  da   Ericeira.  (Idem,   ibidem). 

(2)  Refere-se  ao  terremoto  de  175  S-  (Idem, 
ibidem). 


553 

particulares  interesses,  quando  seria  JesculpavL-l 
que  as  musas  fugissem  do  nosso  continente, 
quando  se  julgaria  que  as  artes  jazião  sepultadas 
nas  ruinas  da  cidade,  n'iima  palavra,  quando  era 
impossível  tratar  da  restauração  das  sciencias, 
então,  ó  Árcades,  chegou  o  feliz  instante  de  nos 
ajuntarmos,  entío  fundamos  esta  sociedade,  ju- 
rando padroeira  delia  a  Immaculad.i  Rainha  dos 
céos  e  da  terra,  debaixo  do  inefável  titulo  da 
sua  puríssima  Conceição.  Cada  um  de  nós  jurou 
o  sagrado  mystcrio  e  embraçado  este  impenetrá- 
vel escudo  nos  apresentamos  no  campo,  confia- 
dos entramos  na  peleja,  e  nâo  tardou  muito  a 
victoria. 

É  bem  natural,  ò  Árcades,  e  bem  digno  de  co- 
rações portuguezes,  a  publica  confissJo  de  que 
esta  vantagem  a  devemos  toda  ao  sagrado  patro- 
cínio da  Sv-nhora.  Olhemos  para  os  successos  que 
forão  consequências  desta  nossa  venturosa  escra- 
vidão: adoptamos  o  systema  da  critica  pheno- 
meno  litterario,  se  lhe  posso  assim  chamar,  que 
era  em  Portugal  espantoso  prognóstico  de  desas- 
tres,   e    que    não   era   visto    entre    nós   com  menos 


70 


^^^» 

554 

susto  do  que  um  eclipse  entre  os  Godos,  veio  a 
ser  recebido  com  sereno  rosto,  veio  a  ser  de- 
sejado. Conheceo-se  que  esta  era  a  estrella 
q<ie  nos  devia  guiar,  e  que  sem  as  luzes  da  cri- 
tica nâo  podia  descobrir-se  o  verdadeiro    gosto. 

Persuadimo-nos  de  que  era  amizade  e  não  ódio 
a  reciproca  correcção  de  nossas  obras;  e  quem 
txpunha  ao  publico  os  seus  escriptos,  sem  lhes 
dar  com  esta  lima  o  ultimo  polimento  sujeitava 
o  seu  nome  ao  desprezo  do  mundo.  Conhecemos 
que  sem  imitar  os  antigos  era  impossível  enrique- 
cer nossas  composições  das  infinitas  bellezas  poé- 
ticas que  descobre  a  cada  passo  qnem  frequenta 
a  lição  dos  Gregos  e  dos  Latinos:  e  que  neste 
dictame  de  Horácio  consistia  o  maior  segredo  do 
bom  gosto.  Principiamos  a  familiarisar-nos  com 
Homero,  com  Sophocles,  com  Virgílio  e  com  Te- 
rêncio; e  estes  nomes  que  entre  nós  erão  estra- 
nhos, e  unicamente  serviáo  nas  dedicatórias,  pas- 
sarão a  ser  os   Ídolos  de  nossos  estudos. 

E  que  devíamos,  ò  Árcades,  esperar  de  tão  sú- 
bita e  feliz  mudança?  Ganharão  as  nossas  obras 
uma  nova   reputação.   Conciliou   respeito  o  nome 


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de  Árcade  e  desejou  o  publico  assistir  ás  nos- 
sas conferencias  :  atrevemo-nos  a  louvar  um  prín- 
cipe, a  quem  Plinio  podia  sem  lisonja  recitar  o 
famoso  panegyrico,  que  fez  a  Trajano.  O  mesmo 
foi  ouvirem-nos,  que  estimarera-nos,  os  homens 
mais  sábios  e  mais  prudentes.  OlhárSo  para  o 
fruto  do  nosso  trabalho  como  para  uma  vanta- 
gem da  na;ão,  e  a  grande  alma  daquelle  vigi- 
lante ministro  que  nâo  tira  as  olhos  do  adian- 
tamento da  pátria  com  publicas  demonstrações 
nos  honrou,  e  nos  animou  para  nJo  desistir- 
mos da  diííicultosa,  mas  illustre  empreza,  a  que 
sacrificávamos  os  nossos  estudos.  Segunda  vez  nos 
ouvio,  segunda  vez  nos  honrou  :  de  sua  mesma 
bocca  ouvimos  nós  expressões  com  que  em  Por- 
tugal  nSo   costumSo   fallar  os    ministros. 

Podemos  asseverar  que  vimos  aquelle  grande  CO- 
raçJo  cque  nelie  estava  vivamente  impresso  o  incan- 
sável zelo  com  que  trabalha  pelo  bem  de  seus  com- 
patriotas, com  que  honra  e  com  que  estima  os  Por- 
tuguezes  beneméritos.  Nâo  tardar.V  muito  que  o  pu- 
blico coiihfça,  que  este  género  de  letras  lhe  merece 
uma  seria  protecçSo,  que  as  estima  porque  as  conhece. 


®í:SSÍS^S5í>S 


Entre  tSo  consideráveis  benefícios,  nâo  é  justo, 
ó  Árcades,  que  eu  me  esqueça  de  recordar  um 
que  devemos  reputar  entre  os  maiores  e  que  p6de 
ser  seja  elle  a  alma,  digamo-lo  assim,  de  todos 
os   distinctos   progressos  desta  sociedade. 

Bemdita  sejais,  Immaculada  Senhora,  que  vos 
dignastes  de  inspirar-nos  uma  constante  uniSo. 

Esta  virtude,  ò  Árcades,  é  uma  das  maiores 
graças  que  devemos  as  patrocinio  da  Senhora. 
As  discórdias,  o  rancor,  a  inveja,  vicios  que  or- 
dinariamente nasciâo  no  berço  das  Academias  e 
sociedades  portuguezas,  estes  vicios,  digoeu,  nunca 
apparecêrâo  na  nossa  Arcádia.  A  sinceridade  dos 
costumes,  de  que  nos  revestimos,  repugnava  a 
tSo  feio  e  pernicioso  génio  :  a  modéstia,  a  sin- 
ceridade, a  boa  fé,  sâo  os  rudimentos  de  fa- 
culdades tâo  nobres,  como  a  poesia  e  como  a 
rhetorica  ;  sJo  os  primeiros  talentos  que  devem 
brilhar  nos  sujeitos  que  ou  se  ajuntâo,  ou  se  es- 
colhem para  ser  os  membros  de  uma  sociedade  : 
a  prudência,  a  civilidade,  a  tolerância,  são  as 
estimáveis  partes  de  que  se  compõe  o  caracter 
de  um  bomem   académico. 


557 

O  amor  e  veneração  de  seus  companheiros  ó 
a  distincção  dos  sábios:  estas  virtudes,  estes  ra- 
ros talentos,  é  verdade,  que  pela  mesma  lição 
dos  livros  se  aprendem,  e  se  conservão  ;  mas 
.itrevo-me  a  asseverar,  que  vós  estais,  6  Árcades, 
seriamente  persuadidos,  que  vè-Ios  tão  geralmente 
praticados,  e  tão  honradamente  estimados,  é  um 
milagre  que  tão  visivelmente  deveis  á  protecção 
santíssima   da  Immaculada  Padroeira   da   Arcádia. 

His  aqui,  ó  Árcades,  os  preciosíssimos  favores 
c  inestimáveis  mercês  que  devemos  ao  pattoci- 
nio  da  Senhora  :  eis  aqui  a  origem  de  todas  nos- 
sas felicidades;  astro  que  anima  nossas  espe- 
ranças. Tomamos  sobre  nossos  hombros  debaixo 
de  tão  santo  auspicio  o  formidável  peso  de  res- 
t.uirar  a  boa  poesia  e  a  grande  eloquência: 
conseguimos  o  que  desejávamos.  Estudão-se  c 
praticão-se  nesta  sociedade  as  verdadeiras  leis 
la  tragedia  e  da  comedia  :  a  poesia  melica, 
t:into  Ivrica  como  dithyrambica,  está  restituída 
\  sua  natural  magnificência  ;  a  nobre  simplici- 
dade da  bucólica,  da  écloga,  e  dos  id^-Uios,  tem 
bastantes  exemplas  em   vossas   composições  ;   a  sa- 


S-«5gJ^»-s 


""q]J"i|]i"l|)l'"'""" ""ym-";:  ■         '" ■j)pni|iiiai'~ «"ty^ 

Illi*«lllt.,„. Illmllhil!!;:  ■ '"■* _ Jlu» 


tyra,  nJto  aquella  satyra  grosseira  e  infame  que 
expõe  ao  riso  do  povo  os  defeitos  de  nossos 
compatriotas,  mas  sim  a  satyra  urbana,  aquella 
que  ataca  os  vícios,  que  os  reforma,  e  que  com 
a  sua  casta  alegria  ensina  as  máximas  da  boa 
ethica,   é  bem   familiar  aos  nossos  ouvidos. 

A  rlietorica  em  todos  os  trez  géneros,  se  vè 
felizmente  exercitada  nesta  Academia.  Bem  evi- 
dente ficou  esta  verdade  depois  que  o  nosso  de- 
mentissimo  soberano,  querendo  reformar  as  esco- 
las do  reino,  tirou  de  entre  nòs  para  mestres 
de  eloquência  alguns  Árcades;  a  lingua  está  res- 
tituída á  sua  natural  enérgica  pureza,  abundân- 
cia e  magnificência  :  n'  uma  palavra,  a  Arcádia 
chegou  ao  cume  da  sua  felicidade,  venceo  o  gé- 
nio da   nação   e   triumphou   da  inveja. 

Soberana  Rainha  dos  céos  e  da  terra.  Padro- 
eira da  Arcádia,  pura  e  immaculada  ;  a  Arcádia 
publica  e  solemnemente  vos  rende  as  devidas 
acções  de  graças  pelos  benefícios  recebidos,  e  se 
podesse  também  vô-los  agradeceria  :  jura  e  pro- 
raette  de  sempre  defender  a  justiça  da  vossa 
causa,  da   vossa  honra  e  da   vossa   gloria,  confi.1 


©"««ÍJg^íS^íS 


559 

cm  o  vosso  patrocínio,  espera  ii3o  dosraerecc-lo , 
sacrificando  todas  as  suas  forças  ao  bem  publico, 
ao   credito   da   nação   e   á   honra  do  principe. 

Acceitai,  Senhora,  os  nossos  votos,  ampanai 
o  nosso  trabalho,  fazei  nossas  composições  di- 
gnas de  vosso  patrocínio,  capazes  de  louvar-vos 
e   de   defender-vos. 


',.lSiiX.Siil»iSiíI.Si.ii!iiiS.,l»' 


««« 


ORAÇÃO   OITAVA  (i). 


A  protecção  Je  Deus,  que  tantas  vozes  experi- 
mentou o  reiuo  de  Portuga!,  nunca  foi  mais  vi- 
sível do  que  agora  que  evidentemente  nos  mos- 
trou que  erguia  para  guardar  as  reaes  virtudes 
de  V.  M.  o  mesmo  omnipotente  braço  com  que 
fundou  para  si  este  glorioso  Império,  salvou-nos 
a  necessária  e  preciosa  vida  de  V.  M.  rebatendo 
os  golpes  do  mais  execrando  e  abominável  par- 
ricidio;    dissipou  a  feia  tempestade  que  esteve  im- 


(i)  Terceira  e  ultima  do  Ms.  esta  oraçío  foi 
a  que  soííreo  as  emendas  e  mutilações,  a  que  se 
referio  Figueiredo  no  prefacio  da  cuidadosa  coUec- 
vão,  attribuindo  ao  facto  a  esquivança  do  poeta 
em  dar  publicidade  ás  suas  producções.  (Vide  lu- 
trodncção  deste  livro).  Q.uaes  fossem  as  arguidas 
alterações  elle  mesmo  as  indicou  e  nós  as  con- 
signamos nos  lugares  próprios,  aqui  transcrevendo 
a    nota   com    que    as   encerrou: 

n    Estas   forão    as   i^mendas    que     se     pozerâo    e 

'^^^^^^^    -  -      -  -      -  ■      ~  •       - 


56* 

minente  a  Portugal  e  o  raio  que  vimos  acceso  so- 
bre nossas  cabeças  apagoii-se,  desfez  se  em  fumo, 
desappareceo !  Arrancou  das  mãos  dos  traidores 
o  ferro  e  o  fogo  com  que  se  armavâo  para  as- 
solar a  pátria  (i),  queimar  as  cidades,  demolir  os 
templos,  profanar  os  altares,  abolir  as  leis  mais 
santas  e  sacrificar  a  seus  perniciosos  interesses 
o   sangue  de   innocentes   compatriotas. 

Este  e  nâo  outro  era  o  plano  de  tão  horrenda 
conjuração;  este  foi  o  projecto  que  forjarão  (2)  as 


com  as  quaes  só  se  dava  a  licença  para  impri- 
mir-se  por  despacho  de  29  de  julho  de  1759. 
Cala-se  por  respeito   o   tribunal  e  os  juizes,   a 

A  esta  oração  parece-se  referir-se  Innocencio 
dando-a  como  recitada  em  uma  das  salas  do 
Real  Hospício  de  N.  Senhora  das  Necessidades, 
em  obsequio  ás  melhoras  de  S.  M.  F.  o  senhor 
D.  José  I  experimentadas  depois  do  attentado 
de  3  do  setembro  de  i"$7.  Digo  parece  porque 
as  expressões  iniciaes  nâo  sào  as  mesmas,  o 
assumpto  porém  é  aquelle  próprio  facto,  (Vide  In- 
nocencio,   'Dicc.   bibl.   art.   Garção). 

(l)  Em  lugar  das  palavras  —  com  que  se  ar- 
mavâo para  assolar  a  pátria  —  se  emendou, 
que  podia  não  soinenle  assolar...  mas  chegar  a  de- 
molir, 

(j)  Em  lugar  das  palavras  —  este  foi  o  plano 
de  »ío  horrenda  conjuração  ;   este   foi   o   projecto 


^^__^       ^^^  ■  "■  ■ "  ■■ 1 

sacrílegas  máximas  do  ódio,  da  liypocrisia,  da 
ambiçSo  e  da  soberba.  Mas  amparou-nos  o  céo, 
escaparão  (i)  as  nossas  vidas,  as  nossas  honras  e 
as  nossas  fazendas;  ainda  ha  Lisboa;  ainda  te- 
mos  rei;    ainda   temos   pai. 

Eis  aqiii,  senhor,  o  inestimável  bem  e  o  evi- 
dente (2)  milagre,  que  os  Portuguezes,  como  fieis 
e  legitimes  vassallos  de  V.  M.  celcbrão  com  in- 
cessantes votos  em  todas  as  igrejas  :  alli  humi- 
lhados á  roda  dos  altares  na  presença  do  Altís- 
simo, com  as  mSos  erguidas,  com  os  olhos  cheios 
de  lagrimas  e  os  rostos  de  alegria,  jurando  sua 
antiga  fidelidade,  agradecem  em  repetidos  cânti- 
cos de  jubilo  e  soleranes  acções  de  graças  a  mi- 
lagrosa conservaçjo  da  sacratíssima  pessoa  de 
V.  M.  Nas  casas,  nas  ruas  e  nas  praças,  em  toda 
parte  sòa   o   grande  nome  de  V.  M.,  repetido  com 


que  formárjo  —  corrigio-se  :  estes  os  tristes  sue- 
ccssos   que  poderião  produzir. 

(\)  A'  palavra  —  escíipar'io  —  substituiráo, 
livramos. 

(2)  A'  palavra  —  evidente  —  substi  tu  ir.ío, 
visivcl. 


>  »Att  í>**  >•> 


564 

inexplicável  prazer  entre  reiterados  vivas  e  altas 
acclamações. 

listes  echos  da  publica  alegria,  estas  protesta- 
ções de  amor  e  vassallagem,  nâo  devia  escuta- 
las  com  indifferença  uma  sociedade  composta  de 
honrados  e  leaes  vassallos.  A  Arcádia,  que  to- 
mou sobre  seus  hombros  o  illustre  peso  de  trans- 
mittir  á  posteridade  acções  de  Portuguezes  be- 
neméritos, havia  de  ser  muda  testemunha  do 
jubilo  de  todo  o  reino?  Q.ue  século  passaria  em 
que  os  vindouros  nâo  accusassem  tão  detestável 
silencio?  Que  vergonhosa  nSo  fora  a  tradição 
dos  seus  progressos,  se  cotejadas  nossas  memo- 
rias com  a  chronica  de  V.  M.  nSo  se  descobrisse 
nella  dignamente  assignalado  o  zelo,  a  prudên- 
cia e  a  justiça  com  que  V.  M.  desaggravou  a 
honra   e   a   gloria   de   nação? 

Soffra  pois  a  modéstia  de  V.  M.  que  repe- 
tindo a  Arcádia  algumas  das  heróicas  virtudes  que 
adornão  sua  grande  alma,  exponha  aos  olhos  de 
todo  o  mundo,  quanto  devem  os  Portuguezes 
estimar  a  preciosissima  vida  de  V.  M.  e  a  jus- 
tiça  com   que   lhe  dío   os  grandes    nomes   de    pai 


565 

da  p.uria  e  delicias  de  seus  vassallos,  pio,  ma- 
gnânimo  e   justo. 

Mas,  seulior,  em  que  passo  Jo  glorioso  e  fe- 
licissimo  reinado  de  V.  M.  poderemos  fitar  a  con- 
templação, que  não  encontremos  circumstancias 
de  maior  espanto?  Que  acção  Je  V.  M.  não  ac- 
cusa  e  não  afeia  mais  a  ingratidão  e  atrocidade 
de  tão  sacrilego  attentado?  Se  é  axioma  da  po- 
litica que  os  povos  devem  pedir  a  Deus  um 
príncipe  justo,  e  obedecer  ao  que  por  cUc  lhe 
fôr  dado,  que  fanatismo  se  atreveo  a  contestar 
o  direito  que  tem  á  coroa  as  reaes  virtudes  de 
V.  M.  ?  Que  Portuguez  desejou  melhor  rei  ?  Que 
bárbaro  foi  tSo  ousado  que  podesse  negar  que, 
ainda  que  o  throno  não  fosse  liereditario,  devia 
\'.  M.  ser  levantado  rei  e  jurado  senhor  dos  Por- 
tugiiezes?  Os  Titos,  os  Trajanos  e  os  Antoninos, 
não  merecerão  com  tanta  justiça  os  votos  do 
povo  e  do  senado.  Se  investigarmos  os  annaes 
de  Roma,  descobriremos  que  o  seu  merecimento 
sempre    se   apoiou    em    simulados  artifícios. 

V.  M.  antes  de  tomar  o  sceptro,  já  o  merecia,  já 
era  desejado  e  já  reinava  nos  nossos   corações  ;  su- 


$66 


bio  ao  throno  e  nelle  tomou  posse  deste  glorioso 
dominio,  sem  que  a  lisonja  nem  o  medo  nos  dictas- 
sem  a  sujeição.  Nâo  duvidou  d;  que  o  araaria- 
raos,  porque  nos  amava  e  conservou  em  seu  au- 
gusto coração  este  raro  systema  de  reinar,  por- 
que não  queria  mais  do  que  fazer-nos  venturo- 
sos. Q.ue  maior  prova  desta  verdade  do  que  a  be- 
nigna paz,  que  desfructamos,  de  que  foi  precio- 
síssimo refém  a  sagrada  pessoa  de  V.  M.  e  que 
sô  conhecemos  quanto  nos  era  útil,  quando  vi- 
mos, que  V.  M.  introduzia  á  sombra  delia  uma 
felicissima  harmonia   em  todo   o  reino! 

O  inalterável  socego,  em  que  se  mantinháo 
quietos  e  seguros  os  estados  e  dorainios  de  Por- 
tugal, ainda  que  fazia  inútil  a  defeza  das  armas, 
nâo  soffreo  o  real  animo  de  V.  M.  que  ou  no 
ócio,  ou  no  desprezo  se  abatesse  o  brio  das  tro- 
pas. Faltavão-lhe  cabos,  faltava-lhe  disciplina, 
faltava-lhe  talvez  o  premio,  e  ainda  que  V.  M. 
nào  quizesse  soldados,  nSo  queria  queixosos,  que- 
ria honrar  os  beneméritos :  examinou  o  mere- 
cimento e  logo  na  primeira  promoção,  subirão 
accelerados   aos   últimos   postos   muitos  daqueltes 


tjue  tinhJo  envelhecido,  e  esperavão  morrer  nos 
primeiros. 

Acordou  o  génio  portuguez  do  ocioso  le- 
thargo  cm  que  jazia:  entrou  a  mocidade  a  as- 
sentar praça  uns  levados  da  gloiia,  outros  da 
emulação.  Apparecer,ío,  ou,  para  melhor  dizer, 
resuscitár.ío  officiaes  de  préstimo  e  de  valor,  le- 
r.io-se  os  Vegecios,  os  Polj-bios  e  os  Césares, 
exercitou-se  o  maneio  das  armas,  demonstr,irâo-se 
evoluções  militares:  proverão-se  os  governos:  re- 
forçárilo-se  os  presídios  ;  n'uma  palavra,  parecia 
i]Ue  tínhamos  o  inimigo  na  fronteira,  estávamos 
no  centro  da  paz.  Kio  era  o  medo,  nâo  era  a 
violência,  que  opprimindo  o  povo  levantava  tio 
numerosas  reclutas,  era  a  prudência,  era  a  ma- 
gnanimidade do  príncipe,  que  restabelecia  o  lu- 
zimento   e   o   valor  do  exercito. 

O  augmento  das  boas  artes  e  das  sciencias  (ins- 
pirado fructo  de  uma  durável  e  venturosa  paz) 
n.ío  deixou  de  gozar  logo  as  benignas  influen- 
cias do  real  agrado  e  protecção  de  V.  M.  E  que 
methodo  mais  seguro  de  adianta-las?  Póde-se  di- 
zer  que   as    Odes   de    Horácio,   a   EneiJ.i    de     Vir- 

l/X-Av    r\ /x /> ^^>k^/\_ rV  x>?_/xL_^/v_ ^ 


gilio,  devèrJo  a  sua  inimitável  perfeição,  mais  á 
amizade  de  Augusto  e  de  Mecenas,  do  que  ao 
génio  d'aquelles  grandes  homens:  e  os  Pindaros 
nascerão  nos  bemaventurados  séculos  em  que  as 
mais  florentes  republicas  e  os  maiores  príncipes 
do  mundo  contendiâo  pela  naturalidade  de  um 
cidadão;  trazião  comsigo  as  Iliaias  e  mandavâo 
preservar  do  incêndio  de  uma  cidade  a  casa  de 
um  poeta.  V.  M.  não  só  imita,  roas  excede  ao< 
Augustos  e  aos  Alexandres. 

Quem  deixará  de  sacrificar-se  ao  trabalhoso  es- 
tudo das  bellas  artes  e  sciencias,  vendo  que  V.  M. 
desce  a  examinar  o  methodo  e  o  progresso  das 
primeiras  escolas?  Parece-me,  senhor,  que  ainda 
vejo  no  âmbito  deste  real  hospicio  aquella  ma- 
gestosa  scena,  que  nâo  poderia  ideiar,  nem  a  phan- 
tasia  dos  Sophocles,  nem  a  architectura  dos  V'i- 
truvios,  nem  a  emulação  dos  Archontes,  nem  a 
magnificência  dos  Césares!  Parece-me  que  ainda 
vejo  os  nossos  clementissimos  soberanos,  toda  a 
família  real,  toda  a  Corte,  assistindo  a  um  cer- 
tame de  gramraatíca  I  Parece-me  que  ainda  vejo 
um  menino  com    um  ponteiro  na  fraca  mâo  estar 


■x^x-r^r-ror  r  r  r^ríí* 


569 


mostrando  no  mappa  aonJe  é  Lisboíi,  aonde  está 
Roma,  aonde  foi  Carthago  !  Parcce-me  que  ainJ.i 
observo  no  real  semblante  de  V.  M.  aquelles  gra- 
ciosos signacs  de  prazer,  que  s.io  difficeis  ie 
explicar,  e  que  njo  sabem  esconder  nem  os  pais, 
nem  os  mestres,  quando  vêem  adiantados  os  fi- 
lhos  e   discípulos  ! 

Sabíamos,  é  verdade,  que  este  real  hospício  era 
gr  ande  entre  os  sumptuosos  monumentos  que  fa- 
zem eterna  a  memoria  do  senhor  rei  D.  Joio  o  \ 
augusto  pai  de  V.  M.  Sabiamos,  que  seu  magtii- 
lico  fundador  estabeleceo  nelle  novas  e  melhores 
escolas,  mandando  que  a  sagrada  Congrega^-Ao  do 
(3ratorio  dirigisse  os  estudos  ;  sabiamos  que  as 
^asas  da  Congregação  do  Oratório  forSo  da  sua 
fundação  até  o  presente  santuários  da  virtude  e 
das  sciencias  ;  sabiamos  que  apezar  de  orgulho- 
sas opposições,  fizerjo  estes  grandes  homens  ama- 
nhecer cm  Portugal  a  primeira  luz  da  boa  phi- 
losophia,  que  nos  ensinarão  os  nomes  de  llal- 
lev,  de  P.avle,  de  Locke  e  de  Carthesio  ;  sabia- 
mos que  já  entre  nós  havia  um  Newton  portu- 
guez  ;  sabiamos,  finalmente,  que  varões  tão  dov.ios 


«i.^^i^^h^o 

570 

e  apostólicos  trabalhavâo  por  restaurar  a  grande 
eloquência  e  viril  estylo,  com  que  nos  púlpitos, 
se  deve  explicar  o  Evangelho  aos  catholicos  ;  mr.s 
como  as  raizes  da  inveterada  prevenção,  ainda 
nâo  estavão  totalmente  arrancadas,  foi  preciso  q"e 
V.  M.  com  tào  raro  exemplo  da  humanidade  ncs 
declarasse,  que  só  nestas  escolas  devia  aprender 
a   mocidade  portugueza. 

Para  que  só  (i)  devêssemos  a  nossa  felicidade  ás 
inestimáveis  fadigas  de  V.  M.  vimos,  com  ex- 
tranha  admiração  empregar-se  a  real  economia 
do  soberano  em  restabelecer  os  perdidos  inte- 
resses dos  vassallos.  As  mesmas  revoluções  de 
tempos  e  de  costumes,  que  promettiáo  grandes 
vantagens,  tinhão  lastimosamente  concorrido  para 
a  decadência.  A  paz,  a  opulência,  o  luxo,  o 
grande  trafico,  novos  descobrimentos  e  novas 
minas,  erão  os  tyrannos  algozes  que  apertavão 
o  garrote  ao  commercio  de  Portugal  ao  mesmo 
passo  que  sem  ellas  fora  impossivel   beneficia-lo. 


(i)   Para    que     só,    emendou-se,    para   que  em 
tuão. 


is-^ií^í^y^ 


„a<vj^(^fcaf;,„.„,„,.|,,,„ 


571 


O  génio  da  nação,  a  chimerica  esterilidade  do 
paiz,  a  dependência  de  estrangeiros,  nossas  dis- 
t.intcs  e  dilatadas  conquistas,  erão  os  Encelados 
e  Typheos,  com  que  ninguém  se  atrevia  a  com- 
bater. Se  a  providencia  offcreceo  arbítrios,  que 
podião  ser  úteis,  não  faltarão  pretextos  para  sa- 
crifica-los a  interesses  particulares.  Corria  o  tem- 
po, arruinava-se  o  credito  da  praça,  barateavão- 
sc  nossas  drogas,  sobejavão  géneros  alheios;  que- 
bravão  os  negociantes  e  parecia  ja  inevitável  a 
ultima   e   universal    fallencia. 

Tão  lastimoso  espectáculo  não  podia  deixar 
de  abalar  o  augusto  coração  de  V.  M.  que  re- 
conhecendo os  raros  talentos  de  um  ministro, 
que  parece  que  pelo  céo  llie  foi  dado  para  V.  M. 
ter  uma  espada,  com  que  corte  os  nós  gordianos 
destes  pretendidos  impossíveis,  fiou  V.  M.  do  seu 
relo  e  actividade  a  reforma  de  tão  perniciosas 
desordens.  Foi  então  que  os  Portugnezes  ouvirão 
dizer,  que  o  commercio  era  o  maior  apoio  do 
est.ido,  que  também  delle  havia  uma  theorica  ; 
que  esta  theorica  não  consistia  no  dolo,  na  am- 
bição  e    na    malícia;    mas    que    tinha   regras  deter- 


S72 

minadas  e  infalível  geometria  ;  que  era  sua  pra- 
tica a  verdade,  a  boa  fé  e  a  diligencia  ;  que 
vender  nSo  era  enganar  ;  e  que  o  corpo  do  com- 
mercio  era  um  corpo  nobre  e  respeitável  entre 
as  nações  mais  polidas  e  republicas  mais  pode- 
rosas. 

Então  conhecemos  as  nossas  forças,  entào 
olharmos  para  V.  M.  como  para  nosso  redemp- 
tor ;  envergonhados  de  nos  nâo  lembrar  o  que 
Portugal  tinha  sido,  nem  olharmos  para  o  que 
podia  ser.  Fatal  era  o  nosso  esquecimento,  nâo 
menos  fatal  a  inércia  !  Esqiieciamonos  de  que 
fôramos  os  primeiros  descobridores  das  riquezas 
de  todo  o  mundo,  e  que  nossos  galeões  forSo 
os  que  primeiro  surgirão  em  portos  da  Ásia,  da 
Africa  e  da  America.  N.ío  liamos  a  historia  do 
nosso  paiz  ;  tapávamos  os  ouvidos  ;  nâo  quería- 
mos saber  que  Portugal  tinha  sido  em  séculos 
mais  remotos  o  empório  do  coraraercio  ;  que 
subsistio  poderoso  e  opulento,  independente  de 
outras  nações,  e  até  de  suas  conquistas  ;  que 
nossos  antigos  reis  socorriâo  com  grandes  subsi- 
dies  e   formidáveis  exércitos  seus  alliados  e   visi- 


573 

r.hos.  l''emos  este  elogio  as  illustres  cinzas  de  um 
Dionisio,  de  um  JoSo  11,  de  um  Afionsc  IV  e 
de  um  afortunado  Manoel.  Confesse  o  Império, 
X.ipoles,  Veneza,  Flandres,  Aragão  e  Castella 
OjUantas  vezes  implorarão  nosso  auxilio,  e  quan- 
tas vezes  colherão  os  louros  da  victoria  á  som- 
bra  das    respeitadas    bandeiras    lusitanas. 

Parecerá  inverosiniil  aos  vindouros  que  para 
V.  M.  atalhar  a  nossa  ruína,  se  vio  obrigado  a 
servir-se  da  autoridade  real,  do  rigor  das  leis 
e  do  poder  da  justiça.  Houve  vassallos  (não  o 
ouça  o  mundo,  nem  o  saiba  a  posteridade)  quc 
para  serem  venturosos  foi  preciso  serem  castiga- 
dos. Tanto  podia  a  fatal  cegueira  qiio  nos  al- 
lucinava  1  I-'oi  preciso  que  V.  M.  erigisse  um 
tribunal  do  commercio,  que  lhe  desse  estatutos 
c  que  o  ministério  com  attenta  circumspecç.io 
elegesse  para  membro  deste  novo  corpo  os  sujei- 
tos mais  intelligentes  c  de  mais  reconhecida  pro- 
bidade. Assim  acabamos  de  conhecer,  que  os  in- 
teresses dos  commcrciantes  erào  os  interesses  d.i 
uação,  que  delles  resultavão  o  bem  comnuim  e 
que     sem     clles   se    abatiâo    as     forças   da    monar- 


S74 

chia,  Atalhárão-se  os  contrabandos  e  extravios  ; 
promulgáráo-se  leis  sumptuárias,  tratou-se  de  le- 
vantar fabricas,  de  estabelecer  companhias  e  de 
abrir  uma  escola  para  aprendizes  do  commercio. 
Eis  aqui  as  venturososas  resoluções  que  Deus 
não  manda  aos  estados,  sem  crear  para  instru- 
mento uma  alma  extraordinária,  como  a  de 
Luiz  XIV,  como  a  de  Pedro  Grande,  como  a 
de  V.  M, 

Incansável  a  real  ideia  de  V.  M.  em  investi- 
gar novos  caminhos  para  o  augmento  da  nossa 
felicidade,  olhou  benignamente  para  o  commercio 
do  Douro,  e  não  soffrendo  que  a  decadência  ca- 
minhasse com  passos  tâo  accelerados,  se  resol- 
ve© a  pôr  um  freio  á  tyranna  cobiça  que  tinha 
reduzido  a  monopólio  o  contracto  daquelle  paiz. 
EUa  arbitrava  o  preço,  ella  qualificava  os  géne- 
ros, ella  estipulava  os  pagamentos.  \áo  era  nosso 
mais  do  que  o  trabalho  da  cultura  e  despeza 
da  fabrica  e  o  limitado  interesse  de  algum  avanço, 
sempre  sujeito  a  illegitimos  lucros  e  duras  con- 
dições, Introduzio-se  com  o  luxo  o  cambio  de 
alheias   manufacturas,  e  em    pouco  tempo   chegou 


a  parecer  tributo  a  extracção  dos  nossos  geni.-- 
ros.  Atalhou  V.  M.  este  damno  quasi  irrepará- 
vel, promulgando  o  estabelecimento  da  compa- 
nhia do  Alto  Douro,  privilegiada  e  protegida  com 
a  autoridade  real  e  com  o  incansável  zelo  do 
ministério,  e  pôde  tanto  a  indolência  natural  que 
a  desatinada   plebe.... 

Mas,  senhor,  não  c  justo  que  a  ingratidão  dos 
vassallos  profane  a  narração  das  rcacs  virtudes 
do  monarcha;  entreguemos  á  fama  o  adorável 
nome  de  V.  M.  sem  descobrirmos  vestígios  de 
infames   e   detestáveis   memorias. 

Mão  bastava  para  soccgar  o  amor  e  o  desvelo 
de  V.  M.  que  os  milagrosos  effeitos  da  sua 
grande  beneficência  inundassem  só  os  limites  do 
nosso  continente.  Olhou  para  as  conquistas  e 
para  as  colónias,  vio  também  ali  vassallos,  não 
quiz  deixar  de  trata-los  como  filhos:  apparcceo- 
Ihe  deserto  e  inculto  o  paiz  mais  fértil  do  mundo; 
vio  abandonado  um  dos  ramos  do  nosso  com- 
mercio,  que  podia  incontestavelmente  ser  dos 
primeiros,  se  a  negligencia,  se  a  inércia  ou  ava- 
reza  daquelles   que  o    maneav.ío,  lhe    nâo    tivesse 


■•"] 'i;i"i)i«""«i|i"ii , 


-  -       -  -       -  f yy       XX      \X      V/^ 

576 

subnegada  a  reputação.  Uma  longa  guerra,  gran- 
des desastres,  grandes  calamidades,  talvez  que 
nào  redusissem  a  tâo  miserável  estado  o  nego- 
cio do  Maranháo  e  do  Pará:  faltava  industria 
que  o  remisse  do  clandestino  e  pesado  captiveiro 
que  o  opprimia.  Chegou  a  época  da  sua  felici- 
dade, e  apezar  de  ânimos  rebeldes,  se  estabeleceo 
uma  companhia  para  aqnelle  estado.  Approvou- 
Ihe  V.  M.  os  estatutos,  privilegiou-lhe  as  acções, 
autorisou-lhe  o  credito,  deo-lhe  navios  e  fran- 
queou-lhe  os  meios  de  se  completar  o  necessário 
e  importante  fundo. 

Persuadido  V.  M.  da  grande  máxima  de  estado, 
que  um  rei  deve  ser  senhor  de  vassallos  opu- 
lentos, e  nâo  de  províncias  e  sertões  desertos  e 
intratáveis,  mandou  também  cobrir  de  habitações 
aquelle  fértil  paiz,  que  sò  era  poder  de  bárbaros 
deixaria  de  ser  povoado.  Convidou  os  novos 
moradores  com  honras,  com  terras,  com  privilé- 
gios, e  para  ficar  inimitável  a  piedade  de  V.  M. 
muitos  rios  condemnados  a  vergonhosos  desti- 
nos, nio  soffrèrio  maior  castigo  do  que  irem  ser 
fundadores  d'aquellas   colónias. 


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577 

Mas  quem  dicéra,  senhor,  que  '.er.Jo  os  Por- 
tugu.zes  levado  áquelles  remotos  clim.i^  a  lu/, 
d.i  verdadeira  religião,  depois  de  lhe  ler  Deus 
pago  este  glorioso  trjbaiho  cora  o  honrado  nome 
e  r'qiii?slmos  thcsouros,  se  atrevcriào  os  mes- 
mos Portiigiiezes,  abusando  da  cro.ii.liJaJe  dos 
proselytos,  a  s.icrificar  o  zelo  d.i  fé  aos  teios 
interesses  e  abomináveis  ideias  da  cobiça?  Quem 
dicéra  que  a  promulgação  do  Evnuíelho  e  do 
baptismo  havia  de  ser  o  sacrílego  jul;o  com  qiie 
a  hypocrisia  chegou  a  tyrnnnisar  a  liberdade  do 
inumeráveis  povos?  Como  gemerão  tanios  aiiiios 
noste  injusto  captiveiro  nquelles  'nfeli.Cí,  sem 
que  os  brados  da  sua  miséria  chegassem  ao  throno 
de  nossos  graciosíssimos  soberatioí?  Como  ha- 
vião  prelados,  que  com  frouxa  conr.ivencia,  tc- 
lerárSo  esta  escandalosa  contravenção  da  lei  di- 
vina, dos  decretos  synodaes  c  das  bulias  ponti- 
fícias? Como  houve  niagistr:idos,  que  solTrião 
tão  nrtoria  infracção  do  direito  natural,  do  lii- 
reito  da  hvispitalidade  e  do  direito    da    conquista  ? 

Parece  q'ae  guardava  o  céo  para  V.  M.  a  flo- 
ria  de   ser    o    libertador   d'aquc!les    povos.     Co-ro 


'a-<í<^^Sfe»i.» 

já  rio  valiáo  dissimulações,  como  já  se  nâo 
aava  creJito  a  chimeras,  como  já  se  nio  te  ■ 
miâo   ameaças,   como   já  reinava  V.   M.    como  já 

tinha  ministros  desinteressados,  completou-se  o 
resgate  de  tantos  milhões  de  almas.  Chegou  o 
tempo  de  V.  M.  reivindicar  aquelles  afligidos 
vassallos  que  a  avareza  e  a  crueldade  dos  usur- 
padores, tratava  como  escravos  e  como  brutos. 
Nascerão  livres,  viviâo  captivos,  abraçarão  a 
verdadeira  religião,  acharão  perversos  dogmas  ; 
occupavão-se  no  trabalho,  negava-se-lhes  a  recom- 
pensa; sujeit.ivão-se  a  um  rei,  acharão  mil  tyran- 
nos  !  Em  que  estatua,  e.-n  que  monumento  po- 
deremos dignamente  gravar  a  memoria  deste  glo- 
rioso triumpho  de  V.   M.  ?   (i) 


(i)  Este  paragrapho  e  o  precedente,  que  o  col- 
lector  com  justa  razão  considera  dos  mais  bellos 
da  oração,  forão  suppriraidos  pela  censura. 

Comprchende-se  facilmente  que  os  prelados  e 
magistrados,  cuja  connivencia  no  captiveiro  dos 
Índios  verberara  o  orador,  se  revoltassem  con- 
tra mereciJas  censuras  e  tratassem  de  suffoca-las. 
Essas  duas  importantes  classes  não  tolerariio  ^quo 
animo    tão   certeiras  pedradas   nos   seus  telhados. 

O  eloquente   rasgo    de    Garção    em   favor  dos 


' ■■" ter^íqtoj^^íi^ 

5  79 

Julgava  eu,  senhor^  que  poderia  acabar  a  nar- 
ração das  admiráveis  virtudes  de  V.  M.  sem 
que  a  lembrança  da  fatal  ruina  de  Lisboa,  per- 
turbasse o  jubilo,  que  boje  o  ccupa  a  ideia  dos 
Portuguezcs  ;  mas  como  n'aquelles  calamitosos 
tempos,  foi  quando  esteve  mais  patente  o  grande 
coração  de  V.  M.,  nâo  me  atrevo  a  suffocar 
as  vozes  do  publico  agradecimento.  Parece-nos,  que 
pelo  céo  foi  mandada  esta  geral  consternação  para 
conhecermos  que  V.  M.  não  só  era  rei,  mas  também 
era  pae,  parece  que  Deos  nâo  quiz  tocar-nos  com 
sua  poderosa  mão,  senão  quando  tivéssemos  um 
principe  digno  de  sua  misericórdia,  capaz  de  soc- 
correr-nose  capaz  de  conservar-nos.  São  inexcruta- 
veis  seus  altissimos  juizos  ;  mas  c  qtmsi  sempre 
visivel   a   sua   providencia! 

Como  todas  as  maravilhosas  acções  de  V.  M. 
se   regulão   por  um  inalterável  systema  de  justiça, 


princípios  de  liberdade,  ao  mesmo  passo  que  re- 
vela a  elevação  de  seus  sentimentos,  descansa 
o  espirito  das  lisonjarias,  de  que  inundou  a  maior 
p?rte  do  seu  discurso.  Vc-se  que  não  era  só  cor- 
tesão, mas  amante  da  justiça,  e  defensor  do  di- 
reito. 


depois  de  render  a  Deos  as  dividas  acções  de 
graças,  tratou  logo  de  restabelecer  o  culto  di 
religião  e  exhort.indo  aos  prelados  a  que  promp- 
tamente  fizessem  continuar  os  officios  divinos, 
acudio  com  igual  providencia  as  communidade^ 
dispersas   ou   necessitadas. 

Eis  aqui  as  grandes  máximas,  com  que  V.  M. 
sabe  conciliar  a  protecção  divina.  Esta  é  a  ver- 
dadeira politica  e  a  forte  alliança,  que  em  tan- 
tos séculos  e  em  tantos  climas  fizerão  conheci- 
das, respeitadas  e  invenciveis  as  sagradas  quinas. 
A  honra  de  Deos  foi  sempre  a  causa,  porque 
advogarão  nossas  armas.  Se  a  religião  é  a  base 
dos  impérios,  que  reino,  ou  que  estado  mais  se- 
guro que  a  monarchia  portuguez.»  ?  Se  é  esta  vir- 
tude a  font:  de  que  manSo  as  heróicas  acções 
do  príncipe,  a  equidade  dos  magistrados,  a  fé 
das  allianças,  a  observância  das  leis,  a  obediência 
doe  vass  lUos  e  a  tranquilliJade  publica,  ainda  ape- 
zar  ái  tão  fataes  calamidades,  será  sempre  feliz 
o  glorioso  reinado  de  V.  M.  A  exaltação  da  fé, 
a  promulgaç.^0  do  Evangelho,  a  extirpação  das 
heresias,  são   os  mundos,  que  deseja  o  grande   co- 


»vw  I 


5S1 


laçJo  de  V.  M.  e  que  lhe  tleverião  lagrinias 
se  fosse  possível  faltar  entre  tantas  virtudes  a  da 
constância.  Estes  são  os  costumes,  que  nos  fas- 
tos da  historia  hão  de  fazer  distincto  e  lesfei- 
tado   o  século   de  V.    M. 

Cercado  V.  M.  de  attouitos  vassallos  sentia 
o  publico  desastre,  como  se  n.io  podesse  rer.ie- 
di  i-lo  e  rcsolveo-se  a  remedia-lo  como  se  não 
podesse  senti-lo;  temeroso,  mas  resignado;  resi- 
gnado, mas  constante.  Mostrou  V.  M.  que  como 
homem  receava  o  flagcllo,  como  catholico  sujei- 
tava-se  ao  golpe,  como  príncipe  acudia  aos  vns- 
saUos.  Q.ue  impulsos  de  piedade,  de  amor  e  de 
compaixão  não  atormentavão  com  inexplicável 
tumulto  o  forte  animo  de  V.  M.!  Ainda  era  ge- 
ral o  desacordo,  já  se  dava  sepultura  aos  mortos; 
ainda  lançavão  fumo  as  cinzas  das  nossas  casas, 
já  linliamos  reparo  contra  o  rigor  da  esta^-ão  ; 
lembrou-nos  temer  a  fome,  quando  já  reinava  a 
abundância.  Que  viuva,  que  familia  consternada, 
não  achou  abrigo  na  real  clemência  de  V.  .M.  ? 
Choravão  os  filhos  sobre  as  cinzas  do  defunto  pae 
e   sobre    as    ruinas   de   sua   casa,    orpliãos,     pobres 


~ /.,:!- _j 

582 


e  desamparados  ;  a  triste  tnJe,  nâo  sabia  nem  po- 
dia consola-los,  chorava  com  elles,  aiignientava 
o  pranto.  Ouvi-os  V.  M.  ;  acudio-lhes.  Houve  bár- 
baros, que  aproveitando-se  do  geral  espanto  d'a- 
quelles  terriveis  dias,  se  atreverão  a  saquear  a 
cidade,  mas  logo  conhecemos,  que  nem  enire  as 
desgraças  nos  desamparava  a  inalterável  justiça 
de  V.  >I.  ;  expostos  em  patíbulos  promulgarão  a 
lei  como  exemplo,  fizerâo  cessar  o  crime  e  o 
castigo.  Nem  a  constância,  nem  a  clemência  de 
Tito,  pòJe  reparar  com  tio  efficazes  providencias 
o  lastimoso  estrago,  que  a  conflagração  do  Ve- 
súvio causou  na  miserável  provincia  de  Camp.inia. 
Que  bem  fundadas  esperanças  do  publico  res- 
tabelecimento nào  vimos  brilhar  logo  no  acerto 
das  primeiras  ordens  ?  Parecia  que  o  ministério 
travalhava  no  ordinário  expediente  e  não  em 
meios  de  atalhar  tão  extraordinárias  desordens. 
Sabíamos  as  perigosas  consequências,  a  que  es- 
távamos expostos,  quando  víamos  prevenidas  as 
cautelas  :  igualmente  nos  espantava  o  damno, 
qne  o  reparo,  não  podendo  comprehender,  como 
saccessos  tão  repentinos,   achavão  prompta  a  ac- 


583 


tiva  providencia  de  V.  M.  que  não  scri:x  menos 
admirável,   ainda   quindo   fossem   esperados. 

Káo  tardou  muito  que  nSo  víssemos  medir  os 
destroçados  bairros  da  cidade  para  se  dar  prin- 
cipio A  execução  de  sua  magnifica  planta.  Vi- 
mos com  sabias  e  justíssimas  leis  vencidos  o- 
embaraços  que  podí.io  ob.^t.ir  .í  grande  obra  : 
vimos  lançar  os  primeiros  fundamentos  da  nova 
Lisboa  e  vimos  crescer  sumptuosos  edifícios,  os 
quaes  scni  auxilio  de  soberbas  inscripções,  mos- 
trarão nas  futuras  idades  que  foi  V.  M.  quem 
reedificou  a  cidade  ;  e  os  que  entUo  lerem  nos- 
sas décadas,  oliiando  para  a  chronologla,  não 
poderão  comprehender,  como  medeia  tão  curto 
espaço   entre   a   ruina   e   a   restauração. 

E  verdade,  senhor,  que  as  nações  estranhas 
não  ouvem  com  terror  o  nome  de  V.  M.  ;  nào 
o  divulga  no  mundo  o  estrépito  das  armas;  mas 
nem  por  isso  o  elle  menos  grande  ou  menos 
illustre,  adorado  entre  os  vassallos,  invejado 
pelos  estrangeiros,  respeitado  por  todos,  faz  que 
os  povos  olhem  para  V.  M.  como  para  um  as- 
tro de  felicidade,  de    paz    e    abundância.    Kão    bri- 


$84 

lha  menos  a  coroa  real  guarnecida  com  ramos 
de  oliveira,  do  que  ornada  com  os  louros  da 
victoria  tintos  com  o  sangae  dos  vassallos.  A 
lisonja  e  a  politica  inventarão  a  pompa  dos 
triumphos  :  o  amor,  cora  que  é  estimado  um  rei 
justo  e  pacifico  nasce  comnosco  em  nossos  co- 
rações ;  nao  o  podemos  fingir  ;  não  chega  a 
tanto   nem   o   medo,   nem   a   adulaçio. 

Quantos  miseráveis  pisados  por  seus  próprios  ca- 
vallos  no  furioso  tropel  dos  conflictos,  mordendo 
a  dura  terra,  não  estarão  amaldiçoando  agora  os 
interesses  dos  monarchas?  Em  vão  chamâo  pela 
paz,  era  vão  detestão  a  cruel  guerra,  ninguera  os 
ouve,  ninguém  lhes  acode;  morrem,  acabio  des- 
esperados !  Ciuantas  cidades,  depois  de  soffrer 
constantemente  as  misérias  e  os  sustos  de  um 
longo  sitio,  não  chorarão  pela  paz  quando  vi- 
rera  avançarem-se  as  tropas  inimigas  para  o  as- 
salto geral  ?  Abala  os  montes  o  pavoroso  es- 
trondo da  artilharia  ;  cruzão  pelos  ares  sibilan- 
tes balas  ;  estalão  horríveis  bombas  ;  descoradas 
e  espavoridas  as  miseráveis  donzellas,  correra 
pelas  ruas  ;   attonitas   as   m'ães,  deixSo   cahir  dos 


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braços  os  iniiocciítes  filhos  ;  querem  mas  iiAo 
podem  fugir  os  cansados  velhos;  sahcm  dos  tem- 
plos os  sacerdotes  abraçados  com  as  sagradas 
relíquias,  mas  não  tem  para  onde  fujio.  Em 
toda  a  parte  se  apresenta  o  mesmo  perigo  e  o 
mesmo  aspecto  da  morte  :  desmoronados  os  al- 
tos edificios,  tremem,  cahem,  espantão,  ferem, 
iiiatâo   e   sepultão   os   desgraçados   habitantes  ! 

Se  compararmos  o  horror  de  tão  feia  perspe- 
ctiva com  a  deliciosa  paz  de  que  gozamos  á  som- 
bra do  real  throno  de  V.  M.  só  então  conhe- 
ceremos nossas  venturas  e  a  infelicidade  d'aquel- 
las  nações,  que  sacrificadas  mais  ás  idéas  do  ga- 
binete do  que  á  defensa  da  pátria  ou  decoro  do 
rei,  pagão  com  suas  vidas  a  m.i  interpretação  do:> 
tratados.  Sem  nos  insultar  a  liberdade  das  tro- 
pas, sem  nos  vexar  o  peso  dos  tributos,  sem  nos 
opprimirem  exorbitantes  contribuções,  venturosos, 
opulentos,  livres  e  seguros  vivemos,  unicamente 
sujeitos  ás  santas  e  justissimas  leis  que  promulga 
V.  M.  não  para  nos  opprimir,  mas  para  arrancar 
de  entre  nós  os  vicios  e  abusos  que  á  semelhança 
de  uma  inveterada  enfermidade  arruinavão  a  cons- 


;86 

tituição  civil  da  monarchia.  Q.ue  grandeza  de  alma. 
que  espirito  de  clemência,  de  religião  e  de  jus- 
tiça, que  extraordinárias  virtudes,  nSo  admira 
quem  lè  a  coUeçâo  das  leis,  alvarás  e  decretos, 
que  no  feliz  reinado  de  V.  M.  lhe  tem  digna- 
mente merecido  a  antonomásia  de  legislador  ? 
Muito  ha  que  os  Portuguezes  dariJo  este  nome 
a  V.  M.  se  guiados  mais  pelo  amor,  que  pela  vas- 
sallagem,  não  escolhessem  antes  chamar-lhe  pai. 
Com  eíTeito,  senhor,  se  ás  reaes  virtudes  de 
V.  M.  devemos  o  inestimável  bem  de  sermos  tra- 
tados como  filhos  e  não  como  vassallos,  se  é  o 
principal  objecto  das  acções  de  V.  M  fazer-nos 
venturosos,  porque  lhe  nâo  chamaremos  pai  d.i 
pátria?  Nem  a  modéstia  de  V.  M.  deve  prohi- 
bir-nos  a  repetição  de  tao  agradável  nome,  se 
nâo  pôde  negar-nos  que  o  merece;  nem  o  nosso 
reconhecimento  dictar-nos  outra  iiiscripçâo  mais 
digna  de  ser  deixada  aos  vindouros  no  pedestal 
da  estatua  de  V.  M.  pio,  magnânimo,  justo  e 
amado,  que  nos  conservou  em  uma  venturosa  e 
inalterável  paz  em  quanto  devastava  grande  parte 
da    Europa    a     mais     obstinada    e    sanguinolenta 


5S7 


guerra:  mo  trará  que  V.  M,  restabeleceo  a  dis- 
ciplina militar  e  o  Uiziniento  Jas  tropas,  que 
o  desprezo  ainda  mais  do  que  o  ócio,  tinha  sub- 
mergido em  ignominioso  lethargo  :  que  protegeo 
e  que  animou  as  artes,  as  musas  e  as  scienciasr 
que  amparando  os  interesses  de  seus  vassallos, 
fez  V.  M.  que  o  nosso  commercio  tyrannizado 
pela  cobiça  alhèa  e  pela  inércia  natural  quebrasse 
as  grossas  algemas  que  o  manietavio  :  mostrará 
que  foi  V.  M.  quem  resgatou  tantas  almas  do 
clandestino  e  tyranno  captivciro  com  que  as  op- 
primia  a  cobiça,  a  avareza  e  a  hypocrisia  :  que 
V.  M.  nos  acudio  com  prompto  remédio  em  cons- 
ternação, que  parecia  que  o  nào  podia  ter:  mos- 
trará que  V.  M.  restaurando  o  culto  divino,  tra- 
balhando na  propagaçSo  da  fé,  respeitando  os 
ministros  da  igreja,  foi  em  tudo  legitimo  her- 
deiro do  throno  de  D.  AlTonso  Henriques:  mos- 
trara finalmente,  senhor,  que  V.  M.  inexorável 
inilinííO  dos  vicios,  promulgou  innumeraveis  leis 
todas  justas,  todas  necessárias,  todas  santas, 
não  só  dirigidas  a  manter  a  publica  tranquilli- 
dule,  mas  ainda    a    conservar   nos    futuros   tempos 


J»>»»         •••         •••         ••• 

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5S8 

leliz,    opulenta    e     segura     a     monarcliia    portu- 
gueza. 

Mas,  Omnipotente  Deus,  que  paiz  é  este  que 
liabitamos,  em  que  cidade  vivemos  ?  Aonde  está 
o  reino  fundado  pela  vossa  mâo  ?  Aonde  está  a 
forte  gente  que  morria  pela  honra  do  vosso  nome 
e  pela  gloria  de  seu  rei  ?  Também  em  Portugal, 
famosa  pátria  dos  Monizes,  dos  Pachecos,  dos 
Freitas  e  dos  Farias,  nascerão  traidores  ?  Tam- 
bém em  Lisboa,  cujos  muros  estão  fundados  so- 
bre os  ossos  de  tantos  honrados  Portuguezes,  se 
criarão  parricidas  ?  Também  havia  entre  nòs  Pe- 
renios,  Plauteanos  e  Catilinas  ?  ViviJo  ?  Falla- 
vâo  comvosco  ?  Viarao-los  ?  Nâo  lhes  descobría- 
mos nos  pérfidos  semblantes  os  remorsos  que  lhes 
trespass.ivâo  os  corações  ?  Que  sacrilegas  espe- 
ranças lhes  davâo  forças  para  supportarem  o  peso 
das  suas  consciências  e  soffrerem  diante  dos  seus 
olhos  o  aspecto  de  um  vassallo  fiel  ?  Esperavâo, 
revolvendo  as  ruinas  da  pátria,  achar  debaixo  das 
nossas  cinzas  honras,  riquezas,  a  coroa  ou  scep- 
tro,  sem  que  houvesse  uma  rnSo,  que  primeiro  o 
levantasse?   Que   acções   allegariio   para    disputa- 


5S9 

lo,  ainda  a  um  homem  abjecto,  a  um  banido,  a 
um  facinoroso  ?  Atrever-se-hião  a  lançar  em  rosto 
ao  roubador  que  tinha  tirado  o  alheio,  elles  que 
intentavão  saquear  a  pátria  ?  Accusariâo  ao  as- 
sassino, elIes  que  conspiravão  contra  a  vid,a  do 
seu  rei  e  legitimo  senhor  ?  Culparião  a  um  fal- 
sario,  elles  que  forão  perjuros  ?  A  um  herege, 
elles   que  seguirão   tâo   perniciosas  doutrinas  ? 

Aqui  em  Lisboa,  grande  Deus  !  aqui  no  cen- 
tro da  paz  ;  aqui  aonde  as  leis  mais  justas  e 
mais  santas,  nJo  soíFrem  que  os  vicios  ultrajem 
as  virtudes;  aqui  se  traçou  o  plano  de  tSo  in- 
fame conspiração.  Aqui  se  ajuntarão  os  traido- 
res ;  aqui  jurarão  nossa  ruina,  nossa  orphandadc  e 
nossa  vergonha;  aqui  se  vendco  a  pátria;  aqui  se 
blasphemou  de  vossa  irrevogável  promessa;  aqui  se 
desprezarão  os  raios  com  que  vossa  mão  omnipo- 
tente  costuma  destruir  os   Ímpios. 

Houve,  senhor,  houve  ingratos  que  pudéráo  es- 
quecer-se  do  muito  que  devemos  a  V.  M.  houve 
barbares  que  machinárão  atalhar  o  progresso  das 
gloriosas  acções  com  que  V.  M.  nos  mostra  de 
cada   vez   mais  que   nos  ama   e  que  se  faz  de  cada 

1,1.    ■"■«  'i' <i|f'i «WV Ip -.li ■    .1 

ii:i"lllr llli.*h. f^'*  '■  .   -*  ' 


vez  mais  digno  de  ser  amado.  Houve  quem  pôde  in- 
famar a  nossa  vassallagem,  publicando  com  eterno 
escândalo,  que  também  entre  Portuguezes  ha- 
via traidores,  havia  parricidas  e  havia  ingratos. 
Mas  soube  a  constante  e  inalterável  justiça  de 
V.  M.  lavar  a  nossa  infâmia  no  sangue  dos  cul- 
pados, vingar  a  pátria,  satisfazer  as  leis,  desag- 
gravar  a  coroa  (i). 


(i)  Conclue  aqui  a  Oração  no  Ms.  sem  que 
a  feche  declaração  alguma,  seguindose  logo  as 
poesias. 


•NOTAS  E1ARIANTES 


-sV>^>' 


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^í^'^^4^5>;>"C 


"'•í-V^y^,Çf*>^ 


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XOTAS  E  VARIANTES 


1 1 1 1 1  ■  1 1  ■  I 


_A  primeira  pagina  do  manuscrito  do 
•:;;  Cónego  Manoel  de  Figueiredo,  que  fez 
j^\' ■■---■  ;  outr'ora  parte  da  bibliotheca  do  cxi- 
^  v^  W  Z  "'"'o  litterato  portuguez  Camillo  Cas- 
Q— Q-  ;  tello  Branco  (visconde  de  Correia 
01  Botellio)  leem-se  estas  linhas  de  pro- 


# 


•  prio  punho  e  com  a  sua  assignatura: 
''■      «  As  alterações  que  Garção  fizera 


-  g,>'7®  /'  -  nos  seus  poemas,  e  aqui  se  encon- 
It,§^§Civ>I  trão,  não  se  achão  nas  suas  poesias 

" ""  publicadas  posthumamente. Estes  tras- 

'"  ~Y~  •*'  1 "  "lados  forão  feitos  sobre  os  originaes 
dados  pela  viuva  do  poeta  ao  collector.  Se  um  dia 
se  fizer  edição  nova  dos  versos  de  Garção  (tarde 
será)  deverão  adoptar-se  estas  emendas  e  publica- 
rem-se  as  poesias  inéditas  constantes  dcste  volume 
manuscrito.  » 

As  duvidas  que  a  rcspaito  das  alhuiidas  emen- 
das me  assaltarão  o  espirito  e  de  que  tratei  na  hi- 
trodiicçuo,  forão  objecto  de  carta  minha  áquelle   no- 


•  ^r?^^|<^^  fr';^:^"* 


75 


tabilissimo    escritor   a  que  cortezmente   deo  a  se- 
guinte resposta : 

«  Não  precisava  V.  interpor  medianeiro  para 
me  communicar  a  honra  de  sua  carta.  Recebi  as 
duas  quasi  simultaneamente,  por  isso  não  respondi 
i  primeira. 

«  Tenho  um  grande  dissabor  em  não  poder  ca- 
balmente ser  arbitro  n'um  processo  que  V.  mo- 
destamente declina  de  sua  alçada.  Não  tenho  li- 
vros, nem  apontamentos,  nem  reminiscência  que 
me  lembre  o  que  em  tempo  de  mais  folga  li  e 
ajuisei  a  tal  respeito.  Entrelembro-me,  porém,  que 
o  Cónego  Figueiredo  colleccionou  um  códice  com 
as  correções  de  Garção  e  os  editores  da  edição  de 
Lisboa,  primeira  e  única,  servirão-se  de  outro  có- 
dice em  que  hivia  parte  das  correcções.  Ou  talvez 
o  Figueiredo  quando  colligia  os  poemas  emendados, 
e  se  referia  aos  incorrectos,  alludisse  aos  que  cor- 
rião  manuscritos. 

«  É   provável  que  V.   já  haja  formado  esta  e  ou- 
tras hypotheses  mais  luminosas. 
«  S.  Miguel  de  Seide,  jy-j-S6. 

1   De   V.   criado  e  respeitador 

«  Camillo  Castello  Branxo.  » 

A'  vista  do  exposto  tive  por  acertado,  como  já 
declarei,  não  affastar-me  do  texto  das  edições  an- 
teriores, e  oflferecer  como  variantes  as  divergên- 
cias do  Ms.  de  Figueiredo. 

Nas  annotações  o  manuscrito  hoje  propriedade 
do  Instituto  histórico  será  designado  pela  data,  1767, 
e  o  do  Cónego  Manoel  de  Figueiredo  pelo  nome 
do  paciente  collector. 


•-ío^: 


SONETOS. 

Soneto  V,  pag.  5.  —  A  mesma  senhora  a  quem  foi  JoJicado 
parece  ser  a  mencionada  no  Soneto  II.  Assim  a  dedicatória  abran- 
geria os  dons  precedentes^  nos  quaes  igualmente  o  poeta  se  dirigs 
a   Marilia. 

Soneto  VI,  pag.  6,  Hn.  6.  —  A  errata  da  edl^io  de  1778  cor- 
rige pedragosos.  A  lição  mais  seguida  actualmente  conservaria  a  or- 
thographia   do   texio,   sem   attender   á   etymologia. 

Soneto  XIV,  pag.  14.  —  A  cpigraphe  que  traz  o  índice  do 
Ms.  de  1767  é:  Soneto  a  um  frade  para  que  lhe  levasse  utn  re- 
cado  a    uma    moça,    a    quem    o   poela    namorava    e   onde   o  frade   ia. 

Soneto  XVI,  pag.  16.  —  No  texto  da  ediçSo  de  1778  o 
terceto    final    que   a   errata    corrigio   era  : 

Se    vens,   ou   caia    chuva    ou   herre   o   vento 
Nilo   pode   a   longa   noite   enfastiar-nos 
Antes    tudo    será    diverllmenlo. 

Soneto  XXVI,  pag.  26.  —  Outra  correcção  ao  texto  da  edi- 
ção   de    177S    da    mesma    errata.    O    terceiro    verso   dizia: 

O    esfaimado    nariz    o   coice    atura 


Com    um    rodeiro    malho  atocha  o  taco. 

Soneto  XXVII,  pag.  27.  —  No  .Ms.  do  Cone -o  Figueiredo 
vem  encimado  com  esta  epigraphe:  Estando  pre\o  no  Limoeiro,  hs- 
tas  palavras,  porèni,  se  ach.lo  traçadas  por  outra  pcnna  que  não 
a  do  coUector.  Ha  toda  a  verosimilhança  que  o  fossem  pelo 
Snr.  Visconde  de  Correia  Botelho,  que  as  substituio  pela  nota 
duvidoso. 

Soneto  XXXVII,  pag.  37,  —  No  Ms.  do  Figueiredo  é  dedicado 
^■io   Padre    'Dclphim,    capetlão   do   Lourcto. 


596    — 


Ainda  a  errata  da  edição  de  1778  corrige  do  modo,  como  ora 
se  lê,   a   nona  linha  do   verso  : 

Silvada  vaga  assim  de  rua  em  rua. 

Soneto  LVII,  pag.  57.  —  É  o  ultimo  que  trazem  as  edições 
e  apresenta  uma  feliz   imitação  do  bem  conhecido  de   Camões  : 

Alma   minha   gentil   que   te   partiste. 

Soneto  LVIII,  pag.  58.  —  Este  soneto  nâo  se  acha  em  ne- 
nhuma das  edições  anteriores.  Fui  encontra-lo  por  indicação  de 
Innocenclo  da  Silva  na  OiCiscellanea  poética  ou  CollecçSo  de  "Poesias 
diversas  de  autores  escolhidos.  Rio  de  Janeiro,  1853.  (Vide  Obra  cit., 
pag.    168). 

Soneto  LIX,  pag.  59.  —  Igualmente  náo  faz  parte  das  pre- 
cedentes edições.  No  Ms.  de  1767  está  incompleto  com  a  epigra- 
phe  que  conservei,  e  não  vem  no  Curso  de  litleratura  portuguesa 
de  Camillo  C.istello  Branco,  donJe  o  trasladei  na  integra.  Aqui 
se  dá  copiada  dessa  obra  a  seguinte  chave  p.ira  os  nomes  citados 
no   soneto  : 

Pinto.  —  Luiz  Pinto  de  Souza  Coutinho,  1°  Visconde  de  Bal- 
semão. 

Monteiro.    —    Domingos  Pires   Monteiro   Bandeira. 

Padre  Niceno.   —    Padre   Francisco   Manoel   do  Nascimento. 

Manoel   de  Souza.    —    Manoel  de   Souza,   capitão  de   infinteria. 

Manoel  Mendes.  —  Antes  de  António  Xavier  Ferreira  de  Aze- 
vedo escrever  a  farça  Ma^ioel  Mendes,  já  este  nome 
e   appellido  erão   proverbiaes. 

Ulpiano  venal.    —   D''.   Jeronymo   Estcquette. 

Sonetos  LX,  LXI,  LXII,  LXIll,  pag.  60  a  63.  -  Sdo  in- 
teira:nente  inéditos  :   e\trahi-os  do   Ms.  do   Cónego   Figueiredo. 

Soneto  LXIV,  pag.  64.  —  Também  eftá  fora  da  collecção  das 
poesias  imp-essas.  TrasUdei-o  do  Dicciomrio  bibliographico,  preten- 
dendo o  seu  erudito  autor  que  esta  foi  a  ultima  composição  de 
Garção.  No  exemplar  do  'Diccionario  que  possue  o  Gabinete  por- 
tuguês de  leitura  do  Rio  de  Janeiro,  e  pertenceo  á  bibliotheca  do 
senhor  Camillo  Castello  Branco,  Ic-se  á  r.i.irgem  do  artigo  sobre 
o   poeta,   onde  se   emitte   aquclla   opinião,   a   nota   —   «.10  foi. 


ODES. 

Ode  I,  pag.  67.  —  A'  nohreia  c  grauíUs  de  Torlugal  é  a  de- 
dicatória com  que  vem  no  Ms.  de  1767.  Conservei,  porém,  a  da 
edição   de    1778,   que   particularisa   a  razão   delia. 

Ode  II,  pag.  77.  —  Escapou  á  collecção  impressa.  Trá-la  o 
Curso  de  littcratura  portuguesa  já  citado,  que  a  tomou  do  Ms.  de 
l''igueiredo. 

Ode  IV,  pag  83.  —  Adoptei  de  preferencia  a  epigraphe  do 
'Parnaso  lusitano  por  mais  concisa  e  adequada.  A  das  edições  an- 
teriores rezava  assim:  Sendo  convidado  o  autor  p*ra  assistir  a  um 
ponche,  que  se  havia  de  fa^er  no  outro  dia,  elle  guando  veio  trouxe 
csla  Ode.  A  Lydia  com  que  falia  c  a  do  Sonelo  XII  e  a  DiCarilia 
a    do    Soneto    II. 

Pag.    83,    lin.    14.    —    Comamos,    bebamos,    murmuramos. 

(.Ms.   de   Figueiredo). 

Neste   manuscrito   a   Ode   não   vae   alem   da    nona   quadra. 


Ode 

Eis 
Pas 


pag.      86.    —    No  Ms.  de  1767  c  dedicada  á  Constância. 
ariantes   á   esta   Ode   no   Ms.   de   Figueiredo: 


24 


8S,   lin, 


I5-If- 


(.    —    Ligado   com   aspérrimas   cadeias 

Ao   hórrido   penedo; 
.).    —    Innocente    se   julga;    á   força    iniqua. 
2.    —    Deve  immovel   solTrer  uma  alma  nobre, 

O'    Silvio  esclarecido. 

6.  —    Como   no  tecto   rico, 

5.    —   Com   dourados   bezerros   long.i  terra. 

7,  —    .\o   negro   mar   que    freme, 

O   procelloso  Arcturo; 

—  A    pérfida    mentira 

—  Com    os   titubantcs   braços   o   crimine. 

—  Sò   de   delicto    pôde    o   vil  remorso. 

—  K    a    consciência    pura,    a   fé    intacti, 

—  Não  fantásticas  honras   tanto   ensiiião. 

—  Os  Uticenses,   Régulos  c   Camillos 

—  As   lethargicas    ondas 

Do    Letlies    somiiolento. 


—    598    — 


Pag.  89,  lin.  I.    —    Peça   a   gineta   o   tímido   guerreiro, 

Que  com   a  espada  limpa 

»  »        »  í.   —    Descubra   o  desvalido 

»  »        »  17.    —    Estende   os  tibios   raios   pelas  ondas; 

»  »        »  34.    —   Na   comprada   balança 

>)  90,  lin.  5.    —    Da  memoria  immortal  da  fama  illustra. 

>i  11  »  8.   —    Náo   roga,  nâo  se   abala. 

Ode  VI,  pag.  91.  —  No  Ms.  d:  1767  é  como  a  precedente 
também   dedicada   á    Conslancia. 

Nella  imitou  Garção  com  muita  felicidade  a  Ode  lII  de  Ho- 
rácio,  liv.   III,   que  começa  por  estes  bellissimos  versos: 

Justum   ac  lenaceiíi  proposiíi  viruiii, 
Non   civium   ardor  prava  juhcniium, 
Non   vullus   inslantis  tyranni 
Mente  guiilií  solida   iteque  Auster. 

Pag.  o  T,   lin.         2.   —   O   constante  varSo  que   firme   e  justo 

»  ..        )i  5.    —   NSo   teme,   nâo   receia. 

»  »       »  8.    —    No   potro   soffra   aspérrima   tortura 

>>  92,   lin.  6.    —    Foi   infiel   a   Galba? 

'■■  t,        »    14-15.  —   as   aras  jurem   que   me   virão 

Sempre   a   seu   lado. 

»  ))        »  20.   —   D'amad.a   pátria  o   nome   repetindo. 

»  93,   lin.         3.    —    De   Galba  foi  amigo.  Adonde!  adonde ! 

Ode  VII,  pag.  9^, lin.  I  2.  — Dobra  os  ulmeiros,  os  curraes  destelha  ; 
Pag.   94,   lin.        16.  —  A  roxa   face   no   pelico  esconde; 
»        95,   lin.  I.    —   Alli   ajunta   as  podadas  vides 

)i         nu  5.    —    Pulâo   nos  olUos   lagrimas  que  enxugâo 

n         ).        n  7.    —    Insanas  dores  reflexões   pesadas 

»         »        »     11-12.   —   Corre   assustado,   d'um   fuzil   o   cega 

A   luz   vermelha! 
u        >i        1)  17.    —    Ficou   partida  do   voraz   corisco, 

»        96,   lin.      5  6.   —  Agora,   dize,  quem   seguro   vive? 
Amado   Silvio  da  infiel   fortuna, 

(Ms.   de   Figueiredo.) 

Ode  VIII,  pag.  97.  —  Innocencio  diz  que  esta  ode  ou  hymno, 
bem  como  as  seguintts  a  S.  Norberto,  a  S.  Thomaz  de  Aquino  e  a 
St"  Ubaldo  forílo  as  únicas,  que  sabe  terem  sido  impress.is  em  vida 


de  G.jrçlr).  Acli.io-se,  segundo  elle,  bem  como  outras  de  diversos  au- 
tores no  volumiiiho,  que  Francisco  Jo>é  Freire  deo  á  luz  com  o  titulo 
Siiulos  Tatronos  contra  as  tempestades  e  raios  e  accresceuta:  «  não 
será  inopportuno  observar  que  cssis  odes  Uie  renderão  em  retri- 
buição umas  cinco  empanadas,  cora  que  foi  presenteado  pelo  F.  Frei- 
re, as  quaes  elle  altamente  elogia  e  agradece  em  uma  chistosa  carta 
missiva,  cujo  facsiniile  conservo  em  meu  poder.  »  (Vide  Dicc.  bibl. 
artigo    Garção). 

Fiz  as  maiores  diligencias  pira  obter  essa  carta,  afim  de  com 
ella  enriquecer  a  presente  edição,  mas  nada  consegui.  O  digno 
continuador  de  Innocencio,  o  Siir  Brito  Aranha,  arrematante  de 
grande  parte  de  seus  papeis,  não  a  encontrou  entre  elles.  Assim  o 
affirmou  ao  amigo  e  compatriota,  o  d  stinct")  poeta  Dr  Luiz  Gui- 
marães, que  com  a  maior  gentileza  se  prestou  ás  minhas  importu- 
nações na  lida  Je  descobrir  manuscritos  e  autographos  de  Garção. 
Pag.   97.   lin.  3.    —    Teu   nome   Santo   no   escalvado  monte. 

»         n        )i  5.    —    Da    árida   penha. 

):         '.  8.    —    Sonoros  ventos   rapidjs   chuveiros. 

n         n        H     11-12.    —    Vermelho   raio   súbito   rasgando. 

Nos   negros   ave  vio  cruzar  silvanJo. 

)i         7S,     )i  8.    —    Pallidos    tremem 

(Ms.   de   Figueiredo). 

Ode  IX,  pig.  09,  lin.    2-7.  —  Espíritos   rebaldes,  que  as  intensas 
Aljavas    scintillantes 
As  feias  legiões  de   nuvens  deusas 
Armaes  de  roxas   farpas  crepitantes 

Fugi   para   as   distantes 
Incultas   brenhas  de   árido  deserto, 
Pag.     99,  liii.        II.    —    Do   leão   de  Judá;   do  escudo   alçado 
»         »        1;  i;.    —    Settas   que    dentro   d'alma   lhe   atroarão 

.>       100,    '  •)•    —    Astros   brilhando   o    carro   luminoso 

)i         ..        „  6.    —    A   mão   potente   que  se  toca   os  montes 

>i        n        )i  9-    ~    Indómito   e    valente 

))  .1        .,  I  3      —    Que   o   bruto   do   trovão   espavorido 

),  ;        n  21.    —    Nas   azas   dos    coriscos   espantosos. 

11        10 1,    ).  2.    —    K    ao    puro    firmamento 

»         ,.        n  5.    —    Que  ouvio  o   claro   accento 

>i         ),        »  8.    —    Movido   pois   a)   nosso   rogo  ardente 

»         ),        11  10.    —    Dissipa   em    teu   nome   tanto   fogo, 

(Idem). 


'^^'^^'^^^0^"^y^'-' 


'.■^'iv'^') 


—   6oo  — 


Ode  X,   pag.    102,   liii.    IO.   —   Attente  a  nossos  damncs 
Pag.  102,  lin.       14.    —    Que   desatâo   em   raios   as  estrellas. 
»       103,   »  7.    —   Ampara-nos,  Thoraaz;  lembre-te  quando 

»         »        »  18.    —    E   com   fraterno  sangue  rociava. 

»      104,   >i  I.    —    De  fumo  ardente  um   mar  caliginoso. 

(^Is.  de  Figueiredo). 

Ode  XII,  pag.  107,  lin.  54.  —  Se  já   ouviste  Conde  magnânimo 

A  minha   pobre  ciihara  rústica  ' 
Pag.  107.  lin.  7.  —  Ouve,   que   aos   versos   honrados  titu^os 

»       108,   »  4.  —  Seguirão   outra  bússola: 

»       109,   "  9.    —    Com  lentos  passos  calcando  os  túmulos. 

»        »        •>  II.    —   Larga  as  confusas   cinzas. 

(Idem). 

Ode  XIII,  pag.  112.  —  No  Índice  do  Ms.  de  1767  está  dedi- 
cada esta  Ode  aos  annos  de  uma  irmi  do  poeta.  E,  porém,  evi- 
dente de  seu  mesmo  contexto  o  equivoco. 

Também  é  do   mcsmo  Ms.   a  seguinte  variante  : 
Pag.  114,  lin.       24,   —  A   meu   tyranno   império   ver   curvado 
O  teu  rispido  collo. 

Ode  XV,  pag.  121,  lin.  4.  —  As  estridentes  settas   empinando; 

Pag.  i2i,liri.         8.    —   As  crespas  azas  sera   cessar  batendo, 
1)         »        »  12.    —   Os   domados   farpões   muitos    provarão, 

1)         »        »  4.    —    Em   bandos  se   espalharão. 

)i       122,   »  I.    —    Com  um  doce  riso  cor\  um  celeste  agrado 

»         »       »  7.    —    Nunca  tâo  bella  aurora  ou  ',5.n  brilhante 

»         »        »  10.   —  As   virtudes   gentis  do  céo   baixarão; 

»        »       ))  II.   —   E   cantando  as  acções  dos  seus  maiores, 

»        »       ))  17.    —   As  castas  Musas  vestidas  de   gloria 

»       123,  »  3.  —  Apezar  dos  defeitos  anhelautes,  • 

»         »       »  18.    —   Pretende  assignalar  cora  faustas  glorias, 

»       124,   »     13-14.    —    O   veloz   tempo   rompa   a  fouce  dura; 

E   o   sol   gyrando  seus  frisões  ufanos 
»        »       i>  16.   —   O   dia   de  seus  annos. 

(Ms.  de  Figueiredo). 

Ode  XVI,  —  Tomei  do  Parnaso  lusitano  a  epigraphe  desta 
Ode,  que  nenhuma  traz  nas  edições  anteriores.  No  Ms.  de  1767 
iuscreve-se  simplemente  —  <i  Riqueza.  Do  próprio  contexto,  porém, 
verifica-se  a  ausência  de  toda  a  generalidade  e  a  applicaçâo  espe- 
cial  á  situação  de  um   favorito  das  Musas. 


^^■^^,^> 


—    6o  I     — 

Pag.  125,  lin.         4.    —    A   passagem   não  vejo  do   Granico 
))       126,   »         7-8.    —    Q.ue   os   pastores  do  Menalo  me  recebão 
Do   Menalo   nos   jogos  ! 

(Ms.   de   Figueiredo). 

Estes   dons   versos   forJo   omittidos   nas   referidas   edições. 

Pag.  126,  lin.  9.    —    O   mineiro   na  lavra   a.llicto   cave 

11  >i        I)  15.    —    Soffra    na    linlia    a    podre    calmaria 

»         »        n  25.    —    Para   a   vermelha   cruz   luzir  no   peito 

(Idem). 

Ode  XVII,  pag.  i  50,  lin.  17.  —  Não  é  preciso  ^ju;  venal  propheta 
Aponte  como  dedo  para  a  cinza. 

.Allnde  o  poeta  a  certo  individuo,  que  em  tr^ijos  de  propheta 
vae  apontando  para  uma  salva  cheia  de  cinza  na  procissão  deste 
nome.   (JParnaso   lus.,   tomo   III,   pag.    299). 

Ode    XVin,    pag.    135    linh.    4.    —    Na    solitária    praia 
Pag.  135,  lin.         9.    —    Em   que   vermelho   sol   detrúz   da   serra 
)i         !)        »  24.    —    Os   ares   destes   campos? 

»       156,    )j  15.    —    Contra  o  céo  conmetterão  teus  pastores  V 

n         »        >  22.    —    Q.ue   em   doce   paz   descansão? 

■>        137,    »  2.    —    jamais   a   ver   não    torriSo 

»       138,   »         1-2.    —    H  soberbas  columnas   levantamos 

Palácios   magestosos: 
»         ')        ).  6-7.    —    Cobrir   na    fatal    hora! 

Escondem   frias   campas   igualmente 
>j         no  9.    —    Tudo   deve   acabar.   O'   caro    Fido! 

(.Ms.   de   Figueiredo). 

Ode  \IX,  pag.  150.  —  A  epigraphe  no  Ms.  de  1767  a  esta 
Ode  é:  Ode  no  Coronel  MãL-bían  convidanJo-o  para  ir  jantar  com 
clU  c  o  Conde  de  S.  Vicenle,  coronel  do  mar,  elle  se  cxciísou  por 
andar  em  casa  f<>;^ei:do  uma  escada.  A  do  Ms.  do  Cónego  Figuei- 
redo pouco  differe  :  ^4o  intendente  d'artilharia  ViCacbean,  que  dam 
um  jantar  ao  Conde  de  S.  Vicente  e  aos  dous  JVcinholti,  convidando 
o    .^4.    desta    Ode,    que    se   desculpa. 

Por  demasiado   longas  deixei   de   empregar  qualquer  delias. 

Pag.  139,  lin.        10.    —    A    postiça    gadelha    afaga    e    puxa 
»  »        n  13.    —    Q,ue   Sylla    mais   cruel    o  sol    daria 

»         140,»  1.   —  Furibundo   petardo   d'outra   parte 


■r'^m^  ■':\:-^^^^ir'^H^ 


—     602     


Pag.  140, 
»         » 

i.       141, 

lin. 

4- 
7- 

'9- 
3- 

15. 

»       142, 

» 

6. 

Ode  XX, 

10  Ms.   de 
Pag-  14?, 

P^g- 
1767 
lin. 

143. 

a  det 

2. 

145. 


146, 


Que  siflâo   pelos  ares 

Nas  ondas  inda  mostra  o  grande  Carlos 

Os  domados  rabões   esporeando 

Se   quireres  vencer  os  Alexandres 

Tu,  que  escadas  não  fazes,  passas  alegre 

Namorado   de   seu  valor 

Da  curva   porçolona  que  retine 

(M.  de  Figueiredo). 


g.  143.  —  Tanto  esta  Ode  como  a  seguinte  trazem 
a  dedicatória:  ao  'Pinheiro,  capitão  de  mar  e  guerra. 

—   Quantos   caro  Pinheiro   toda   a   vida. 
4-5.   —   A  triste  vida  passão  para   verem 
Cobrir-lhe   as  sobrancelhas 
Uma  borla  encarnada?  Quantos  buscâo 
A  chimerica   palma? 
11-14.    —   Na  canicula  treme 

Com   frio  susto  á  vista  da  trincheira 
O   bárbaro  soldado 
Que   a   musica   mistura  dos   batidos 
16-17.   —    Cos  últimos  suspiros;   pelos  ares 
Pelouros   assobiâo 
1-2.   —   Como  tropel  dos  cavallos  grossas  nuvens 
De  escuro   pó  levanta 
7.   —   Em  débil  lenho  entregue  a  longos  mares 
11-14.    —    Entre   a   grossa  saraiva   o  retorcido 
Fulminante  corisco 
Estala  a   fraca  verga  a  solta  vela 
Ondeando  sussurra! 
16.    —    Do   que  a   dura   pobreza. 
21.   —   Vai  perder-se  n'um   dia   porque  gosta 
7-1 1.  —  Este  pela  empinada  serra  açula 
O  javali  hirsuto 
Britânicos  sabujos:   o   alarido 
No  fundo  valle  assusta 
A  inquieta   pastora  que  espantada 
2.  —  D'hera  verdes  c'roas 
6--.   —  Escute   ao   novo  canto 

Com   a  verde  cabeça  fora  d'agua 
10.  —   Negar-me  e  um  nome  eterno. 

(Ms.  de  Figueiredo_). 


ij^- 


-    ío;    - 


Ode  XXI,  p.ig.  I  4~,  lin.  4.  —  Com  fossos e  com  muros  guarneciJa 
Pag.  147,  li:'..  6.    —    Executar,    ponim,    o   grande    pI.)iio 

»         »        Ji  t).  —   Dido,   Rómulo   ou   Remo 

»         »        »  II.    —    Pela   breada   enxárcia   Africo   ou   Noto 

»         1        11     13-16.  —   Impávido   e   previsto 

Se  de   lotiga  experiência   acautelado 
Te   não   visses  então,   que   te   valcr.i 
»       148,   >)  5.    —    .\ssim   é   ou  devia  ser,   mas  vemos 

a         »        M       9-10.   —   Com   perversa   malícia  uns   aos  outros 

Hnganar-nos   queremos 
)j         »       n  12.    —   Hvpocritas  tyrannos 

í         »       ij  17.    —    .\lternao   as   reciprocas  saúdes 

»       149,   "         4-5.    —    Q.ue   ni.-xis   faria   o   bárbaro    Argelino 

Se  c"o   estreito   chaveco   te  abordara 
n         »        »    12-15.    —   A   r.ipid.i   soberba. 

Ou   fera   pois   ]X   vio  a  antiga  Roma 
n       149,  lin.        i:.    —   Um    faminto    leão    lamber   as   plantas 
11         <>        >i     ig-2o.    —    Abriste   as   brancas   azas   que   agitadas 

Nos   ares   te   equilibrão 
))       i  50,   ')  5  6.   —   Cobrisse   a  luz   do   sol,   vacilia  tudo 

A   luz   do   dia   foge,   foge   a  terra 
Ao   seu   primeiro   cahos  reduzido 
')         'I        »  B.    —    nis   surge  o   fingimento 

')         1        .;  II.    —    No  sopliistico   ornato  disfarçando 

))         ))        •>     17-19.   —   H   nesta  férrea   idade   fracas   almas 

Almas  de   feios   vicios   opprimldas 
Da   prófuga   amizade  ? 
•>       151,   »  8.    —    Te   insulta  ou   te   infama 

))         »        1     III  5.    —    Os   olhos   scintillar  do   cerval    lobo 
A   casa   dcsamparSo. 
j.i   não   vemos   Euryalos  e   Kisos 
E   para   renascer   a   extensa   casa 
Esperas   nova   Pyrrha  ? 

(.M.s.   de   Figueiredo). 
Ode    XXII,   pag.    152.    —    Esta  Ode  é  uma  bellissima   imitação 
da  XXXI   de    IIor.,cio,   l;v.    I,    que    assim    começa: 

Q:thl,    âedicalJiii  J^cscií   Jfoíliium 
rales  ?   Quid   ora   de  palera    novum 
Fuitílcns   liquorem  ? 
Pag.  155,  lin.  6.    —    Do   fulvo   Tejo   araras  fortes  margens 

)i         ,1)  9.    —    Os   rufos   touros   as  castanhas  vaccas 


iA\.-. 


—    6o4 


Pag.  I54,lin.      12.   —   Nem   pérolas   luzentes. 
»         »        >i  i6.    —    Parece   que   domina. 

»       153,    )i  II.    —    Nâo  quero  mais   que  ver  na  frágil  meza 

)i         M        i>     15-14.   —   Um  limpo  copo   com  que  neste  grande 
Neste  sò  para   mim  prospero  dia. 
»         »        >i  I  7.   —   Com   mui   pouco   se   mata   a   crua  fome 

>i         »        »  19.    —    Ou   pobre   ou   rico   viva  tenho   a  lyra 

»       154,-)  5.    —    Tempos   depois   virão   que   desferindo 

>i         «        )'  7.    —    Arrazadas  as   ondas  de   turbantes 

»         »        »  9.   —   Do  negro   sangue   as   armas  rodeadas 

>>         »        »  12.   —   As   roxas   màos    torcidas. 

)i         )i        )>  16.    —    De   gloria  e  de   fortuna. 

(Ms.   de  Figueiredo). 

Ode  XXIV,  pag.  159.  —  No  Ms.  de  1767  esta  Ode  vem 
dedicada  ao  Coronel  Walnot.  O  equivoco  é  palpavtl.  No  Ms. 
do  Cónego  Figueiredo  ella  se  inscreve  aos  annos  da  Senhora  D... 
Arminda,  provavelmente,  se  esse  nome  que  se  encontra  no  final, 
nâo  é  propriamente  poético.  No  mesmo  Ms.  é  a  primeira  que  O 
coUector  classificou   Odes  profanas. 

Ode  XXVI,  pag.  166.  —  N.10  lhe  pude  conseguir  o  original 
inglez,  nem  tão  pouco  saber  qual  o  Sertório  que  nella  se  canta. 
Percorrendo  a  lista  dos  pintores  inglezes  notáveis  nenhum  deparei 
com  esse  nome.   (Vide   La  peinlure  anglaise,  par  Ernest  Chesneau). 

Ode  XXVII,  pag.  168.  —  Esta  Ode  bem  como  as  seguintes 
até  pag.  180  encontrâo-se  estramalhadas  no  fira  do  volume  da 
edição  de  1778  e  sem  numeração.  A  mesma  desordem  foi  escru- 
pulosamente observada  nas  subsequentes.  Reuni-as  e  numerei-as, 
segundo   o  lugar  em  que  nellas  se   achâo. 

Ode  XXVIIl,  pag.  170.  —  A  epigraphe  pertence  á  ediçio 
de  1825.  O  Parmso  lusitano  a  adoptou  na  selecção  das  poesias 
de  Garção.   (Vide   tomo  III,   pag.    519). 

Pag.  170,  lin.        10.   —   Emquanto   sobre   a  relva   se   reclina. 
)i         ),        1)     14-15.    —   O    nâo  vAo  perturbar  no  brando  somno 

A   sórdida   ambição. 
»       171,   I)  12.    —    E   aos   malliados   tigres 

»       172,    1         3-4.    —    De  estéril    murta   de  cheirosas  plantas 

E  o  campo   que   ondeava 
D         »        »  9.    —   No   seio   das  delicias   e   regalos... 

(Ms.   de  Figueiredo). 


—    6o5    — 


Ode  XXXI,  pag.  178.  —  Vários  pensamentos  e  imagens  desta 
composição  ver-se-hão  adiante  reproduzidos  na  ode  XXXIV  ao 
Síintissinw  Naíal,  inédita.  O  autor  por  qualquer  motivo  abandonou 
a  metrificação  alli  adoptada,  e  fundio  aquelles  versos  nest'outros. 
Dirão  os  entendidos  se  teria  razão,  e  qual  a  preferencia  entre  as 
duas. 

Ode  XXXII,  pag.  181.  —  Kâo  está  em  nenhuma  das  edições 
precedentes.  Fui  encontra-la,  como  já  declarei,  por  inJicação  de 
Innocencio   no    tomo   III    do    Parnaso   lusitano   a    p.ig.    327. 

Ode   XXXIII,    pag.  184.  —  Inédita;   pertence  ao  Ms.  de  1767. 

Ode  XXXIV,  pag.  187.  —  Inédita;  acha-se  no  Ms.  de  1767  com 
.1    nota   incompleta. 

Ode   XXXV,   pag.    192.    —   Ir.eJita.  'No    Ms.   de    1767. 

Ode  XXXVl,  pag.  194.  —  Inédita;  delia  apenas  archivou  no 
seu  Ms.  o  Cónego  Figueiredo  as  linhas  que  vão  impressas.  Jul- 
guei não  dever  omitti-las  apezar  de  formarem  um  verdadeiro  troço 
de  Ode.  Pôde  ser  que  esteja  alhures  coroada  de  fuste  e  capitel, 
se  realmente   o   autor   a   concUiio. 

EPISTOLAS. 

Epistola  II,  pag.  201.  —  H  do  Ms.  de  1767  esta  epigra- 
phe  :  El'islolã  a  um  ministro  seu  amigo,  que  eslava  em  a  Provín- 
cia lio  Minho  e  lhe  pedia  fosse  para  lá,  porque  linha  um  tio  que 
lhe   queria    deixar    uns  prados. 

Epistola  III,  pag.  207.  —  A  numeração  é  minh.i.  Na  edi- 
ção de  1778,  onde  se  acha  desgarrada  no  fim  do  volume,  depois 
da   p.irte  em   prosa,   não   a  tem. 

O  seu  melhor  elogio,  diz  Innocencio,  traçou  elle  (Garção)  a 
si   próprio   nesta   epistola.   (Vide   Di:c.    'Bihl.,    art.   Garção). 

Epistola  IV,  pag.  210.  —  Inédita,  porém  com  a  nota  incom- 
pleta  no   Ms.  de    1767. 

Falia  do  Infante  D.  Pedro,  pag.  220.  Este  poemeto  como 
o  denomina  o  Snr  Visconde  de  Correia  Botelho  vem  co  Ms.  de 
Figueiredo    com     a    seguinte  nota  :    Tara   a    academia   dos   Occul- 


'^X^'^'\ 


—   éo6   — 


tos,  J7S4.  Pretende  aquelle  escritor  ter  servido  pari  estreia  de  Gar» 
(io  na  dita  Academia.  N,1o  podia  na  verdade  estreiar  com  mais 
brilhantismo. 

No  appendice  da  obra  Brasil  and  Bra^ilians,  por  Kidder  e 
Fletcher,  os  autores  vertendo  pari  o  inglez  esta  poesia  a  attribuem 
ao  Snr  D.  Pedro  II,  Imperador  do  Brazil.  Dizem  elles  :  The 
follovjing  Unes  were  composcd  by  "D,  Pedro  II  and  turitlen  hy  htm 
in  the  albittn  of  one  of  lhe  maids  of  honor.  They  vjere  djiblless 
luver  intended  for  the  public  eye,  hut  were  oblaiued  ihrough  a  mem- 
b.r  of  the   diphmalic  corps  at   'Rio  Janeiro. 

O  faro  do  inculcado  diplomata  foi  singularmente  extraviado; 
d.-  certo  teri.i  melhor  conhecimento  de  Wattel  e  de  Martens  do 
que  de  poetas  portuguezes.  Mais  segura  informação  comtudo  le- 
vou aquelles  escriptores  a  eliminar  da  seguiid.i  edição  do  livro 
essa  parte  do  appendice. 

O  Imperador  trasladaria  para  o  albam  de  alguma  dama  (ouvi 
fallar  na  Condessa  de  Sarapuhy)  assignando-a,  uma  poesia  de 
sua  predilecção,  sem  jamais  cuidar  lhe  attribuissem  por  isso  » 
autoria,  pretensão  que  ninguém  de  boa  fé  lhe  poderia  emprestar 
tão  conhecida  é  ella  de  quem  possuir  a  mais  leve  tintura  da 
litteratura  portuguezi.  Q.uaJrão,  porém,  tão  bem  os  sentimentos 
expressos  no  poema  com  os  do  Monarcha  brazileiro,  que  facilmente 
se   desculpa   o   equivoco   do   diplomata. 

Como  o  Infante  de  Portugal,  o  Imperador  D.  Pedro  II  também 
nobremerte  recusou  a  estatua  que  a  gratidão  nacional  pretendia 
erigir-lhe.  Fè-lo  na  conhecida  carta  dirigida  ao  illustre  estadista 
brazileiro,  Cons."  Paulino  de  Souza,  então  Ministro  do  Império, 
adiante  reproduzida  em  fac-simile.  Nesse  documento  de  mór  valia 
para  a  historia  de  seu  reinado  destacão  se  era  brilhante  relevo  as 
eminentes  qualidades  do  soberano  ;  admira-se  a  um  tempo  a  mo- 
déstia da  recusa  e  a  generosidade  dos  intuitos  na  applicaçSo  re- 
commendada. 

A  abnegação  não  ó  aliás  o  único  traço  distinctivo  do  caracter 
do  Imperador.  Iria,  porém,  alem  do  meu  propósito  invadindo 
assumpto  propriamente  biographico,  se  me  detivesse  na  enumera- 
ção de  vários  outros  factos,  que  espelhío  uma  alma  coroada  de 
muitas  e  grandes  virtudes,  como  diria  o  famoso  dominicano  por- 
tuguez.  No  emtanto  corria-me  o  dever  de  assignalar  a  munificên- 
cia, que  permittio  fosse  enriquecido  este  volume  com  o  alludido 
fac-simile,  e  ante  a  qual  me  inclino  profunda  e  respeitosamente 
reconhecido. 


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6oS 


O  original  desta  carta  foi  incluído  nos  alicerces  da  Escola  de 
S.  Sebastião  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro  por  occasiâo  do  assen- 
tamento  da   primeira   pidra. 


SATYRAS. 


Satyra  I,  pag.  231.  —  A  epigraphe  t  do  Parnaso  lusitano. 
Alii   se   Ic   o    seguinte   conceito  : 

«  Nesta  satyra  onde  se  nota  toda  a  correcção  épica,  que  se 
admira  nas  de  Boileau,  mofa  o  autor  de  certos  zoilos,  que  (inca- 
pazes de  reflectir  que  nenhuma  palavra  é  rasteira  quando  é  bera 
collocada  e  congruente  ao  assumpto)  tinhão  censurado  alguns 
termos  ao  poeta,  taxando-o  de  baixos.  K  pena  que  Garção  fosse 
tão  parco  neste  género  de  poesia,  pois  só  estas  duas  satyras  nos 
deixou.  Mas  elle  retocava  muito  as  suas  obras,  e  nâo  as  avaliava 
pelo   numero.   (Obra   cit.,   tomo   III,    pag.    55). 

Innocencio  menciona  a  existência  de  uma  Satyra  inédita  accu- 
sada  por  Luiz  Raphael  Soyé  no  prologo  do  seu  poema  o  Sonho, 
onde  transcreve  delia  este  único  verso: 

«    Ao   rábido   furor  do   pedantismo   » 

Kão  pudi  dcscobri-Ia.  Sei,  entretanto,  que  o  Snr  Theophilo 
Braga  encontrou  uma  também  inédita  em  um  leilão  de  livros  á  rua 
larga  de  S.  Roque  em  Lisboa.  O  Ms.  porém  foi-se,  com  grande  la- 
mento seu  e   meu. 

Satyra  II,  p-ig.  258.  —  Tomei  igualmente  do  'Parnaso  lu- 
sitano a  epigraplie  desta  Satyra,  que  nas  outras  edições  é  dedi- 
cada ao  Conde  de  S.  Lourenço.  A  respeito  delia  assim  se  ex- 
prime o   compilador  : 

<t  Com  as  armas  do  ridículo  combate  o  Garção  nesta  segunda 
satyra  alguns  cegos  admiradores  das  phrases  e  termos  antiquados  ; 
porque  sem  discernimento  e  escolha  introduzião  em  assumptos 
sérios  as  palavras  mais  rasteiras  só  porque  erão  antigas  » .  (Obra 
cit.,  pag.   62). 


—    é09 


DITHYRAMBOS. 

Dith.  I,  pag.  248,  lin.  3.   —  Nos   lindos   ollios   vivo   rutilando 
Pag.  248,  lin.  3.    —    Paixão,   tristezas,   magoas,   temores. 

»       249,   »     19-20.    —    Das   Tercygedes  Pliyadas  raivosas 

Coricei   escutando 
»      250,   »  I.    —    No   prado   ameno 

»         u       i>  16.   —   Dourado  este  dia 

(Ms.   de   Figueiredo). 

Dith.  II,  pag.  253,  linh.  5.  — Crepitantes  lanças  te  não  prendem, 

(Idem). 

CANTIGAS.    ' 

Cantiga  I,  pag.  267.  —  Inserta  no  Ms.  de  1767  com  esta  epi- 
graphe :  Cantiga  de  Pedro  ^nlotiio  Garson  ao  acaiiipaineiito  que  fe<^ 
no   "Rio  frio  em    ij68. 

Cantiga  I,  pag.  269,  lin,       16.    —   Da  feia   gente  estrondosa. 
»  »      271,  »  15.   —   O   teu   nome  annunciarei. 

(Ms.   de   Figueir.'do). 

Cantiga  III,  »       277,   »  5.    —  AUudeaopellicano  deouro, 

que   a   família    dos    Alencastros   tem    por    timbre   de    suas    armas. 
(Nota  da  edição   de    1768). 


ENDECHAS. 

Endecha  II,   pag.  284  lin.    5.    —    Depois  que  os  teus  olhos. 

(Ms.  de   Figueiredo). 

THEATRO. 

II  (Garção)  s'est  aussi  efforcé  de  reformer  le  théàtre  et  de 
donner  á  sa  patrie  quelques  poésies  dans  la  maniére  de  Térence. 
l.a  première  qu'il  a  intitule  Theatro  'Njovo,  est  plntôt  un  cadre 
pour   exposer   ses   príncipes   sur  l'art  dramatique   et    faire  la   cri- 


—   éio   — 


tique  de  ce  qui  existait  dèjà,  qu'uiie  coméJie  faite  pour  devoir 
ses  succès  à  elle  méme.  Une  autre  piéce  de  lui  intitulée  As- 
senihUa  ou  Partida,  est  une  satyre  du  beau  monde,  à  peu  prés 
dans  le  genre  du  Cercle  de  Poinsinet.  (Simonde  de  Sismondi,  De 
la   litt.   du   iiiidi  de   VEurope,   tome,   IV   pag.    542). 

Theatro  Novo,  pag.  285.  —  No  Ms.  de  1767  se  diz  haver 
sido  esta  comedia  representada  no  theatro  do  Bairro  Alto  em  1766, 
O  Snr  Theophilo  Braga  em  carta  que  tenho  á  vista,  referindo-se  a 
nma  CoUecçào  das  ohms  poelicas  de  P.  A.  Corria  Garção  copiadas 
por  António  Lourenço  Caminha,  escreve  que  no  fim  da  Comedia 
depara-se  com  a  seguinte  curiosa  nota:  «  Este  finaUsado  drama  se 
representou  no  theatro  do  líairro  Alto  em  22  de  Janeiro  de  ij6& 
e  o  povo  espectador  o  não  deixou  acabar  com  paleadas  e  assobios.  » 
(/..    IS4). 

Cantata,  pag.  381.—  Esta  obra  prima  da  poesia  portugueza, 
era  a  qual  no  dizer  de  um  critico  a  situação  e  os  sentimentos  in- 
times da  heroina  se  desenhão  em  accordo  t.io  harmonioso,  mereceo 
ser  agora  vertida  pela  primeira  vez  para  a  lingua  de  Byron.  A. 
Mr.  CoUard  Stock,  illustrado  cavalheiro  inglez  e  distincto  cultor 
das  Musas,  devo  a  fortuna  de  poder  offerecer  esse  mimo  aos  ami- 
gos  das   boas   lettras.   A   traducção  é   como   se  segue: 


CANTATA. 

Mafdlda. 

Now  in   the   red   East   afar  yet   faintly   gleaming 

The   proudly   swelling  sails   of  the  swift   Trojan   fleet 

Amidst   the   azure   billows   of  the   sun-gilt   ocean 

Flying  on  the   wings   of  the   winds  are   hid   from   sight. 

The   wretched,  hapless   Dido 

Doth   wander  through  the   royal   palace   loud   lamenting. 

And   still   with   tear-swolTn   eyes   in   vain  she  seeks 

The  fugitive   Eneas. 
Nought   but  deserted   solitary  streets   and   squares 
The  new-built   Carthage   to  her   gaze   reveals  : 
Upon   the   naked   shore  \vith   awful   tumult   breaking 
Rage   through    the   livelong   night   the  waves  in   solitude  : 


u^.-  '^p<-^Pi^^'-'^<m' 


And   on   the   gilded   piíinacles  of  lofty  domes   and   temples 

Nocturnal   birds  do  screech  with  liarsh   foreboding  voice. 

And   from   the   marble  sepnlchre   ^vith   terror  she   imagines 

That  from   the   cold  ashes  of  the  dead   Sicheus 

A   thousand   times  she   hears   a  feeble   voice   arise, 

Crying  with   deep  drawn  sighs,   Elissa,   Elissi. 

Then   to  the  awful  deities  of  Orcus  she 

The  sacrifices   due   makes  ready  ; 

But  suddenly  she  sees,   affrighted, 

Around   the   altars  smoliing  with   fragrant   incense 

A   black  scum   boiling  in  the   rich   sculptured   vessels  : 
And   the   wine  poured   in   libations 

Scems  to  her  eyes  transformed  to  crimson  seas  of  blood. 
She   raves  in   wildest   frenzy  ; 
Pallid  is   grown   her  lovely   face, 

Her  silkeii   tresses   flow  down  ali   dishevelled  ; 

Unconscious   and   with   trembling   foot  slie   enters 

The   once   delightful   chamber 

Where  from   the   now   faithless  lover 

She  heard  with  deep  emotion 
-Sighs   so  heartbroken   mingled    with   soft   complaints. 
But  there  the  cruel  Fates  did  show  to   her 
The   Ilian   garments,   that  still   hanging 
From  the   gilded  couch   with  dazzling  gleam   revealed 
The   glittering  shield   and  the   bright  Teucrian  sword. 
With   a  convnlsive  hand  she  snatchís  suddenly 
From   ont  its  sheath  the  blade  refulgent, 
And   on   the   adamantine   piercing  steel 
Her  tender  breast  snow-white  and   crystalline  she  hurls  : 
And  in   bubbles  of  foam   plashing   and   murrauring 
Leaps  the   hot   life-blood   forth    from   the   deadly  wound  : 
With  the  red  spouting  gore  bedewed  and  sprinkled 
Tremble  the   Doric  columns  of  the  hall. 
Thrice  does  she   strive  in  vain   to  rise 
And   three  times  fainting  back  upon  the  couch   again 
Her  body   falis,   while   unto   Heaven   she  raises 
Her  tortured  dying  eyes. 
Then   gazing   at  the  lustrous   armour 
Of  the  fled   Dardan  chief, 
These  her  last  utterances  did   she  repeat, 


'f^f^ 


—      6l2     — 


And   the   most   pitiful   and   mounifiil   accents 

Still   floating   tlirough   lhe   golden   arches   of  the   roof 

Long  afterwards   were    hcard   iii   plaintive   saJ   lameiít. 

O   ye   sweet   treasures 

Source   of  deep   pleasures 

To    my    glad    eyne, 

\Vhile   Fate   beguiled 

And  the   Gods   smiled 

Consent    beiíign: 

Of   Dido    mouriifiil 

The   soul    receive, 

Froni    ali   these    troiibles 

My    heart   relieve. 

DiJo   unhappv 

Has    lived    oiit    her   d.ivs: 

Of   lofty    Cartliage 

The    walls    she    did    raise  : 

Now   naked   and   bare 

Her  shade    alone 

In   Charon's  bark   there, 

The   hideous   one, 

Góes   ploughiiig  the   stream 

Bl.ick   as   night  wiiliout   gleam 

Of  Phlegethon. 

Assembléa,  pag.  374,  lin.   16-17: 

Quando   a   aurora   apparece   sempre  ■';  C'.'Jo. 
Eu   aqui   venho   já   co'  a  minha   dama. 

Nas  edições  anteriores  este  segundo  verso  c  posto  na  bocca 
de  Branca  a  meu  ver  erradamente.  Taes  expres';òes  c.iberiío  antes 
na  de  Jofre,  que  descera  a  buscar  D.  Mafalda  e  entrando  na  sa  1» 
faria  a   sua  apresentaçilo   á   companhia   ahi   reunida. 

Assembléa,  pag.  390,  lin.   13  : 

Victor  serio,   senhores,   versi  s,   versos: 

A  primeira  parte  deste  verso  é  incompreirensivel.  Talvez  indi- 
casse alguma    express.lo   da   época,    parecida  com   o   nosso  «  leva 

rumor    »,   ou   o  favete  linguis  dos   Romanos. 


-    éi3    - 

Assembléã,  pag.  410,  lin.  4  : 

Deixará  permear  pelos  seus   vasos  (edição  de    181 2) 

em   vez   de 

Deixará  premiar  pelos  seus  vasos, 

como  se  lè  na  edição  di  1778.  Preferi  aquella  lição  que  tenho  por 
•mais  correcta. 

Assembléã,  Pag.  421,  lin.  21  : 

És  tu  TuUio,   meu  Braz?  Eu  não  sou  néscio, 

Em  todas  as  edições  esta  falia  é  proferida  por  Florestão.  Nada 
mais  absurdo.  Florestão  é  escudeiro  de  Braz  Carril  e  no  correr 
da  comedia  nada  se  vè  que  possa  autorisar  linguagem  tão  fami- 
liar para  com  seu  amo.  Também  nâo  consta  que  em  tempo  al- 
gum lhe  houvesse  emprestado  dinheiro.  Q.uem  o  fazia,  segundo 
lè-se  na  Scena  1,  era  o  amigo  Gil.  A  este,  portanto,  e  não  ao 
■escudeiro   melhor   pertencem  as  censuras  dirigidas  ao  araphytriâo. 

Assembléã,  pag.  393,  lin.   5  : 

Os  cabellos  subtis  de  Amor  um   dia 

P*g'393i''"'      '•   —   Outras   andâo  mil   gemmas  preparando 
»         »        »      II.    —   Porque  Aglaia  lhe  está   as  cãs   atando. 

(Ms.   de  Figueiredo). 


<^^\ 


índice. 


índice 


Dedicatória Pag-  vii 

Introducção xit 

PARTE  I.   —  POESIA. 

So\"i;tos. 

I I 

II.     A   Siir.i   D.  Maria  Joaquina    de    Gusmio 

e   Vnscoiicello5 J 

lII 3 

IV. 4 

V.     \    mesma  fenliora S 

VI.     A    mesma   seiíliora C> 

VII 7 

VIII.      ...    - N 

IX 9 

\ IO 

\1.     Á  Snra  I).  Maria  Caetana  de  Souza  Sey.lo  ii 
\1I.     Á   Snra   D.   Helena   Felippa   Xavier  Na- 
varro   lí 

XIII 15 

XIV M 

XV.     Aos   annos  do  Coronel  de  Aitilluria  I-re- 

derico   Weinholtz i  { 

XVI "6 


-    6i7    - 


^\K 


x- 


.■Y-. 


XVII Pag.  17 

XVIII ig 

XIX 19 

XX 20 

XXI.     Ao   Snr   Theotonio    Gomes    de    Car- 
valho,  sócio  da  Arcádia 21 

XXII.     Aos  annos  do  Snr  Theotonio  Gomes 

de  Carvalho 21 

XXIII.  Aos  aunos  do  mesmo  senhor    ...  2} 

XXIV.  Ao  mesmo  senhor 24 

XXV 2$ 

XXVI.  Ao  Padre  Francisco  José  Freire,  da 
Congregação  do  Oratório  e  sócio 
da  Arcádia,  mandando-lhe  pedir  ta- 
baco hespanhol 26 

XXVII 27 

XXVIII.     A   calva   do   Padre   António    Delfim, 

amigo  do  autor 28 

XXIX.     Ao  Padre  Delfim 29 

XXX.     A   calva  do    mesmo 30 

XXXI.     Ao   Padre    Delfim ji 

XXXII.  Ao  fogo  que  houve  em  Alcântara 
n'um    grande   monte    de    tojo,    al- 

ludindo   á   calva   do   Padre   Delfim  }2 

XXXIII.  Ao  Padre    Delfim jj 

XXXIV.  A  calva  do   mesmo J4 

XXXV.     Ao  Padre    Delfim 35 

XXXVI.    Ao  mesmo 56 

XXXVIl.     Á   calva  do   Padre   Delfim 37 

XXXVIII.     Ao  Padre    Delfim 38 

XXXIX.    Ao   mesmo 39 

XL.     Ao  mesmo 40 

XLI.     Ao  mesmo 41 

XLII.     Ao  mesmo 42 

XLIII 43 

XLIV.     Aos  annos  da   Snra    D.    Marta    Eu- 

phrasia 44 


—    CiS    — 

XLV l>ag.  4; 

\LVI.     Aos   niiiios   da   Siira   D.    Cimilla  .   .    .  (í 
XLVII.     A  uma   senhora,   a  quem   o    autor  cha- 
mava  sua   mãe 4- 

XI.VIII.     A    [ernnvmo    Henriques     de    Sequeira  4S 

X1'I^-     .•'...' 49 

L 50 

'^' 5- 

l.H S2 

LHI 5i 

I-IV,      Ao    terremoto   Jo    pj  imeiro  de  novem- 
bro  de     1755 5, 

LV.     A   sua   mulher  a  Siira  D.  Maria   Anna 

Xavier   de   Sande  e    Salema     ...  55 

I.VI 56 

I.VII.     A    morte   de    Félix    Contiulio     ....  ;; 

I.VIII.     Contra    |osé   Basílio    da  Gama  ....  58 

Ll.\.      Contra    um    rancho   satyrico $■; 

LX 60 

LXI 61 

LXII.  .\o  I'adre  António  de  S.  Jeronymo 
Justiniano,  Capellâo  do  coro  de 
N.  Snra  do  Loreto.  da  NaçAo  ita- 
liana       (2 

LXll! 63 

LXIV.     A   .«Xntonio    Diniz   da    Cruz 64 

Odi:s. 

1.     .'\os    fi.ialgos   qnc    protcgi.io    o     thc.Uro    do 

Rairro    Alto 67 

11.     Ao   Kxmo   Conde   de   Oeir.is 7i 

III.  .\    Sura     1).     Maria     |oaqn'na    de     Ciusni.l» 

e    Vasconcello^ 81 

IV.  O    ponche S -, 

V.     k   Virtude 81- 


6i9    — 


•f. 


VI.     Á   mesma Psg.  9  i 

VII.    Ao  Snr  Manoel  Pereira  de  Faria,  so- 

JV                                  cio  da  Arcádia 94 

VIII.    Ao  beato  Bernardo,  Marquez  de  Badeii  97 

IX.     A  S.  Norberto,  Bispo  e   Confessor  .  99 
X.     A  S.  Thomaz    de  Aquino    doutor  e 

jl                                      Confessor 102 

i''  XI.     A   S.   Ubaldo,  protector  da  cidcde  de 

f                                   Eugnbio,    Bispo  e   Confessor  ...  105 
f                       XII.     Ao   Snr    Manoel  Pereira  de  Faria,  so- 

ii                                      cio   da   Arcádia 107 

XIII,  Aos  annos   do    Coronel  d'  artilheria 

Frederico    Weinholtz 112 

XIV.  A.  restauração  da  Arcádia 116 

XV.     Aos    annos   da    Illma    e    Exn-a    Snra 

D.  Leonor  de   Almeida 121 

XVI.     A  riqueza  de  um   poeta 125 

XVII.     Ao   Padre  António   Delfim    ...,   .  128 
XVllI.    A  morte  de  José  Gonsalves   de  Mo- 
raes,  sócio   da   Arcádia 134 

XIX ,39 

XX.     Ao   Snr   Gaspar   Pinheiro   da  Caniera 

Manoel 145 

XXI.     Ao   mesmo 147 

XXII ....  IS2 

XXIII.     Aos  annos  do  Snr  José  Carlos  Mardel .  155 

XXIV ■   .   .  1J9 

XXV 163 

XXVI.     Traducçâo   de  uns  versos  ingle/es  fei- 
tos a  um   seu   grande  pintor  ...  166 

XXVII 16S 

I              XXVIII.     Á    vida   rústica 170 

I                XXIX 173 

\                 XXX.    A   Horácio 175 

XXXI 178 

XXXII.    o  suicidio 181 


•-^■-  XXXIII,     A   uns  annos  ds  uma  senhora  ingleza      184 


—     620     — 

XXXIV.     Ao   SS.   Natal Pag.      187 

XXXV 192 

Epistolas. 
1 197 

II.     Ao   Senhor   Dr.   João    Kvangeiista 201 

111 207 

IV.     Ao   Exmo   Senlior  Conde  de  Oeiras,  secre- 
tario  do   Estado 210 

—  Falia  do   infante  D.  Pedro,  duque  de  Coim- 

bra, aos  Portuguezes,  querendo-lhe  le- 
vantar uma  estatua  pelo  seu  bom  go- 
verno,  o   que  elle   nâo  consentio    .   .    .      220 

—  k.   feliz  acclamaçSo   do   Snr   Rei    D.  José   I 

de  gloriosa  memoria.  —  Romance  hen- 
decassyllabo - 224 

Satyras. 

I.     O   poeta 251 

II.     Sobre   a  imitaçSo  dos    antigos 238 

DfTHYRAMBOS. 

1 247 

II.  Ao   Snr  António    Dinz    da    Cruz   e    Silva, 

sócio   da   Arc.idia 252 

Motes  h  Glosas. 

1 257 

II ■ 360 

III.  Tudo   faz    o    Padre   António 265 


-  éíl  - 


Cantigas. 

I Pag.      267 

II 272 

—  Ao  Divino  Espirito  Santo  no  anno  em  que 
sérvio  de  Imperador  um  filho  do  Itlm°  e 
Exm»  Snr  D.  José  de   Alencastro  ....      275 

Endechas. 

1 281 

II 284 


PARTE  II.  —    THEATRO. 

Theatro  Novo  (drama) •   .   .   .      289 

Assembléa   ou   partida   (drama) 339 

PART^  III.  —  PROSA. 

Dissertações. 

I.  Sobre  o  caracter  da  tragedia  propondo  ser 
inalterável  regra  delia  não  se  dever  en- 
sanguentar o  theatro  e  no  desempenho 
de  cujo  drama  devem  reinar  o  terror  e 
a  compaixão,  para  que  assim  com  esta 
representação  se  purguem  os  espectado- 
res destas  e  outras  semelhantes  paixões  431 
II.  Sobre  o  mesmo  caracter  da  tragedia  e  uti- 
lidades resultantes  na  sua  perfeita  com- 
posição       44$ 

III.     Sobre  ser  o   principal    preceito    para  for- 
■  mar  um  bom   poeta  procurar  e  seguir  a 
imitação  dos   melhores   autores  da  anti- 
guidade        463 


622     — 


Orações. 

I.  Em  que  SC  intima  e  persuade  aos  Árcades 
se  interessem  em  cumprir  as  leis  da  Ar- 
cádia que  erão  enipenliar-se  com  todo 
o  esforço  na  restauração  da  eloquência 
e  antiga  poesia  portugueza  .  .  Pag.  477 
II.  Em  que  se  declama  contra  a  falta  de  ap- 
plicaçâo  dos  Árcades  aos  estudos,  no- 
t3ndo-os  esquecidos  já  das  leis  da  sua 
empreza,  e  obrigações  dos  seus  esta- 
tutos          4S7 

III.  Hm   que  se   persuade  os  bem  devidos  lou- 

vores do  nosso  soberano,  sempre  augus- 
to  e   fidelíssimo 505 

IV.  Km   que  trata  de  conciliar  a  seu  favor  as 

vontades  des  Árcades  contra  falsas  apre- 
ciações que  se  liaíião  levantado  ...  513 
V.  Para  se  recitar  no  acto  do  juramento  de 
bandeiras  do  Regimento  de  Infanteria, 
sendo  Coronel  delle  o  lUustrissimo  e 
Excellentissimo   Marquez   das   Minas.    .      $23 

VI S5> 

VII 54  > 

VIII 561 

Notas  e  variantes )'i; 


i 


ROM  A 

TvPOGRAPHlA    DOS   IrmAOS   Cl-NTEKARl 

j/,    Rua    ílclle    CoppclU 


1888.- 


UNIVERSITY  OF  CALIFÓRNIA  LIBRARY 

Los  Alceies 
This  book  is  DUE  on  the  last  date  stamped  below. 


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PQ9261*       C81A17    1888 


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UC  SOUTHERN  REGIONAL  LIBRARY  FAni  itv 

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PLEA-Ç  DO   NOT    REMOVE 
_JHiS   BOOK  GARdI.' 


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